O Papa Pio XII está mais próximo de ser mais um no panteão dos ídolos da Igreja Católica.
Segundo o Telegraph, um homem italiano afirma que ficou inexplicavelmente curado do cancro da próstata, após ter rezado ao Papa Pio XII. O Vaticano já pediu para que se estabelecesse um tribunal para investigar o alegado milagre.
Se ficar “provada” a intervenção divina, Pio XII poderá estar a caminho de ser beato, uma espécie de 2º lugar no pódio da santidade.
Se a ironia das minhas palavras é estridente, é porque tenho alguma dificuldade em entender como a elevação do Papa Pio XII a beato ou santo pode servir de modelo para os restantes católicos. Assim de repente, poderia apontar Aristides Sousa Mendes, como uma personagem católica que merecia mais reconhecimento que esse Papa. Ou resume-se simplesmente a uma operação de estética, de restabelecer o bom nome da Igreja Católica?
Pois, a resposta é óbvia.
Depois é esta perpetuação de episódios anedóticos, como o Professor Alfredo Dinis gosta tanto de chamar, que nos leva a considerar a Igreja como um repositório de superstição, onde mais facilmente se atribui a cura a uma ladainha do que a qualquer outro processo natural ou avanço da medicina.
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Estes tipos de assunto nem merecem comentários e a mesma coisa do que estar a comentar uma notícia de como o Pai Natal desce na chaminé.
Leonor,
«tenho alguma dificuldade em entender como a elevação do Papa Pio XII a beato ou santo pode servir de modelo para os restantes católicos»
A minha única explicação para essa dificuldade é a de que estás a ver as coisas do lado de fora.
Para muitos católicos, muitos mesmo, Pio XII é, e sempre foi, um Papa modelo que fez um papado longo e exemplar.
Tenho familiares que eram adolescentes na altura do papado de Pio XII, e recordam-se de como Pio XII era amado pelos católicos e respeitado pelos líderes políticos.
Temos que ter presente que a “lenda negra” em torno do seu papado apenas nasce em 1964, com a encomenda da peça de teatro “Der Stellvertreter” que é feita pelo KGB ao dramaturgo comunista alemão Rolf Hochhuth. Por isso, a má imagem pública de Pio XII é um fenómeno moderno.
Se, eventualmente, lhe forem reconhecidos milagres, tanto melhor para a Igreja e para os católicos. Mas insisto em que isso não é forçoso para que Pio XII seja um papa amado. Ele já é amado pelos católicos. A propaganda anti-católica fez a sua mossa e cumpriu os seus objectivos, mas nós estamos habituados. Qualquer dia, abrem-se os arquivos e a questão fica resolvida de vez (para quem, evidentemente, der atenção e valor à documentação histórica).
Abraço,
Bernardo
P.S. Aristides de Sousa Mendes foi um grande homem e um grande exemplo. Mas Pio XII poderá ter salvo mais judeus. Claro que a questão dos números não é relevante para avaliar uma pessoa: até porque se calhar Pio XII salvou mais judeus porque tinha mais poder, e a comparação com Sousa Mendes sai injusta. Salvar uma vida ou salvar mil é sempre algo de notável e louvável.
Mas, sinceramente, acho que não estás a ter uma visão objectiva da figura histórica que foi Pio XII e do que ele fez durante a Segunda Guerra, quando dizes que Pio XII não merece o reconhecimento que a Igreja (e os judeus) lhe dão.
Abraço!
Ah…tenho memórias tão lindas do Salazar, do Franco, do Hitler, do Mussolini…
Eram moços muito jeitosos e amados pelo povo, mas de repente, houve uns gajos que se lembraram de querer viver nessa coisa chamada “democracia” (iac! Que horror!) e lá se foram as boas lembranças dessa gente maravilhosa e pia.
De facto, a história é madrasta para os santos.
Bem…vou só ali inscrever-me no Partido Nacional Renovador e já volto.
Lucas Samuel…
ainda não eras militante do PNR?
Ele há surpresas…
: P
Ainda não.
Sabes… a parte do “Partido” e a parte do “Renovador” ainda vá que não vá…
Agora… “Nacional”???? Estamos a brincar ou quê?!!
Tentei obter alguns esclarecimentos junto do líder do PNR (que, SÓ POR ACASO, dá aulas no Colégio Planalto da CATOLICÍSSIMA OPUS DEI), e o gajo esclareceu-me melhor:
“Não te apoquentes Lucas! Isso do “Nacional” é só fachada! Quando tomarmos o poder, acabamos com todo e qualquer conceito de nacionalidade já que o mundo deixará de ter fronteiras. Começaremos por invadir a Espanha e avançaremos pelas estepes sem parar até termos atingido o coração da Mãe-Rússia! Aí, cumpriremos a Mensagem de Fátima, converteremos a Rússia ao Imaculado Coração de Nossa Senhora e rezaremos todos o terço em uníssono!”
Com estes esclarecimentos, fiquei obviamente esclarecido.
Por falar nisso, não queres juntar-te a nós Ricardo? Ouvi dizer que também eras de direita. Não desperdices o teu talento tentando convencer esta massa de tristes acerca das virtudes da racionalidade, pá! Esta malta gosta é de ajoelhanço servil!
Bernardo,
Eu não fiz referência à “Lenda Negra”, mas já que insistes, eu preferia que se abrissem os arquivos de uma vez por todas e se procedesse à análise antes de começar a fazer este tipo de julgamentos, ao contrário do que tem feito o Vaticano.
E é realmente injusto a comparação de um papa – que mal por mal ainda vai tendo algum poder no mundo, afinal é um chefe de Estado – a um simples cônsul, que perdeu tudo pelo seu altruísmo.
