Comemoram-se hoje os 119 anos da primeira revolta (sem sucesso) contra a monarquia, no Porto. 31 de Janeiro é também a data que dá início às comemorações oficiais do centenário da República Portuguesa, com iniciativas um pouco por todo o país. Amanhã a data também é importante- 102 anos do regicídio de D. Carlos, facto decisivo para o que se veio a suceder dois anos mais tarde, quando a monarquia foi derrubada, plano envolvendo um misto de militares e membros do Partido Republicano Português, da Maçonaria e Carbonária. Os anos que se seguiram ao 5 de Outubro de 1910 foram de grande instabilidade política.
«Formou-se um governo provisório, presidido por um velho republicano, Teófilo Braga, e cujos ministros eram todos, sem excepção, do PRP. Afonso Costa, que se iria tornar a figura dominante da primeira fase da República, tutelava a Justiça e os Cultos, António José de Almeida, o mais popular dos dirigentes republicanos, ficou com a pasta do Interior, a Brito Camacho, ser-lhe-ia em breve oferecida a pasta do Fomento»[Público]
As grandes revoluções no que toca à legislação emanada por este governo provisório estiveram nas «novas leis da imprensa até à célebre Lei de Separação do Estado das Igrejas, que entrou em vigor em Julho de 1911 e que vinha coroar um anterior conjunto de medidas anti-clericais de Afonso Costa: a expulsão dos jesuítas, a recuperação das leis que haviam extinguido as ordens religiosas, a probição do ensino cristão nas escolas, a anulação dos feriados religiosos ou a lei do divórcio».
As opiniões em relação à primeira República e a Afonso Costa dividem-se, muitas em função da orientação política e polarizadas entre o que Fernando Rosas (historiador e deputado do Bloco de Esquerda) chama de “corrente (…) de forte cunho monárquico-conservador” (que “encara o republicanismo como “pouco mais do que uma conspiração maçónica-radical de alguns intelectuais urbanos subversivos, sedentos de poder e carentes de escrúpulos“) e uma “ortodoxia maçónica-republicanista acriticamente glorificadora“.
A “violência da perseguição à Igreja” encontra algum consenso nas críticas feitas à primeira República (dominada em exclusivo pelo PRP nos primeiros anos), entre outras- «O PRP recorria oficiosamente a milícias populares para “meter na ordem” os descontentes, destruir jornais da oposição e garantir outras tarefas de protecção do regime. E a repressão das greves operárias deu a Afonso Costa a alcunha de “racha-sindicalistas”. Ao contrário do sufrágio universal masculino que a propaganda republicana prometera, a capacidade eleitoral continuou a ser vedada aos analfabetos, que eram a maioria da população. O voto das mulheres, esse, estivera sempre fora de questão».
O historiador Rui Ramos afirma que Portugal foi dominado pelo PRP, representante de uma “extrema-esquerda jacobina da época”, lembrando ainda que apenas houve eleições gerais em 1915. É crítico com Afonso Costa, que acusa de ter “propensão para a violência e o confronto”. Indica ainda que alguns governos que se seguiram não correspondiam ao mesmo tipo de regime, entre «a breve ditadura de Sidónio Pais e o período final, marcado pelos governos de António Maria da Silva e pela tentativa de reconciliação com a Igreja».
Manuel Loff reconhece na implantação da República muitas virtudes, ainda por cima num cenário de grave crise financeira- nomeadamente na Educação (criação das universidades de Lisboa e do Porto)-, e falhanços- «Não fez as grandes reformas sociais e económicas nem a reforma agrária, não promoveu um desenvolvimento industrial significativo e não mudou a natureza das relações sociais em Portugal». Ataca ainda os dirigentes do PRP por romperem “com o movimento operário que os auxiliara no 5 de Outubro”, em particular Afonso Costa, que “chegou a deportar sindicalistas para as colónias em plena guerra”.
Fernando Rosas defende que a República falhou no mais essencial, em “democratizar o país“, apontando como os erros mais graves o facto de terem tornado o movimento operário num inimigo, exageros na perseguição à Igreja e a entrada na Primeira Guerra.
