Crónica a Um Amigo Desaparecido

Autor: a 07 Jan, 2012 | 19 Comentários | 989 visualizações

Tem sido difícil encontrar tempo para escrever aqui no Portal, e como não gosto de escrever nada à pressa ou cansado prefiro adiar o tempo que for preciso até estar em condições de voltar. Neste momento passa das quatro da manhã, daqui a pouco tenho de me levantar para um fim-de-semana cheio de trabalho e estou esgotado mas senti que não conseguiria adormecer se não escrevesse qualquer coisa sobre o que vi há poucas horas na televisão. O relato exige uma analepse introdutória. Como se verá mais adiante, terá a sua razão de ser.

Este recuo no tempo leva-me à minha infância, mais ou menos aos meus 11-12 anos. Como qualquer miúdo, gostava de uns colegas, detestava outros e alguns eram-me indiferentes. Todas essas sombras do meu passado são completamente irrelevantes para quem está agora desse lado a ler estas linhas, à excepção de uma – a do Mauro. Lembro-me de ele ser dos mais altos de nós. Era desportista, um “gajo porreiro”, falávamos muito sobre vários assuntos durante o tempo de aulas embora não fôssemos particularmente chegados. Lembro-me de gostarmos do sentido de humor um do outro. Lembro-me de que ele era um terror no Carnaval e que nessa altura em particular fazia a vida negra a professores com truques elaborados de toda a espécie (não entrarei em detalhes mas direi que aprendi muito sobre pequenos explosivos com ele) que invariavelmente implicavam castigos, recados para os pais, etc., embora tudo não passasse de brincadeira inócua. Deu-me a primeira e única “bomba de mau cheiro” que tive na vida. Guardei-a e perdi-a antes de a ter usado.

Acabámos por seguir caminhos diferentes quando mudámos de escola no final do 9º ano e deixámos de contactar, como costuma acontecer.  Voltei a encontrá-lo uma vez no Continente por acaso, muito tempo depois. Disse-me que era jogador do Estrela da Amadora, que tinha uma namorada, que estava tudo bem. Depois de uma curta conversa despedimo-nos e voltámos às nossas vidas. Foi essa a última vez que o vi. Em 2005, um outro colega desses tempos de infância que ainda hoje é meu amigo informou-me de que o Mauro tinha morrido num acidente de viação na A1, num despiste a caminho de um treino. O condutor ficou gravemente ferido e o Mauro chegou ao hospital já sem vida. Tinha 22 anos. Lembro-me de ver o caixão coberto com a bandeira do clube e rodeado de uma multidão de amigos e familiares que não coube na enorme igreja. Nunca vi ninguém chorar como a mãe dele nesse dia.

De volta ao presente, hoje tirei a noite para relaxar e ver um filme. Quando acabou, levantei-me para ir dormir, mas calhou a televisão ir parar à TVI. Ia mesmo carregar no botão para desligá-la quando ouço o nome do meu falecido amigo Mauro sair da boca da apresentadora do programa que estava a dar. A isto seguiu-me uma sinopse da sua biografia e o relato das trágicas circunstâncias da sua morte. Ao lado da apresentadora estava a mãe do Mauro, que eu não via desde o funeral. Voltei a sentar-me no sofá.

Custou-me um bocado a acreditar que aquilo que se seguiu estava de facto a acontecer e a dar na televisão. O programa era o “Depois da Vida”, apresentado pela Iva Domingues, que se faz acompanhar de uma senhora chamada Janette Parker. A Iva, além de ser apresentadora, traduz para Português o que a senhora Domingues diz em Inglês, e a senhora Domingues traduz para Inglês o que os mortos lhe vão dizendo ao ouvido durante o programa. Neste episódio, o espírito do meu falecido amigo foi canalizado por esta médium para o estúdio, e assim pôde “falar” directamente para a sua mãe, que ouvia embevecida as palavras da médium como se fossem realmente as do Mauro.