“Se, eventualmente, lhe forem reconhecidos milagres, tanto melhor para a Igreja e para os católicos.”
Pois, está tudo dito.
Leonor,
«Eu não fiz referência à “Lenda Negra”, mas já que insistes, eu preferia que se abrissem os arquivos de uma vez por todas e se procedesse à análise antes de começar a fazer este tipo de julgamentos, ao contrário do que tem feito o Vaticano.»
Todos os estados têm regras acerca da abertura de arquivos. Devem sempre passar décadas depois dos acontecimentos para se abrirem os arquivos. Há duas razões elementares:
a) proteger a privacidade de pessoas ainda vivas
b) dar tempo aos arquivadores para preparar e organizar o material para publicação
A Santa Sé sabe o que está nos arquivos, e tem agido em função disso, como atesta a publicação das imensas “Actes et Documents du Saint Siège relatifs à la Seconde Guerre Mondiale” (ADSS), que estão acessíveis aos historiadores desde os anos 70.
Além deste aspecto, há que não perder de vista que tu tens uma má imagem do Papa Pio XII porque estás influenciada por muita coisa que leste e que ouviste. Objectivamente, não tens forma de saber se não estás sob o efeito da propaganda, sem ser através da leitura e do estudo.
E se me dizes que os documentos que estão públicos, como os das ADSS, não chegam para avaliar o Papado de Pio XII, respondo-te que não tens razão. O que há é imenso, e mais do que suficiente para desmontar as “lendas negras” em torno de Pio XII. O que se abrirá, nas décadas que aí vêm, só irá reforçar essa desmontagem. Claro está: essa desmontagem só será compreendida e conhecida pelos especialistas, porque infelizmente, não é pessimismo mas sim realismo afirmar que a esmagadora maioria das pessoas expostas à “lenda negra” vão permanecer influenciadas por ela.
É mais fácil lançar uma mentira, do que corrigi-la.
Começar o fogo é fácil. Apagá-lo é que são elas.
Eu quis apenas frisar, no meu comentário, que a tua comparação entre Pio XII e o Aristides denota que estás refém, em certa medida, da “lenda negra”.
«E é realmente injusto a comparação de um papa – que mal por mal ainda vai tendo algum poder no mundo, afinal é um chefe de Estado – a um simples cônsul, que perdeu tudo pelo seu altruísmo.»
De novo, uma comparação injusta. Todos os actos de Pio XII tiveram consequências. As decisões de Pio XII tiveram um peso imenso, e obrigaram a uma ponderação de tal forma dura e exigente, que poucas pessoas, mesmo dotadas da fibra do Papa Pio XII, resistiriam às pressões que ele sofreu.
É muito fácil criticar. Agora mete-te na posição de Pio XII: queres denunciar os crimes. Aparentemente, é fácil. Basta escrever uma encíclica ou chamar a imprensa. E num instante, o Papa denuncia os crimes e torna-se herói. E a seguir, os nazis massacram pessoas em retaliação. Aconteceu na Holanda. Desse e de outros países (Polónia, por exemplo) chegaram cartas a pedir à Santa Sé que parasse de fazer alusões (mesmo que vagas) ao paganismo nazi, porque as retaliações eram violentíssimas.
Falar ou não falar?
Aqui está um drama imenso. Algo com um peso enorme, peso esse que Sousa Mendes, pelo seu cargo, não poderia ter sofrido.
Isso não diminui o heroísmo de Sousa Mendes.
Mas muito menos diminui o heroísmo do Santo Padre.
Termino com uma pergunta: trair todos os princípios da diplomacia para conspirar contra Hitler, ajudando a oposição alemã a Hitler a conseguir apoio dos aliados. Achas que este tipo de acção por parte de um Papa é suficientemente heróica, nos teus moldes?
Não resisto a outra pergunta: quando Pio XII foi informado pelo general SS Karl Wolff de que Hitler planeava raptá-lo, e quiçá assassiná-lo e à Curia Romana, achas que a decisão de Pio XII em ficar em Roma não teve uma pontinha de heroicidade? Porque é que Pio XII, no auge da Guerra, com o Vaticano sitiado, não se pôs a andar muito antes da coisa ficar feia como ficou?
Abraço
Bernardo,
Se um santo serve de modelo a um católico, como oiço várias vezes dizer, porque não elevar um mero cidadão que fez tudo quanto era humanamente possível? Se é pelas suas acções em prol dos outros, então Aristides não tinha nenhuma obrigação oficial para o fazer. Desobedeceu aos seus superiores e ao chefe de Estado do seu país para fazer algo que julgava ser correcto.
E como insistes que a santidade diz respeito a todos, essa santidade que deriva de rezas, “curas milagrosas” e de um desejo de limpar um nome, não merece o meu respeito.
Se alguém veicula algo de extraordinário por intervenção divina então pode-se ser santo. Se realmente se levam a cabo acções nobres, altruístas, mutualistas mas sem intervenção divina, já não se pode ser santo.
É a lógica da batata, desculpem, do catolicismo.
“Se realmente se levam a cabo acções nobres, altruístas, mutualistas mas sem intervenção divina, já não se pode ser santo”. Não sabia disso… tens a certeza? E para não cairmos na falácia da vaguidade, o que queres dizer quando falas de “ser santo”? Não sei se as coisas são assim tão “homem de palha” como tu pareces transmitir… abraço,
“Segundo o Telegraph, um homem italiano afirma que ficou inexplicavelmente curado do cancro da próstata, após ter rezado ao Papa Pio XII. O Vaticano já pediu para que se estabelecesse um tribunal para investigar o alegado milagre.”
Ó Leo,
O título que escolheste é porreiro, mas se tivesse sido eu tinha feito algo como “O toque rectal de Deus”
http://pt.wikipedia.org/wiki/Exame_retal