Até a 1926 Portugal teve vários presidentes (8) e muitos mais governos (45), com quezílias internas e até violência à mistura, tempos sem dúvida difíceis e que apanharam ainda uma situação económica gravosa e uma guerra mundial, para além de questões das colónias e de desigualdade social. Foi também uma viragem no que toca a determinados direitos: divórcio, instituição do ensino obrigatório num país com dois terços de analfabetos, separação entre Igreja e Estado. Mas no meio de todos os defeitos que se lhe possam apontar (que teve), foi acima de tudo uma tentativa de estabelecer um país mais moderno, lançando-se as primeiras pedras para esse efeito.
Outros artigos relacionados:
Já ouvi uns rumores que na cerimónia de inauguração esteve um padre a rezar pelos mortos da revolução e a ser verdade não deixa de ser vergonhoso…
Sabes o link do artigo?
Link não tenho, li num comentário no FB, daí ter utilizado a expressão rumores. Mas presumo que tenha sido na romagem ao cemitério do Prado do Repouso que foi feita logo de manhãzinha conforme consta no programa oficial que se encontra aqui:
http://www.centenariorepublica.pt/conteudo/31-de-janeiro-de-2010
Confirmo os rumores, xico.
Vi o discurso patriotico e poetico.
Com os soldados à chuva de peito cheio comovidos por tais palavras
Rui,
«Mas no meio de todos os defeitos que se lhe possam apontar (que teve), foi acima de tudo uma tentativa de estabelecer um país mais moderno, lançando-se as primeiras pedras para esse efeito.»
Apesar do teu esforço notório pela objectividade, porque reconheces defeitos à 1ª República, esta tua frase dá a entender de que se tratava de gente séria, que tentou estabelecer um país mais moderno.
Acho que ainda não te deste conta do calibre da canalhada.
Eu duvido que tu, e outros defensores aqui do Portal do conceito de laicismo, ou seja, de separação entre Igreja e Estado, concordassem com 90% do que consta da “célebre Lei de Separação do Estado das Igrejas”.
É que essa lei foi tudo menos de separação. Ela deveria ter sido apelidada de “Lei de Humilhação das Igrejas pelo Estado”.
Alguns exemplos muito concretos e objectivos, retirados do texto da dita Lei de 1911, que fazia do clero uma classe especial de funcionários públicos:
«Artigo 12.º A injúria ou a ofensa cometida contra um ministro de qualquer religião, no exercício ou por ocasião do exercício legítimo do culto, será considerada crime público e punida com as penas que são decretadas para os mesmos crimes quando cometidos contra as autoridades públicas.»
Não achas exótico? Equiparar essas ofensas às ofensas cometidas contra as autoridades públicas?
À partida parece simpático para os ministros do culto, mas é só para os tornar funcionários do Estado.
Logo a seguir, vem a pancadaria legislativa…
Depois de criar juridicamente as famosas “cultuais”, ou seja, associações sob o controlo do Estado para a gestão paroquial, algo que Afonso Costa legisla nos primeiros artigos do Capítulo II da famigerada Lei, vêm estas pérolas:
«Artigo 26º – Os ministros de qualquer religião são absolutamente inelegíveis para membros ou vogais das juntas de paróquia e não podem fazer parte da direcção, administração ou gerência das corporações que forem encarregadas do exercício do culto.»
Ou seja, os padres não podem presidir às cultuais!
Espectáculo…
Mas há muito mais:
«Artigo 27º – As corporações ou associações directa ou indirectamente relacionadas com o culto, e, em geral os agrupamentos de fiéis de qualquer religião, que não se subordinem às prescrições deste decreto com força de lei, não são consideradas pessoas morais para os efeitos dos artigos 32º e seguintes do Código Civil, sem prejuízo da disposição transitória do artigo 169º do presente decreto. »
Eu não sei se estás dentro do contexto do tema, mas a coisa é simples como água: todas as paróquias devem ser organizadas em torno de “cultuais”, que se remetem ao poder do Estado, e quem não se subordinar a esta lei simplesmente perde o estatuto de pessoa moral. Ou as paróquias obedecem à dita “lei da separação”, ou então deixam de ser reconhecidas pelo Estado. Bela separação… Isto é o Estado a escrever a lei da gestão da Igreja em Portugal.
