De momento a grande “polémica inter-religiosa” está em Ratzinger ter proclamado como “venerável” (degrau na sua caminhada para a santidade) o seu antecessor Eugenio Pacelli, aka Pio XII ou “Papa de Hitler”. O mesmo Papa que desperta reacções negativas um pouco por todo o mundo, acusado de passividade com o Holocausto e políticas fascistas, algo que já deu origem a diversas publicações.
Sendo eu interessado em História (em particular do século XX e das duas Guerras Mundiais) e de maneira a se compreender melhor todo este fenómeno passo a enumerar, por ordem cronológica, alguns acontecimentos que importa reter para se compreender melhor esta situação. Para além da questão inerente ao tema principal em discussão, considere-se que aqui está reunida informação que dá uma ideia geral da influência da ICAR de Pio XI e Pio XII na política do século XX, nomeadamente nas suas “amizades” com os regimes fascistas emergentes na primeira metade desse século, para além do seu medo e quase obsessão com o comunismo.
Atenção que cito textos polémicos, não só por causa do tema em si mas também pela “guerra” que deram. O livro “Hitler’s Pope” de John Cornwell é capaz de ser o texto mais famoso contra Pio XII, só que os anos que se seguiram à sua publicação foram recheados de crítica dura e acusações de parcialidade e de desonestidade intelectual. O próprio Cornwell admitiu mais tarde não ser possível tirar grandes conclusões acerca da inoperância de Pio XII, mas que o seu silêncio depois da Guerra não abonou a seu favor. O mesmo se aplicou a Kevin Madigan, no seu “What the Vatican Knew About the Holocaust, and When” (O que o Vaticano sabia do Holocausto, e quando), onde alguns o louvam e outros o criticam (por omitir ou não considerar dados), enquanto que outros acham que será necessário libertar mais informação. Citados aqui estão ainda alguns dos testemunhos mais interessantes e que abonam mais a favor do Vaticano: o do historiador britânico Martin Gilbert e o do americano Harold Tittman (e do seu filho, na altura adolescente), representante diplomático “não oficial” no Vaticano, durante a Guerra.
Grande parte da pesquisa que fiz foi pela net, recorrendo ainda a alguns livros que possuo. Agradeço à L. Abrantes pela colaboração e ao nosso “opositor” Bernardo Motta (parte aliás muito interessada nesta temática) pela correspondência trocada e por me ter arranjado meia dúzia de textos.
Espero este post (que pretendo que seja mais informativo do que opinativo) possa abrir este debate a todos, independentemente da crença religiosa e política. Estão todos convidados a comentar, corrigir eventuais erros ou omissões e enviar informações que considerem pertinentes. Considere-se que apurar a verdade histórica pode ser difícil, já que parte da informação pode nunca vir a público. De qualquer maneira, 65 anos depois da Segunda Guerra terminar já são mais do que suficientes no que toca à abertura de ficheiros, pré-anunciada para daqui a uns 5 anos. Passemos ao que interessa.
EUGENIO PACELLI, mais conhecido como Pio XII ou “Papa de Hitler”, no espaço e no tempo
1876- Nasce em Roma, no seio de uma família aristocrata, Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli. A família Pacelli era uma espécie de Bórgias modernos, com ligação de décadas à Igreja. O avô Marcantonio Pacelli fora ministro das finanças do Papa Gregório XVI e ministro do interior de Pio IX. É também um dos fundadores do L’Osservatore Romano. Filippo Pacelli, pai de Eugenio, era solicitador no Tribunal da Rota Romana.
1899- É ordenado padre num Domingo de Páscoa, entrando dois anos mais tarde ao serviço da Congregação dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, pertencente à Secretaria de Estado do Vaticano. A sua carreira fica ligada à diplomacia e ao direito canónico.
1914- Até este ano foi subindo progressivamente na hierarquia, altura em que assume a direcção da Congregação. Curiosamente, foi um dos responsáveis pela concordata com a Sérvia, concluindo as negociações apenas (!) 4 dias antes do acontecimento que despoletou a Primeira Guerra Mundial, o assassinato de Francisco Fernando do Império Austro-Húngaro, em Sarajevo.
1917- Ainda durante a Primeira Guerra, Pacelli é nomeado núncio (uma espécie de embaixador) da Baviera pelo Papa Bento XV. Menos de um mês depois é nomeado Arcebispo da Capela Sistina, instalando-se de seguida em Munique. Não havendo o cargo de núncio para as outras regiões alemãs (Prússia e Alemanha), fica, tecnicamente, núncio de todo o império germânico. Já instalado em Munique, inicia conversações com o Kaiser Whilelm II e com o Chanceler Bethmann-Hollweg, tentando acabar com o conflito. Durante o período do fim da guerra percorreu grande parte do país em missão de caridade. Numa carta endereçada ao Vaticano, ter-se-à revelado “menos do que enamorado” pelos judeus alemães.
Uns meses depois dá-se um curioso episódio, relatado por John Cornwell (citado mais abaixo, ver ano de 1999). Em Munique, Pacelli vê-se no meio de confrontos de grupos bolcheviques que tentam fazer uma revolução numa capital bávara ainda enfraquecida pela guerra. Relatando o episódio numa carta endereçada ao seu superior hierárquico (presente nos arquivos do Vaticano), o Secretário de Estado Pietro Gaspam, revela um certo azedume contra os judeus na descrição que fez dos revolucionários e do seu chefe, Eugen Levine, grupo que se tinha entretanto instalado no palácio presidencial. Fala de um “gangue de jovens mulheres de aparência dúbia, judias como o resto deles, andando pelos escritórios do palácio com um comportamento provocante“, refere-se à líder deste grupo como a “amante de Levine, judia e divorciada“. As contínuas referências ao judaísmo desses indivíduos, associando-o ao bolchevismo mostrou que Pacelli suspeitaria dos judeus por motivos políticos. Pouco tempo depois Pacelli fez campanha para afastar soldados franceses negros da Renânia (zona do vale do Reno, entre Alemanha e Benelux), alegando que estes abusavam de mulheres e crianças (acusação falsa e refutada por um inquérito do qual tinha conhecimento). Vinte e três anos depois, já como Papa e na altura em que os Aliados se aproximavam de Roma, terá pedido ao enviado britânico no Vaticano que não ficassem tropas “de cor” entre os estacionados na capital italiana depois da ocupação.
1920- Pacelli é nomeado núncio apostólico da Alemanha e muda-se para Berlim. Entretanto apoia a coligação Weimar (Sociais Democratas com o Partido Democrático Alemão e o Partido do Centro Católico), responsável pelo governo de transição no pós-guerra. Fez-se entretanto amigo de Ludwig Kaas (na foto), padre e membro do Partido do Centro Católico, que poucos anos depois se tornou um dos seus principais e mais leais colaboradores. Kaas, curiosamente, chegou a chairman do seu partido em 1928, mantendo sempre uma grande amizade com Pacelli.
1922- Inicia negociações com vários países da Europa, assinando e sendo um dos principais responsáveis pelas concordatas com a Letônia (1922), Baviera (1924), Polónia (1925), Romênia (1927) e Prússia (1929). Apenas falharam as negociações com o Estado russo, abortadas em 1927.
1929- Pio XI nomeia Pacelli Cardeal Presbítero de São João e São Paulo. Após três anos de negociações, dá-se a assinatura do Tratado de Latrão com a Itália de Benito Mussolini, que instituiu a Santa Sé como um Estado soberano e com inúmeras regalias. Isenção fiscal tanto a nível de propriedades como por parte dos seus cidadãos (incluindo importações), imunidade diplomática, instituição do ensino religioso católico obrigatório na escola pública e do casamento segundo os cânones católicos, proibindo-se o divórcio. Na ressaca da “Questão Romana”, a Santa Sé renuncia aos territórios que possuía desde o séc. VIII, garantindo ainda uma “jóia” do Estado italiano no valor de 750 milhões de liras (na altura, 81 milhões de dólares), para além de outros benefícios.
Curiosamente, quem esteve envolvido nas negociações deste tratado foi o irmão mais velho de Eugenio, o advogado Francesco Pacelli. Tal como já foi dito mais atrás, a família Pacelli esteve ligada à Igreja desde o século XIX, havendo sobrinhos de Pacelli em cargos cimeiros de companhias ligadas ao Vaticano a partir dos anos 1930. No seguimento do Tratado de Latrão, Pio XI cria a Administração Especial para gerir o dinheiro e mete o leigo Bernardino Nogara (mais um de uma família com muitas ligações ao Vaticano) à frente das operações. A Igreja viu-se assim a entrar no mundo dos negócios e do capital financeiro à escala mundial. Nogara passa a comprar companhias e bancos em nome do Vaticano, isento de impostos e de controlo, muitas vezes através de esquemas especulativos e pouco éticos. Morre em 1958 sem sucessor à altura.
1930- Eugenio Pacelli é nomeado Secretário de Estado da Santa Sé. Nos anos que se seguem assina concordatas com outros países: Áustria e Alemanha (1933), Jugoslávia (1935) e o “nosso” Portugal (1940, já como Papa).

1931- Pio XI, do qual Pacelli (com Pio XI, na foto) é apontado como o principal colaborador, publica a encíclica Non abbiamo bisogno, que condena o fascismo de Mussolini, que entretanto tentava diminuir a autonomia da ICAR. A encíclica vem em resposta à progressiva deterioração das relações entre os dois Estados, agravada pela dissolução dos grupos jovens católicos por parte do ditador, que queria a exclusividade para a sua “Juventude“.
Mussolini, numa tentativa de diminuir a influência de Hitler entre os católicos austríacos, apelou a Pio XI que o excomungasse. Perante a recusa, acabou por cooperar com o ditador alemão, “imitando” as leis anti-judaicas mais para o fim da década de 1930.
Na Alemanha, a coligação Socialistas/Partido do Centro Católico ganha as eleições no ano anterior e o católico centrista Heinrich Brüning é eleito Chanceler. Tendo-se deslocado ao Vaticano, discutiu com Pacelli vários assuntos. Mas o que mais se destacou foi o facto de Pacelli o ter pressionado para chegar a um entendimento com os Nazis de maneira a fazer uma coligação de centro-direita, algo que poderia possibilitar uma concordata mais “favorável” com a Igreja. Respondendo que a Igreja se devia afastar de influenciar politicamente a Alemanha, Brüning provocou em Pacelli uma reacção descrita como “violenta”. A coisa ficou por ali.
1933- Hitler chega ao poder em Janeiro, numa coligação do Partido dos Trabalhadores Nacionais-Socialistas Alemães com o Partido Popular Nacional Alemão e com independentes conservadores. Os partidos do centro ficam de fora. Ludwig Kaas faz campanha contra este governo, mas depressa se acalmou à medida que ganhavam um cada vez maior apoio das massas. Face a esse crescente apoio, Kaas é muito decisivo na aprovação do acontecimento que cimenta os Nazis no poder, o Gesetz zur Behebung der Not von Volk und Reich, que permite ao chanceler Adolf Hitler plenos poderes e autonomia na emissão de leis. Tudo em troca de garantias constitucionais e (alegadamente) eclesiásticas, algo que, apesar de terem chegado a um acordo verbal, Hitler (prometeu mas) não o fez por escrito.
Pouco tempo depois (Julho) assina-se a concordata (a Reichskonkordat, na qual Kaas tem a sua contribuição) com o 3º Reich, instituindo um dos maiores ganha-pão da ICAR (ainda em vigor), o kirchensteuer, ou o “imposto para a Igreja” (também aplicável a outras confissões). Tal imposto assegurava 8 a 10 por cento dos rendimentos de cada cidadão católico alemão, valores que, afectando uma boa parte dos 40 milhões de católicos alemães, perfaziam uma considerável fatia das finanças vaticanistas. Tal acordo possibilitou maior autonomia para as organizações católicas e o ensino religioso nas escolas, mas ao mesmo tempo afastavam-se da política. É mesmo referido que uma boa parte da hierarquia católica quis este afastamento da vida política, mas apenas por uma questão de difícil controlo destes políticos.
Antes do acordo entre os dois estados e depois de algumas reuniões políticas com o governo de Hitler, Kaas é chamado ao Vaticano, encontrando por coincidência (!?) o vice-chanceler Franz von Papen quando muda de comboio em Munique. Papen ia para Itália para umas supostas férias na neve, mas o verdadeiro motivo era a ida ao Vaticano para negociar a Reichskonkordat, assunto que foram discutindo durante a viagem. Kaas acaba por ser nomeado por Pacelli como o principal mediador para a discussão dessa concordata, factor que implicou a sua futura demissão dechairmando partido devido a pressões políticas. Essas pressões também acabaram por o afastar das negociações. Na mesma altura em que Papen se encontra em Roma, o arcebispo de Munique Michael von Faulhaber escreve a Pacelli, indicando que a Igreja deve afastar-se de defender os judeus, pois “um ataque aos judeus seria um ataque à Igreja“, e porque estes “seriam capazes de se defender sozinhos“.
Há quem diga que a Igreja se encontrou perante um dilema, mas a Reichskonkordat é apontada como um dos principais trunfos de Hitler na acreditação e cimentação do seu regime, algo que procuraria desesperadamente devido à oposição dos numerosos grupos católicos a partir do momento em que o partido Nazi começou a ter notoriedade. Também é dito que, para além da questão financeira, o Vaticano quis desta maneira garantir alguns direitos aos católicos alemães, apesar de ao mesmo tempo estar a dar, mesmo indirectamente, um aval às políticas do 3º Reich.
Pacelli cantou vitória no L’ Osservatore Romano sobre este assunto, indicando que era “não só o reconhecimento oficial pelo Reich da legislação da Igreja mas também a adopção de muitas providências desta legislação e a protecção de toda a legislação da Igreja“. Só que o verdadeiro vencedor era outro. Nos anos que se seguiram Hitler começou a sua cruzada interna (contando com a colaboração de padres na identificação de quem tinha sangue judeu) e violou vários termos desta concordata, os quais tiveram oposição (ainda que pouco visível) da Igreja ao longo da década. Até 1937 Pacelli e o Vaticano pouco ou nada fizeram, pelo menos publicamente.

1935- No mesmo ano da morte do seu irmão Francesco, em Roma, Pacelli é nomeado Camerlengo da Igreja.
1937- No seguimento da “crescente hostilidade nazi ao cristianismo” e devido a violações da concordata e devido a pressões de clérigos alemães, é editada Mit Brennender Sorge, encíclica de Pio XI (onde Pacelli também colaborou) contundente (uma “condenação expressa e formal dos erros do nacional-socialismo“) com o Nazismo, provocando alguma inquietude em Berlim e retaliações da parte de Hitler. Impressa e distribuída em segredo e lida em simultâneo em várias igrejas um pouco por todo o país, a encíclica condenou o “paganismo da ideologia Nacional-Socialista” e o seu “mito da raça“, assim como a “falácia do seu conceito de Deus“: «Todo o que tome a raça, o povo ou o Estado, ou uma forma determinada de Estado, os representantes do poder estatal ou outros elementos fundamentais da sociedade humana … e os divinize com culto idolátrico, perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus». Mas nem uma palavra em relação aos judeus ou anti-semitismo.
Menos de uma semana depois sai a (corrosiva) encíclica Divini Redemptoris, crítica do “Comunismo ateu” e uma semana depois outra referente à situação no México, país onde havia anticlericalismo e perseguição à Igreja já há vários anos.
