Numa sociedade em mutação e onde o casamento dito “tradicional” se torna cada vez mais obsoleto, havendo cada vez menos “contratos entre um homem e uma mulher onde acontece a procriação”, aparece o Cardeal Policarpo a defender o que a sua instituição efectivamente pensa, dentro do seu direito à opinião e liberdade de expressão. Mas tal seria bem mais respeitável se se limitasse aos casamentos dentro da sua instituição.

A ICAR arroga-se do direito de tentar influenciar coisas que nos afectam a todos, mas se a sociedade civil tentasse mudar a doutrina da ICAR nem imagino o que aconteceria. E como a democracia directa está na moda, qualquer dia teremos os católicos mais progressistas a recolher assinaturas para referendar algo como a Humanae Vitae…
«A Igreja nunca aceitará a equivalência ao casamento das uniões entre pessoas do mesmo sexo, seja qual for o enquadramento legal que, porventura, lhe venha a ser dado»
And so?????
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Rui, quase que não conseguia ler o artigo: a cara desse gajo é demoníaca.
A forma mais eficaz de combater a religião é colocá-la numa posição em que tenham que ostentar e colocar à frente dos olhos do mundo a sua natureza preconceituosa e descriminatória contra caracteristicas endógenas do ser humano.
Depois do desprezo da sociedade em geral em relação à posição da ICAR sobre o divórcio – estas aventesmas continuam a pregar que, quem se divorcia e se volta a casar está a cometer o pecado de adultério, pelo qual terá que pagar para o resto da eternidade – evitam agora muito cuidadosamente o assunto.
O mesmo se passará em relação à questão da homossexualidade. Da mesma forma como se passou em relação a uma infinidade de coisas. Um dia atingirão aquilo que qualquer ser humano com um pouco de bom-senso e educação percebe facilmente e milagrosamente ficarão mudos até que, dentro de uns séculos, a questão será incluída na longa lista de desculpas.
Rui,
«Numa sociedade em mutação e onde o casamento dito “tradicional” se torna cada vez mais obsoleto, havendo cada vez menos “contratos entre um homem e uma mulher onde acontece a procriação”»
Pasmo-me como é que uma pessoa inteligente como tu não vê isto como um problema. Ou seja, que o número de homens e mulheres dispostos a assumir um compromisso público entre si, para geração e criação de filhos, seja um número em queda livre, e que isso não te preocupe…
Onde é que a sociedade vai buscar a sua sustentação? Quem pagará as nossas reformas? Quem nos representará nas gerações vindouras? Existiremos, como país, daqui a cem anos? E como Europa?
Não achas que tipos como eu, por exemplo, que assumem um compromisso com uma mulher, de fidelidade para toda a vida, dispostos a gerar descendência, e a educá-la, são pessoas que não fazem qualquer falta à sociedade?
Isso assusta-me. E ofende-me.
«aparece o Cardeal Policarpo a defender o que a sua instituição efectivamente pensa, dentro do seu direito à opinião e liberdade de expressão. Mas tal seria bem mais respeitável se se limitasse aos casamentos dentro da sua instituição.»
Então? Há ou não há direito?
Quer dizer: a tua defesa do direito à liberdade de expressão é condicional?
Ou queres dizer que ficas chateado quando o Cardeal Patriarca exerce o seu direito? Isso é outra coisa…
«A ICAR arroga-se do direito de tentar influenciar coisas que nos afectam a todos»
Então em que ficamos?
Há ou não há direito à expressão pública de opiniões?
«mas se a sociedade civil tentasse mudar a doutrina da ICAR nem imagino o que aconteceria.»
Tenta todos os dias. Basta abrir um jornal. Quase todos os “media” falam da Igreja Católica como uma organização que “ainda não se modernizou” ou “ainda não se actualizou”. A pressão para redesenhar o catolicismo ao gosto das modas vigentes é imensa e por vezes insuportável.
Dou apenas um exemplo: para, hoje em dia, eu ter notícias fiáveis sobre a Igreja Católica, tenho que subscrever agências católicas como a Zenit, senão não vou obter informação objectiva.
«E como a democracia directa está na moda, qualquer dia teremos os católicos mais progressistas a recolher assinaturas para referendar algo como a Humanae Vitae…»
Andas distraído!