O Artigo 28º é muito divertido, porque mostra que o Costa copiou a lei da separação francesa (a do Combes):
«5.º Receber e administrar os donativos que, por ocasião dos actos do culto, forem voluntariamente oferecidos pelos assistentes e as importâncias que constituírem a remuneração pela ocupação de bancos e cadeiras, ou pelo aluguer de objectos próprios, destinados ao culto ou ao serviço dos funerais, incluindo os necessários para a decoração dos templos.»
O imbecil do Costa nem sequer sabia que em Portugal nunca se reservaram lugares em bancos ou cadeiras nas igrejas!! Isso é um costume francês, que deste modo, demonstra que estes legisladores incompetentes traduziram grande parte do texto da lei francesa, certamente por serem juridicamente analfabetos. Isso explica também as inconsistências que se encontram, nas partes que eles inventaram, desviando-se do texto francês.
O Artigo 29º simplesmente extingue as doações dos fiéis:
«Afora o disposto nos nos 4º e 5º do artigo anterior, as corporações aí designadas ficam proibidas de receber para fins cultuais, por doações entre vivos ou por testamento, ou ainda sob o disfarce de contrato oneroso, ou de sociedade, transacção ou conciliação, directamente ou por interposta pessoa, quaisquer bens ou valores, e os que forem adquiridos com ofensa desta proibição, poderão ser reclamados pelo legítimo sucessor ou interessado, dentro do prazo de um ano a contar da morte do indivíduo a quem pertenciam esses bens ou valores, e reverterão, passado esse prazo sem reclamação, para a respectiva junta de paróquia, que os aplicará a fins de assistência e beneficência.»
A ideia é simples: privar as paróquias da sua única fonte de rendimentos, para que estas paróquias se vejam forçadas a pedir dinheiro ao Estado, via a figura jurídica das “cultuais”. O que faz destas paróquias “cultualizadas” meras dependências do Estado. Esta questão das “cultuais” vai marcar profundamente a Igreja Católica em Portugal durante a 1ª República. Há histórias conhecidas de padres a morrer à fome por recusarem o vexame de serem “submetidos” ao Estado, por não aceitarem as ditatoriais “cultuais”.
Depois, vêm os Artigos 30º e 31º, os do gamanço:
«Artigo 30º – Os edifícios ou templos, que de futuro forem adquiridos ou construídos para reuniões cultuais não podem ser alienados, nem, por consequência, hipotecados, penhorados ou por qualquer forma desvalorizados, sem consentimento do Ministério da Justiça, e reverterão, ao fim de noventa e nove anos, contados desde o dia em que foram inaugurados ou pela primeira vez aplicados ao culto duma religião, para o pleno domínio do Estado, sem indemnização alguma.
Artigo 31º – Os edifícios ou templos, que até agora têm sido aplicados ao culto público de qualquer religião ou estão em construção com esse destino, e que não pertencem ao Estado nem aos corpos administrativos, serão do mesmo modo inalienáveis sem consentimento do Ministério da Justiça, e poderão a todo o tempo ser expropriados por utilidade pública pelo seu valor actual, com reversão para o Estado de quaisquer benfeitorias futuras, se depois de 1 de Julho próximo continuarem a ser ou forem aplicados ao culto público. »
O Artigo 32º está feito para que a Igreja dê ao Estado 1/3 do que receber dos fiéis…
O infame Artigo 40º está feito para massacrar os religiosos que quisessem escapar à lei persecutória de 8 de Outubro de 1910:
«Serão também declaradas extintas, passando para o Estado todos os bens sem excepção, as associações, corporações ou outras entidades, que admitirem, entre os seus membros ou empregados, quaisquer indivíduos, de um ou outro sexo, que tenham pertencido às ordens ou congregações religiosas declaradas extintas pelo decreto de 8 de Outubro de 1910, e bem assim aqueles que pertencerem aos institutos dessa natureza onde quer que existam, ficando esses indivíduos, os membros da direcção ou administração daquelas associações, corpo rações ou entidades, e quaisquer outros responsáveis pela infracção, sujeitos à sanção do artigo 140º do Código Penal e a quaisquer outras penalidades aplicáveis pelos decretos de 8 de Outubro e 31 de Dezembro de 1910.»
O Artigo 43º diz que os padres não podem rezar a missa antes do amanhecer ou depois do por-do-sol (bela Lei da Separação, esta):
«Artigo 43º – O culto público não depende de autorização alguma prévia, nem da participação a que se refere a lei de 26 de Julho de 1893, actualmente reguladora do direito de reunião, quando se exerça nos lugares, que a isso têm sido habitualmente destinados, ou que legalmente o forem de futuro e entre o nascer e o pôr do sol.»