1938- Mussolini adapta algumas leis anti-judaicas, provocando reacções públicas da parte de Pio XI, apelando-as de “legislação alemã bárbara“. O seu pontificado estava no fim, mas mesmo assim consegue mobilizar protestos contra essas leis e contra os laços italo-germânicos, aproveitando todas as oportunidades que tem para denunciar os crimes nazis. Pacelli é parte activa destas “causas”, que não tiveram o seu sucesso. No verão, um Pio XI já no leito de morte mas preocupado com a perseguição judaica, decidiu elaborar uma encíclica, “encomendando-a” aos jesuítas. Só que (a incompleta) Humani generis unitas nunca viu a luz do dia e só veio a público décadas mais tarde. E apesar de condenar explicitamente a perseguição judaica e o anti-semitismo, é contundente com o facto dos judeus serem os teóricos assassinos de Jesus Cristo, sendo teoricamente responsáveis pelo seu próprio destino. Permanece um mistério a não publicação desta encíclica, mas há quem especule que Pacelli possa ter tido influência ou então um certo receio da parte de Pio XI de a publicar. De qualquer maneira, já como Papa publica a encíclica Summi Pontificatus no ano seguinte, para a qual aproveita partes da outra.
1939- Morre Pio XI, Papa que atravessou o período entre as duas guerras e que condenou publicamente (mas com as violações das concordatas à mistura) os actos dos regimes totalitários emergentes, nos quais se incluiu também o Comunismo. A 2 de Março Eugenio Pacelli é eleito pelo Conclave, adoptando o nome de Pio, à semelhança do seu antecessor. Nos meses que se seguem, de elevada instabilidade política, Pio XII tenta evitar a todo o custo uma guerra que cada vez mais parecia próxima, apelando sucessivamente pela rádio e usando os meios diplomáticos.

Imediatamente após o conclave terá tido uma reunião com os cardeais alemães, aos quais manifesta uma vontade de ter uma boa relação com Hitler (ao contrário de Pio XI, que tinha considerado que a presença diplomática na Alemanha era um “conflito com a sua honra“). Pouco tempo depois, a pedido de Pio XII, foi oferecida a Hitler uma gala de honra por ocasião do seu 50º aniversário (20 de Abril), celebração que se repetiu até ao fim da Guerra.
A 1 de Setembro tropas alemãs começam a entrar na vizinha Polónia, dando início ao maior conflito da história do séc. XX. Os soviéticos invadem a Polónia pelo Leste. O Canadá, França e Reino Unido declaram guerra à Alemanha. Em Novembro a União Soviética invade a Finlândia.
A Santa Sé, apesar das pressões externas tanto da comunidade internacional como de clérigos dos países ocupados, terá querido deixar uma imagem de neutralidade e imparcialidade em relação ao Nacional-Socialismo e ao Comunismo, temendo retaliações sobre os católicos locais. Pouco tempo depois, a 20 de Outubro, Pio XII publica a encíclica Summi Pontificatus, crítica do racismo e de ideologias de superioridade, explícita com a invasão da Polónia e pacto Alemão-Russo de não agressão, o tratado Molotov-Ribbentrop.
Muitas das dioceses da ICAR na Polónia estavam sem direcção mesmo antes da guerra. Quando as tropas nazis entraram no país, obrigaram os bispos a abandonar as suas dioceses. Terão morrido mais de dois mil clérigos polacos (nomeadamente os que detinham algum poder ou então envolvidos com a resistência) durante toda a guerra, vinte por cento do total, muitos enviados para campos de concentração (nomeadamente Dachau). Houve pressões do Reich na Santa Sé de maneira a que clérigos alemães substituíssem temporariamente os seus “depostos” homólogos polacos, mas o Papa não se pronunciou de imediato. Em Novembro, Pio XII estendeu a jurisdição do núncio alemão à zona alemã da Polónia, já que o núncio polaco se encontrava em Roma, tendo na altura da invasão fugido do país com o respectivo governo. Pouco menos de um mês depois, nomeou o primeiro dos bispos alemães para uma diocese polaca, provocando a ira (por violação da concordata) do governo polaco no exílio, sitiado em Londres.
Ainda neste ano o Vaticano terá empregado alguns intelectuais judeus, vítimas das leis discriminatórias anti-semitas de Mussolini.
1940- Em Abril a Alemanha invade a Dinamarca e Noruega, seguindo-se os países do Benelux, no mês seguinte. Em Junho os nazis ocupam Paris, ficando a França dividida. A Roménia entra na guerra em Julho, do lado do Eixo. Em Setembro Itália, Alemanha e Japão assinam o Pacto Tripartido, acordo de aliança militar ao qual aderem poucos meses depois a Hungria, Eslováquia e Roménia. A Itália invade a Grécia em Outubro. Esta invade a Albânia em Dezembro.
No início do ano, Pio XII é apontado como estando envolvido numa conspiração de generais alemães para derrubar Hitler. Depois da invasão da Bélgica e Holanda, a ICAR local reagiu. Pio XII mostra-se solidário com os governantes, provocando uma reacção algo hostil da parte de Mussolini (que entretanto tinha entrado na guerra), que via isso como uma afronta aos seus aliados alemães (que também responderam com a deportação de judeus convertidos ao catolicismo, tais como a freira Edith Stein, citada mais abaixo).
1941- A guerra intensifica-se em África (Líbia, Eritreia, Etiópia e Somália). A Bulgária e Jugoslávia juntam-se ao Eixo em Março. Em inícios de Abril forças do Eixo invadem a Jugoslávia e Grécia. Atenas e Belgrado rendem-se em poucas semanas. O Japão e a União Soviética assinam o pacto de neutralidade. Hitler começa a sua ofensiva contra a União Soviética em Julho. Em Dezembro o bombardeamento nipónico a Pearl Harbor origina a entrada dos americanos, declarando guerra ao Japão juntamente com os britânicos e holandeses. A Alemanha e Itália declaram guerra aos Estados Unidos.
Depois da invasão jugoslava pelo Eixo cria-se o Estado Fascista da Croácia (de maioria católica) sob o comando dos Ustaše (ou Utashas, ultranacionalistas e “fundamentalistas clericais católicos romanos”) de Ante Pavelic (na foto, com Hitler), com objectivos traçados (limpeza étnica e pureza). Os tempos seguintes foram de terror para os cidadãos locais sérvios (cristãos ortodoxos), judeus e outras minorias. Deportações, conversões forçadas, assassínios e tortura resultaram em mais de meio milhão de mortos, maioritariamente sérvios. O Vaticano de Pio XII, próximo do regime Ustaše, nada fez. Foi também decisivo tanto a esconder como a orquestrar a fuga de Pavelic (e de muitos outros procurados por crimes de guerra), acolhido na Argentina de Perón, depois de terminar a Guerra. Ouro retirado às vítimas deste holocausto balcânico foi encaminhado para contas na Suíça. Parte do capital foi recuperado, outra terá ido parar aos cofres do Vaticano, até hoje.
Um curioso episódio relacionado com a França colaboracionista de Vichy é apontado neste ano. Philippe Pétain terá perguntado se o Vaticano se opunha a leis anti-semitas, Pio XII respondeu que a Igreja “condenava o anti-semitismo“, mas “que não comentava medidas específicas“. Depois de Vichy adoptar essas leis, o embaixador na Santa Sé Léon Bérard ouviu do Vaticano que “tal não entrava em conflito com os ensinamentos católicos“. O núncio de França ficou escandalizado e tentou averiguar dentro do Vaticano a veracidade desta “publicidade” do regime de Vichy, confirmando-o.
1942- O exército Vermelho contra-ataca e vence os alemães em Fevereiro de 1943, no culminar da famosa Batalha de Estalinegrado. Em Agosto o Brasil entra na guerra ao lado dos Aliados.
Pio XII nomeia o padre franciscano alemão Hilarius Breitinger (braço direito do anterior detentor do cargo) como administrador apostólico da Reichsgau Wartheland (zona polaca anexada pela Alemanha), algo que foi sentido como uma traição por parte dos católicos polacos, que viam esta nomeação como um reconhecimento da invasão e anexação alemã da Polónia. A concordata de 1925 foi anulada (e entre 1947 e 1989 não houve núncio papal na Polónia).
Em Março chegam a Pio XII relatos da deportação em massa de judeus da Eslováquia (a primeira grande remessa para os campos de concentração foram cerca de mil judias eslovacas para Auschwitz), algo aparentemente banal para o seu mui católico presidente (que acumulava também o cargo de padre). O Vaticano protestou com um comunicado a condenar estas medidas, que “afectavam os direitos humanos das pessoas, apenas por causa da sua raça“.

O investigador Kevin Madigan aponta que em Outubro do ano anterior o Vaticano já tinha conhecimento de assassínios e maus tratos de prisioneiros de guerra judeus neste país através de um relatório do seu representante local. Em resposta a Santa Sé curiosamente terá perguntado quem cometia estes crimes, se eslovacos ou alemães (neste caso, esquadrões das SS). Tal não ficou por ali e outro relatório chegou ao Vaticano a 19 de Março, via núncio da Suíça. Em Genebra, dois representantes de entidades judaicas emitiram um memorando denunciando as tenebrosas condições a que estavam sujeitos os judeus na Eslováquia e em outras áreas ocupadas (França, Polónia, Croácia…), países de maioria católica onde uma intervenção papal poderia ser decisiva. Acrescente-se um terceiro relatório vindo do Arcebispo de Lvov, Ucrânia, no verão deste ano, um ano após o começo de mais atrocidades. Os Einsatzgruppen (divisões de paramilitares das SS cujo objectivo era a aniquilação de judeus, ciganos e outros grupos considerados “inferiores”) teriam chacinado milhares de judeus, “não sem a ajuda dos locais“. Em Dezembro chega uma quarta notificação, uma carta proveniente do Arcebispo de Riga avisando que a “barbárie nacionalista” tinha levado quase todos os judeus do país à morte, sobrando muito poucos milhares no gueto da capital letã. O Arcebispo foi bastante claro nas descrições: 27.000 abatidos a tiro no meio das florestas letãs e enterrados em valas comuns em apenas dez dias.
Madigan dá mais exemplos. Fala ainda do relato de um padre italiano (Pirro Scavizzi, próximo da família Pacelli) “infiltrado” como capelão militar nos comboios-hospital da Ordem de Malta, ao serviço do Eixo, através de uma carta de Maio deste ano, onde falou das atrocidades testemunhadas in situ na Polónia, Ucrânia e Alemanha. Ainda em relação ao regime Utasha, o representante “não oficial” (o beneditino Giuseppe Marcone) local relatou ao Vaticano em Julho da “iminente partida de judeus para uma morte certa“, algo que foi empolado por uma mensagem de um representante judaico de Zagreb. Ao mesmo tempo o mesmo se passaria em Paris, onde se estariam a concentrar judeus (principalmente checos e polacos radicados em França) para deportação, ao todo cerca de 13.000. Facto relatado por Valerio Valeri (núncio da França de Vichy) ao Secretário de Estado Maglione.
Em Junho chegam à imprensa mundial as atrocidades nazis e as intenções de Hitler de limpar a raça judaica da face da terra, com consequentes manifestações um pouco por todo o mundo. Pio XII é pressionado para actuar nos meses seguintes, sem resultados. Os meios diplomáticos andaram particularmente activos sobre o Vaticano, bombardeado com pedidos e sofrendo pressões dos mais diversos lados. Em Setembro, Monsenhor Montini (futuramente Paulo VI) escreve a Pio XII avisando que os “massacres sobre judeus atingiam proporções assustadoras“. Pouco tempo depois o Presidente americano Roosevelt envia um representante a Roma para falar com o Papa, avisando que uma não atitude do Vaticano sobre as atrocidades na Europa punha em causa o seu “prestígio moral“, algo que teve eco da parte de representantes de outros países. Mesmo assim não resultou, respondendo o Secretário de Estado Luigi Maglione que os “rumores de um genocídio não podiam ser verificados“. O representante americano Harold Tittmann pergunta em Dezembro a Maglione se o Vaticano emitiria algo à semelhança da declaração dos Aliados “Política Alemã de Extermínio da Raça Judaica”, respondendo este que o Vaticano “não estava disponível para denunciar atrocidades em particular“. Pio XII terá dito directamente a Tittman que não poderia mencionar os nazis sem mencionar também os bolcheviques. Madigan refere que o enviado americano a Roma, Myron C. Taylor, levou informações de liquidações em massa na Polónia. Nos tempos que se seguiram o Vaticano recebeu informação similar por via de outras fontes. Em inícios de Outubro Maglione teria informações do esvaziamento e deportação dos judeus dos guetos polacos.
Em Dezembro o representante diplomático britânico no Vaticano entrega ao Secretário de Estado um relatório pormenorizado das deportações e extermínio em massa de judeus por parte das autoridades nazis. Na noite de Natal, Pio XII (finalmente) condena a perseguição de judeus numa mensagem radiofónica: “A humanidade deve este voto para as centenas de milhares que, sem culpa própria, por vezes apenas por causa da sua nacionalidade e raça, estão marcados para a morte ou extinção gradual“. Esta indirecta de Pacelli pareceu tímida e até “neutra” para muitos, para além de tardia (mas causou algum azedume em Berlim). Tittman teve uma reunião com Pio XII poucos dias depois. O Papa terá perguntado se era ou não claro que se podia estar a referir a judeus e outras vítimas “apenas por causa da sua raça ou nacionalidade” no seu discurso. Tittman responde que muitos pensaram que tal “não era claro“, ficando o Papa aparentemente surpreso, explicando que não poderia referir os nazis sem referir os bolcheviques e que os relatórios dos Aliados acerca das atrocidades poderiam ter o seu fundamento, mas que também poderiam estar exagerados por motivos de propaganda.
Ainda interessante é o facto de em Agosto ter morrido em Auschwitz a freira carmelita Edith Stein, judia alemã convertida ao catolicismo durante os anos 30 e perseguida pelos nazis devido à sua etnicidade. É presa na Holanda e deportada para o campo de concentração polaco, onde insistiu em usar o hábito “pela conversão ao Catolicismo do povo hebreu“. Foi canonizada por João Paulo II em 1999, com controvérsia à mistura.
1943- Os alemães são derrotados e humilhados em várias frentes- União Soviética (Fevereiro) e África (Junho). Os Aliados entram na Sicília em Julho, derrubando o governo de Mussolini dois meses depois.
Segundo Madigan, a 12 Março a União dos Rabis Ortodoxos da América do Norte envia um telegrama urgente a Maglione após receber uma mensagem de Varsóvia. Mensagem esta que dava conta da liquidação iminente dos judeus do gueto local, pedindo desesperadamente para que se avisasse o mundo e apelando a uma intervenção oficial do Papa. Os mesmos rabis tentaram, duas semanas mais tarde e “com lágrimas nos olhos“, persuadir o representante apostólico em Washington, afirmando que o Santo Padre poderia pôr um fim ao flagelo com um apelo público. No mês seguinte chega ao núncio de Berna um relatório das actividades nazis sobre os judeus da Roménia, Polónia e Transnítria, embelezado com fotografias, algo inédito até então. No mesmo mês, uma carta de Pio XII ao Arcebispo de Berlim afirmava que “dia após dia” chegava conhecimento de mais e mais actos desumanos. Idem para Maglione que, em notas pessoais da mesma altura e separadas por poucas semanas, falou da deportação de judeus e da mais que provável aniquilação de uma considerável percentagem.

A Itália rende-se em Setembro e assina um armistício. Hitler desencadeia uma operação de ocupação e controlo do país (estando os Aliados na zona Sul da península), com desarmamento do exército local. Mussolini é preso mas recuperado por uma unidade especial do exército alemão, que o encaminha para a Alemanha. Os judeus italianos, que durante o tempo de Mussolini tinham ficado incólumes, iam agora ser deportados. A prisão de judeus era então a principal prioridade da Gestapo na península itálica nas semanas que se seguiram. De acordo com Martin Gilbert, no dia 9 de Outubro (dia sagrado para os judeus), cerca de cem foram deportados de Trieste para Auschwitz, morrendo todos. Porém, em Ancona, no mesmo dia, o rabi local foi avisado por um sacerdote católico (Don Bernardino), da “deportação iminente”, tendo-se conseguido salvar (muitos escondidos por famílias católicas) grande parte da comunidade, dos quais apenas 10 foram deportados (um sobreviveu). A 8 de Novembro parte de Florença um comboio com “destino desconhecido”, transportando judeus presos em Siena, Bolonha e Florença, do qual não se conhecem sobreviventes.