Apesar da enorme raiva com que assisti àquilo não me passaram despercebidas as falhas na informação que a espiritista de serviço ia transmitindo do “reino dos mortos”, e que a tradutora a custo lá ia tentando mitigar na versão portuguesa. Tudo isto entrecortado com muita da conversa espiritista do costume sobre como “ele está bem”, e como “ouve todas as preces da mãe”, que “está sempre com ela”, e por aí adiante. Uma das coisas que transpareceu foi que a vidente estava convencida de que o Mauro tinha sido jogador do Benfica e não do Estrela da Amadora – um clube de que ela obviamente nunca ouviu falar na vida, sendo estrangeira. A sua afirmação de que o Mauro “nunca deixou a fama subir-lhe à cabeça” é um claro exemplo disso, visto que infelizmente a sua morte foi prematura demais para que tivesse oportunidade de se tornar conhecido. Além disso, a senhora Janette perguntou à mãe do Mauro (em Inglês) se o seu filho tinha sido enterrado com a “camisa vermelha do clube”. A intérprete, que topou de imediato a falha, traduziu apenas a parte do “camisa do clube”, achando por bem (e com razão) omitir a referência feita à sua cor. A mãe, claro, corroborou esta miraculosa “visão”, sem dúvida espantadíssima com os poderes da bruxa e demasiado emocionada para constatar a incompetência da mesma até como aldrabona profissional. A vidente chegou ao ponto de se referir ao espírito com o nome “Carlos”, o que até a baralhou a intérprete que depois de alguma atrapalhação lá se lembrou de que o fantasma se chamara Mauro em vida.

O momento mais triste chegou quando a vidente informou a mãe do Mauro de que ela devia dizer ao rapaz sobrevivente que conduzia o carro aquando do acidente que este não se devia culpabilizar, e que deveria aproveitar a vida para “amar”. Seguiu-se um momento de grande comicidade mediúnica no qual a espiritista disse que este amor não era relativo “à sua mãe, mas às raparigas”. O Carlos (perdão, Mauro) referiu ainda que bastava dizer apenas essas palavras ao sobrevivente do acidente, pois “ele saberá o que quero dizer”. Ao ouvir isto toda a gente no público soltou um risinho, embora a mãe do Mauro claramente o tenha feito também apenas por coacção do público. É que ao contrário da médium, esta senhora sabe que o rapaz que conduzia o carro ficou algo limitado no seguimento do acidente, nomeadamente por lhe terem sido amputadas ambas as pernas – o que pode gerar alguns problemas caso queira seguir o conselho do seu falecido amigo e tornar-se um engatatão.

Não irei qualificar o que se passou neste programa de televisão porque é em todos os aspectos inqualificável. Limito-me a assinalar o quão evidente – assustadoramente evidente – se tornou aos meus olhos a partir deste caso, pela forma pessoal como me afectou, o poder absoluto que a superstição em todas as suas formas pode ter sobre alguém completamente tolhido pelo desespero que advém do confronto com a morte, em particular a morte de um filho.

Compreendi também, por fim, a justificação irracional da Fé e a vetusta tradição de se considerar “ofensivo” atentar contra quem a tem. De facto, tenho de perguntar a mim próprio se, vendo eu com toda a clareza que aquela pessoa estava a ser enganada para que um canal televisivo e uma charlatã lucrassem às custas do seu sofrimento, seria ainda assim capaz de tentar convencer aquela mãe que tudo aquilo não passava de um espectáculo e que o conforto que lhe foi dado pela “médium”, talvez sentido pela primeira vez desde que perdeu o filho, não passou de uma ilusão, um véu estendido diante dos seus olhos para obnubilar a realidade de que quem morre cessa de existir? Não seria “ofensivo” da minha parte fazê-lo, por muito boa que fosse a minha intenção de liberar a senhora de superstições ignorantes? E ainda que tentasse, que efeito poderia ter a voz da Razão nos ouvidos daquela mãe se, ainda que gritasse, tivesse de competir pela sua atenção com o sussurro do seu falecido filho?