No Artigo 48º, massacra-se a liberdade de expressão:
«O ministro de qualquer religião, que, no exercício do seu ministério, ou por ocasião de qualquer acto do culto, em sermões, ou em qualquer discurso público verbal, ou em escrito publicado, injuriar alguma autoridade pública ou atacar algum dos seus actos, ou a forma do governo ou as leis da República, ou negar ou, puser em dúvida os direitos do Estado consignados neste decreto e na demais legislação relativa às igrejas, ou provocar a qualquer crime, será condenado na pena do artigo 137° do Código Penal e na perda dos benefícios materiais do Estado.»
O Artigo 55º é mais uma salutar medida de separação:
«Os actos de culto de qualquer religião fora dos lugares a isso destinados, incluindo os funerais ou honras fúnebres com cerimónias cultuais, importam a pena de desobediência, aplicável aos seus promotores e dirigentes, quando não se tiver obtido, ou for negado, o consentimento por escrito da respectiva autoridade administrativa.»
O Artigo 58º regula a forma como os padres se vestem para enterros (previamente autorizados, é claro).
O Artigo 59º manda nos sinos das igrejas.
Eu não te vou maçar mais com esta lei inacreditável.
Termino apenas com mais dois rebuçados legislativos, da lavra do Costa.
O Artigo 152º fica para os anais da dita “política de separação”. Este artigo legisla como fazer a distribuição dos bens de um ministro do culto CATÓLICO (curioso detalhe, para uma lei que começava por querer tratar as religiões como iguais) aquando da sua morte:
«2º Se sobreviver, além dos pais, ou dum deles, a viúva do pensionista, uma quarta parte da pensão para esta e outra quarta parte para aquele ou aqueles ; »
Para os mais distraídos, o “pensionista” é mesmo o padre, o tal funcionário do Estado que passa, com esta “lei da separação”, a receber uma vexante pensão se aceitar tornar-se funcionário do Costa.
Mas há mais…
«3º Se sobreviverem um ou mais filhos menores do pensionista falecido, legítimos ou ilegítimos, metade da pensão para todos eles, enquanto forem menores, com sobrevivência duns para os outros até a maioridade do mais novo ;»
Mas leiam a totalidade deste Artigo 152º que é uma delícia… de legislação “laicista”!
É esta escumalha miserável, cujo menor dos defeitos era a falta de cultura e de educação, que se pretende agora evocar, em memória saudosa, como “pais da modernidade”.
Sei que tentas ter uma visão imparcial, Rui. Só quis deixar aqui o meu contributo.
Um abraço!
Olha, querem ver que além de beato, é monárquico.
Eu até acho algumas dessas leis bem aplicadas. Sendo os padre um conjunto de pessoas que não faz nenhum para trabalhar nem paga impostos, e tendo a ICAR dinheiro para contruir autênticos mamarrachos pelo mundo fora, já têm muita sorte de não serem simplesmente tratados como qualquer empresa privada, sem quaisquer garantias de sobrevivência, e tendo que pagar impostos e o preço dos terrenos e imóveis em pleno. Não têm fontes de rendimento? Que piada, tendo em conta as empresas fachada e os bens que possuem pelo mundo fora.
Bernardo,
Como 100% republicano que sou tenho uma opinião muito má do Portugal pré-1910. Aliás, desde D Maria II e D.Miguel que a coisa foi entrando em decadência. Até hoje ainda estamos a recuperar disso.
Qualquer revolução que se faça tem sempre os opressores e os oprimidos por trás e a partir do momento que uns passem para o poder há represálias- foi assim em 1910 e durante o PREC. Depois de anos, décadas e até séculos de domínio exacerbado de determinadas classes com a ICAR à mistura, infiltrada dentro do Estado, detentora de um grande património e em comunhão com os grandes senhores e monarquia em geral, protegendo os seus interesses e dos seus amigos em detrimento
do povo e de sectores de livres pensadores divergentes da doutrina oficial do Estado. É perfeitamente natural que se crie descontentamento. Foi bem pior na Espanha pré-franquista, com perseguições, mortes e queima de igrejas.