A 16 de Outubro, na capital Roma, as SS encurralam cerca de mil judeus (um sétimo do total), encaminhando-os dois dias depois para Auschwitz. Martin Gilbert indica que mais de quatro mil estariam protegidos em lares cristãos, conventos ou mosteiros, cerca de 477 dentro do próprio Vaticano. O envolvimento do Papa nesta operação é apontado como “indirecto” por uns e mais activo por outros. Na iminência de um bombardeamento Aliado na Roma ocupada, Madigan relata que Francis d’Arcy Osborne, representante britânico na Santa Sé, em resposta à ameaça de Pacelli de protestar publicamente contra esses eventuais bombardeamentos, terá dito “Em vez de só pensar no bombardeamento de Roma, a Igreja devia considerar a suas acções em relação à campanha de extermínio dos judeus“. Quando os raides aliados atingiram parte da Basílica de S. Lorenzo, Pio XII veio a público protestar (apenas) contra o atentado “aos tesouros sem preço da cidade“.

Ainda a respeito disto John Cornwell relata um curioso episódio. O Papa, na altura em que as SS entravam em Roma, era a única autoridade ainda em vigor. Foi pressionado pela diplomacia alemã (receando protestos da população e o agravar da situação com motins e insurreição à mistura) para emitir uma nota de protesto de maneira a evitar mais prisões de judeus e conter o avanço das SS. Pio XII recusou. Tittman visitou o Papa nesse mesmo dia, encontrando-o ansioso pelo facto dos “partisans comunistas” poderem tirar dividendos de um protesto papal, ao que se poderia seguir uma retaliação das SS e uma revolta dos civis. Apesar do Vaticano proteger muitos judeus nas suas fileiras, era estranho o silêncio e a aparente ausência de qualquer tipo de preocupação de Eugenio Pacelli por estas mil vítimas.
Uma mensagem do representante diplomático alemão em Roma durante o mesmo mês revelava: «o Papa ainda não se deixou persuadir para emitir uma declaração respeitante ao à deportação de judeus romanos… Como de momento os alemães não irão tomar mais medidas contra os judeus de Roma, os assuntos respeitantes às nossas relações com o Vaticano podem ser considerados fechados».
Harold Tittman fala de um encontro com Pio XII a 19 de Outubro. Na altura em que os nazis se preparavam para deportar 1000 judeus romanos, a grande preocupação do Papa era a “situação da comida“ em Roma, para além da intervenção de “pequenos grupos comunistas” entre a retirada dos alemães e a chegada dos Aliados à capital italiana. A respeito da presença nazi, Tittman afirma que Pio XII deu uma nota de certa maneira “positiva” aos germânicos, pois até à altura tinham “respeitado o Vaticano e a propriedade da Santa Sé em Roma”.
Tittman revela ainda algo interessante- que na altura da invasão o Secretário de Estado Maglione recomendou a destruição selectiva de documentos (algo que aconteceu e foi mesmo estendido às embaixadas locais) que pudessem comprometer o Papa, nomeadamente os que denunciariam as suas supostas actividades anti-nazis. O filho de Tittman, adolescente durante esta altura, falaria décadas mais tarde acerca da rede de protecção aos judeus de Roma.
1944- A deportação de judeus da Hungria cessa após pressões de vários países e organizações, onde Pio XII e o núncio local tiveram um papel importante. A 5 de Abril, 559 judeus de várias zonas de Itália são deportados para Auschwitz. Roma cai para o lado dos Aliados a 4 de Junho. Dois dias depois dá-se o acontecimento que vira o rumo da Guerra: o Dia D.
Os soviéticos vão avançando- Leninegrado (Janeiro), Odessa (Junho), Minsk (Julho), Bucareste (Agosto), Estónia (Setembro). Os Aliados também- Roma (Junho), Caen (Julho), Florença, Marselha e Toulon (Agosto), Antuérpia e Calais (Setembro), Atenas (Outubro) e Estrasburgo (Novembro).
Dois investigadores italianos relatam um encontro entre Pio XII e Francis D’ Arcy Osborne em Novembro deste ano. Os nazis recuavam mas ainda deportavam judeus para Auschwitz, neste caso húngaros. Osborne terá pedido para que o Papa emitisse um apelo em defesa dos judeus da Hungria, mas Pio XII terá dito que estaria sob pressão para condenar os actos do exército Vermelho contra católicos na Polónia e Estados Bálticos. Respondendo que não havia provas desses actos e que mesmo havendo, não se poderiam comparar com o que os nazis faziam aos judeus, Pio XII concordou, só que mesmo que fizesse esse apelo, não iria “criticar explicitamente os nazis“.
1945- O Exército Vermelho captura Varsóvia (Janeiro), Danzig (Fevereiro), Viena (Abril) e Praga (Maio). Os Aliados chegam a Arnhem, Hannover e Nuremberga em Abril. A Itália cai a 28 do mesmo mês. Mussolini é fuzilado em Dongo, sendo o seu corpo exposto mais tarde em Milão. Ao mesmo tempo, na capital alemã, Hitler redige o seu testamento no bunker de onde não sairia com vida. Suicida-se dois dias depois. Berlim rende-se a 2 de Maio, assim como tropas alemãs um pouco por toda a Europa. A Guerra dura apenas pouco mais de uma semana- sessenta milhões de mortos, dos quais 40 eram civis. Seis milhões de judeus, quase 27 milhões de soviéticos. O Japão rende-se em Agosto.
O êxodo de nazis e outros criminosos de guerra para fora da Europa intensifica-se por intermédio dos “canais” que passavam por vários sítios, entre Espanha e Odessa e onde membros da Igreja tiveram um papel importante, as Ratlines. O bispo Alois Hudal foi peça importante em toda esta máquina. Nomeado pela Secretaria de Estado do Vaticano como mediador para os presos alemães em campos (muitos deles andavam sem documentação e então protegidos pelo anonimato) um pouco por toda a Itália, ajudou criminosos de guerra a escapar para a América do Sul através de documentação falsa emitida pelo serviço de refugiados vaticanista, a Commissione Pontificia d’Assistenza,escondendo ainda alguns em conventos e mosteiros. Entre estes nomes destaca-se um dos obreiros do Holocausto, Adolf Eichmann, o chefe das SS no norte de Itália, Walter Rauff e o “anjo da morte de Auschwitz”, Josef Mengele.

Nomeado por Pio XI, Hudal (na foto), austríaco de nascimento, anti-comunista, anti-liberal e até anti-democracia representativa, afeiçoou-se ao nacionalismo alemão no início dos anos 30. Entra em rota de colisão com o Papa e o Secretário Pacelli em 1937, altura em que uma sua “não autorizada” publicação em relação ao Nacional-Socialismo é divergente da opinião da Igreja, agravando-se a situação quando sai a encíclica Mit Brennender Sorge. Apesar dos apelos da hierarquia para que mudasse as suas opiniões, Hudal é afastado das lides da Santa Sé a partir de 1938 e relegado para um cargo “inferior”. Quando os alemães invadem Roma em 1943, é apontado como informador e colaborador das SS, destacado para o norte do país. Há também quem diga que interveio a favor dos judeus, após um pedido do embaixador alemão em Roma, que temia que o Papa tomasse uma posição contra a ocupação germânica. As teses à volta das acções de Hudal divergem. Uns dizem que terá agido por conta própria, de acordo com a sua consciência política, mas o mais surpreendente de tudo e que eleva as suspeitas sobre o Vaticano acaba por ser a sua nomeação para lidar com os presos germânicos.
1946- Hudal foi o primeiro a fazê-lo, mas o maior canal de saída via Roma acabou por o de San Girolamo, organizado por franciscanos croatas, liderados pelo padre Krunoslav Draganović (também envolvido na lavagem de dinheiro retirado às vítimas do regime utasha). Com quartel general montado num colégio (mosteiro de San Girolamo degli Illirici) de Roma, organizavam as fugas através do porto de Génova, com ligações à Áustria, esconderijo de criminosos utashas e nazis. O esquema passava por fazê-los atravessar clandestinamente a fronteira Áustria-Itália, escondendo-os posteriormente em vários sítios, nomeadamente mosteiros, enquanto lhes arranjavam documentação. Tudo isto orquestrado por meia dúzia de padres.
O pior de tudo é que este esquema era uma espécie de classified information por entre os meios diplomáticos e serviços secretos de Roma. Em Julho, os serviços secretos americanos emitem um mandato de captura sobre nove criminosos de guerra dos balcãs, “que não estando escondidos no colégio de San Girolamo degli Illirici, estariam de qualquer maneira sob protecção da Igreja“. Um enviado britânico à Santa Sé pede autorização para revistar instituições ex-territoriais do Vaticano, recebendo como resposta a negação e que “o Vaticano não abrigava criminosos de guerra“.

1947- Os Estados unidos infiltram no mosteiro um agente secreto do Counter intelligence Corps e descobrem que dez colaboradores de Ante Pavelic viviam entre o colégio de San Girolamo degli Illirici e o Vaticano. O agente Robert Clayton Mudd põe o dedo na ferida, afirmando: «estes croatas viajam de e para o Vaticano várias vezes por semana num carro com chauffeur com matrícula diplomática (…) sujeito a imunidade diplomática, torna-se impossível de parar o carro e descobrir quem são os passageiros (…) O patrocínio de Draganović a estes croatas colaboracionistas definitivamente liga-o ao plano do Vaticano em proteger estes ultranacionalistas utashas até lhes adquirirem os documentos necessários. O Vaticano, apoiando-se no forte anti-comunismo destes homens, está a tentar infiltrá-los na América do Sul para conter a proliferação da doutrina Vermelha (…) Todas estas operações foram negociadas por Draganović devido à sua influência no Vaticano».
Os Americanos acabaram por usar esta Ratline para escoar criminosos de guerra nazis (nomeadamente cientistas) da Áustria, com medo que caíssem em mão soviética. Muitos foram parar à América, a centros de ciência militar.
1958- Quatro anos depois do seu estado de saúde se ter agravado, Pio XII morre a 9 de Outubro com a idade de 82 anos, sucedendo-lhe Angelo Giuseppe Roncalli, aka João XXIII. O pontificado dura 19 anos, 7 meses e 7 dias.
1963- Entra em cena a peça de teatro ”Der Stellvertreter, Ein christliches Trauerspiel” (The Deputy, a Christian tragedy) da autoria de Rolf Hochhuth, crítica de Pacelli. Retrata um Pio XII silencioso e hipócrita em relação ao Holocausto, mais preocupado com as finanças vaticanistas do que com a vida de milhares de inocentes.
1965- Paulo VI dá início ao processo de beatificação de Eugenio Pacelli. Em 1990 João Paulo II declara Pio XII “Servo de Deus”.
1999- É editado o (aclamado e criticado) livro de John Cornwell, “Hitler’s Pope” (O Papa de Hilter), que acusa Pacelli de ser anti-semita, passivo em relação ao Holocausto, mais preocupado com o poder da Igreja em si do que com a vida de milhares de pessoas. A tese central de Cornwell ataca também a pouca abertura no que toca a negociações com regimes comunistas (que perseguiam a Igreja), ao contrário das ditaduras fascistas emergentes.
2004- É editado o livro “Inside the Vatican of Pius XII: The Memoir of an American Diplomat During World War II” (Dentro do Vaticano de Pio XII: As memórias de um diplomata americano durante a segunda grande guerra). Harold Tittman morre em 1980 mas deixa uma grande quantidade de informação, à qual se acrescenta a do seu filho, adolescente durante a guerra. Defendendo que Pio XII não era apoiante dos nazis, afirma que uma intervenção directa do Papa contra as políticas de Hitler teria sido naquela altura mais problemática para a Europa. Fala de uma ligação de Pio XII à resistência alemã que o aconselhava a não falar directamente sobre as políticas nazis, assim como o facto do Papa manter uma conta bancária em Nova Iorque, a qual usaria para fins de caridade.
2007- A Congregação para a Causa dos Santos “reconheceu que Pio XII praticou as virtudes teologais e as virtudes humanas em grau de heroísmo, submetendo a Bento XVI a decisão de declará-lo Venerável”.
2010- Ratzinger declara Pio XII (e João Paulo II) como “veneráveis”, factor que precede a sua elevação à santidade. Nos últimos anos ouvem-se várias histórias. A que mais se destaca é o alegado plano de Hitler invadir o Vaticano e de tomar Pio XII como refém, na altura (1943) em que Roma foi ocupada, facto atestado por Cornwell, após encontrar um documento secreto nos arquivos jesuítas de Roma. Nesse documento vem expresso um juramento de Karl Wolff (comandante das SS na altura da ocupação da cidade romana), em que afirma que Hitler lhe pedira para transferir o Papa e tesouros do Vaticano para o Lieschenstein, plano que entretanto foi posto de lado.
Fontes
Wikipedia: Pope Pius XII; Tratado de Latrão; Francesco Pacelli; Non abbiamo bisogno; Pope Pius XI; Mit brennender Sorge; Hitler’s Pope; Ludwig Kaas; Reichskonkordat; Divini Redemptoris; Humani Generis Unitas; Summi Pontificatus; Ustaše; Ante Pavelic; World War II; Edith Stein; Ratlines; Alois Hudal; Krunoslav Draganović; Reorganization of occupied dioceses during World War II; Pope Pius XII and Poland; Alleged plot to kidnap Pope Pius XII; Einsatzgruppen; The Deputy.
Yallop, D.; “Em nome de Deus“, Publicações Dom Quixote; Lisboa, 2008.
Gilbert, M; “A Segunda Guerra Mundial“; Publicações Dom Quixote; Alfragide, 2009.
“What the Vatican Knew About the Holocaust, and When“; artigo de Kevin Madigan; 2001.
“Pius XII and the Holocaust” Kevin Madigan & Critics.
“Hitler’s Pope (Abridged)” artigo de John Cornwell; Vanity Fair, Outubro de 1999.
“The Unsilent Pope“, crítica ao livro de Harold H. Tittmann, Jr. “Inside the Vatican of Pius XII: The Memoir of an merican Diplomat During World War II” William Doino, Jr. and Joseph Bottum.
“Much-maligned pontiff“, artigo de Dimitri Cavalli; Haaretz, Janeiro 2010.
“Wartime Pope Pius XII ‘more concerned about Communism than Holocaust’“, artigo de Nick Squires; Daily Telegraph, Fevereiro 2010.
Outros artigos relacionados:
Rui,
Então e a “isenção” do Pio XII durante a Guerra Fria? Esse hiato entre 1947 e 1958 é um bocadinho conveniente. Investiga lá isso para toda a gente perceber que esse menino era um político NATO (literalmente!) e manhoso.
A postura de sonso que ele praticou durante a II Guerra só engana quer quer ser enganado.
Abraços
É exactamente a minha opinião sobre ele. Um rato de sacristia à escala mundial. Por acaso concentrei-me mais na 2ª GM, mas posso adicionar um capítulo da guerra fria no futuro.
Exactamente Rui,
Com esta ideia de se focar demasiado em Pio XII durante a 2ª GM, esquece-me muito da porcaria que ele fez para trás (do apoio dado à ala nazi e a todos os fascizóides durante a sua “fase diplomática”) e muito da porcaria que fez para a frente durante a sua “fase pia e anti-comunista” (tanta que foi necessário convocar o Concílio Vaticano II para limpá-la).
Assim, o que sobressai, é o pobrezinho Pio, acantonado no seu Vaticanozinho, atacado por malandros de todos os lados durante a GM.