O Christopher Hitchens certa vez disse que em conversa com Richard Dawkins revelou que se tivesse oportunidade de acabar com a crença da última pessoa religiosa do mundo, não o faria. Apesar de o próprio Hitchens admitir que não saberia dizer exactamente porquê, leva-nos a crer que “pouparia” esse resquício de religião por desejo de proteger o último fragmento dessa parte tão importante da cultura e história humanas, como se de um objecto arqueológico valioso se tratasse. Pela minha parte, afirmo o mesmo por outro motivo: se a mãe do Mauro fosse a última pessoa religiosa existente e para extirpar toda a superstição no mundo apenas tivesse de convencê-la de que o seu filho está morto e enterrado e que não voltará mais, não o faria – não para proteger um qualquer “património imaterial da Humanidade”, mas para preservar o não menos valioso resquício do “espírito” daquela mãe que não morreu com o seu filho.

Em todo o caso, sem deixar de reconhecer o enorme sofrimento que deve ser o dessa senhora, conforta-me pensar que o meu amigo Mauro nunca terá conhecimento da degradação a que sujeitaram a sua mãe, explorando a sua dor na televisão depois da novela.

 

Ao Mauro Gama 

1983-2005

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19 Comentários

  1. Samuel30 diz:

    Desde o início desse programa que achei aquilo uma plena palhaçada, nunca o vi na íntegra mas quando o vi nutava-se que aquilo era apenas uma grande tanga, mas agora tu vieste a confirmar mesmo tudo pois sabias a história do teu amigo.
    Este tipo de programas são ridículos e ainda ridicularizam mais as pessoas que se dizem videntes.

    • Lúcio Mateus diz:

      Olá Samuel.

      O grande problema é que as pessoa que se dizem videntes – salvo algumas excepções que se calhar nem serão assim tão poucas – sabem que são fraudes e por isso não temem o ridículo. O sobrenatural é um negócio lucrativo, tanto mais por ser a única área em que a ignorância ao ponto da iliteracia não impede que se seja um especialista.

      A propósito disso, numa das minhas várias chamadas para astrólogos africanos calhou falar com o grande “Professor” Djakité. Nessa altura aconteceu estar eu a fazer de Dr. Henrique Cimento, um advogado que representava um outro astrólogo africano indignado porque o anúncio de jornal tanto do meu cliente como o do Professor Djakité eram exactamente iguais (e é verdade, vários desses anúncios são iguaizinhos). Informei-o de que o meu cliente o queria processar por plágio, e que estava até preparado para lhe lançar um mal olhado se o anúncio não fosse imediatamente retirado.

      Quando finalmente lhe consegui explicar mais ou menos o que significa “plágio” ele pediu desculpa e informou-me de que desconhecia essa situação porque na realidade, apesar de ter poderes que ultrapassam toda a Medicina contemporânea e um título de Professor, não sabia ler.

  2. mariadias diz:

    Viva, Lúcio Mateus!
    Já sentia a falta dos seus artigos! Não menosprezando os outros comentadores, é verdade que eu gosto muito da sua escrita e de comentários mais longos.
    A nossa televisão é perita em manter as pessoas na ignorância, no preconceito, na superstição, em manter o espírito de obediência e mesmice que caracteriza o nosso povo; é lamentável que as pessoas se deixem enganar tão facilmente, mas isso tem uma explicação. A razão nunca poderá competir com a emoção e não nos esqueçamos que tudo o que diz respeito a preconceitos, crendices, superstições é adquirido cedo na vida, logo, sustenta a personalidade, confunde-se com a própria identidade e está emocionalmente ancorado no mais profundo do ser. Embora saibamos, pelo menos desde os trabalhos de António Damásio, que razão e emoção estão perfeitamente interligados, o sistema límbico – ligado à emoção – por ser filogeneticamente mais antigo tem muito mais poder, tem tanto que pode fazer-nos ver só aquilo que “queremos”. Parece-me ser o caso das pessoas que acreditam neste tipo de “milagres”.
    Não tenho outra justificação para a falta de questionamento que os adeptos deste tipo de programas parecem ter. A mim, por exemplo, mesmo passando por cima de todas as falsidades ditas pela senhora Janette Parker – só sendo identificadas por quem conhecia o Mauro, como o Lúcio – pergunto-me será que “do outro lado” se fica depois a saber todas as línguas e comunicam com a dita senhora em inglês ou será que falam com ela em português e ela só para dar trabalho à tradutora fala em inglês? Ou ainda, ela perceber até percebe o português, mas falar só mesmo em inglês? Quem sabe ela só aceite entrar em contacto com o “espírito” se, em vida, falasse no seu idioma? Talvez afinal eu é que seja ignorante e a auto proclamada médium contacte em algum tipo de linguagem espiritual acessível só aos espíritos mais elevados?
    cumprimentos

    • Lúcio Mateus diz:

      Olá Maria!