A ICAR andou sempre a reboque das monarquias e dos piores regimes de direita e teve um tratamento, em parte, merecido. Claro que a transição de regime podia ter sido mais moderada (repressão exagerada não tem resultados e só piora a coisa). Não defendo um tratamento assim tão hostil, mas considere-se que a monarquia e a ICAR nunca deixariam o poder muito facilmente. Alguma coisa tinha de ser feita e estou perfeitamente de acordo que se homenageiem estes homens, independentemente das más leis ou dos defeitos que tenham.
Abraço
Rui,
Se calhar, não se entendeu o objectivo do meu comentário.
Não vim para aqui defender a monarquia: as minhas causas são outras.
Até porque quando escreves isto, fica claro que não estás a ver o alcance do meu comentário:
«A ICAR andou sempre a reboque das monarquias e dos piores regimes de direita e teve um tratamento, em parte, merecido.»
Na escala de maus tratos à Igreja Católica em Portugal, quem ocupa o segundo lugar, logo a seguir à pandilha do Afonso Costa, é a Monarquia Constitucional.
Sempre que um monárquico exacerbado (mais do Rei do que de Deus) se mostra muito piedoso por conveniência, eu lembro-o dos maus tratos infligidos ao cristianismo em Portugal pela própria Monarquia.
Foi a Monarquia constitucional que abriu a sepultura à Igreja. O Afonso Costa só foi o coveiro que a tapou.
Felizmente, como tudo o que é bom, a Igreja superou ambas as perseguições, não só por mérito próprio, mas também graças à feliz morte dos seus carrascos, os constitucionalistas e os jacobinos.
Abraço
PS: Cuidado com algumas das frases que escreves: «A ICAR andou sempre a reboque das monarquias e dos piores regimes de direita». Não sei como justificas esta frase em contexto Pombalino, por exemplo. O despotismo iluminado, do qual o Sebastião José é o melhor exemplo, humilhou e espezinhou a aristocracia e o clero.
Imagino que sejas tudo menos monárquico… Ok, “sempre” substitui-se por “quase sempre”.
Rui,
Sei que o estereótipo fácil, quando eu me digo católico, é imaginar-me em Fátima, numa casa de fados, logo a seguir a uma tourada, acompanhado de marialvas monárquicos, com Câmaras Pereiras aos gritos…
A vida é sempre mais complexa do que os estereótipos.
Seria complicado explicar a minha posição.
Digamos que eu estou aberto a que me sejam demonstradas as vantagens da república face à monarquia, e as vantagens da monarquia face à república.
O conceito de monarquia não me choca, nem o considero um absurdo.
Porque razão o faria?
Se formos fazer algumas estatísticas, o modelo de monarquia deve ser dos mais usados e testados pela humanidade.
O que eu sei é que não tenho especial gosto pelas monarquias de fantochada. Se fosse pela monarquia, eu seria pela monarquia a sério, ou seja, com um Rei que fosse Rei.
(Uma nuance: eu poderia ser monárquico convicto, e ao mesmo tempo, acusar a Monarquia constitucional de ter dado cabo do que restava de Portugal.)
Uma coisa é a beleza teórica de um modelo de governação.
Outra coisa é a sua implementação.
Por exemplo: a Democracia é algo que parece lindo no papel.
Mas que na realidade, raramente é aplicada (ou aplicável).
Portugal passou por, “grosso modo”, três fases diferentes de Monarquia, e isso poucas pessoas sabem:
1. Monarquia feudal
2. Monarquia absolutista
3. Monarquia constitucional
De todas, a que mais me agradaria seria a primeira. É que nesse primeiro modelo, o monarca tinha que ser aclamado como tal, pelas Cortes (e muitos não o foram). No segundo modelo, o monarca é um governante intocável e não sufragável. Nesse modelo, o rei até pode ser uma besta, e não há nada a fazer! No terceiro modelo, o monarca é um fantoche, e simplesmente deixou de ser monarca. É apenas um carimbo. Um selo. Um boneco.
No século XIX, monarcas frágeis (e com pouco poder) deixaram que outros abrissem caminho para a revolução republicana. Ora, a revolução republicana aconteceu no Marquês de Pombal, e não no país. As pessoas não sabem, nem lhes contam, que tirando Lisboa, e depois o Porto, ninguém no resto do país estava alinhado com a república. A república, em Portugal, foi imposta.
