Factos a reter

De momento a grande “polémica inter-religiosa” está em Ratzinger ter proclamado como “venerável” (degrau na sua caminhada para a santidade) o seu antecessor Eugenio Pacelliaka Pio XII ou “Papa de Hitler”. O mesmo Papa que desperta reacções negativas um pouco por todo o mundo, acusado de passividade com o Holocausto e políticas fascistas, algo que já deu origem a diversas publicações.

Sendo eu interessado em História (em particular do século XX e das duas Guerras Mundiais) e de maneira a se compreender melhor todo este fenómeno passo a enumerar, por ordem cronológica, alguns acontecimentos que importa reter para se compreender melhor esta situação. Para além da questão inerente ao tema principal em discussão, considere-se que aqui está reunida informação que dá uma ideia geral da influência da ICAR de Pio XI e Pio XII na política do século XX, nomeadamente nas suas “amizades” com os regimes fascistas emergentes na primeira metade desse século, para além do seu medo e quase obsessão com o comunismo.

Atenção que cito textos polémicos, não só por causa do tema em si mas também pela “guerra” que deram. O livro “Hitler’s Pope” de John Cornwell é capaz de ser o texto mais famoso contra Pio XII, só que os anos que se seguiram à sua publicação foram recheados de crítica dura e acusações de parcialidade e de desonestidade intelectual. O próprio Cornwell admitiu mais tarde não ser possível tirar grandes conclusões acerca da inoperância de Pio XII, mas que o seu silêncio depois da Guerra não abonou a seu favor. O mesmo se aplicou a Kevin Madigan, no seu “What the Vatican Knew About the Holocaust, and When” (O que o Vaticano sabia do Holocausto, e quando), onde alguns o louvam e outros o criticam (por omitir ou não considerar dados), enquanto que outros acham que será necessário libertar mais informação. Citados aqui estão ainda alguns dos testemunhos mais interessantes e que abonam mais a favor do Vaticano: o do historiador britânico Martin Gilbert e o do americano Harold Tittman (e do seu filho, na altura adolescente), representante diplomático “não oficial” no Vaticano, durante a Guerra.

Grande parte da pesquisa que fiz foi pela net, recorrendo ainda a alguns livros que possuo. Agradeço à L. Abrantes pela colaboração e ao nosso “opositor” Bernardo Motta (parte aliás muito interessada nesta temática) pela correspondência trocada e por me ter arranjado meia dúzia de textos.

Espero este post (que pretendo que seja mais informativo do que opinativo) possa abrir este debate a todos, independentemente da crença religiosa e política. Estão todos convidados a comentar, corrigir eventuais erros ou omissões e enviar informações que considerem pertinentes. Considere-se que apurar a verdade histórica pode ser difícil, já que parte da informação pode nunca vir a público. De qualquer maneira, 65 anos depois da Segunda Guerra terminar já são mais do que suficientes no que toca à abertura de ficheiros, pré-anunciada para daqui a uns 5 anos. Passemos ao que interessa.

EUGENIO PACELLI, mais conhecido como Pio XII ou “Papa de Hitler”, no espaço e no tempo

1876- Nasce em Roma, no seio de uma família aristocrata, Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli. A família Pacelli era uma espécie de Bórgias modernos, com ligação de décadas à Igreja. O avô Marcantonio Pacelli fora ministro das finanças do Papa Gregório XVI e ministro do interior de Pio IX. É também um dos fundadores do L’Osservatore Romano. Filippo Pacelli, pai de Eugenio, era solicitador no Tribunal da Rota Romana.

factosareter1899- É ordenado padre num Domingo de Páscoa, entrando dois anos mais tarde ao serviço da Congregação dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários, pertencente à Secretaria de Estado do Vaticano. A sua carreira fica ligada à diplomacia e ao direito canónico.

1914- Até este ano foi subindo progressivamente na hierarquia, altura em que assume a direcção da Congregação. Curiosamente, foi um dos responsáveis pela concordata com a Sérvia, concluindo as negociações apenas (!) 4 dias antes do acontecimento que despoletou a Primeira Guerra Mundial, o assassinato de Francisco Fernando do Império Austro-Húngaro, em Sarajevo.

1917- Ainda durante a Primeira Guerra, Pacelli é nomeado núncio (uma espécie de embaixador) da Baviera pelo Papa Bento XV. Menos de um mês depois é nomeado Arcebispo da Capela Sistina, instalando-se de seguida em Munique. Não havendo o cargo de núncio para as outras regiões alemãs (Prússia e Alemanha), fica, tecnicamente, núncio de todo o império germânico. Já instalado em Munique, inicia conversações com o Kaiser Whilelm II e com o Chanceler Bethmann-Hollweg, tentando acabar com o conflito. Durante o período do fim da guerra percorreu grande parte do país em missão de caridade. Numa carta endereçada ao Vaticano, ter-se-à revelado “menos do que enamorado” pelos judeus alemães.

Uns meses depois dá-se um curioso episódio, relatado por John Cornwell (citado mais abaixo, ver ano de 1999). Em Munique, Pacelli vê-se no meio de confrontos de grupos bolcheviques que tentam fazer uma revolução numa capital bávara ainda enfraquecida pela guerra. Relatando o episódio numa carta endereçada ao seu superior hierárquico (presente nos arquivos do Vaticano), o Secretário de Estado Pietro Gaspam, revela um certo azedume contra os judeus na descrição que fez dos revolucionários e do seu chefe, Eugen Levine, grupo que se tinha entretanto instalado no palácio presidencial. Fala de um “gangue de jovens mulheres de aparência dúbia, judias como o resto deles, andando pelos escritórios do palácio com um comportamento provocante“, refere-se à líder deste grupo como a “amante de Levine, judia e divorciada“. As contínuas referências ao judaísmo desses indivíduos, associando-o ao bolchevismo mostrou que Pacelli suspeitaria dos judeus por motivos políticos. Pouco tempo depois Pacelli fez campanha para afastar soldados franceses negros da Renânia (zona do vale do Reno, entre Alemanha e Benelux), alegando que estes abusavam de mulheres e crianças (acusação falsa e refutada por um inquérito do qual tinha conhecimento). Vinte e três anos depois, já como Papa e na altura em que os Aliados se aproximavam de Roma, terá pedido ao enviado britânico no Vaticano que não ficassem tropas “de cor” entre os estacionados na capital italiana depois da ocupação.