Uma coisa é certa: este gajo era um cínico ardiloso e soube representar bem o seu papel de vítima.
http://www.youtube.com/watch?v=Jr5Q5Volv88
Só uma rápiddinha, estou mesmo apertado de tempo, para citar 3 factos indesmentíveis nesta matéria: O facto de o Vaticano ser o único “país” que ainda não abriu os arquivos do tempo da WWII; o facto da comissão católico-judaica criada para investigar o assunto ter suspendido os seus trabalhos por o Vaticano apenas facultar os seus arquivos até 1923!!!!! http://www.jcrelations.net/pt/?id=1770 ; o facto de ainda serem precisos mais 5 anos para abrir os arquivos que é o tempo que necessitam para apagar aquilo que os compromete. E finalmente o facto de que “quem não deve, não teme”…
vaticano nao abre pq sabe ke tem provas comprometedoras!
comissao catolico-judaica?? como se a kestão so girasse em torno de catolicos e judeus… Anedota issot
Parte I
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Em primeiro lugar, uma palavra de apreço por este “post”. Está relativamente objectivo (podia estar mais, mas é um bom começo) e revela, que eu saiba pela primeira vez num site ateísta português, dados importantes para uma valoração positiva de Pio XII:
a) o passado diplomático entre a Santa Sé e a Alemanha: sem se conhecer e compreender toda a série de tratados concordatários entre a Santa Sé e os vários estados alemães, não se tem contexto para compreender a concordata com o Terceiro Reich
b) o papel de Pacelli na preparação da encíclica antifascista “Non abbiamo bisogno”
c) a importância da “Summi Pontificatus”
d) o protesto público de Pio XII contra a invasão da Bélgica e dos Países Baixos, que causou a indignação de Mussolini
e) a destruição de documentos no Vaticano, na iminência da entrada dos alemães em Roma (que teria a Santa Sé a esconder dos alemães?)
f) a contratação de intelectuais judeus para os salvar das leis persecutórias do regime fascista
g) a colaboração de tantos sacerdotes e bispos na protecção dos judeus
h) a operação de ocultamento dos judeus de Roma (a larga maioria) em seminários e conventos romanos, por ordens do Papa
i) a forte crítica a John Cornwell e à sua obra, e a retractação recente do próprio Cornwell
Por tudo, isto o “post” do Rui é uma lufada de ar fresco.
No entanto, com a leitura deste texto, ainda se fica com uma imagem bastante depreciativa do Papa. E essa imagem, eu sustenho que se deve a mal-entendidos e propaganda, pois os factos não permitem traçar uma má imagem de Pio XII. Poderia ter feito mais e melhor? Penso que o próprio, por humildade, diria que sim. Mas é justo que Pio XII receba todas as críticas que recebe, contra todos os factos claros da História, só porque há pessoas que detestam a Igreja e o Papado, e que se deixam levar pela propaganda? Não me parece justo… E esta injustiça tem sido detectada por vários judeus, que de forma corajosa têm levantado a sua voz em defesa de Pio XII (Pinchas Lapide, David Dalin, entre muitos outros).
Através de vários comentários, dos quais este é apenas uma primeira parte, irei tecer algumas críticas ao “post” do Rui, e na generalidade, às teses dos adversários de Pio XII.
Gostava de o fazer noutro contexto. Tenho em projecto, desde 2004, um trabalho histórico sobre Pio XII. Esse projecto avança a ritmo de caracol. Material não me falta. Falta-me tempo e capacidade de concentração e organização.
Mas para já, vou procurar fazer o que está ao meu alcance…
O que advogam os inimigos de Pio XII?
Várias coisas…
Talvez a coisa mais grave seja a acusação que fazem ao mau carácter do Papa. Alguns acusam-no de ser amigo dos nazis e dos fascistas (ou pelo menos “neutro” em relação ao nazismo e ao fascismo). Outros acusam-no de ser anti-semita, de não se preocupar com os judeus.
Penso que estas são as acusações mais graves.
Também há uma série de acusações acerca de algumas das suas decisões. No entanto, pode-se fazer uma crítica à “política” do Papa sem se criticar a “moral” do Papa. Ou seja, numa vertente mais “light”, pode-se criticar a estratégia do Papa, sem duvidar das suas boas intenções.
O mais importante é limpar primeiro as acusações ao carácter do Papa.
Nada como ouvir a opinião dos Aliados acerca do Papa:
Harold Tittmnan Jr., no livro que o Rui refere, foi testemunha em primeira mão dos acontecimentos, pois esteve destacado em Roma durante os anos quentes da Guerra como “chargé d’affaires” do representante de Roosevelt, o industrial Myron Taylor. Tittmann profere uma conferência na Universidade de St. Louis, em 1961, onde diz o seguinte:
«One of the jobs Allied diplomats including myself undertook during the war was to persuade the Pope to come out in the open and denounce Hitler and the Nazis by name. We thought the Holy Father would eventually comply with our request because we knew that he detested the Nazi ideology and everything it stood for. But he never did» – Tittmann, op. cit. p. 124 (o negrito é meu).
O ódio de Pio XII face ao nacional-socialismo, o vivo repúdio que ele (e qualquer pessoa decente) tinha pelo racismo de Hitler, não é compatível com a sua concordância, ou apoio, às chamadas “ratlines”, referidas no texto do Rui. É quase certa a participação do bispo austro-húngaro Hudal no processo, mas não há nem nunca houve qualquer prova de colaboração, permissão, ou apoio das actividades subterrâneas de Hudal por parte da Santa Sé. Aliás, a própria personalidade de Hudal é estranha e complexa, pois há inúmeros episódios nos quais o dito Hudal age em favor dos judeus. É preciso ter em consideração que o Papa resolveu “puxar” Hudal para fora do teatro político, metendo-o em Roma, em Santa Maria delle Anime, precisamente para evitar que ele fizesse das suas… Mas adiante…
O silêncio de Pio XII é um facto. O próprio Pio XII fala por vezes do dilema do silêncio. Eis o que ele próprio diz acerca do seu silêncio:
«Onde o Papa queria gritar alto e bom som, é infelizmente a expectativa e o silêncio que lhe são frequentemente impostos; onde queria agir e ajudar, é a paciência e a necessidade de esperar [que se impõem]»
- 20 de Fevereiro de 1941, citado por Pierre Blet, “Pio XII e a Segunda Guerra Mundial”, Principia, Cascais, 2001.
É preciso entender este silêncio.
Em primeiro lugar, não se trata de um silêncio absoluto:
a) vários bispos falaram (e um bispo, antes de falar em nome da Igreja em matéria grave, subentende-se que tenha a autorização do Papa): os bispos da Holanda e da Dinamarca apenas conseguiram, com os seus vivos e explícitos protestos, levar à deportação dos judeus baptizados, juntamente com o resto dos judeus; em França, os protestos dos bispos tiveram consequências menos graves: os judeus foram deportados, mas os baptizados não
b) a Rádio Vaticana, sob orientação dos Jesuítas, fez várias emissões muito críticas nos primeiros dias após a invasão da Polónia: da Polónia chegaram imediatamente pedidos dos bispos a pedir que as emissões parassem IMEDIATAMENTE, pois as deportações tinham aumentado de escada em sinal de retaliação pelas ditas emissões; contrariado, o Papa mandou calar as antenas
c) as mensagens de Natal, bem duras e claras, sobretudo a de 1942, e as suas fortes encíclicas anti-racismo, serão silêncio?
Mas que o Papa não falou tudo o que tinha para falar É UM FACTO.
Como se entende esse facto?
O próprio Papa dá várias razões aos Aliados. Tittmann regista algumas dessas razões:
a) o Papa alegava que, para condenar os nazis, tinha que condenar também os comunistas (os crimes eram igualmente hediondos); só que Roosevelt estava numa fase em que tinha a URSS como aliada contra o Eixo, e pediu, via Taylor, ao Papa que este não dissesse nada que pudesse irritar o novo “aliado” soviético;
b) o Papa alegava que os protestos públicos nunca tinham salvo ninguém (é um facto)
c) o Papa alegava que as pressões junto do Terceiro Reich nunca cessaram (Weisacker, embaixador do Reich na Santa Sé, era chamado pelo Papa para “levar na cabeça” com alguma regularidade; os bispos alemães, alinhados com o Papa, faziam uma frente que queixas regulares, faltavam a cerimónias oficiais, faziam o que podiam e o que não podiam)
d) o Papa alegava que não podia alienar os católicos alemães; do fundo da sua experiência de largos anos na Alemanha, Pacelli sabia bem que os católicos alemães, no seu eufórico suporte a Hitler, não estavam em condições psicológicas para distinguir uma crítica moral de uma crítica política: os católicos alemães, que não ligaram grande coisa à mensagem moral da “Mit brennender sorge”, iriam provavelmente ver um protesto explícito do Papa como um ataque à Alemanha como nação
Estas e outras razões surgem referidas por Tittmann, num memorando que ele preparou em Setembro de 1942 para os seus superiores, no seu livro, das páginas 118 à 120.
Estas são as razões “clássicas” para o silêncio.
Longe de mim querer minimizá-las: são excelentes razões.
Tittmann, ele mesmo, dá o benefício da dúvida ao Papa, alegando que o Pontífice estava em óptimas condições para decidir o que fazer ou não fazer:
«To the wealth of information in the archives on similar situations garnered by the Vatican over the centuries, and to the help of expert historians using these archives, Pope Pius XII was able to add his unusual personal knowledge of the Nazi and German character. There was much inside information available to the Pontiff from secret sources. Who could have been more qualified than this Pope to decide under the circumstances?» – Tittmann, op. cit., p. 123.
Mas há mais… Oh se há…
No mesmo livro do Tittmann, que o Rui leu, encontra-se, mesmo nas últimas páginas, a razão que me parece ser a central para explicar o silêncio de Pio XII. Num memorando, datado de 6 de Junho de 45, e endereçado ao seu superior Myron Taylor, Tittmann escreve:
«Dr. Mueller said that during the war his anti-Nazi organization in Germany had always been very insistent that the Pope should refrain from making any public statement singling out the Nazis and specifically condenmning them and had recommended that the Pope’s remarks shoud be confined to generalities only.» – Tittmann, op. cit., p. 213
E agora?
Como se explica isto?
O próprio Joseph Mueller, figura central da oposição alemã a Hitler, e dos poucos felizardos dessa oposição a ter escapado com vida, afirma peremptoriamente que o silêncio, ou a não explicitação das mensagens papais, fazia parte do plano conspiratório da oposição alemã. Como se explica?
Talvez seja preciso evocar a obra do especialista norte-americano, o Prof. Harold C. Deutsch, da Universidade do Minnesota, que data de 1968, “The conspiracy against Hitler in the Twilight War – An account of the German Anti-Nazi plot from September 1939 to May 1940 and the role of Pope Pius XII”:
http://books.google.pt/books?id=JFOF64Vcx_QC
O livro está no site Google Books, como se pode ver.
Sugiro que alguns trechos importantes deste livro sejam aqui citados pelo Rui, para se ter acesso a este dado FUNDAMENTAL acerca da estratégia de silêncio de Pio XII.
É que esta obra explica tudo o que há para saber sobre o “segundo round” de conspirações contra Hitler, durante o qual o papel de Pio XII foi crucial, mesmo apesar de o plano para depor Hitler ter falhado.
A estratégia da oposição era clara, e entende-se nesse contexto que pedissem ao Papa para evitar o uso desnecessário da palavra: a oposição, escassa, mal-organizada, receosa e frágil, tinha perante si o enorme desafio de convencer toda uma nação eufórica de que Hitler era um bandido a abater. E a pior coisa que poderia suceder, para essa oposição, era que Pio XII fosse visto como inimigo da Alemanha, porque amigo dos inimigos da Alemanha. Isso poderia alienar os católicos alemães (pela sua formação moral, eram aliados potenciais dos conspiradores), que facilmente deixariam de confiar nas boas intenções da Santa Sé para servir de intermediário junto dos Aliados para que se reconhecesse diplomaticamente um futuro governo de transição, a surgir após o golpe de Estado contra Hitler.
Quem não sabe do que falo, e mesmo assim se atreve a comentar este tema, deve calar-se e ir imediatamente ler o livro do Harold Deutsch.
Digo isto com alguma aspereza, porque apesar de eu mesmo ser um investigador amador, sem formação em História, acho de um atrevimento imenso quem fala sobre coisas que desconhece, e faz juízos morais potencialmente injustos sem estar na posse dos dados relevantes. Daí também o meu imenso receio em me pronunciar sobre este tema, sem fundamentar as minhas razões e fontes.
Atempadamente, mais comentários meus se seguirão, apontando contra-argumentos ao que é dito pelo Rui em certas passagens mais polémicas.
O que eu acho que falta mesmo a muitos críticos de Pio XII é CONTEXTO.
Fora do contexto, podemos ser levados a acreditar em mentiras. A falta de informação faz-nos mais sensíveis à propaganda.
Bernardo Motta
(continua)
esse video destroi seus argumentos!
http://www.youtube.com/watch?v=Jr5Q5Volv88
Parte II
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Antes de principiar esta segunda parte de contra-argumentação, queria evocar a demolição das teses de John Cornwell, feita pelo historiador Bruno Cardoso Reis, na revista Análise Social, n.º 157, Volume XXXV, 2000, e que se encontra disponível na íntegra aqui:
http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223992916O7jAO7xj4Ps37OF6.pdf
Diz Cardoso Reis:
«Ora, o livro de Cornwell bem necessita de uma leitura crítica. Desde logo, porque, ao contrário do que afirmam os comentários elogiosos, o livro não assenta numa pesquisa exaustiva da importante sé-
rie de trabalhos de outros historiadores sobre a questão da política externa vaticana durante a segunda guerra mundial, e menos ainda num trabalho profundo e original de recolha e análise de fontes.
Se o autor tivesse, pelo menos, tido em devida consideração a bibliografia que cita, isso bastaria para ter evitado muitos dos erros factuais graves ou das estranhas omissões de que a obra padece. Mas, para além disso, Cornwell ignora ainda, total ou parcialmente, autores importantes e com obras recentes a
respeito da política externa papal, como sejam Andrea Riccardi, Robert Graham (menciona apenas um livro
e um artigo do autor que mais exaustivamente investigou o Vaticano durante a segunda guerra mundial) e
Annie Lecroix-Riz, a par de uma série de outros trabalhos em língua francesa.»
Cardoso Reis aponta, como prova do amadorismo de Cornwell, o facto de que ele nem sequer se socorreu de historiadores encartados que o poderiam ter ajudado a fortalecer o seu ataque a Pio XII, como Annie Lecroix-Riz. Cardoso Reis é particularmente duro com Cornwell, por ter ocultado dos leitores alguns factos críticos para se ter o contexto de toda a questão:
«E aqui surge uma das várias estranhas omissões da obra Hitler’s Pope. Na antologia vaticana de do
cumentação sobre a segunda guerra mundial, que Cornwell menciona na sua bibliografia, existe todo um volume dedicado às relações com os bispos polacos. Como se sabe, a Polónia, e apenas um pouco menos do que a Rússia ocupada, foi particularmente visada pelo terror nazi, como parte da zona eslava que Hitler pretendia colonizar com alemães de acordo com a sua teoria racial e do Lebensraum (espaço vital). Essa repressão particularmente dura visava sobretudo eliminar as elites dessas regiões. A Igreja católica polaca foi muito visada, com muitos padres a serem sumariamente executados ou internados em campos de concentração. Ora, como mostra esse volume documental, vieram do episcopado polaco in loco (e do da Lituânia sob ocupação soviética entre 1939 e 1941) sucessivos apelos no sentido de que parassem as condenações explícitas vaticanas sobre a repressão nessas zonas. E isto porque elas eram consideradas pelos bispos não só inúteis — não afectavam as acções dos nazis e não chegavam às populações —, mas até contraproducentes, pois pareciam acirrar a repressão e tornavam mais difícil a posição dos bispos na defesa da população e da Igreja, visto que deparavam com o argumento de que
essas declarações mostravam como o catolicismo era inimigo da Alemanha e do nazismo. Ora, embora Cornwell registe as referências explícitas por parte de Pio XII à Polónia, em 1939, como um exemplo de que nem sempre ele observava um rígido silêncio, ignora, como se fosse irrelevante para a sua tese, a mudança da política papal que logo a seguir se verificou e que mostra que a política de condenações não nominais abrangeu também as catolicíssimas Polónia e Lituânia precisamente pela razão — de ponderar se não seriam contraproducentes do ponto de vista das vítimas — que o autor britânico descarta como improcedente.»