      Esse ponto acerca dos conhecimentos linguísticos dos espíritos realmente dá que pensar. Não me parece que a explicação seja que uma vez no Paraíso todos os espíritos aprendem todas as línguas existentes à velocidade com que o Neo no Matrix aprendeu Kung Fu, acho que a teoria é que a própria linguagem que usam por lá é espiritual. Uma espécie de “espiritês” que todas as almas no seu estado mais puro falam. Não sei.

      Espanta-me é que ainda ninguém tenha percebido ainda que seria facílimo provar se um “medium” está de facto a comunicar com um espírito ou apenas a inventar. Como todos sabemos, os espíritos conseguem comunicar letras individuais que possam estar de alguma forma ligadas à pessoa a quem se dirigem (por exemplo, iniciais de familiares). Seria interessante pedir à vidente inglesa, por exemplo, que pedisse ao Mauro que lhe comunicasse em “espiritês” as iniciais das palavras portuguesas para “lamp”, “coat” e “fur”. Se ela acertasse todas as três seria um indício muito forte de que estava de facto a falar com um morto conhecedor de uma língua que ela própria não dominava. Caso contrário, era de desconfiar.

      Seja como for não se pode esperar muito de alguém que nem consegue arranjar uma designação etimologicamente correcta para a sua profissão. Ao contrário do que gente como essa Janette pensa, a palavra “medium” não significa “aquilo através do qual…” – como se fosse um “canal” de comunicação – e sim o âmbito próprio de qualquer coisa. O medium do peixe é a água, por exemplo. Logo, usar o termo “medium” para designar uma vidente (assim como o plural “media” para os meios de comunicação em geral) é pura parvoíce.

      A ideia em princípio era capaz de funcionar mas tenho impressão de que se lançássemos esse desafio à medium ela começaria de imediato a sentir as ondas negativas do nosso cepticismo e perderia o contacto com o reino dos mortos. Pelo que percebo, o cepticismo tem nos videntes o efeito que os elevadores têm nos telemóveis.

  3. Olá Lúcio, bom dia!

    Quase nada tenho a apontar a este texto, pois partilho dos teus sentimentos em relação a esta charlatanice. E, em especial, comovo-me com a tragédia e o escândalo que é a exploração indecente dos sentimentos de uma mãe que perdeu o seu filho. Eu já ouvi falar desse programa, mas felizmente nunca o vi.

    Queria apenas fazer uma rápida observação, pois vejo que te referes à “Fé” (sem mais detalhes), o que permite confusões e imprecisões. Poderás estar a referir-te à fé espírita (a do espiritismo), mas quem te lê poderá achar que outras “fés” apoiariam semelhante espectáculo e doutrina religiosa subjacente.

    Do ponto de vista da Igreja Católica, tudo isto é repugnante. O catolicismo repudia qualquer tentativa de “falar” com os mortos, e a condenação destas práticas nem sequer é originalmente católica, e já vem do Antigo Testamento. De um ponto de vista católico, se é verdade que se acredita e se defende que a morte do corpo não é a destruição da pessoa humana, ao mesmo tempo, o catolicismo considera altamente duvidoso que seja sequer possível comunicar com pessoas mortas, quanto mais desejável.

    As ideias que estão subjacentes a este programa televisivo mentecapto provêm da doutrina espírita, uma patética forma de “espiritualidade” moderna que data de meados do século XIX.

    O espiritismo não tem a menor consistência filosófica, quanto mais sofisticação teológica.