factosareter121920- Pacelli é nomeado núncio apostólico da Alemanha e muda-se para Berlim. Entretanto apoia a coligação Weimar (Sociais Democratas com o Partido Democrático Alemão e o Partido do Centro Católico), responsável pelo governo de transição no pós-guerra. Fez-se entretanto amigo de Ludwig Kaas (na foto), padre e membro do Partido do Centro Católico, que poucos anos depois se tornou um dos seus principais e mais leais colaboradores. Kaas, curiosamente, chegou a chairman do seu partido em 1928, mantendo sempre uma grande amizade com Pacelli.

1922- Inicia negociações com vários países da Europa, assinando e sendo um dos principais responsáveis pelas concordatas com a  Letônia (1922), Baviera (1924), Polónia (1925), Romênia (1927) e Prússia (1929). Apenas falharam as negociações com o Estado russo, abortadas em 1927.

1929- Pio XI nomeia Pacelli Cardeal Presbítero de São João e São Paulo. Após três anos de negociações, dá-se a assinatura do Tratado de Latrão com a Itália de Benito Mussolini, que instituiu a Santa Sé como um Estado soberano e com inúmeras regalias. Isenção fiscal tanto a nível de propriedades como por parte dos seus cidadãos (incluindo importações), imunidade diplomática, instituição do ensino religioso católico obrigatório na escola pública e do casamento segundo os cânones católicos, proibindo-se o divórcio. Na ressaca da “Questão Romana”, a Santa Sé renuncia aos territórios que possuía desde o séc. VIII, garantindo ainda uma “jóia” do Estado italiano no valor de 750 milhões de liras (na altura, 81 milhões de dólares), para além de outros benefícios.

Curiosamente, quem esteve envolvido nas negociações deste tratado foi o irmão mais velho de Eugenio, o advogado Francesco Pacelli. Tal como já foi dito mais atrás, a família Pacelli esteve ligada à Igreja desde o século XIX, havendo sobrinhos de Pacelli em cargos cimeiros de companhias ligadas ao Vaticano a partir dos anos 1930. No seguimento do Tratado de Latrão, Pio XI cria a Administração Especial para gerir o dinheiro e mete o leigo Bernardino Nogara (mais um de uma família com muitas ligações ao Vaticano) à frente das operações. A Igreja viu-se assim a entrar no mundo dos negócios e do capital financeiro à escala mundial. Nogara passa a comprar companhias e bancos em nome do Vaticano, isento de impostos e de controlo, muitas vezes através de esquemas especulativos e pouco éticos. Morre em 1958 sem sucessor à altura.

1930- Eugenio Pacelli é nomeado Secretário de Estado da Santa Sé. Nos anos que se seguem assina concordatas com outros países: Áustria e Alemanha (1933), Jugoslávia (1935) e o “nosso” Portugal (1940, já como Papa).

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1931- Pio XI, do qual Pacelli (com Pio XI, na foto) é apontado como o principal colaborador, publica a encíclica Non abbiamo bisogno, que condena o fascismo de Mussolini, que entretanto tentava diminuir a autonomia da ICAR. A encíclica vem em resposta à progressiva deterioração das relações entre os dois Estados, agravada pela dissolução dos grupos jovens católicos por parte do ditador, que queria a exclusividade para a suaJuventude“.

Mussolini, numa tentativa de diminuir a influência de Hitler entre os católicos austríacos, apelou a Pio XI que o excomungasse. Perante a recusa, acabou por cooperar com o ditador alemão, “imitando” as leis anti-judaicas mais para o fim da década de 1930.

Na Alemanha, a coligação Socialistas/Partido do Centro Católico ganha as eleições no ano anterior e o católico centrista Heinrich Brüning é eleito Chanceler. Tendo-se deslocado ao Vaticano, discutiu com Pacelli vários assuntos. Mas o que mais se destacou foi o facto de Pacelli o ter pressionado para chegar a um entendimento com os Nazis de maneira a fazer uma coligação de centro-direita, algo que poderia possibilitar uma concordata mais “favorável” com a Igreja. Respondendo que a Igreja se devia afastar de influenciar politicamente a Alemanha, Brüning provocou em Pacelli uma reacção descrita como “violenta”. A coisa ficou por ali.

1933- Hitler chega ao poder em Janeiro, numa coligação do Partido dos Trabalhadores Nacionais-Socialistas Alemães com o Partido Popular Nacional Alemão e com independentes conservadores. Os partidos do centro ficam de fora. Ludwig Kaas faz campanha contra este governo, mas depressa se acalmou à medida que ganhavam um cada vez maior apoio das massas. Face a esse crescente apoio, Kaas é muito decisivo na aprovação do acontecimento que cimenta os Nazis no poder, o Gesetz zur Behebung der Not von Volk und Reich, que permite ao chanceler Adolf Hitler plenos poderes e autonomia na emissão de leis. Tudo em troca de garantias constitucionais e (alegadamente) eclesiásticas, algo que, apesar de terem chegado a um acordo verbal, Hitler (prometeu mas) não o fez por escrito.

factosareter3Pouco tempo depois (Julho) assina-se a concordata (a Reichskonkordat, na qual Kaas tem a sua contribuição) com o 3º Reich, instituindo um dos maiores ganha-pão da ICAR (ainda em vigor), o kirchensteuer, ou o “imposto para a Igreja” (também aplicável a outras confissões). Tal imposto assegurava 8 a 10 por cento dos rendimentos de cada cidadão católico alemão, valores que, afectando uma boa parte dos 40 milhões de católicos alemães, perfaziam uma considerável fatia das finanças vaticanistas. Tal acordo possibilitou maior autonomia para as organizações católicas e o ensino religioso nas escolas, mas ao mesmo tempo afastavam-se da política. É mesmo referido que uma boa parte da hierarquia católica quis este afastamento da vida política, mas apenas por uma questão de difícil controlo destes políticos.

