Num artigo com o título “Os Meios e os Fins”, Ricardo Silvestre ironiza uma sugestão para todos os ateus que, como eu, não se revêm na forma como ele e outros têm vindo publicamente a expor o seu ateísmo, resumindo-o a uma panóplia de queixinhas teofóbicas e em nada contribuindo para a desmistificação do mesmo na sociedade em que vivemos, antes pelo contrário.
O que me espanta — ou, se calhar, nem por isso — é o facto de em todo o artigo ser usado apenas um argumento: Sam Harris! Ricardo Silvestre, após a ironia dos primeiros parágrafos (já lá irei), refugia-se num argumento de autoridade à volta da figura de Sam Harris, ainda por cima em contra-ponto a uma outra figura também utilizável como argumento de autoridade, Scott Atran, que, apenas pelo facto de não defender o ateísmo tipo dos neo-ateus, é abusivamente minorizado na comparação. Para quem não conhece, uma visita à página da Wikipedia dedicada a Scott Atran pode ajudar a perceber do que falo.
Nesse argumento de autoridade baseado no Sam Harris, Ricardo Silvestre recorre ainda às “centenas de milhares de cópias” vendidas dos livros de Sam Harris e eu pergunto-me se o Ricardo Silvestre se terá lembrado, enquanto redigia aquela frase, dos milhões de cópias que a Bíblia vende anualmente…
Finalmente — e para servir de ponte entre a secção Sam Harris e a secção “ironia” no texto em análise -, Ricardo Silvestre lembra que “ele próprio [Sam Harris] não acredita que todos devem pensar como ele”. Ainda bem que o Sam Harris pensa assim. É possível que o próprio Ricardo Silvestre até concorde com o Sam Harris. Mas, se concorda, lida muito mal com a crítica. De tal forma que a sugestão deixada pelo Ricardo Silvestre é a seguinte:
“Tenho uma sugestão a fazer.
Acho que há um grupo, bastante alargado diga-se, de ateus Portugueses que deviam criar a Associação Portuguesa do Ateísmo Positivo: a APAP portanto.”
Pronto! Desta forma ficaria tudo resolvido. O Ricardo Silvestre e os seus companheiros de luta neo-ateus poderiam continuar a praticar o ateísmo da forma mais previsível e inconsequente que sabem e gostam e já ninguém lhes chatearia o juízo. Voilá! No mesmo texto, Ricardo Silvestre atribui uma qualidade ao discurso de Sam Harris quando este afirma que aceita que nem todos pensem como ele quando, uns parágrafos acima, “mandou” os que não pensam como ele criar uma nova associação ateísta! Até parece que estou a ler a Bíblia onde numa página se defende A e umas páginas à frente se defende não-A. Aqui, contudo, basta saltar uns parágrafos.
O que o Ricardo Silvestre ainda não reparou é que a maior parte dos ateus que não se revêm no seu estilo já não fazem parte do Portal Ateu e nunca precisaram da sugestão dada no seu texto para saírem. Saíram porque, provavelmente, já tinham adivinhado este seu artigo há muito tempo.
Não deixa de ser irónico o facto de serem os neo-ateus aqueles que têm uma postura que cada vez mais se assemelha a uma seita religiosa, cheia de dogmas e adversa à crítica.