    Tenho muita pena da mãe do teu amigo, e rezarei por ela. Pobre mãe, e miserável exploração dos sentimentos humanos…

    Um abraço

    • Lúcio Mateus diz:

      Boa noite, Bernardo!

      Tens razão em afirmar que fui pouco escrupuloso na utilização do termo “fé” no contexto deste artigo. Calculei que pudesse ser um problema enquanto estava a escrevê-lo mas já tenho queixas que cheguem relativas à dimensão dos textos portanto prefiro relegar o aprofundamento de semelhantes questões para os comentários na condição de alguém lançar o repto. Por o teres feito, agradeço-te.

      E sem querer abusar do já clássico recurso retórico do “sabes tão bem como eu”, acho que sabes tão bem como eu que o comum católico está plenamente convencido de que é possível falar com pelo menos alguns mortos – um erro, pelo que me dizes, mas um erro que a Igreja pouco ou nada faz para eliminar.

      Refiro-me, como já deves ter percebido, aos santos. Lê-se no Catecismo da Igreja Católica §956 que os santos não deixam de interceder por nós junto ao Pai. Se esta intercessão é genérica, como se fossem uma “cunha” para a espécie humana em geral, ou se podem interceder com pedidos relativos a indivíduos particulares é, na minha opinião, algo que não fica inteiramente definido. Por este motivo é que muitos estão convencidos de que quando lhes passou a lombalgia por terem rezado à Santa Eulália ou coisa que o valha, foi ela que directamente os curou, ou pelo menos mediatamente por “intercessão junto do Pai”. Tu próprio pareces deixar espaço a esta hipótese com a afirmação de que falar com os mortos não é para a Igreja uma impossibilidade e sim algo de “altamente duvidoso” (o que por acaso até contradiz a tua afirmação categórica nesse mesmo parágrafo de que “o catolicismo repudia qualquer tentativa de ‘falar’ com os mortos). Pode não ser provável, talvez, mas se é possível é plausível, e se é plausível o abismo entre o catolicismo e o espiritismo estreita-se ao ponto de poder ser cruzado, passe a expressão, com um “salto de fé”.

      Dir-me-ás talvez que a ideia de comunicar com os santos directamente não passa de superstição de crentes sem dúvida devotos mas ignorantes das complexidades teológicas acessíveis somente aos mais eruditos. Bom, julgo que considerarás o Cardeal José Saraiva Martins, o prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, um teólogo experiente. Mais do que isso, é frequentemente identificado como a maior autoridade mundial em história dos santos. Explica-me então, se puderes, por que motivo no final do livro “Como se faz um Santo”, no qual em entrevista com Saverio Gaeta explica todos os passos deste (sem dúvida fascinante) processo, se encontra um apêndice com onze páginas onde estão listados os vários “santos protectores”? Especificamente lê-se lá, e cito, que “para cada santo é indicada a doença ou parte do corpo que o santo cura ou protege”. A lista é enorme mas deixo aqui uns quantos só porque achei piada:

      Albino de Angers – tosse convulsa
      Cassilda – esterilidade conjugal
      Cosme e Damião – enterite, rins, pedra nos rins, garganta, tinha, hidropisia
      Fiacre – hemorróidas, venéreas
      Genoveva de Paris – afogamento (!)
      Landerico de Paris – mordidelas de répteis
      e Guthlag (muito útil em zonas tropicais) – malária

      Nem vou entrar na questão da validade do método utilizado para elaborar uma tão vasta e detalhada lista de correspondências entre santos e as doenças que cada um mais fiavelmente cura. Se há uma relação entre uma prece dirigida a um santo e um efeito físico no meu corpo, há comunicação. Assim sendo, não vejo de que modo isto é fundamentalmente diferente de uma conversa directa com o espírito de um morto através de uma medium. São de espécies diferentes mas continuam a ser comunicação, tal como fazer uma encomenda por carta que chega uns dias depois (“São Leandro de Sevilha, por favor cure-me o reumatismo”) e falar com alguém ao telefone (“O Mauro está aqui e diz que a ama”) são apenas espécies diferentes de um mesmo género. Não saberei dizer qual dos dois tem mais “sofisticação teológica” mas pelo menos metaforicamente falando, em termos de sofisticação tecnológica o espiritismo parece-me estar muito mais avançado.