Antes do acordo entre os dois estados e depois de algumas reuniões políticas com o governo de Hitler, Kaas é chamado ao Vaticano, encontrando por coincidência (!?) o vice-chanceler Franz von Papen quando muda de comboio em Munique. Papen ia para Itália para umas supostas férias na neve, mas o verdadeiro motivo era a ida ao Vaticano para negociar a Reichskonkordat, assunto que foram discutindo durante a viagem. Kaas acaba por ser nomeado por Pacelli como o principal mediador para a discussão dessa concordata, factor que implicou a sua futura demissão dechairmando partido devido a pressões políticas. Essas pressões também acabaram por o afastar das negociações. Na mesma altura em que Papen se encontra em Roma, o arcebispo de Munique Michael von Faulhaber escreve a Pacelli, indicando que a Igreja deve afastar-se de defender os judeus, pois “um ataque aos judeus seria um ataque à Igreja“, e porque estes “seriam capazes de se defender sozinhos“.

Há quem diga que a Igreja se encontrou perante um dilema, mas a Reichskonkordat é apontada como um dos principais trunfos de Hitler na acreditação e cimentação do seu regime, algo que procuraria desesperadamente devido à oposição dos numerosos grupos católicos a partir do momento em que o partido Nazi começou a ter notoriedade. Também é dito que, para além da questão financeira, o Vaticano quis desta maneira garantir alguns direitos aos católicos alemães, apesar de ao mesmo tempo estar a dar, mesmo indirectamente, um aval às políticas do 3º Reich.

Pacelli cantou vitória no L’ Osservatore Romano sobre este assunto, indicando que era “não só o reconhecimento oficial pelo Reich da legislação da Igreja mas também a adopção de muitas providências desta legislação e a protecção de toda a legislação da Igreja“. Só que o verdadeiro vencedor era outro. Nos anos que se seguiram Hitler começou a sua cruzada interna (contando com a colaboração de padres na identificação de quem tinha sangue judeu) e violou vários termos desta concordata, os quais tiveram oposição (ainda que pouco visível) da Igreja ao longo da década. Até 1937 Pacelli e o Vaticano pouco ou nada fizeram, pelo menos publicamente.

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1935- No mesmo ano da morte do seu irmão Francesco, em Roma, Pacelli é nomeado Camerlengo da Igreja.

1937- No seguimento da “crescente hostilidade nazi ao cristianismo” e devido a violações da concordata e devido a pressões de clérigos alemães, é editada Mit Brennender Sorge, encíclica de Pio XI (onde Pacelli também colaborou) contundente (uma “condenação expressa e formal dos erros do nacional-socialismo“) com o Nazismo, provocando alguma inquietude em Berlim e retaliações da parte de Hitler. Impressa e distribuída em segredo e lida em simultâneo em várias igrejas um pouco por todo o país, a encíclica condenou o “paganismo da ideologia Nacional-Socialista” e o seu “mito da raça“, assim como a “falácia do seu conceito de Deus“: «Todo o que tome a raça, o povo ou o Estado, ou uma forma determinada de Estado, os representantes do poder estatal ou outros elementos fundamentais da sociedade humana … e os divinize com culto idolátrico, perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus». Mas nem uma palavra em relação aos judeus ou anti-semitismo.

Menos de uma semana depois sai a (corrosiva) encíclica Divini Redemptoris, crítica do “Comunismo ateu” e uma semana depois outra referente à situação no México, país onde havia anticlericalismo e perseguição à Igreja já há vários anos.

1938- Mussolini adapta algumas leis anti-judaicas, provocando reacções públicas da parte de Pio XI, apelando-as de “legislação alemã bárbara“. O seu pontificado estava no fim, mas mesmo assim consegue mobilizar protestos contra essas leis e contra os laços italo-germânicos, aproveitando todas as oportunidades que tem para denunciar os crimes nazis. Pacelli é parte activa destas “causas”, que não tiveram o seu sucesso. No verão, um Pio XI já no leito de morte mas preocupado com a perseguição judaica, decidiu elaborar uma encíclica, “encomendando-a” aos jesuítas. Só que (a incompleta) Humani generis unitas nunca viu a luz do dia e só veio a público décadas mais tarde. E apesar de condenar explicitamente a perseguição judaica e o anti-semitismo, é contundente com o facto dos judeus serem os teóricos assassinos de Jesus Cristo, sendo teoricamente responsáveis pelo seu próprio destino. Permanece um mistério a não publicação desta encíclica, mas há quem especule que Pacelli possa ter tido influência ou então um certo receio da parte de Pio XI de a publicar. De qualquer maneira, já como Papa publica a encíclica Summi Pontificatus no ano seguinte, para a qual aproveita partes da outra.

1939- Morre Pio XI, Papa que atravessou o período entre as duas guerras e que condenou publicamente (mas com as violações das concordatas à mistura) os actos dos regimes totalitários emergentes, nos quais se incluiu também o Comunismo. A 2 de Março Eugenio Pacelli é eleito pelo Conclave, adoptando o nome de Pio, à semelhança do seu antecessor. Nos meses que se seguem, de elevada instabilidade política, Pio XII tenta evitar a todo o custo uma guerra que cada vez mais parecia próxima, apelando sucessivamente pela rádio e usando os meios diplomáticos.

