Antonin Artaud e o julgamento de deus

Antonin Artaud

Antonin Artaud


Antonin Artaud é um dos nomes incontornáveis da poesia e teatro do século XX, a sua influência na expressividade artística aborda tanto a crueza do teatro como a transcendência pela ingestão de alucinogénios em ritualismo ameríndio, experimentações humanas directas que afirmaram Artaud como um criador de extrema importância. Segue-se um breve excerto da famosa emissão de rádio “Pour en finir avec le jugement de dieu” mudado para português.

E deus, o próprio deus espremeu o movimento.
É deus um ser?
Se o for, é merda.
Se não o for,
não é.
Ora, ele não existe,
a não ser como vazio que avança com todas as suas formas,
cuja mais perfeita imagem,
é o avanço de um incalculável número de piolhos,
“O senhor está louco senhor Artaud? E então a missa?”
Eu renego o baptismo e a missa.
Não existe acto humano,
no plano erótico interno,
que seja mais pernicioso que a descida,
do pretenso jesus cristo,
nos altares.
Ninguém me acredita,
e posso ver o público encolhendo os ombros,
mas esse tal cristo é aquele que,
diante do percevejo deus,
aceitou viver sem corpo,
quando uma multidão,
descendo da cruz,
à qual deus pensou tê-los pregado há muito tempo,
se rebelava,
e armada com ferros,
sangue,
fogo e ossos,
avançava desafiando o invisível,
para acabar com o julgamento de deus.

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