Vale a pena ler este artigo de Cardoso Reis na totalidade… Pelo menos, serve para arrumar um bocado as ideias, que saem forçosamente baralhadas e distorcidas após a leitura do “Hitler’s Pope”.
Um facto importante a referir, no que diz respeito ao período de Pacelli na Alemanha, antes de ser Papa, é a sua constante e firme oposição ao nacional-socialismo. Do período de permanência na Alemanha (desde ser nomeado núncio na Baviera em 1717 até à sua nomeação como Secretário de Estado em 1729-30), há a destacar que Pacelli fez 44 discursos públicos. Desses 44 discursos públicos, 40 atacavam doutrinas nacional-socialistas. Exacto: 40 em 44 discursos públicos!
(fonte: relatório do Congresso “Examining the Papacy of Pope Pius XII – September 15-17, 2008″, pág. 36, Pave The Way Foundation)
Não é de espantar que a propaganda nazi pintasse Pio XII na pior luz possível como sendo um inimigo do Reich:
http://4.bp.blogspot.com/_g_qXXK7DGE4/RikiX4tNjkI/AAAAAAAAA5Q/or_kB21jy7s/s400/pacelli22July19371.JPG
Na sua edição de 11 de Novembro de 1938, o Volkischer Beobatchter, o jornal do NSDAP, dá conta de vinte manifestações públicas “contra a Judiaria Mundial e os seus aliados negros e vermelhos”.
Trocado por miúdos: os aliados “negros” são a Igreja Católica, e os aliados “vermelhos” são os soviéticos.
Na foto que “linkei” atrás, a mulher ao lado de Pacelli representa o Comunismo.
Não é para menos, pois já em Setembro de 1930, a igreja alemã deixava claro, em normas tornadas públicas pelo ordinariato de Mainz, que:
1) Os católicos estavam proibidos de se alistar no NSDAP
2) Os membros do NSDAP não estavam autorizados a participar como grupo em funerais (religiosos)
3) Um católico que insistisse em permanecer membro do NSDAP estava proibido de aceder aos Sacramentos
Para os mais distraídos, a terceira alínea significa excomunhão.
Para bom entendedor, isto quer dizer que toda a malta do NSDAP baptizada na Igreja Católica estava, “ipso facto”, excomungada. Sim, incluindo o “big boss”. Sendo Hitler baptizado, como é que ele poderia escapar a esta interdição sacramental? Hitler estava literalmente excomungado. Em direito canónico, ele, e todos os membros do Partido, estavam excomungados “latae sententiae”, ou seja, sem sentença formal emitida em tribunal canónico. Mas estavam excomungados à mesma.
Esta questão fica clara, preto no branco, na conferência episcopal alemã, em Fulda, em Agosto de 1932, na qual todas estas interdições são colocadas por escrito e em modo detalhado.
Mas o ponto central que eu quero fazer com esta Parte II é apenas este: Pio XII não era racista nem anti-semita, nem sequer amigo dos nazis. Detestava-os como eles o detestavam.
Para encerrar esta parte II, queria pegar num episódio que o Rui foi buscar ao Cornwell. Escreveu o Rui…
«Relatando o episódio numa carta endereçada ao seu superior hierárquico (presente nos arquivos do Vaticano), o Secretário de Estado Pietro Gaspam, revela um certo azedume contra os judeus na descrição que fez dos revolucionários e do seu chefe, Eugen Levine, grupo que se tinha entretanto instalado no palácio presidencial. Fala de um “gangue de jovens mulheres de aparência dúbia, judias como o resto deles, andando pelos escritórios do palácio com um comportamento provocante“, refere-se à líder deste grupo como a “amante de Levine, judia e divorciada“.»
Este episódio é bem conhecido, e a trapaça que Cornwell cometeu neste episódio é bem conhecida dos especialistas. Vejamos, por exemplo, o que o rabi David Dalin diz sobre a “leitura” tão criativa que Cornwell fez deste episódio…
«Pacelli wrote a letter to Rome recounting Schioppa’s meeting with Levine. In Hitler’s Pope, John Cornwell translates a few carefully selected sentences from his letter, attempting to prove that Pacelli was anti-Semitic. The carefully selected passage, as translated by Cornwell (and accepted uncritically by his fellow critic of Pius XII, Daniel Jonah Goldhagen), is as follows:
“A gang of young women, of dubious appearance, Jews like all the rest of them, hanging around in all the offices with lecherous demeanor and suggestive smiles. The boos of this rabble was a young Russian woman, a Jew and a divorcee (while their chief) is a young man of about 30 or 35, also Russian and a Jew. Pale, dirty, with vacant eyes, hoarse voice, vulgar, repulsive, with a face that is both intelligent and sly.”
To Cornwell, these words (reflecting Schioppa’s observations) prove that Pacelli was an anti-Semite. The use of the words “Jew” and “Jews”, together with unflattering descriptions of the revolutionaries, Cornwell suggests, gives an impression of “stereotypical anti-Semitic contempt”.
In truth, however, as scholar Ronald J. Rychlak has pointed out, this translation “is grossly tendentious”, using pejorative words that imply anti-Semitism, instead of neutral ones that are more true to the original Italian. For example, the most damning phrase in the translation, “Jews like all the rest of them” is a distorted, unquestionably innacurate translation of the Italian phrase “i primi”. The literal translation would be “the first ones” or “the ones just mentioned”. Similarly, the Italian word “schiera” is translated by Cornwell as “gang” instead of “group” which would be both more accurate and appropriate. Furthermore, the Italian “gruppo” should likewise be translated as “group”, not “rabble”.
Pacelli’s letter, it should be noted, is six pages long, but Cornwell quotes only two paragraphs describing “a chaotic incident at a former royal palace taken over by revolutionaries”. While these paragraphs might lead one to assume that everyone at the palace is being described as a Jew, that is clearly not the case when the entire letter is read. Indeed, read in its entirety, the letter is not anti-Semitic. Rychlak, in my view, is correct in saying that the tone of anti-Semitism is introduced “deliberately… by Cornwell’s dubious translation“.» (negrito meu)
Rabbi David Dalin, “The myth of Hitler’s Pope”, 2005, pp. 52-54.
Acho que este texto do Rabi Dalin dispensa comentários adicionais acerca do “episódio anti-semita” de Munique…
E por agora é tudo!
Vou tentar continuar a contra-argumentar ponto a ponto, dedicando cada parte que se seguirá a uma afirmação polémica que conste do trabalho do Rui.
Bom fim-de-semana para todos!
Bernardo Motta
(continua)
Motta… rebata o video!!!
Steve,
O que é que há para rebater numa porcaria mal-feita, numa montagem que um miúdo fez em casa com o Adobe Premier?
Vá… Hoje estou generoso… Vou dar-lhe umas pistas:
1) A saudação nazi (ou fascista) era a saudação oficial ao Chefe de Estado do Terceiro Reich; era obrigatório fazê-la
2) Fazer essa saudação não implica que as pessoas que a fizeram sejam nazis ou especialmente amiguinhas do Hitler. Basta o meu amigo deixar o Youtube por uns minutos e aplicar-se a ler com atenção a documentação oficial entre a Santa Sé e os bispos alemães, documentação essa disponível na colecção “Actes et Documents du Saint-Siège relatifs à la Seconde Guerre Mondiale”, e verá como vários bispos manifestavam, em carta cifrada dirigida a Roma (sim, cifrada, porque o Reich procurava controlar todo o correio), não só o seu medo do governo nazi como o seu nojo do mesmo governo.
3) Já aceitando o facto de que havia uma minoria de bispos e padres nazis (na Alemanha, na Áustria, etc.), e até aceitando que algumas das caras que surgem no vídeo (o autor do vídeo não refere fontes: é um trabalho rasca e sem qualidade documental) até poderiam ser realmente amigos dos nazis, resta perceber onde é que esse vídeo PROVA que o Papa Pio XII fosse também ele nazi ou amigo deles!
Tenha um bom fim-de-semana, de preferência a ler obras de jeito sobre este tema.
Bernardo Motta
“O que é que há para rebater numa porcaria mal-feita, numa montagem que um miúdo fez em casa com o Adobe Premier?”
claro claro…. tudo ke compromete a igreja é porcaria!!!
“1) A saudação nazi (ou fascista) era a saudação oficial ao Chefe de Estado do Terceiro Reich; era obrigatório fazê-la”
sei.. esqueceu de dizer que o clero ajudou vários fascistas a subirem ao poder….
“2) Fazer essa saudação não implica que as pessoas que a fizeram sejam nazis ou especialmente amiguinhas do Hitler. Basta o meu amigo deixar o Youtube por uns minutos e aplicar-se a ler com atenção a documentação oficial entre a Santa Sé e os bispos alemães, documentação essa disponível na colecção “Actes et Documents du Saint-Siège relatifs à la Seconde Guerre Mondiale”, e verá como vários bispos manifestavam, em carta cifrada dirigida a Roma (sim, cifrada, porque o Reich procurava controlar todo o correio), não só o seu medo do governo nazi como o seu nojo do mesmo governo.”
sei sei… eu acredito em você da mesma forma ke creio em Pai Natal….
“3) Já aceitando o facto de que havia uma minoria de bispos e padres nazis (na Alemanha, na Áustria, etc.), e até aceitando que algumas das caras que surgem no vídeo (o autor do vídeo não refere fontes: é um trabalho rasca e sem qualidade documental) até poderiam ser realmente amigos dos nazis, resta perceber onde é que esse vídeo PROVA que o Papa Pio XII fosse também ele nazi ou amigo deles!”
SIM CLARO… PADRES NAZIS KE JAMAIS FORAM CONDENADOS PELO PAPA!!! Q PAPA TÃO GENEROSO….
VEJJA VIDEO TODO E VERA KE PIO É CULPADO
Tenha um bom fim-de-semana, de preferência a ler obras de jeito sobre este tema.
Bernardo Motta
Caro Steve,
Com todo o respeito, não me parece que estejamos a jogar na mesma liga.
Eu não peço muito: apenas que os meus interlocutores:
a) saibam escrever em português
b) citem as suas fontes
Cumprimentos,
Bernardo
e suas fontes são bem imparciais!! hahahahahahaha!!
Olá Bernardo,
Como já disse atrás, estou mesmo apertado de tempo, não posso fazer um comentário tão exaustivo como merece o do Bernardo, o que é uma pena pois também sou grande apreciador destes quiosques. Mas como sei que é um apreciador do rigor histórico, permita-me apenas que deixe aqui umas pequeninas ironias:
sucessivos apelos no sentido de que parassem as condenações explícitas vaticanas
Vamos lá ver: os bispos polacos pediram para o Pio não soltar um pio… O Pio obedeceu; deve ter sido por isso, que em reconhecimento da sua pia obediência, que a igreja polaca esteve de relações cortadas com o Vaticano desde o fim da guerra até 1989! Ingratos…
40 atacavam doutrinas nacional-socialistas….
Claro que atacavam. Devem ter atacado como em 1942, após Hitler ter pensado que tinha derrotado a Rússia, na sua mensagem de Jubileu, o Pio papa apressou-se a declarar que se tinha cumprido a primeira das exigências da nossa (vossa) senhora de Fátima, “consagrando o mundo inteiro ao seu Imaculado Coração”. O Cardeal Cerejeira, nesse mesmo ano, também as atacou: “as aparições de Fátima abrem uma nova era… é o delinear do que o Imaculado Coração de Maria está preparando para o mundo inteiro”.
em Setembro de 1930…Os católicos estavam proibidos de se alistar no NSDAP
Proibidíssimos! Deve ter sido por isso que 3 anos mais tarde os bispos e padres católicos ficaram obrigados a prestar juramento de fidelidade ao Reich, (conforme o art. 16 da concordata) assinada no mesmo ano em que o Partido Católico Alemão foi forçado a votar em Hitler nas últimas eleições gerais da Alemanha…
a terceira alínea significa excomunhão
Deve ter sido por isso, que da elite nazi 100% composta por cristãos devotos, o único que foi excomungado de facto foi o Goebbels, por se ter casado com uma divorciada. Mas em 1948 ele sentiu necessidade de excomungar formalmente qualquer pessoa que votasse nos comunistas. Aos nazis bastou a excomunhão “latae sententiae”… Honi soil qui mal y pense!
Pio XII não era racista nem anti-semita
Nadinha…Deve ter sido por isso que no fim da guerra pediu ao embaixador inglês junto do Vaticano, que não deixasse ficar estacionadas em Roma tropas de raça… negra! Não deixa de ser curioso que sendo Cornwell tão mau historiador e tradutor, tenha sido convidado pelo próprio Vaticano, para escrever um livro acerca da morte de JPI, que refuta a teoria de David Yallop. Que raio de pessoa eles se haviam de lembrar…
(continua…
Olá Xiquinho!
Tudo bem?
«Vamos lá ver: os bispos polacos pediram para o Pio não soltar um pio… O Pio obedeceu; deve ter sido por isso, que em reconhecimento da sua pia obediência, que a igreja polaca esteve de relações cortadas com o Vaticano desde o fim da guerra até 1989! Ingratos…»
Não entendo a observação. Sabe que, no rescaldo da Guerra e até 1989 a Polónia era comunista, certo?
De que igreja polaca fala? Da perseguida?
«Claro que atacavam. Devem ter atacado como em 1942, após Hitler ter pensado que tinha derrotado a Rússia, na sua mensagem de Jubileu, o Pio papa apressou-se a declarar que se tinha cumprido a primeira das exigências da nossa (vossa) senhora de Fátima, “consagrando o mundo inteiro ao seu Imaculado Coração”. O Cardeal Cerejeira, nesse mesmo ano, também as atacou: “as aparições de Fátima abrem uma nova era… é o delinear do que o Imaculado Coração de Maria está preparando para o mundo inteiro”.»
Hã?
Pode ser mais claro? O que é que está a criticar aqui?
«Proibidíssimos! Deve ter sido por isso que 3 anos mais tarde os bispos e padres católicos ficaram obrigados a prestar juramento de fidelidade ao Reich, (conforme o art. 16 da concordata) assinada no mesmo ano em que o Partido Católico Alemão foi forçado a votar em Hitler nas últimas eleições gerais da Alemanha…»
Esta é fácil:
1) O juramento de fidelidade, conforme o artigo 16 da Concordata, é ao Reich, e ao governo constitucional eleito, e não às políticas nazis e ao seu ditador; parece-me lógico que, num acordo diplomático como é uma concordata, as figuras da igreja alemã concordassem respeitar as instituições do estado e o governo legitimamente eleito (por muito que custe, Hitler venceu as eleições de forma legítima); esse juramento não tem força moral, e isso vê-se facilmente nos artigos do Osservatore Romano que Pio XI mandou publicar logo a seguir à assinatura da Concordata, quando Hitler queria tirar peso moral da Concordata, e Pio XI fez tudo para o evitar; o artigo 16 não impedia, nem impediu, protestos morais contra as políticas raciais de Hitler; o respeito a um estado não obriga a faltar às obrigações morais;
É o que acontece aqui em Portugal: o respeito da Igreja pelo estado e pelos governos de Portugal não a obriga a calar-se perante graves crimes morais, como o do aborto. Claro que, aqui, os críticos da Igreja têm dois pesos e duas medidas: querem uma Igreja aos gritos, na Segunda Guerra, face aos crimes nazis, mas querem uma Igreja caladinha, face aos crimes modernos do aborto.