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Imediatamente após o conclave terá tido uma reunião com os cardeais alemães, aos quais manifesta uma vontade de ter uma boa relação com Hitler (ao contrário de Pio XI, que tinha considerado que a presença diplomática na Alemanha era um “conflito com a sua honra“). Pouco tempo depois, a pedido de Pio XII, foi oferecida a Hitler uma gala de honra por ocasião do seu 50º aniversário (20 de Abril), celebração que se repetiu até ao fim da Guerra.

A 1 de Setembro tropas alemãs começam a entrar na vizinha Polónia, dando início ao maior conflito da história do séc. XX. Os soviéticos invadem a Polónia pelo Leste. O Canadá, França e Reino Unido declaram guerra à Alemanha. Em Novembro a União Soviética invade a Finlândia.

A Santa Sé, apesar das pressões externas tanto da comunidade internacional como de clérigos dos países ocupados, terá querido deixar uma imagem de neutralidade e imparcialidade em relação ao Nacional-Socialismo e ao Comunismo, temendo retaliações sobre os católicos locais. Pouco tempo depois, a 20 de Outubro, Pio XII publica a encíclica Summi Pontificatus, crítica do racismo e de ideologias de superioridade, explícita com a invasão da Polónia e pacto Alemão-Russo de não agressão, o tratado Molotov-Ribbentrop.

Muitas das dioceses da ICAR na Polónia estavam sem direcção mesmo antes da guerra. Quando as tropas nazis entraram no país, obrigaram os bispos a abandonar as suas dioceses. Terão morrido mais de dois mil clérigos polacos (nomeadamente os que detinham algum poder ou então envolvidos com a resistência) durante toda a guerra, vinte por cento do total, muitos enviados para campos de concentração (nomeadamente Dachau). Houve pressões do Reich na Santa Sé de maneira a que clérigos alemães substituíssem temporariamente os seus “depostos” homólogos polacos, mas o Papa não se pronunciou de imediato. Em Novembro, Pio XII estendeu a jurisdição do núncio alemão à zona alemã da Polónia, já que o núncio polaco se encontrava em Roma, tendo na altura da invasão fugido do país com o respectivo governo. Pouco menos de um mês depois, nomeou o primeiro dos bispos alemães para uma diocese polaca, provocando a ira (por violação da concordata) do governo polaco no exílio, sitiado em Londres.

Ainda neste ano o Vaticano terá empregado alguns intelectuais judeus, vítimas das leis discriminatórias anti-semitas de Mussolini.

1940- Em Abril a Alemanha invade a Dinamarca e Noruega, seguindo-se os países do Benelux, no mês seguinte. Em Junho os nazis ocupam Paris, ficando a França dividida. A Roménia entra na guerra em Julho, do lado do Eixo. Em Setembro Itália, Alemanha e Japão assinam o Pacto Tripartido, acordo de aliança militar ao qual aderem poucos meses depois a Hungria, Eslováquia e Roménia. A Itália invade a Grécia em Outubro. Esta invade a Albânia em Dezembro.

No início do ano, Pio XII é apontado como estando envolvido numa conspiração de generais alemães para derrubar Hitler. Depois da invasão da Bélgica e Holanda, a ICAR local reagiu. Pio XII mostra-se solidário com os governantes, provocando uma reacção algo hostil da parte de Mussolini (que entretanto tinha entrado na guerra), que via isso como uma afronta aos seus aliados alemães (que também responderam com a deportação de judeus convertidos ao catolicismo, tais como a freira Edith Stein, citada mais abaixo).

factosareter51941- A guerra intensifica-se em África (Líbia, Eritreia, Etiópia e Somália). A Bulgária e Jugoslávia juntam-se ao Eixo em Março. Em inícios de Abril forças do Eixo invadem a Jugoslávia e Grécia. Atenas e Belgrado rendem-se em poucas semanas. O Japão e a União Soviética assinam o pacto de neutralidade. Hitler começa a sua ofensiva contra a União Soviética em Julho. Em Dezembro o bombardeamento nipónico a Pearl Harbor origina a entrada dos americanos, declarando guerra ao Japão juntamente com os britânicos e holandeses. A Alemanha e Itália declaram guerra aos Estados Unidos.

Depois da invasão jugoslava pelo Eixo cria-se o Estado Fascista da Croácia (de maioria católica) sob o comando dos Ustaše (ou Utashas, ultranacionalistas e “fundamentalistas clericais católicos romanos”) de Ante Pavelic (na foto, com Hitler), com objectivos traçados (limpeza étnica e pureza). Os tempos seguintes foram de terror para os cidadãos locais sérvios (cristãos ortodoxos), judeus e outras minorias. Deportações, conversões forçadas, assassínios e tortura resultaram em mais de meio milhão de mortos, maioritariamente sérvios. O Vaticano de Pio XII, próximo do regime Ustaše, nada fez. Foi também decisivo tanto a esconder como a orquestrar a fuga de Pavelic (e de muitos outros procurados por crimes de guerra), acolhido na Argentina de Perón, depois de terminar a Guerra. Ouro retirado às vítimas deste holocausto balcânico foi encaminhado para contas na Suíça. Parte do capital foi recuperado, outra terá ido parar aos cofres do Vaticano, até hoje.

Um curioso episódio relacionado com a França colaboracionista de Vichy é apontado neste ano. Philippe Pétain terá perguntado se o Vaticano se opunha a leis anti-semitas, Pio XII respondeu que a Igreja “condenava o anti-semitismo“, mas “que não comentava medidas específicas“. Depois de Vichy adoptar essas leis, o embaixador na Santa Sé Léon Bérard ouviu do Vaticano que “tal não entrava em conflito com os ensinamentos católicos“. O núncio de França ficou escandalizado e tentou averiguar dentro do Vaticano a veracidade desta “publicidade” do regime de Vichy, confirmando-o.

1942- O exército Vermelho contra-ataca e vence os alemães em Fevereiro de 1943, no culminar da famosa Batalha de Estalinegrado. Em Agosto o Brasil entra na guerra ao lado dos Aliados.