Isso já acontece há muitos anos, com um movimento dissidente chamado “Nós Somos Igreja” (“We Are Church”). Claro que essa gente é tudo menos Igreja… São um movimento parecido com os “católicos” pelo aborto, que se chamam a eles mesmos “Catholics for Free Choice”. Gente aparentemente maluca, mas muito inteligente…
No final de contas, fiquei confuso: afinal, o Cardeal Patricarca pode ou não pode afirmar a doutrina da Igreja face ao casamento? E dizes que ele deveria falar só para católicos, mas ao fazê-lo estaria a distorcer a doutrina da Igreja. É que a Igreja é conta o dito “casamento” pela simples e elementar razão de que não se trata de um casamento a sério, que é, e sempre foi, independentemente da religião em vigor, algo que a Humanidade sempre compreendeu.
Questionar esta “engenharia social” do dito “casamento homossexual” não é defender uma doutrina católica. É defender o bom senso, é defender valores universais. Se a Igreja dissesse “só os católicos é que não devem casar com pessoas do mesmo sexo”, a Igreja transformava a questão numa questão religiosa. Neste sentido, é como a questão do aborto. Se a Igreja dissesse: “só os católicos não podem abortar”, estaria a deturpar a questão, que não é religiosa, mas sim de ética universal.
Abraço
Bernardo,
Repara na queda vertiginosa de casamentos desde os últimos 20 anos, com a curva dos divórcios a acompanhar no sentido ascendente. E entre os casamentos, o dito “religioso” também tem vindo a decrescer, aumentando os filhos fora do casamento. Não querendo misturar a minha opinião pessoal, os dados reflectem uma sociedade em mudança e que deixou de ter certas preocupações e complexos em relação a algo teoricamente sagrado, mas que apenas o é na questão dos filhos e do património. E não digo de maneira nenhuma que o casamento tradicional não faça falta à sociedade, apenas acho que não é para todos e tenho a certeza que muitos não se revêem num contrato, pelo menos de início. Não se devia liberalizar mais a coisa?
“Então? Há ou não há direito? Quer dizer: a tua defesa do direito à liberdade de expressão é condicional?
Ou queres dizer que ficas chateado quando o Cardeal Patriarca exerce o seu direito? (…) Então em que ficamos? Há ou não há direito à expressão pública de opiniões?”
Claro que há direito! Tem tanto o direito de se expressar quanto eu de o criticar.
“Quase todos os “media” falam da Igreja Católica como uma organização que “ainda não se modernizou” ou “ainda não se actualizou”. A pressão para redesenhar o catolicismo ao gosto das modas vigentes é imensa e por vezes insuportável.”
Há sempre os velhos do restelo. Mas não haja dúvidas que se veio adaptando ao longo dos tempos. Os mesmos media que falas deixam muito a desejar nas perguntas que fazem em conferências de imprensa da Igreja.
“É que a Igreja é conta o dito “casamento” pela simples e elementar razão de que não se trata de um casamento a sério, que é, e sempre foi, independentemente da religião em vigor, algo que a Humanidade sempre compreendeu”
O casamento católico é um casamento a sério?
“Questionar esta “engenharia social” do dito “casamento homossexual” não é defender uma doutrina católica. É defender o bom senso, é defender valores universais.”
Condenar a homossexualidade como a ICAR o faz é defender valores universais? Repara que a negação desse direito é apenas a ponta do icebergue.
“Se a Igreja dissesse “só os católicos é que não devem casar com pessoas do mesmo sexo”, a Igreja transformava a questão numa questão religiosa. Neste sentido, é como a questão do aborto. Se a Igreja dissesse: “só os católicos não podem abortar”, estaria a deturpar a questão, que não é religiosa, mas sim de ética universal.”
A questão do aborto é diferente. O facto dos homossexuais casarem incomoda assim tanto? Não é pior uma sociedade hipócrita que os trata mal e obriga muitos a uma vida de clandestinidade, não esquecendo os casados e com filhos que têm uma vida dupla? Isso é ser bom cristão?
“«Andas distraído! Isso já acontece há muitos anos, com um movimento dissidente chamado “Nós Somos Igreja””
Tens razão. Queria fazer a coisa em jeito de piadinha referendária, e acabo de me lembrar que até já falei desse movimento… Até lhe podem chamar “Nós também somos Igreja” ou “Nós somos mais ou menos Igreja”
Abraço