2) «Partido Católico Alemão foi forçado a votar em Hitler nas últimas eleições gerais da Alemanha»
Esta expressão quase que parece que foi o Vaticano a obrigar ao voto em Hitler… Mas tenho a certeza de que o amigo Xiquinho, bom leitor, não escreveria semelhante barbaridade.
Apesar de ser inegável que Pio XI não gostava da mistura entre religião e política, é um facto que o Zentrum caiu por si só, de tal forma que, com o início do processo negocial da Concordata, Pio XI e Pacelli já não tinham hipótese de usar o Zentrum como trunfo (como teriam usado, se pudessem). Veja um autor muito equilibrado, e até crítico de Pio XII, a dizer isto mesmo, José M. Sánchez, “Pius XII and the Holocaust”, p. 85.
«By the time the negotiations began in earnest in June 1933, the Center Party’s position had deteriorated to the point that the Vatican could no longer use it as a bargaining point. Thus, the pressure was on Pacelli to conclude a pact that would protect the Church, given that the Center party no longer had power.”
«Deve ter sido por isso, que da elite nazi 100% composta por cristãos devotos, o único que foi excomungado de facto foi o Goebbels, por se ter casado com uma divorciada. Mas em 1948 ele sentiu necessidade de excomungar formalmente qualquer pessoa que votasse nos comunistas. Aos nazis bastou a excomunhão “latae sententiae”… Honi soil qui mal y pense!»
Está a comparar duas situações diferentes. O pós-Guerra com o período durante a Guerra. Que ganharia a Igreja com as excomunhões? O aplauso do Xiquinho? A conversão do coração de Hitler e dos seus lacaios?
Eu digo-lhe o que ganhava a Igreja com a excomunhão formal das altas figuras do Terceiro Reich:
1) O respeito de alguns dos seus críticos de hoje
2) A rescisão unilateral da Concordata por parte de Hitler: isto deixaria inutilizada uma das vias de escape para os judeus: os falsos certificados de baptismo, que salvaram inúmeros judeus, deixavam de servir de moeda de troca
Pergunte a um sobrevivente, protegido pelo falso certificado de baptismo, o que ele acha da concordata…
«Nadinha…Deve ter sido por isso que no fim da guerra pediu ao embaixador inglês junto do Vaticano, que não deixasse ficar estacionadas em Roma tropas de raça… negra!»
Xiquinho: vá lá… Faça um favor aqui ao “je” e dê-nos uma citação. É completamente inverosímil dizer que Pio XII era racista. Deve estar a traduzir mal, ou a ler mal. Pode dizer muita coisa de Pio XII, que era um diplomata puro, que era meticuloso e cuidadoso, que preferia sempre a via diplomática… Agora, que era racista, tenha dó.
«Não deixa de ser curioso que sendo Cornwell tão mau historiador e tradutor, tenha sido convidado pelo próprio Vaticano, para escrever um livro acerca da morte de JPI, que refuta a teoria de David Yallop.»
Convidado?
Cornwell convidado pelo Vaticano?
Eu vou mesmo precisar de uma fonte para ver de que se trata…
Bolas: se inventam tretas novas a um ritmo destes, um tipo não consegue acompanhar…
Finalmente, sobre o seu último comentário relativo a Fulda, no qual cita Guenter Lewy, vou ter que investigar a fundo. Lewy é um autor sério, mas não é infalível. Mas não me atrevo a comentar isto sem investigar.
Abraço,
Bernardo
Olá Bernardo
Tudo bem mas ando muito atarefado com os meus deveres escolares:) apenas uma nota rápida para enviar duas das fontes que me pede por onde pode avaliar se são tretas.. para já v\ao só estas duas que parece-me que foram as que lhe fizeram mais comichão, mas assim que puder respondo ao resto… abraçinhos de cacau!
Convite do Vaticano a Cornwell:
In ”A Thief in the Night,” John Cornwell, formerly the editor of the foreign news service of The London Observer, employs his disciplined reportorial skills to unravel the unholy shroud of mysteries and produce a gripping book. Mr. Cornwell, a nonpracticing Catholic who was at first uneasy over the Vatican’s invitation to investigate the papal death, finds his way back, at first cautiously, then enthusiastically, into the world of eternal claims and temporal imperfections he thought he had forgotten.
Fonte : NYT http://www.nytimes.com/1989/11/05/books/was-the-pope-murdered.html?pagewanted=1
Agora, que era racista, tenha dó
Pedido de Pius XII para não enviarem tropas de cor:
Serving as the basis for the latter charge was one brief, enigmatic document found in the British Foreign Office archive. In a ciphered dispatch dated 26 January 1944, the British minister to the Vatican, Sir Francis Godolphin d’Arcy Osborne, later the twelfth and last Duke of Leeds, reported that he had been summoned by Cardinal Secretary of State Luigi Maglione that very day. Maglione, who held doctorate, in canon low and theology, had been the papal nuncio in Switzerland and since 1939, had served as the Secretary of State. On 26 January, Maglione had sent for Osborne to say that “the Pope hoped that no Allied coloured troops, would be among the small number that might be garrisoned at Rome after the occupation.”
Fonte : A Question of Race: Pope Pius XII and the “Coloured Troops” in Italy, Robert G. Weisbord & Michael W. Honhart, University of Rhode Island veja 1.a pág. em:
http://www.xiquinho.com/post/2010/02/A-Question-of-Race-Pope-Pius-XII-and-the-Coloured-Troops-in-Italy.aspx (Não tenho o artigo completo e não estou para pagar 29$US para saber algo que já sei: que o personagem era um refinado racista…) http://www3.interscience.wiley.com/journal/118941395/abstract
E já agora, quem se recusou a publicar e escondeu a encíclica Humani Generis Unitas, escrita a pedido de Pius XI (não confunda com XII), na qual o racismo e o anti semitismo eram fortemente condenados? Tenha dó, Bernardo…
Esta questão fica clara, preto no branco, na conferência episcopal alemã, em Fulda, em Agosto de 1932.
Que pena que eu tenho que o Bernardo não ter tido acesso à conferência episcopal alemã, em Fulda, mas em Março de 1933, aqui vai para que não seja por desconhecimento que omite tal pormenor:
“On March 23 (1933) Hitler gave a policy statement in which he promised, among other things, to work for peaceful relations between Church and State; the Reichstag in turn approved the Enabling Act, which for a period of four years transferred the power of legislation from parliament to the cabinet. Five days later the German Catholic episcopate, organized in the Fulda Bishop’s Conference, withdrew their earlier prohibitions against membership in the Nazi party and admonished the faithful to be loyal and obedient to the new regime.” (The Catholic Church and Nazi Germany, p 3, Guenter Lewy)
Negrtito do je…
(continua)
Xikinho assista ao video!!!
ah… sabia ke 1 dos maiores aliados de Hitler foi 1 padre?? o padre Jozef Tiso…. ditador eslovaco!
Steve,
O vídeo está interessante, mas como o Bernardo já referiu, e neste aspecto eu até concordo com ele, nestas matérias é importante referir as fontes, para evitar que se espalhem acusações sem fundamento… embora não seja o caso deste vídeo
Xikinho… e genocidio promovido pela catolica ustasha?? o papa não deu nenhum Pio….
Steve,
«Xikinho… e genocidio promovido pela catolica ustasha?? o papa não deu nenhum Pio….»
Para que não guarde rancor contra a minha pessoa, vou-lhe dar este rebuçado…
Esta é bem capaz de ser a ÚNICA via séria para uma pessoa criticar o Papado de Pio XII: a questão da Croácia.
Ora agora pegue lá nesta minha dica, leia e estude um pouco, e veja lá se consegue montar um argumento racional, escrito em português decente, acerca da questão croata…
E depois não digam que eu não sou amigo! Até vos ajudo a fazer críticas decentes a Pio XII!
Bernardo
Steve,
Olhe é capaz de estar enganado… O Pio piou, sim e muito mas foi quando o seu amiguinho, o bispo Stepinac foi condenado a 16 anos de cadeia (que não cumpriu todos) por crimes contra a humanidade e genocídio durante a guerra. Já não precisou de piar tanto foi com o seu também amiguinho do peito e da hóstia, o Pavelic, que no fim da guerra conseguiu esconder no Vaticano e ajudar a fugir para Buenos Aires…
Vem agora o amigo Bernardo ajudar-nos a criticar seriamente o pio papa? Como se fosse preciso, mas obrigadinho na mesma
Xiquinho,
«o bispo Stepinac foi condenado a 16 anos de cadeia (que não cumpriu todos) por crimes contra a humanidade e genocídio durante a guerra.»
Quem o condenou?
Os comunistas.
Porquê?
Está documentado: porque ele não quis colaborar na vontade dos comunistas: desligar da Santa Sé a Igreja croata. Ele foi para a prisão por causa disso. Xiquinho: consultou a imprensa mundial por volta dessa altura, quando todos os chefes de estado pediam ao governo comunista para libertar o dito “criminoso de guerra”?
Difamar Stepinac, um homem santo e íntegro, é uma miséria, Xiquinho.
Até quando insistirá nestas tretas?
«Já não precisou de piar tanto foi com o seu também amiguinho do peito e da hóstia, o Pavelic, que no fim da guerra conseguiu esconder no Vaticano e ajudar a fugir para Buenos Aires…»
Pavelic sempre foi mal tratado pela Santa Sé. Uma vez, quis vir a Roma e ver o Papa. Como chefe de estado, esperava uma recepção oficial. Ora Pio XII mandou-o assistir a uma audência geral, com centenas de outras pessoas. Nem chegaram a falar. Foi um polémico caso diplomático. Para Pavelic, foi a humilhação completa.
Dizer que Pio XII era amiguinho de Pavelic é uma anedota.
Mas já vi que o Xiquinho gosta de fazer grandes afirmações sem provas.
Abraço!
PS: Eu já entendi que as suas ideias estão feitas, e que deixou de investigar o assunto. Para sua informação, a minha biblioteca “Pio XII” não pára de engrossar. Ainda hoje me chegou o livro do Gilbert, “The Righteous”. E há umas semanas, chegou-me um livro anti-Pio XII (sim, eu também os compro), o do Carlo Falconi: “The Silence of Pius XII”. Vou lê-lo com atenção e tirar notas.
Já agora: tenho também o livro essencial sobre a relação entre a Santa Sé e o Reino Unido, o livro do Owen Chadwick, e já o li, e não vi nada sobre a tal alusão racista de Maglione a Sir D’Arcy Osborne. Terei lido mal? Em que página surge?
Vá lá, Xiquinho!
Assim não tem piada…
Cá fica mais uma dica…
Owen Chadwick (Britain and the Vatican during the Second World War) realmente cita a tal comunicação do Foreing Office (FO 371/43869/21). Cita-a tal e qual o Xiquinho cita. Mas o Chadwick não fala em parte nenhuma de suposto “racismo”. Em que ficamos?
O Xiquinho sabe do que é que estou a falar?
Caramba: esta pequena nota do FO deu sempre muito que falar, mas os investigadores já a conhecem bem e já lhe deram explicação. Que explicação é que o Chadwick dá?
É divertido fazer estes “jogos” consigo… Por um lado, o Xiquinho é rápido a acusar, mas por outro lado, como se está sempre a queixar do preço dos artigos e dos livros, dá para deduzir que as suas acusações se baseiam no Google e não em grandes leituras de documentos.
Vamos embora, homem!
Dê a cara pelas suas acusações e vamos analisar juntos o documento FO 371/43869/21!
Porque é que diz que Pio XII teve uma tirada racista?
Abraço
Para deturpar os factos à sua maneira, eu já sabia que o Bernardo é um especialista nato, mas ainda me surpreende pois ultimamente já não se contenta em apenas deturpar: inventa factos ao sabor das suas conveniências, o que é verdadeiramente assombroso para quem anda sempre a queixar-se da falta de rigor do próximo!
Vejamos esta pérola que só pode ter saído da imaginação do Bernardo:
Pavelic sempre foi mal tratado pela Santa Sé. Uma vez, quis vir a Roma e ver o Papa. Como chefe de estado, esperava uma recepção oficial. Ora Pio XII mandou-o assistir a uma audiência geral, com centenas de outras pessoas. Nem chegaram a falar. Foi um polémico caso diplomático. Para Pavelic, foi a humilhação completa.
Primeiro Pavelic nunca foi recebido como chefe de estado, mas sim um dia antes da coroação do rei croata fantoche , estratagema arranjado por Pius XII para alegar que o tinha recebido como individuo católico e não como chefe de estado. Segundo, não foi numa audiência geral, mas sim numa audiência privada, onde naturalmente falaram e não deve ser difícil imaginar de quê.
Mas para quem tiver curiosidade de saber o que realmente se passou, deixo aqui um relato do episódio feito pelo historiador Avro Manhattan, que melhor do que eu descreve o que se passou e onde se pode avaliar a capacidade de revisionismo que o nosso caro Bernardo possui…
Diante de notícia tão maravilhosa uma delegação maciça da Ustashi encabeçada por Ante Pavelic correu até Roma, onde, bem no coração da Itália Fascista, no dia 18/05/41, a graciosa aceitação de Tomislav II da coroa croata aconteceu, pautada pelo bater de calcanhares militares, saudações fascistas e hurras. No Vaticano, a felicidade do papa não tinha limites. Contudo, o seu coração paternal ficou um tanto pesado pelo fato de que a Tomislav II, a seu afilhado político, triunfante, ele não poderia dar uma bênção solene. Pio XII era o chefe da Igreja Católica, isto é, Universal. Milhões de Católicos naquele exato momento voavam ao lado dos Aliados para esmagar aquele mundo fascista com o qual Pio XII estava em relações tão cordiais. Para completar, Pio XII era também o Chefe do Estado do Vaticano e como tal – ó feliz coincidência! – ele próprio era um Rei! Reconhecer seu novo confrade real nessa conjuntura poderia ser interpretado pelo campo democrata como uma brecha em sua “neutralidade papal”. Portanto, era preciso que Sua Santidade fosse cauteloso.
Os papas afirmam que podem abrir e fechar os portões do céu – ou do inferno. Para tanto eles carregam consigo as pesadas chaves de S. Pedro. Mas, vez por outra, eles podem também abrir os portões aqui em baixo. E sendo o mundo como é, isso é ainda mais importante. Particularmente em ocasiões em que os portões da diplomacia internacional devem permanecer fechados. Adepto do antigo maquiavelismo católico, Pio XII resolveu o problema triunfantemente, recebendo o futuro bondoso Tomislav II, um dia antes da coroação. Quem poderia afirmar que isso abriria uma brecha na “neutralidade papal”? O Duque de Spoleto ainda não era oficialmente o rei. Sua Santidade, o papa, o havia recebido antes dele se tornar Sua Exaltada Majestade, Tomislav II.
Naquele mesmo dia, a Croácia foi oficialmente proclamada como reino. Ao devoto assassino do Rei Alexandre I da Iugoslávia – Ante Pavelic – foi concedida pelo papa uma longa e muito particular audiência. Somente um estenógrafo trazido pelo cauteloso Pavelic, o qual foi obrigado a fazer um juramento de jamais revelar o que escutara, estava presente. Animado pelo que Pio XII lhe falou, Pavelic visitou Mussolini, com quem assinou um tratado. Depois de tudo isso, o infatigável Santo Padre recebeu e abençoou solenemente o Primeiro Ministro de Pavelic e toda a sua delegação. Quem, novamente, poderia rotular tal coisa como uma brecha na “neutralidade papal”? Todas aquelas excelentes pessoas haviam sido recebidas como “indivíduos católicos”. Ele as havia recebido, não como líderes da Nova Croácia, declarou o Osservatore Romano, portanto, Honi soil qui mal y pense!