Pio XII nomeia o padre franciscano alemão Hilarius Breitinger (braço direito do anterior detentor do cargo) como administrador apostólico da Reichsgau Wartheland (zona polaca anexada pela Alemanha), algo que foi sentido como uma traição por parte dos católicos polacos, que viam esta nomeação como um reconhecimento da invasão e anexação alemã da Polónia. A concordata de 1925 foi anulada (e entre 1947 e 1989 não houve núncio papal na Polónia).

Em Março chegam a Pio XII relatos da deportação em massa de judeus da Eslováquia (a primeira grande remessa para os campos de concentração foram cerca de mil judias eslovacas para Auschwitz), algo aparentemente banal para o seu mui católico presidente (que acumulava também o cargo de padre). O Vaticano protestou com um comunicado a condenar estas medidas, que “afectavam os direitos humanos das pessoas, apenas por causa da sua raça“.

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O investigador Kevin Madigan aponta que em Outubro do ano anterior o Vaticano já tinha conhecimento de assassínios e maus tratos de prisioneiros de guerra judeus neste país através de um relatório do seu representante local. Em resposta a Santa Sé curiosamente terá perguntado quem cometia estes crimes, se eslovacos ou alemães (neste caso, esquadrões das SS). Tal não ficou por ali e outro relatório chegou ao Vaticano a 19 de Março, via núncio da Suíça. Em Genebra, dois representantes de entidades judaicas emitiram um memorando denunciando as tenebrosas condições a que estavam sujeitos os judeus na Eslováquia e em outras áreas ocupadas (França, Polónia, Croácia…), países de maioria católica onde uma intervenção papal poderia ser decisiva. Acrescente-se um terceiro relatório vindo do Arcebispo de Lvov, Ucrânia, no verão deste ano, um ano após o começo de mais atrocidades. Os Einsatzgruppen (divisões de paramilitares das SS cujo objectivo era a aniquilação de judeus, ciganos e outros grupos considerados “inferiores”) teriam chacinado milhares de judeus, “não sem a ajuda dos locais“. Em Dezembro chega uma quarta notificação, uma carta proveniente do Arcebispo de Riga avisando que a “barbárie nacionalista” tinha levado quase todos os judeus do país à morte, sobrando muito poucos milhares no gueto da capital letã. O Arcebispo foi bastante claro nas descrições: 27.000 abatidos a tiro no meio das florestas letãs e enterrados em valas comuns em apenas dez dias.

Madigan dá mais exemplos. Fala ainda do relato de um padre italiano (Pirro Scavizzi, próximo da família Pacelli) “infiltrado” como capelão militar nos comboios-hospital da Ordem de Malta, ao serviço do Eixo, através de uma carta de Maio deste ano, onde falou das atrocidades testemunhadas in situ na Polónia, Ucrânia e Alemanha. Ainda em relação ao regime Utasha, o representante “não oficial” (o beneditino Giuseppe Marcone) local relatou ao Vaticano em Julho da “iminente partida de judeus para uma morte certa“, algo que foi empolado por uma mensagem de um representante judaico de Zagreb. Ao mesmo tempo o mesmo se passaria em Paris, onde se estariam a concentrar judeus (principalmente checos e polacos radicados em França) para deportação, ao todo cerca de 13.000. Facto relatado por Valerio Valeri (núncio da França de Vichy) ao Secretário de Estado Maglione.

factosareter14Em Junho chegam à imprensa mundial as atrocidades nazis e as intenções de Hitler de limpar a raça judaica da face da terra, com consequentes manifestações um pouco por todo o mundo. Pio XII é pressionado para actuar nos meses seguintes, sem resultados. Os meios diplomáticos andaram particularmente activos sobre o Vaticano, bombardeado com pedidos e sofrendo pressões dos mais diversos lados. Em Setembro, Monsenhor Montini (futuramente Paulo VI) escreve a Pio XII avisando que os “massacres sobre judeus atingiam proporções assustadoras“. Pouco tempo depois o Presidente americano Roosevelt envia um representante a Roma para falar com o Papa, avisando que uma não atitude do Vaticano sobre as atrocidades na Europa punha em causa o seu “prestígio moral“, algo que teve eco da parte de representantes de outros países. Mesmo assim não resultou, respondendo o Secretário de Estado Luigi Maglione que os “rumores de um genocídio não podiam ser verificados“. O representante americano Harold Tittmann pergunta em Dezembro a Maglione se o Vaticano emitiria algo à semelhança da declaração dos Aliados “Política Alemã de Extermínio da Raça Judaica”, respondendo este que o Vaticano “não estava disponível para denunciar atrocidades em particular“. Pio XII terá dito directamente a Tittman que não poderia mencionar os nazis sem mencionar também os bolcheviques. Madigan refere que o enviado americano a Roma, Myron C. Taylor, levou informações de liquidações em massa na Polónia. Nos tempos que se seguiram o Vaticano recebeu informação similar por via de outras fontes. Em inícios de Outubro Maglione teria informações do esvaziamento e deportação dos judeus dos guetos polacos.

Em Dezembro o representante diplomático britânico no Vaticano entrega ao Secretário de Estado um relatório pormenorizado das deportações e extermínio em massa de judeus por parte das autoridades nazis. Na noite de Natal, Pio XII (finalmente) condena a perseguição de judeus numa mensagem radiofónica: “A humanidade deve este voto para as centenas de milhares que, sem culpa própria, por vezes apenas por causa da sua nacionalidade e raça, estão marcados para a morte ou extinção gradual“. Esta indirecta de Pacelli pareceu tímida e até “neutra” para muitos, para além de tardia (mas causou algum azedume em Berlim). Tittman teve uma reunião com Pio XII poucos dias depois. O Papa terá perguntado se era ou não claro que se podia estar a referir a judeus e outras vítimas “apenas por causa da sua raça ou nacionalidade” no seu discurso. Tittman responde que muitos pensaram que tal “não era claro“, ficando o Papa aparentemente surpreso, explicando que não poderia referir os nazis sem referir os bolcheviques e que os relatórios dos Aliados acerca das atrocidades poderiam ter o seu fundamento, mas que também poderiam estar exagerados por motivos de propaganda.