      Apesar de saberes a minha opinião acerca da eficácia das preces agradeço-tas pela intenção que lhes subjaz. Obrigado, e obrigado também pelo teu comentário.

      Um abraço.

      • Lúcio Mateus diz:

        PS: Numa coisa estamos absolutamente de acordo: “miserável exploração dos sentimentos humanos…”.

  4. Está claro que a missa do sétimo dia que certamente foi celebrada não foi nenhuma exploração dos sentimentos humanos… Está claro que o Bernardo reza pela mãe porque no catolicismo não se reza pelos mortos, uma vez que “o catolicismo considera altamente duvidoso que seja sequer possível comunicar com pessoas mortas, quanto mais desejável”… Está claro que falar com os mortos é altamente indesejável, mas ressuscitá-los parece-nos bem… Está claro que o espiritismo não tem a menor consistência filosófica, mas a transubstanciação (e os outros dogmas) têm…

    Enfim, é tudo muito claro…

    • xiquinho diz:

      De facto até custa a acreditar que o fan n.º 1 em Portugal do exorcista-mor-do-reino, o padre-bruxo Gabriele Amorth, venha agora alegar que o “catolicismo repudia qualquer tentativa de “falar” com os mortos”… Está claro o espiritismo é uma miserável exploração dos sentimentos humanos mas o exorcismo já é uma obra de caridade… Está claro que, de facto, é preciso ter uma grande lata…

  5. carlos cardoso diz:

    Como o Lúcio demonstrou de forma incontestável, o comentário do Bernardo Motta foi mais um bom exemplo dos que criticam a palha no olho do vizinho sem notarem a trave que têm no próprio olho (cf. Mateus 7,5).

  6. Rui Rodrigues diz:

    É sempre interessante ouvir um “vendedor de sonhos” queixar-se da má qualidade dos sonhos oferecidos pela concorrencia.

    É um bocado como um homeopata a queixar-se da tecnica e da proporção usada na diluição dos “medicamentos” empregues pela loja ao lado.

    O pensamento mágico é mau e errado, seja qual for o seu grau de sofisticação.

  7. Estás a precisar de óculos de ver ao perto, Helder…

    é da idade. tem destas coisas

    • Não, Ricardo, não… não vás por aí, embora eu presume que no teu caso não tenha nada a ver com a idade!

      Na qualidade de presidente da PAMAP deverias era estar agradecido por ainda alguém estar atento a este site e reparar que um determinado comentário – por acaso o mais recente – não aparecer na barra lateral. Se, face a isso, o teu único comentário é esse, lamento. Enfim…

  8. Se te referes ao comentário do “vendedor de sonhos”, a “chamada” para o comentário está na barra lateral, e sempre esteve. Eu reparei quando entrou e, ou o meu computador está a mostrar coisas que os outros não mostram, ou o teu é que não está a mostrar o mesmo que o meu.

  9. Rui Rodrigues diz:

    O Helder tem razão. Por qualquer motivo, quando fiz o comentário, não ficou na barra lateral. E assim esteve durante bastante tempo (não consigo precisar quanto).

    É curioso que o comentário do Helder tenha entrado em “10 Janeiro, 2012 às 10:02 pm” a comentar o meu em “10 Janeiro, 2012 às 12:33 pm”

    Portanto, o Helder conseguiu responder ao meu comentário, 2 horas antes do meu existir.

    Já houve gente canonizada por menos.

    Conclusão: O que o Helder disse é verdade, e algo de estranho se passou. Quanto ao “sempre esteve”, como diria a Palmira, sigh.

  10. Rui, “sempre esteve” refere-se ao momento que, desde que entrou o comentário, ele esteve lá sempre.
    Helder, eu só reagi e em tom de brincadeira, ao que escreves-te que a mensagem do Rui não constava, quando estava na lista e eu podia o ver. Era um comentário para não deixar ninguém incomodado. Não percebo o porque de precisares de me acusar de ingratidão, de inconsequência e de “enfims”…mas deve ser porque mudaram os tempos.

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