Contudo, a verdadeira significação de tudo isso não escapou aos que sabiam. Pio XII havia concedido a todas essas boas pessoas uma audiência especial, não porque fossem simples “indivíduos católicos”. Ele os havia recebido especialmente, abençoado especialmente e elogiado especialmente, pois, conquanto membros da Igreja Mãe, eles era, acima de tudo, os representantes do Estado Independente da Croácia, uma criação política ostensivamente dirigida e impiedosamente promovida pelo mais maligno de todos os seus progenitores – o Vaticano.
Abraço retribuído,
Mais logo trato do Stepinac :;
Xiquinho,
Avro Manhattan?
É isso que tem para me atirar à cara?
Avro Manhattan?
Já tinha explicado ao Steve quem era o Avro Manhattan.
Preciso de explicar mais?
Trata-se de um jornalista, especialmente maluco, cuja obra pseudo-histórica nunca foi elogiada ou utilizada por qualquer historiador que seja. Avro Manhattan não esteve nunca associado a qualquer universidade ou instituto de investigação, não tem diploma de historiador, e não conheço historiador algum que o tenha sequer citado em nota de rodapé.
Conhece algum?
Bom: se o conluio de Pio XII com Pavelic foi assim tão amigável, devem existir historiadores (um historiador, vá lá) a falar disso com base em documentos, não?
Ou, como diz o Manhattan, foi tudo tratado por um estenógrafo que, convenientemente, ocultou tudo?
A coisa porreira de dizermos que uma dada conversa foi mantida confidencial é que podemos meter nessa conversa o que quisermos, não é?
Grande palhaçada, ó Xiquinho.
Eu estou aqui a disparar tiros de espingarda (ainda não estou a disparar de metralhadora), e o Xiquinho responde com fisgas?
Jovem: das duas uma. Ou há provas históricas das afirmações malucas que faz, ou então não as faça. Invocar pseudo-historiadores é uma medida patética.
PS: Já agora, porque é que Pio XII não deu um núncio ao governo ustashi?
Eu logo calculei que o Avro Manhattan não era do seu agrado. Mas mesmo que só metade do que ele diz seja verdade, já era caso para ficarmos preocupados, não acha? Pois para sua informação fique a saber que é considerado o maior especialista de história do Vaticano do séc. XX.
Mas diga-me cá, Bernardo: Eu (ou o Avro) fiz alguma afirmação acerca dos conteúdos da conversa entre o Pius e o Pavelic? Meti alguma coisa nessa conversa?
Apenas referi, que ao contrário do que o Bernardo diz, essa conversa teve lugar, em audiência privada, e além do relato de Avro, digo-lhe mais, está documentada aqui: Minutes of 7 August 1941. British Public Records Office FO 371/30175 57760
Agora essa do núncio do vaticano ao governo ustashi, não conheço, não. Mas por contra conheço a da conta no banco do vaticano onde a ustashi depositou o ouro que roubou às vitimas do genocídio croata. E o Bernardo conhece? Não me diga que é mais uma das invenções do Avro…
Abraço do costume
Xiquinho,
Eu muito, mas muito, mas mesmo muito, agradecia se me pudesse facultar o nome da sumidade, ou sumidades, que consideraram o tarado do Manhattan como o maior “especialista” de história do Vaticano no século XX.
E, “en passant”, pode explicar-me porque é que os historiadores (todos eles) não citam o Manhattan nos seus livros? Ninguém, hã? Nem o Owen Chadwick, nem o Martin Gilbert, nem o Harold Deutsch, nem o Anthony Rhodes, nem o Pierre Blet, nem o Robert Graham, nem a Susan Zucotti (grande crítica de Pio XII). Nada!
Será conspiração contra o grande Manhattan?
E o Stepinac?
Já desistiu de o difamar?
E como explicar que Stepinac tenha fundado em Dezembro 1938, uma organização chamada “Acção para Ajuda a Judeus Refugiados”? Estranho, hã?
E porque é que, a partir de 1941, os sermões do arcebispo Stepinac foram proibidos pela polícia croata? Devia ser porque eram elogiosos para com Pavelic, não?
Olhe o que a BBC teve para dizer sobre Stepinac a 7 de Julho de 1943:
«The Archbishop of Zagreb has strongly and sharply condemned the deportations of Jews and other ethnic groups that were based on Nazi theories and Nuremberg Laws…. Archbishop Stepinac, in his weekly address, stated that every people and every race on earth has a right to exist and to human treatment. If God gave this right to mankind there is no government on earth that can take it away.»
E, já agora, deixe-me arrumar as trapalhadas que andam na sua cabeça…
«Apenas referi, que ao contrário do que o Bernardo diz, essa conversa teve lugar, em audiência privada, e além do relato de Avro, digo-lhe mais, está documentada aqui: Minutes of 7 August 1941. British Public Records Office FO 371/30175 57760»
Não, não está. O Xiquinho não tem esse documento do Foreign Office nem o leu. Está a brincar ao Google comigo mas eu tenho mais uns dez anos que você, e também sei usar o Google, e para mais, ando a estudar esta questão do Pio XII usando livros (e não apenas o Google) há uma molhada de anos.
Na pesquisa de Google que o Xiquinho fez para desencantar essa referência “Minutes of 7 August 1941. British Public Records Office FO 371/30175 57760″, surge logo no topo da página do Google o link para o PDF do Ronald Rychlak (“The Catholic Social Science Review 14 (2009)”: páginas 367-383). Sim, eu li esse PDF, e o Prof. Rychlak esclarece bem as lendas negras em torno de Stepinac.
Ora vejamos:
1) O Xiquinho não teve acesso ao documento do Foreign Office: ok, estava a fazer “bluff” connosco, tudo bem, mas teve azar, porque o documento do Foreign Office não relatou QUALQUER conversa entre Pio XII e Pavelic, porque essa conversa não aconteceu; a sua confusão está em que o Xiquinho confunde “receber Pavelic com privado” com “receber Pavelic em privado”, é uma confusão compreensível…
2) O Xiquinho teve azar, porque ao querer fingir erudição, foi logo apanhar esta referência tão específica “Minutes of 7 August 1941. British Public Records Office FO 371/30175 57760″ que obviamente, aparecendo “ipsis verbis”, só pode provir do PDF do Rychlak, ainda por cima alguém que diz o completo contrário de si
3) O Xiquinho não entende que todo o chefe de estado podia pedir, e recebia, audiências com a Secretaria de Estado da Santa Sé; Pavelic não teve essa audiência, e em vez disso, foi recebido COMO INDIVÍDUO (ele e o seu séquito) numa audiência geral, onde estavam vários fiéis (isso deixou Pavelic furioso)
«Agora essa do núncio do vaticano ao governo ustashi, não conheço, não.»
Há muita coisa que você não conhece, Xiquinho. O “bluff” intelectual é um jogo arriscado. É preciso não estar “verdinho” para jogar esse jogo. É preciso ter alguma “musculatura”.
«Mas por contra conheço a da conta no banco do vaticano onde a ustashi depositou o ouro que roubou às vitimas do genocídio croata. E o Bernardo conhece? Não me diga que é mais uma das invenções do Avro…»
Claro que é uma invenção do Avro. E bem antiga. O Xiquinho conhece alguma prova em contrário? Realmente, é estranho: porque razão não receberia Pavelic em privado, para trocar umas palavrinhas com o seu “mecenas”? Porque razão teve que o enfurecer tanto, nunca lhe dando o privilégio de uma conversinha? Um belo bate papo entre amigos? E caramba, saía assim tão caro a Pio XII mandar um núncio (vá lá, ao menos um “chargé d’affaires”) para Zagreb?
Juízo, Xiquinho, juízo…
Já agora, para os interessados… Eis o bloco de texto do PDF do Prof. Rychlak acerca da “visita” de Pavelic a Roma, uma viagem vexante para o ditador croata:
«In Rome, Paveli was greatly angered because the Vatican refused him the diplomatic audience with the Secretary of State that he had requested 36. “On May 18, 1941, Paveliç was informed that he would be given an audience as a private individual, ‘without publicity.’ His delegation was invited to attend a public audience as ordinary members of the faithful. The whole experience was demeaning.”37 (The notes of Cardinal Tardini the following year said: “Paveliƒ is furious… because… he is treated worse by the Holy See than the Slovaks”).38»
A nota de rodapé n.º 36 é a tal que o Xiquinho sacou com o Google, mas não citou na sua totalidade: «36. Minutes of August 7, 1941, British Public Record Office FO 371/30175 57760 (noting that Paveliƒ was not given an audience with the Secretary of State).»
Essa de me acusar de me acusar de escamotear deliberadamente informação que contraria o que afirmo, é bem feio e não esperava vindo si, sobretudo quando não tem puto ideia onde é eu fui buscar ou deixei de ir buscar o que transcrevi. Mas para sua informação aqui fica:
http://en.wikipedia.org/wiki/Pius_XII
Vá lá e consulte nota 129 e veja o que diz. Até lhe poupo a viagem:
In April 1941, Pius XII granted a private audience to Ante Pavelić, the leader of the newly proclaimed Croatian state (rather than the diplomatic audience Pavelić had wanted).[129]
private audience = audiência privada, que é exactamente o contrário do que o Bernardo afirma e está suportado pela nota 129: Minutes of 7 August 1941. British Public Records Office FO 371/30175 57760. Bem sei que a wikipedia não está isenta de erros mas neste caso eu confio mais no que dizem a wikipedia e o Avro do que o que diz o Bernardo.
E sim, é óbvio que não li a nota. Mas agora fingir erudição? Então acha que citar uma nota que está à vista de toda a gente na wikipedia, é para me fazer passar por erudito? Você anda mesmo transtornado, homem… Não sou historiador profissional (nem amador), agora não me peça é para ficar indiferente perante um revisionista profissional, como é o seu caso. Como nesta bojarda:
Ora Pio XII mandou-o assistir a uma audência geral, com centenas de outras pessoas. Nem chegaram a falar
Repare que até o texto do Prof. Rychlak, assim como a wikipedia e o livro de Avro Manhattan, confirmam exactamente aquilo que eu disse: que a audiência foi privada e assim sendo alguma coisa devem ter falado, ou o Bernardo acha que ficaram os dois sentados a olhar um para o outro?
E essa que tem mais dez anos que eu também é boa. Onde é que descobriu essa? Também foi ao Google, à sua cyber-bola de cristal, como o seu amigo, foi? Diga antes que eu talvez tenha mais dez anos do que o Bernardo e é capaz de estar um pouco mais de acordo com a realidade, mas nem vejo que grande interesse é que isso tenha para o caso.
Tenha calma, que lá chegaremos ao Stepinac… você não me dá sossego com o Ratzinger e eu sou um pobre xiquinho que hoje só almoçou uma sandes para poder ter tempo de responder a tudo.
abraçinho
Xiquinho,
«Essa de me acusar de me acusar de escamotear deliberadamente informação que contraria o que afirmo, é bem feio e não esperava vindo si, sobretudo quando não tem puto ideia onde é eu fui buscar ou deixei de ir buscar o que transcrevi. Mas para sua informação aqui fica:
http://en.wikipedia.org/wiki/Pius_XII»
Ok, era o meu segundo palpite.
Normalmente é assim: o Xiquinho monta as suas acusações difamatórias com a ajuda do Google ou da wikipédia.
«In April 1941, Pius XII granted a private audience to Ante Pavelić, the leader of the newly proclaimed Croatian state (rather than the diplomatic audience Pavelić had wanted).[129]»
Grande novidade, Xiquinho: é a exacta frase do Ronald Rychlak no artigo que referi.
«private audience = audiência privada, que é exactamente o contrário do que o Bernardo afirma e está suportado pela nota 129: Minutes of 7 August 1941. British Public Records Office FO 371/30175 57760.»
É provável que eu me tenha enganado, e que tenham ocorrido duas audiências:
1) uma audiência privada que Pio XII terá concedido a Pavelic, sem a presença do Secretário de Estado Maglione (você não sabe isto, mas o Secretário de Estado teria sempre que estar presente nas audiências a chefes de estado: ou seja, o facto de Maglione não estar presente seria um grave insulto diplomático a Pavelic, e explica a irritação do ditador)
2) uma audiência geral ao séquito de Pavelic (que se se tratasse de uma visita de estado, teria que estar na mesma sala com Pavelic, com Pio XII e com o Secretário de Estado)
No entanto, o texto de Rychlak também pode ser interpretado como eu o interpretei: que Pavelic e o seu séquito foram recebidos como privados, e não como representantes de um Estado. Se eu me enganei, e realmente ocorreram duas audiências, a razão do meu eventual engano é simples: interpreto a expressão “private audience” como uma recepção a título privado, e não a título oficial.
Evidentemente, mesmo que eu esteja errado nesta questão do número de audiências, e realmente tenham existido duas, o insulto diplomático mantém-se, a irritação de Pavelic também, e o silêncio do Xiquinho face a este grave incidente diplomático também.
« Bem sei que a wikipedia não está isenta de erros mas neste caso eu confio mais no que dizem a wikipedia e o Avro do que o que diz o Bernardo.»
Xiquinho, não se trata só de confiar. Também se trata de pensar. E de questionar os nossos preconceitos.
«E sim, é óbvio que não li a nota. Mas agora fingir erudição? Então acha que citar uma nota que está à vista de toda a gente na wikipedia, é para me fazer passar por erudito?»
Só há uma maneira de se safar dessa suspeita: citar as fontes. É boa prática.
«Você anda mesmo transtornado, homem… Não sou historiador profissional (nem amador), agora não me peça é para ficar indiferente perante um revisionista profissional, como é o seu caso.»
Como sempre estive (e é fácil de verificar nos meus milhares de comentários), estou disposto a reconhecer erros, e a afinar ideias para melhor reflectir a verdade histórica. Pelo contrário, o Xiquinho não aceita correcções e não reconhece erros, nem admite que o seu pouco conhecimento destas matérias possa estar a levá-lo a erros graves de juízo.
«Tenha calma, que lá chegaremos ao Stepinac… você não me dá sossego com o Ratzinger e eu sou um pobre xiquinho que hoje só almoçou uma sandes para poder ter tempo de responder a tudo.»
Você é que, atrevido, quer acusar a Igreja por todos os lados. E depois fica atrapalhado sem saber como se safar das burradas históricas que decidiu defender a todo o custo.
“…Quando examinadas sem os floreios e disfarces da fraseologia oficial, as várias diretrizes emitidas por esse Corpo Hierárquico transformam-se em simples cópias de instruções idênticas, repetidamente entregues durante séculos à cristandade da negra Idade Média. Pois é isso o que elas representam em verdade. Que uma Hierarquia Católica tivesse recebido a permissão de emiti-las novamente em meados do século vinte é certamente um dos fenômenos sociais mais sinistros de uma civilização em rápida decadência.
O reavivamento de uma política de conversões forçadas assume uma significação ainda mais grave se nos lembrarmos de que ela se deu com a tácita aprovação do Vaticano. Se o Vaticano a tivesse reprovado, nem sequer um sacerdote poderia ter tomado parte nos massacres ou conversões forçadas. Um sacerdote local só pode agir com a aprovação dos hierarcas menores, os quais, por sua vez, não podem agir sem a permissão do bispo; o bispo, por sua vez, deve agir conforme as instruções do seu arcebispo; o arcebispo só pode agir sob instruções do primaz e o primaz recebe instruções diretas do Vaticano. O Vaticano é o domínio pessoal do papa. Sendo o papa o pivô central da vasta máquina hierárquica segue-se que a responsabilidade final por todos os membros do clero, isto é, pela ação coletiva de qualquer hierarquia nacional repousa sobre o papa. Não pode ser de outra maneira. Pois as políticas de grande importância devem a ele ser submetidas antes de promovidas por todos os hierarcas em todo o mundo, visto como o papa é a única autoridade. Se a responsabilidade por tão monstruosas perseguições repousa sobre o cabeça da hierarquia nacional – isto é, Stepinac – ela tem de repousar automaticamente sobre o cabeça da Igreja Católica, sem cujo consentimento a Hierarquia Católica jamais se atreveria a agir – isto é, Pio XII.