Ainda interessante é o facto de em Agosto ter morrido em Auschwitz a freira carmelita Edith Stein, judia alemã convertida ao catolicismo durante os anos 30 e perseguida pelos nazis devido à sua etnicidade. É presa na Holanda e deportada para o campo de concentração polaco, onde insistiu em usar o hábito “pela conversão ao Catolicismo do povo hebreu“. Foi canonizada por João Paulo II em 1999, com controvérsia à mistura.

1943- Os alemães são derrotados e humilhados em várias frentes- União Soviética (Fevereiro) e África (Junho). Os Aliados entram na Sicília em Julho, derrubando o governo de Mussolini dois meses depois.

Segundo Madigan, a 12 Março a União dos Rabis Ortodoxos da América do Norte envia um telegrama urgente a Maglione após receber uma mensagem de Varsóvia. Mensagem esta que dava conta da liquidação iminente dos judeus do gueto local, pedindo desesperadamente para que se avisasse o mundo e apelando a uma intervenção oficial do Papa. Os mesmos rabis tentaram, duas semanas mais tarde e com lágrimas nos olhos, persuadir o representante apostólico em Washington, afirmando que o Santo Padre poderia pôr um fim ao flagelo com um apelo público. No mês seguinte chega ao núncio de Berna um relatório das actividades nazis sobre os judeus da Roménia, Polónia e Transnítria, embelezado com fotografias, algo inédito até então. No mesmo mês, uma carta de Pio XII ao Arcebispo de Berlim afirmava que “dia após dia” chegava conhecimento de mais e mais actos desumanos. Idem para Maglione que, em notas pessoais da mesma altura e separadas por poucas semanas, falou da deportação de judeus e da mais que provável aniquilação de uma considerável percentagem.

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A Itália rende-se em Setembro e assina um armistício. Hitler desencadeia uma operação de ocupação e controlo do país (estando os Aliados na zona Sul da península), com desarmamento do exército local. Mussolini é preso mas recuperado por uma unidade especial do exército alemão, que o encaminha para a Alemanha. Os judeus italianos, que durante o tempo de Mussolini tinham ficado incólumes, iam agora ser deportados. A prisão de judeus era então a principal prioridade da Gestapo na península itálica nas semanas que se seguiram. De acordo com Martin Gilbert, no dia 9 de Outubro (dia sagrado para os judeus), cerca de cem foram deportados de Trieste para Auschwitz, morrendo todos. Porém, em Ancona, no mesmo dia, o rabi local foi avisado por um sacerdote católico (Don Bernardino), da “deportação iminente”, tendo-se conseguido salvar (muitos escondidos por famílias católicas) grande parte da comunidade, dos quais apenas 10 foram deportados (um sobreviveu). A 8 de Novembro parte de Florença um comboio com “destino desconhecido”, transportando judeus presos em Siena, Bolonha e Florença, do qual não se conhecem sobreviventes.

A 16 de Outubro, na capital Roma, as SS encurralam cerca de mil judeus (um sétimo do total), encaminhando-os dois dias depois para Auschwitz. Martin Gilbert indica que mais de quatro mil estariam protegidos em lares cristãos, conventos ou mosteiros, cerca de 477 dentro do próprio Vaticano. O envolvimento do Papa nesta operação é apontado como “indirecto” por uns e mais activo por outros. Na iminência de um bombardeamento Aliado na Roma ocupada, Madigan relata que Francis d’Arcy Osborne, representante britânico na Santa Sé, em resposta à ameaça de Pacelli de protestar publicamente contra esses eventuais bombardeamentos, terá dito “Em vez de só pensar no bombardeamento de Roma, a Igreja devia considerar a suas acções em relação à campanha de extermínio dos judeus“. Quando os raides aliados atingiram parte da Basílica de S. Lorenzo, Pio XII veio a público protestar (apenas) contra o atentado “aos tesouros sem preço da cidade“.

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Ainda a respeito disto John Cornwell relata um curioso episódio. O Papa, na altura em que as SS entravam em Roma, era a única autoridade ainda em vigor. Foi pressionado pela diplomacia alemã (receando protestos da população e o agravar da situação com motins e insurreição à mistura) para emitir uma nota de protesto de maneira a evitar mais prisões de judeus e conter o avanço das SS. Pio XII recusou. Tittman visitou o Papa nesse mesmo dia, encontrando-o ansioso pelo facto dos “partisans comunistas” poderem tirar dividendos de um protesto papal, ao que se poderia seguir uma retaliação das SS e uma revolta dos civis. Apesar do Vaticano proteger muitos judeus nas suas fileiras, era estranho o silêncio e a aparente ausência de qualquer tipo de preocupação de Eugenio Pacelli por estas mil vítimas.

Uma mensagem do representante diplomático alemão em Roma durante o mesmo mês revelava: «o Papa ainda não se deixou persuadir para emitir uma declaração respeitante ao à deportação de judeus romanos… Como de momento os alemães não irão tomar mais medidas contra os judeus de Roma, os assuntos respeitantes às nossas relações com o Vaticano podem ser considerados fechados».

Harold Tittman fala de um encontro com Pio XII a 19 de Outubro. Na altura em que os nazis se preparavam para deportar 1000 judeus romanos, a grande preocupação do Papa era a “situação da comida em Roma, para além da intervenção de “pequenos grupos comunistas” entre a retirada dos alemães e a chegada dos Aliados à capital italiana. A respeito da presença nazi, Tittman afirma que Pio XII deu uma nota de certa maneira “positiva” aos germânicos, pois até à altura tinham “respeitado o Vaticano e a propriedade da Santa Sé em Roma”.

