Serviço público

A pequena localidade francesa de Ploërmel, departamento de Morbihan, Bretanha, é notícia por causa de uma estátua de João Paulo II.

O artista georgiano Zurab Tseretli ofereceu a estátua (inaugurada há cerca de três anos atrás) ao município francês, inserida num “monumento” com uns humildes 8 metros de altura, encabeçados por uma cruz já apelidada de “ostentadora” pelo mesmo tribunal que lhe anulou os 4500 euros de subsídio público atribuídos. A pomposa cerimónia de inauguração teve direito a brinde, um grupo de manifestantes mascarados de palhaço que manifestou a sua indignação.

Na primeira instância a coisa não passou, mas o “colectivo de oponentes ao monumento” conseguiu, com o recurso, cancelar o subsídio, “destinado à base da estátua”, cujo orçamento total rondou os 8 mil euros, fazendo valer a lei de separação entre igreja e Estado. Lei esta, que afirma ser ”proibido elevar ou afixar qualquer sinal ou emblema religioso sobre os monumentos públicos ou em qualquer espaço público, excepto para edifícios destinados ao culto”.

«il est interdit d’élever ou d’apposer aucun signe ou emblème religieux sur les monuments publics ou en quelque emplacement public que ce soit, à l’exception des édifices servant au culte»

E aqui fica uma imagem da polémica estátua, ladeada com uma curiosa intervenção apelidada de vandalismo mas que vai ao encontro da minha tese acerca da arte sacra: um santinho ou afim desmembrado, invertido ou alvo de uma qualquer intervenção transforma a arte sacra em arte a sério.

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O juiz afirmou que a estátua, “erigida numa praça pública“, apresenta um “carácter de ostentação” e que não foram respeitados a “liberdade de consciência” e a “neutralidade do serviço público em relação aos cultos”. Um representante do colectivo de oponentes, a “Fédération de la Libre-pensée”) afirmou que «Agora que o carácter ilegal do monumento foi reconhecido, é preciso, em nome da laicidade, que o conjunto desapareça do espaço público». E o responsável pela atribuição do subsídio também se manifestou (apelidando ainda os oponentes de “bande de laïcards agités et sectaires”).

«Partimos do princípio que a figura de João Paulo II, pela sua dimensão política e diplomática, ultrapassa largamente o âmbito religioso. Alguns não são desta opinião, mas o conceito de laicidade merece uma declinação moderna”, explicou Joseph-François Kergueris, presidente do Conselho Geral de Morbihan. Este órgão não recorrerá da decisão do tribunal.»

Claro que uma estátua ao cidadão Karol Woytila com a consequente placa de homenagem do município (que por norma é dada a cidadãos que tenham de alguma maneira contribuído para a dignificação e progresso desse mesmo município) é diferente de um sinal “mais” a não sei quantos metros de altura do chão, apresentando na base o beija-alcatrão-de-aeroportos de braços abertos ou com as palmas das mãos juntas e verticais. Resta saber agora o que acontecerá ao mamarracho, pois se tiver que ser demolido fará manchete nos jornais e todas as almas católicas da zona ficarão muito ofendidas.

Habituem-se!

PS: Esta notícia tocou-me particularmente pois sou residente numa cidade que também possui uma destas aberrações esculturais, erigida após uma visita de algumas horas durante os anos 80. E em ano de visita papal, a Câmara de Coimbra, por intermédio da sua vereadora da cultura (sucessora de um muito pio cidadão conimbricense autor de algumas peças na imprensa entre as mais hilariantes de sempre) Maria José Azevedo, vai oferecer a Ratzinger uma cópia da bula “Manifestis Probatum”, que instituiu o reino de Portugal. O lambe-botismo pio continua…

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