Pio XII jamais poderia alegar ignorância do que estava acontecendo na Croácia apresentando como desculpa os obstáculos da guerra. A comunicação entre Roma e a Croácia era fácil e tão livre como em tempos de paz. Desde o exato princípio das hostilidades o Embaixador Nazista no Vaticano era tratado com muito mais deferência do que todos os diplomatas aliados. Em 1940 –42, o Vaticano estava nas mais cordiais relações diplomáticas com Hitler. Os líderes políticos e religiosos da Ustashi iam e vinham entre Roma e Zagreb tão livremente como o faziam os alemães e os italianos, visto como o Estado Ustashi era um satélite da Alemanha nazista e, desse modo, uma província do Império Nazista. Além do mais, o papa sabia o que estava acontecendo na Croácia não apenas através da máquina administrativa da Hierarquia que o colocava a par de todos os eventos croatas, mas também através de outras fontes confiáveis. Eram estas: a) Não se deve esquecer que o legado papal de Pio XII tinha um representante oficial na Croácia, cuja tarefa era implementar a política do Vaticano e coordená-la com a de Pavelic, bem como relatar os assuntos religiosos e políticos ao próprio papa. O legado papal na Croácia era o Monsenhor Marcone, que abençoava abertamente a Ustashi, fazendo publicamente a saudação fascista e encorajando os católicos (por exemplo quando esteve em Mostar) a se manterem “fiéis à Santa Sé a qual tinha ajudado aquele mesmo povo durante séculos contra o barbarismo oriental” – ou seja contra Igreja Ortodoxa e os Sérvios. Desse modo, o representante oficial do papa instigava a perseguição religiosa, bem como rezava pela vitória “sob a liderança do Chefe de Estado” Ante Pavelic contra o exército Iugoslavo de Libertação Nacional, em 1944-1945.
b) O Cardeal Tiseram era o líder da Sagrada Congregação das Igrejas Orientais. A tarefa específica dessa Congregação era negociar com as igrejas orientais. O Cardeal Tiseram recebia detalhados registros de cada conversão forçada e de cada massacre na Croácia. Entre abril e junho de 1941 mais de cem mil sérvios ortodoxos foram massacrados; contudo o Cardeal Tiseram em 17.07.41, teve a audácia de declarar que o Arcebispo Stepinac faria agora um grande trabalho para o desenvolvimento do Catolicismo no “Estado Independente da Croácia… onde há tão grandes esperanças de conversão dos que não professam a verdadeira fé”.
c) Ante Pavelic que através do seu representante no Vaticano, pelo qual o papa Pio XII enviara “bênção especial ao líder (Pavelic)” recebia registros regulares de tempos em tempos diretamente do Ministro da Religião, a respeito do “rápido” progresso da catolicização da Nova Croácia.
d) E finalmente, o próprio Arcebispo Stepinac, que visitou pessoalmente Pio XII duas vezes, e supriu Sua Santidade com os algarismos das conversões forçadas. Em documento oficial datado, o mais tardar, de 08.05.44, Sua Eminência, o Arcebispo Stepinac, chefe da Hierarquia Católica, de fato informou o Santo Padre que até aquela data “duzentos e quarenta e quatro mil sérvios ortodoxos tinham sido convertidos à Igreja de Deus”(3).”
Fonte: “O holocausto do Vaticano” – Avro Manhattan
Os apologistas da Igreja Católica asseguraram ao mundo contemporâneo que os horrores da Inquisição jamais se repetiriam.
Mas a Croácia Ustasha provou que eles estavam errados.
Mas a Slovakia de pe.Tiso provou que eles estavam errados.
Mas a ditadura católica de Diem no S.Vietnam provou que eles estavam errados.
Mas o salazarismo provou que eles estavam errados.
Mas o franquismo provou que eles estavam errados.
Mas os padres genocidas de Ruanda provaram que eles estavam errados!!!
De acordo com esta notícia, dentro de aproximadamente um mês, a Pave the Way Foundation colocará “online” todos os documentos constantes da “Actes et Documents du Saint Siège Relatifs à la Seconde Guerre Mondiale”:
http://www.zenit.org/article-24076?l=portuguese
Depois vamos ver, da cambada que gosta de dizer mal só por dizer mal, e de falar do que não sabe, quantos é que vão realmente despender tempo a ler estes documentos todos…
Para já, aqui fica um “aperitivo” de 105 Megabytes de documentos:
http://www.ptwf.org/Downloads/Pope%20Pius_documents.pdf
Bernardo
só agora né?? e bem falsificados
É Steve, tudo muito falsificadinho…
Falsificados, falsificados, não sei, mas pelos anos que demoraram a fazer a triagem aquilo deve estar bem seleccionadinho…
Foram o último país (está ver? hoje estou bem disposto, até qualifico aquilo de país…) europeu a abrir ao público os arquivos do tempo da guerra, mas não sejamos mal-agradecidos: mais vale tarde que nunca
Xiquinho,
O prazo é sempre o mesmo para todos os documentos da Santa Sé: 75 anos.
Convenhamos: visto que a esmagadora maioria dos críticos de pacotilha de Pio XII não leram, nem lêem, nem vão ler, documento algum, é um bocado irrelevante a data de publicação, não acha?
A disponibilização dos arquivos só interessa a historiadores e a pessoas interessadas na verdade histórica.
Abraço
E já agora diga lá qual é esse coelho que tem na cartola com essa história de “mandar um núncio (vá lá, ao menos um “chargé d’affaires”) para Zagreb?”
Segundo a wikipedia, e de acordo com Cornwell e Phayer, esse “chargé d’affaires” existiu mesmo:
Pavelić visited Rome on May 18, 1941 to sign a treaty with Mussolini granting Italy control over several Croatian cities and districts on the Dalmatian coast.[23] While in Rome, he was granted a “devotional” audience with Pius XII.[23] Cornwell views this act as “de facto recognition by the Holy See” of the Independent State of Croatia.[23] Soon afterwards, Abbot Ramiro Marcone was appointed apostolic legate to Zagreb.[23]
Stepinac shared the hope for a Catholic Croatia and viewed the Yugoslav state as “the jail of the Croatian nation”.[1] The Vatican was not as enthusiastic as Stepinac and did not formally recognize the Ustaša, instead sending Giuseppe Ramiro Marcone as an apostolic visitor.[1] Stepinac, who arranged the meeting between Pius XII and Pavelić, was satisfied with this step, viewing it as de facto recognition and Marcone as a nuncio in all but name.[1]
E como estou com a mão na massa, a “invenção” do Avro:
The Ustaši hiding in Pontifical Croatian College of St. Jerome (the Croatian Seminary near the Vatican) brought a large amount of looted gold with them; this was latter moved to other Vatican extraterritorial property and/or the Vatican Bank.[4][32] Although this gold would be worth hundreds of thousands of 2008 US dollars, it constituted only a small percentage of the gold looted during World War II, mostly by the Nazis.[32] According to Phayer, “top Vatican personnel would have known the whereabouts of the gold”.[32]
Tudo daqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Catholic_clergy_involvement_with_the_Usta%C5%A1e
E se me dá licença, até indico as obras citadas:
Cornwell, John. 1999. Hitler’s Pope: The Secret History of Pius XII. Viking. ISBN 0-670-87620-8
Phayer, Michael. 2000. The Catholic Church and the Holocaust, 1930–1965. Indianapolis: Indiana University Press. ISBN 0-253-33725-9.
Mas durma descansado que não é para mostrar erudição. É sim, para lhe dar na cabeça, na esperança que o Bernardo se despegue dessa fantochada que é o catolicismo e que regresse ao seio dos ateus, de onde na verdade nunca devia ter saído.
+1 abraçinho
Xiquinho,
Para que conste, este é mais um caso em que eu o vou corrigir, e a correcção vai cair em saco roto (pelo menos no seu caso, outros leitores tirarão proveito, espero).
«Segundo a wikipedia, e de acordo com Cornwell e Phayer, esse “chargé d’affaires” existiu mesmo:
Pavelić visited Rome on May 18, 1941 to sign a treaty with Mussolini granting Italy control over several Croatian cities and districts on the Dalmatian coast.[23] While in Rome, he was granted a “devotional” audience with Pius XII.[23] Cornwell views this act as “de facto recognition by the Holy See” of the Independent State of Croatia.[23] Soon afterwards, Abbot Ramiro Marcone was appointed apostolic legate to Zagreb.[23]»
A Wikipédia está certíssima neste ponto, e a citação não contém erros. Mas note-se que a Wikipédia está a citar interpretações de autores como Cornwell e Phayer. Cuidado, hã?
Mais uma vez, o problema está na falta de conhecimento do Xiquinho, que eu vou tentar, mais uma vez, colmatar com os meus parcos conhecimentos, obtidos com muito esforço, e não através do Google.
1) Cornwell está errado (como aliás é típico da sua obra): a recepção privada de Pavelic não é um reconhecimento “de facto” do novo ditador por parte da Santa Sé; para tal, como já expliquei, teriam que ter acontecido duas coisas:
a) a recepção a Pavelic seria diplomática e não privada: Maglione, como Secretário de Estado, teria que estar presente (e não esteve); a nota do Foreign Office que você tanto refere dá a conhecer ao Reino Unido que Pavelic estava irritado de não ter sido recebido por Maglione; ao contrário do que você diz, essa nota do FO não tem o texto da eventual conversa entre Pio XII e Pavelic
b) o séquito de Pavelic deveria ter sido também ele recebido oficialmente na mesma recepção, com Pio XII, com Maglione, com Pavelic
2) a nomeação de Marcone como legado apostólico também não é um reconhecimento “de facto” do novo ditador por parte da Santa Sé; Zagreb já tivera núncios no passado, e é grave diplomaticamente que nunca tenha havido um núncio durante o período Pavelic; já agora, o núncio é o embaixador da Santa Sé noutro estado; se a Santa Sé nunca deu um núncio a Pavelic (que tanto o pediu, e que tanto o irritou
3) Finalmente, e para colmatar mais uma lacuna nos seus conhecimentos, “chargé d’affaires” é uma expressão diplomática (a língua clássica da diplomacia é o francês) que designa, não um embaixador, mas sim um “encarregado de assuntos diplomáticos”, alguém que, temporariamente, representa diplomaticamente um estado noutro, até que um embaixador seja oficialmente acreditado;
4) Mais para ajudar às suas confusões: Marcone não foi nem núncio, nem “chargé d’affaires”, pois ambas as funções seriam diplomáticas, Marcone foi visitador apostólico; visitador apostólico é uma espécie de delegado apostólico mas com uma missão curta e temporária; por sua vez, delegado apostólico é um cargo eclesiástico e não diplomático (no passado, o cargo surgiu por razões missionárias e de “propaganda fidei”; é comum a Santa Sé ter delegados apostólicos nos países nos quais não tem nunciatura; quando a Santa Sé envia um delegado apostólico para um país no qual já tem nunciatura, os cargos não se sobrepõem: o núncio com o seu cargo diplomático, o delegado apostólico com o seu cargo eclesiástico; por essa razão, a Santa Sé, nesses casos, acrescenta ao delegado apostólico o título de “enviado extraordinário”, para que este não se confunda juridicamente com o núncio
5) Note bem, Xiquinho, pela última vez lhe explico isto: Marcone não foi sequer delegado apostólico (o que seria sempre um cargo eclesiástico e não um cargo diplomático), foi visitador apostólico (cargo temporário e transiente); evidentemente, os colaboradores de Pavelic tinham um bocadinho mais de cultura diplomática que nós dois, e sabiam bem o insulto que era a Santa Sé mandar um mero visitador apostólico (sem mandar um núncio) a um país católico como a Croácia
Adiante…
«Stepinac shared the hope for a Catholic Croatia and viewed the Yugoslav state as “the jail of the Croatian nation”.[1]»
OK: Stepinac era Croata. E daí? Isso é crime?
« The Vatican was not as enthusiastic as Stepinac and did not formally recognize the Ustaša, instead sending Giuseppe Ramiro Marcone as an apostolic visitor.[1]»
Aqui entramos nos delírios de Phayer. Nem o Vaticano estava entusiástico com a os Ustasha, nem estava Stepinac. É preciso repetir de novo que Stepinac não quis acompanhar Pavelic na visita oficial a Roma, e que Stepinac era constantemente censurado por Pavelic na Croácia?
Uma coisa é Stepinac ser um croata entusiasta. Outra coisa é Stepinac ser acusado de ser um ustasha entusiasta, ou de ter entusiasmos ustashis. Isso já é treta.
«Stepinac, who arranged the meeting between Pius XII and Pavelić, was satisfied with this step, viewing it as de facto recognition and Marcone as a nuncio in all but name.[1]»
Esta só pode ser anedota: Stepinac coordenou o encontro?
«E como estou com a mão na massa, a “invenção” do Avro:»
E que massa, essa, hã? Ganda massa.
«The Ustaši hiding in Pontifical Croatian College of St. Jerome (the Croatian Seminary near the Vatican) brought a large amount of looted gold with them; this was latter moved to other Vatican extraterritorial property and/or the Vatican Bank.[4][32] Although this gold would be worth hundreds of thousands of 2008 US dollars, it constituted only a small percentage of the gold looted during World War II, mostly by the Nazis.[32] According to Phayer, “top Vatican personnel would have known the whereabouts of the gold”.[32]»
Claro, claro! Ouro com fartura! Do amiguinho de Pio XII, o Pavelic. Ora que inteligente raciocínio o seu, Xiquinho: Pio XII detestava Hitler, mas mantinha um núncio em Berlim (Orsenigo)! Se Pio XII recebia maçaroca do Pavelic, e guardava-a no “Vatican Bank” (estes autores da treta adoram a expressão “Vatican Bank”), porque é que o Papa era tão mauzinho para com o seu amigo? Porque é que não o recebeu como chefe de Estado? Porque é que não lhe mandou um nunciozinho?
«Tudo daqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Catholic_clergy_involvement_with_the_Usta%C5%A1e»
Yep: fonte histórica de primeiríssima mão.
«E se me dá licença, até indico as obras citadas:
Cornwell, John. 1999. Hitler’s Pope: The Secret History of Pius XII. Viking. ISBN 0-670-87620-8
Phayer, Michael. 2000. The Catholic Church and the Holocaust, 1930–1965. Indianapolis: Indiana University Press. ISBN 0-253-33725-9.»
Não precisava, Xiquinho, não precisava… Conheço bem esses livros.
«Mas durma descansado que não é para mostrar erudição. É sim, para lhe dar na cabeça, na esperança que o Bernardo se despegue dessa fantochada que é o catolicismo e que regresse ao seio dos ateus, de onde na verdade nunca devia ter saído.»
Duas coisas:
1) Não é com brutas demonstrações de ignorância histórica, preconceito, e falta de preparação sua que eu vou mudar de ideias face à verdade histórica
2) Mesmo que Pio XII fosse o facínora que você julga que ele foi, eu seria católico à mesma; o Papa Alexandre VI não foi um papa propriamente “modelo a seguir”, e não vê os católicos a desertar em massa por causa do seu papado, ou vê?
O triste, Xiquinho, nem é o seu desprezo pela verdade histórica. O triste é o Xiquinho achar que eventuais crimes, ou erros morais graves, de um Papa, iriam comprometer a minha fé católica e a minha visão da realidade.