Tittman revela ainda algo interessante- que na altura da invasão o Secretário de Estado Maglione recomendou a destruição selectiva de documentos (algo que aconteceu e foi mesmo estendido às embaixadas locais) que pudessem comprometer o Papa, nomeadamente os que denunciariam as suas supostas actividades anti-nazis. O filho de Tittman, adolescente durante esta altura, falaria décadas mais tarde acerca da rede de protecção aos judeus de Roma.

1944- A deportação de judeus da Hungria cessa após pressões de vários países e organizações, onde Pio XII e o núncio local tiveram um papel importante. A 5 de Abril, 559 judeus de várias zonas de Itália são deportados para Auschwitz. Roma cai para o lado dos Aliados a 4 de Junho. Dois dias depois dá-se o acontecimento que vira o rumo da Guerra: o Dia D.

Os soviéticos vão avançando- Leninegrado (Janeiro), Odessa (Junho), Minsk (Julho), Bucareste (Agosto), Estónia (Setembro). Os Aliados também- Roma (Junho), Caen (Julho), Florença, Marselha e Toulon (Agosto), Antuérpia e Calais (Setembro), Atenas (Outubro) e Estrasburgo (Novembro).

Dois investigadores italianos relatam um encontro entre Pio XII e Francis D’ Arcy Osborne em Novembro deste ano. Os nazis recuavam mas ainda deportavam judeus para Auschwitz, neste caso húngaros.  Osborne terá pedido para que o Papa emitisse um apelo em defesa dos judeus da Hungria, mas Pio XII terá dito que estaria sob pressão para condenar os actos do exército Vermelho contra católicos na Polónia e Estados Bálticos. Respondendo que não havia provas desses actos e que mesmo havendo, não se poderiam comparar com o que os nazis faziam aos judeus, Pio XII concordou, só que mesmo que fizesse esse apelo, não iria “criticar explicitamente os nazis“.

1945- O Exército Vermelho captura Varsóvia (Janeiro), Danzig (Fevereiro), Viena (Abril) e Praga (Maio). Os Aliados chegam a  Arnhem, Hannover e Nuremberga em Abril. A Itália cai a 28 do mesmo mês. Mussolini é fuzilado em Dongo, sendo o seu corpo exposto mais tarde em Milão. Ao mesmo tempo, na capital alemã, Hitler redige o seu testamento no bunker de onde não sairia com vida. Suicida-se dois dias depois. Berlim rende-se a 2 de Maio, assim como tropas alemãs um pouco por toda a Europa. A Guerra dura apenas pouco mais de uma semana- sessenta milhões de mortos, dos quais 40 eram civis. Seis milhões de judeus, quase 27 milhões de soviéticos. O Japão rende-se em Agosto.

O êxodo de nazis e outros criminosos de guerra para fora da Europa intensifica-se por intermédio dos “canais” que passavam por vários sítios, entre Espanha e Odessa e onde membros da Igreja tiveram um papel importante, as Ratlines. O bispo Alois Hudal foi peça importante em toda esta máquina. Nomeado pela Secretaria de Estado do Vaticano como mediador para os presos alemães em campos (muitos deles andavam sem documentação e então protegidos pelo anonimato) um pouco por toda a Itália, ajudou criminosos de guerra a escapar para a América do Sul através de documentação falsa emitida pelo serviço de refugiados vaticanista, a Commissione Pontificia d’Assistenza,escondendo ainda alguns em conventos e mosteiros. Entre estes nomes destaca-se um dos obreiros do Holocausto, Adolf Eichmann, o chefe das SS no norte de Itália, Walter Rauff e o “anjo da morte de Auschwitz”, Josef Mengele.

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Nomeado por Pio XI, Hudal (na foto), austríaco de nascimento, anti-comunista, anti-liberal e até anti-democracia representativa, afeiçoou-se ao nacionalismo alemão no início dos anos 30. Entra em rota de colisão com o Papa e o Secretário Pacelli em 1937, altura em que uma sua “não autorizada” publicação em relação ao Nacional-Socialismo é divergente da opinião da Igreja, agravando-se a situação quando sai a encíclica Mit Brennender Sorge. Apesar dos apelos da hierarquia para que mudasse as suas opiniões, Hudal é afastado das lides da Santa Sé a partir de 1938 e relegado para um cargo “inferior”. Quando os alemães invadem Roma em 1943, é apontado como informador e colaborador das SS, destacado para o norte do país. Há também quem diga que interveio a favor dos judeus, após um pedido do embaixador alemão em Roma, que temia que o Papa tomasse uma posição contra a ocupação germânica. As teses à volta das acções de Hudal divergem. Uns dizem que terá agido por conta própria, de acordo com a sua consciência política, mas o mais surpreendente de tudo e que eleva as suspeitas sobre o Vaticano acaba por ser a sua nomeação para lidar com os presos germânicos.

1946- Hudal foi o primeiro a fazê-lo, mas o maior canal de saída via Roma acabou por o de San Girolamo, organizado por franciscanos croatas, liderados pelo padre Krunoslav Draganović (também envolvido na lavagem de dinheiro retirado às vítimas do regime utasha). Com quartel general montado num colégio (mosteiro de San Girolamo degli Illirici) de Roma, organizavam as fugas através do porto de Génova, com ligações à Áustria, esconderijo de criminosos utashas e nazis. O esquema passava por fazê-los atravessar clandestinamente a fronteira Áustria-Itália, escondendo-os posteriormente em vários sítios, nomeadamente mosteiros, enquanto lhes arranjavam documentação. Tudo isto orquestrado por meia dúzia de padres.

O pior de tudo é que este esquema era uma espécie de classified information por entre os meios diplomáticos e serviços secretos de Roma. Em Julho, os serviços secretos americanos emitem um mandato de captura sobre nove criminosos de guerra dos balcãs, “que não estando escondidos no colégio de San Girolamo degli Illirici, estariam de qualquer maneira sob protecção da Igreja“. Um enviado britânico à Santa Sé pede autorização para revistar instituições ex-territoriais do Vaticano, recebendo como resposta a negação e que “o Vaticano não abrigava criminosos de guerra“.