E isto sem falar no crime hediondo do regicídio, obra da Carbonária!
Por isso é que me passo quando vejo tantos elogios imbecis à 1ª República, um regime ditatorial, caótico e desordenado, imposto à força, liderado por umas bestas incultas e mal-educadas, ultra-despóticas e violentas, que faziam “vendettas” no melhor estilo siciliano e nem sequer deixavam votar as mulheres, quanto mais o povo…
“Democratas”, chamam-lhes…
“Pais do Portugal moderno”, chamam-lhes…
As figuras de proa da 1ª República, salvo uma ou outra honrosa excepção (não as conheço, mas admito que existam), foram uns reais bandidos! Uma corja!
Abraço!
Rui,
Já agora, um pouco de informação útil.
Normalmente, as pessoas que estudam estas questões pouco a fundo (não digo que é o teu caso), costumam fazer a associação do católico ao monárquico.
Por isso, é bom ter alguns dados concretos.
Em 1892, o Papa Leão XIII deixa bem claro que um católico pode apoiar qualquer tipo de regime que não seja contrário à moral cristã ou inimigo da Igreja Católica.
Esta posição da Igreja face à questão do tipo de regime foi muito importante, sobretudo em França, com muitos católicos franceses a colarem-se à monarquia, procurando fazer da Monarquia a outra face do Cristianismo, e vice-versa. A questão legitimista (dos apoiantes do Conde de Chambord) teve muito a ver com isto.
Esta política clara da Santa Sé acerca da separação entre o que é de Deus (a moral, a doutrina) e o que é de César (a forma de governo que um povo escolhe) tem o nome de política do “ralliement”, ou seja, do alinhamento da Igreja com o “statu quo” de uma França republicana.
A encíclica importante no vincar da política do “ralliement” é a “Au milleu des sollicitudes” (1892), de Leão XIII:
http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_16021892_au-milieu-des-sollicitudes_en.html
Abraço
Um monárquico por si só já implica muito de católico, não o oposto.
Para mim há dois tipos de monárquicos. Aqueles que gostam daquele folclore todo e da prostração (obediência, beija-mão e prostração é algo que considero deprimente, ainda por cima quando desejada) cega à realeza e… os que pensam -subentenda-se aqueles que não alinham com qualquer idiota ou pateta que queiram impingir como rei.
Eu sou republicano, mas acho que há um grande fosso entre aquele senhor de vozinha engraçada que se afirma como herdeiro do trono português e o Rei de Espanha. Por cá a monarquia tentou agarrar-se ao Salazar a ver se ele lhes fazia a vontade, sem sucesso. Mas ao mesmo tempo houve monárquicos anti-Estado Novo que não alinharam na opinião geral (como Francisco Sousa Tavares). Os mesmos que lamentaram o 25 de Abril tentam agora fazer-nos crer que tudo era perfeito antes de 1910 e que segundo a lei divina aquela família era a eleita para reger o país. Nem eles próprios estão de acordo quanto à sucessão do trono (há quem diga que o legítimo é o duque de Loulé).
No meio disto tudo os republicanos são enxovalhados por causa do anticlericalismo, depois de séculos de enxovalhamento (a uma escala maior) católico inquisitorial, o qual não parece ter o mesmo tratamento.
Abraço
Rui,
«os que pensam -subentenda-se aqueles que não alinham com qualquer idiota ou pateta que queiram impingir como rei.»
Exacto. Essa era a monarquia que eu considero sensata e realista. Não nos podemos esquecer que, em qualquer cultura, o primeiro rei de todos foi escolhido “inter pares”. É um bom princípio.
«No meio disto tudo os republicanos são enxovalhados por causa do anticlericalismo, depois de séculos de enxovalhamento (a uma escala maior) católico inquisitorial, o qual não parece ter o mesmo tratamento.»
Tens razão, pois há republicanismo não jacobino e não anticlerical. Em Portugal, o republicanismo não começou bem.
Os culpados por essa má imagem que a República ainda hoje acarreta é o Afonso Costa e a sua pandilha.
A “hagiografia” que hoje em dia os maçons do GOL querem fazer à 1ª República não ajuda nada a esse estereótipo. Soa a propaganda mentirosa. E é.
Abraço