Quer queiramos ou não, a imaginária do Natal rodeia-nos. Faz parte da nossa cultura, de um passado comum e a melhor maneira de a compreendermos, é conhecer o que está por detrás dela. Por vezes, alguns de nós deixa-se levar com efabulações do género Zeitgeist, que só são válidas para quem desconhece tudo sobre mitologia, História e as investigações textuais que têm sido feitas no último século. Vale a pena, portanto, a exposição das análises críticas ao texto bíblico que têm sido feitas, tanto por apologistas da fé cristã, como por historiadores não religiosos. Nada disto é novidade ou sequer original para a maioria dos cristãos informados, ou pelo menos, não deveria ser.
É hoje aceite que os evangelhos não são relatos históricos, que retratam fielmente aquilo que aconteceu. Nem era essa a sua pretensão. É por isso que encontramos tantas discrepâncias entre cada um dos evangelhos. Não se pretendia contar a realidade, pretendia-se sim, transmitir uma mensagem e recorria-se a artifícios e a tradições literárias para causar maior efeito, ou para vincular determinada ideia. Basta relembrar a simbólica de uma história como a do Dilúvio, ou da Criação. Tal e qual como, hoje, estes relatos são considerados míticos, a história da Natividade segue a mesma orientação.
O texto escrito na Antiguidade tinha um valor e um significado que hoje, num mundo dominado pela tentativa de ser fiel à verdade histórica e aos factos, torna-se difícil de entender. Na Antiguidade só uma ínfima minoria tinha acesso à escrita e o livro, ou o documento escrito, servia para perpetuar uma memória, tradição ou feitos. Servia de transmissão cultural, mas essa transmissão estava intimamente ligada a uma ideologia, seja ela real, imperial ou religiosa. Não havia História como hoje nós a entendemos. O autor Randel Helms afirma que estas narrativas tinham como principal objectivo afectar o presente e não pretendiam ser um mero relato do passado[1].
Crescemos a ouvir a história da Natividade de Jesus como se fosse uma história única: O anjo apareceu, disse a Maria que ela iria conceber o filho de Deus, depois Maria e José tiveram de ir a Belém, foi-lhes recusada a entrada em diversas hospedarias e foram relegados para um estábulo. Aí nasceu Jesus, rodeado de animais que o aqueceram na noite fria. Uma estrela anunciou o nascimento a três reis magos. Jesus foi adorado pelos magos, que lhe ofereceram presentes, e pelos pastores. Depois um anjo avisou José que o rei Herodes queria matar a criança. A família teve de fugir para o Egipto e só regressou depois do rei ter morrido.
A história que ouvimos contar, vezes sem conta, é o resultado da compressão de vários elementos que derivam tanto dos evangelhos, como da tradição que foi sendo construída ao longo dos séculos. Por exemplo, dizemos 3 Reis Magos, porque foram 3 os bens presenteados a Jesus. Em parte alguma há referência ao número dos magos.
A autoria dos evangelhos é desconhecida. A atribuição aos apóstolos serve para conferir autoridade sobre os outros escritos – que convém reconhecer, eram muitos. A maioria dos eruditos reconhece que o primeiro evangelho a ser escrito foi Marcos, provavelmente no ano 70 da nossa era, e que tanto Mateus como Lucas (datados dos anos 80-90 da nossa Era), usaram o relato de Marcos como fonte para as suas próprias histórias.
Dos 4 evangelhos, apenas dois mencionam o nascimento de Jesus. Marcos, por exemplo, começa o seu evangelho com a pregação de João Baptista, não há qualquer referência ao nascimento de Jesus. Segundo Pe. Carreira das Neves, é natural que numa fase em que não existia ainda a distinção entre Cristianismo e Judaísmo, as narrativas do nascimento não surjam ainda como “o fruto da fé cristã, na sua evolução de doutrina, liturgia e reflexão cristológica e teológica (…)” [2]. O evangelho segundo João é um caso à parte, mas também não há qualquer menção ao nascimento. O nascimento de Jesus não tinha importância nem para a mensagem de João, nem para Marcos, era irrelevante para aquilo que se pretendia transmitir.
É nos evangelhos de Mateus e Lucas que retiramos os elementos para história de Natal. E a minha proposta – para o próximo post – é que se analisarmos esses elementos, veremos que há uma lógica simbólica para eles, mesmo que estejam longe daquilo a que chamamos verdade histórica.
(O texto é algo longo e para não tornar isto demasiado maçudo, tenciono expor as análises feitas às diferenças entre um e outro evangelho na parte 2).

(Mais uma imagem retirada do Atheist Cartoons)
[1] Helmes, Randal, The Gospel fictions, New York, Prometheus books, 1988
[2] Carreira das Neves, O que é a Bíblia, Alfragide, Casa das Letras, 2008
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Excelente exposição! Eu sempre gostei do mundo da fantasia e ficção!
Leo,
Fico ansiosamente à espera das restantes partes. Faz falta ao Portal mais artigos como este.
Obrigado.
Obrigada, Rui e Hélder!
A 2ª parte segue ainda hoje – espero!