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1947- Os Estados unidos infiltram no mosteiro um agente secreto do Counter intelligence Corps e descobrem que dez colaboradores de Ante Pavelic viviam entre o colégio de San Girolamo degli Illirici e o Vaticano. O agente Robert Clayton Mudd põe o dedo na ferida, afirmando: «estes croatas viajam de e para o Vaticano várias vezes por semana num carro com chauffeur com matrícula diplomática (…) sujeito a imunidade diplomática, torna-se impossível de parar o carro e descobrir quem são os passageiros (…) O patrocínio de Draganović a estes croatas colaboracionistas definitivamente liga-o ao plano do Vaticano em proteger estes ultranacionalistas utashas até lhes adquirirem os documentos necessários. O Vaticano, apoiando-se no forte anti-comunismo destes homens, está a tentar infiltrá-los na América do Sul para conter a proliferação da doutrina Vermelha (…) Todas estas operações foram negociadas por Draganović devido à sua influência no Vaticano».

Os Americanos acabaram por usar esta Ratline para escoar criminosos de guerra nazis (nomeadamente cientistas) da Áustria, com medo que caíssem em mão soviética. Muitos foram parar à América, a centros de ciência militar.

1958- Quatro anos depois do seu estado de saúde se ter agravado, Pio XII morre a 9 de Outubro com a idade de 82 anos, sucedendo-lhe Angelo Giuseppe Roncalli, aka João XXIII. O pontificado dura 19 anos, 7 meses e 7 dias.

1963- Entra em cena a peça de teatro  ”Der Stellvertreter, Ein christliches Trauerspiel” (The Deputy, a Christian tragedy) da autoria de Rolf Hochhuth, crítica de Pacelli. Retrata um Pio XII silencioso e hipócrita em relação ao Holocausto, mais preocupado com as finanças vaticanistas do que com a vida de milhares de inocentes.

1965- Paulo VI dá início ao processo de beatificação de Eugenio Pacelli. Em 1990 João Paulo II declara Pio XII “Servo de Deus”.

factosareter41999- É editado o (aclamado e criticado) livro de John Cornwell, “Hitler’s Pope” (O Papa de Hilter), que acusa Pacelli de ser anti-semita, passivo em relação ao Holocausto, mais preocupado com o poder da Igreja em si do que com a vida de milhares de pessoas. A tese central de Cornwell ataca também a pouca abertura no que toca a negociações com regimes comunistas (que perseguiam a Igreja), ao contrário das ditaduras fascistas emergentes.

2004- É editado o livro “Inside the Vatican of Pius XII: The Memoir of an American Diplomat During World War II” (Dentro do Vaticano de Pio XII: As memórias de um diplomata americano durante a segunda grande guerra). Harold Tittman morre em 1980 mas deixa uma grande quantidade de informação, à qual se acrescenta a do seu filho, adolescente durante a guerra. Defendendo que Pio XII não era apoiante dos nazis, afirma que uma intervenção directa do Papa contra as políticas de Hitler teria sido naquela altura mais problemática para a Europa. Fala de uma ligação de Pio XII à resistência alemã que o aconselhava a não falar directamente sobre as políticas nazis, assim como o facto do Papa manter uma conta bancária em Nova Iorque, a qual usaria para fins de caridade.

2007- A Congregação para a Causa dos Santos “reconheceu que Pio XII praticou as virtudes teologais e as virtudes humanas em grau de heroísmo, submetendo a Bento XVI a decisão de declará-lo Venerável”.

2010- Ratzinger declara Pio XII (e João Paulo II) como “veneráveis”, factor que precede a sua elevação à santidade. Nos últimos anos ouvem-se várias histórias. A que mais se destaca é o alegado plano de Hitler invadir o Vaticano e de tomar Pio XII como refém, na altura (1943) em que Roma foi ocupada, facto atestado por Cornwell, após encontrar um documento secreto nos arquivos jesuítas de Roma. Nesse documento vem expresso um juramento de Karl Wolff (comandante das SS na altura da ocupação da cidade romana), em que afirma que Hitler lhe pedira para transferir o Papa e tesouros do Vaticano para o Lieschenstein, plano que entretanto foi posto de lado.

Fontes

WikipediaPope Pius XIITratado de LatrãoFrancesco PacelliNon abbiamo bisognoPope Pius XIMit brennender SorgeHitler’s PopeLudwig KaasReichskonkordat; Divini RedemptorisHumani Generis UnitasSummi PontificatusUstašeAnte PavelicWorld War IIEdith SteinRatlinesAlois HudalKrunoslav DraganovićReorganization of occupied dioceses during World War IIPope Pius XII and PolandAlleged plot to kidnap Pope Pius XIIEinsatzgruppen; The Deputy.

Yallop, D.; “Em nome de Deus“, Publicações Dom Quixote; Lisboa, 2008.

Gilbert, M; “A Segunda Guerra Mundial“; Publicações Dom Quixote; Alfragide, 2009.

What the Vatican Knew About the Holocaust, and When“; artigo de Kevin Madigan; 2001.

Pius XII and the Holocaust” Kevin Madigan & Critics.

Hitler’s Pope (Abridged)” artigo de John Cornwell; Vanity Fair, Outubro de 1999.

The Unsilent Pope“, crítica ao livro de Harold H. Tittmann, Jr. “Inside the Vatican of Pius XII: The Memoir of an  merican Diplomat During World War II” William Doino, Jr. and Joseph Bottum.

Much-maligned pontiff“, artigo de Dimitri Cavalli; Haaretz, Janeiro 2010.

Wartime Pope Pius XII ‘more concerned about Communism than Holocaust’“, artigo de Nick Squires; Daily Telegraph, Fevereiro 2010.

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