O marketing do fingimento

Como devem imaginar, pouco me incomoda a quantidade e a qualidade dos ditos santos patrocinados pela igreja católica. Percebo o esquema, sem ficar impressionado, uma vez que trabalhei durante muitos anos em vendas e marketing e estou, portanto, familiarizado com a necessidade que qualquer organização tem de estar constantemente a renovar os seus produtos ou serviços.

A igreja católica, como organização obviamente com fins lucrativos, não fica alheia a esta necessidade e investe muita da sua credibilidade pública na promoção e lançamento de novos santos. Procuram-se e confirmam-se milagres (!) a um ritmo controlado, sempre atentos às necessidades do mercado e à oportunidade da elevação, ora a venerável, ora a beato, ora a santinho, ora ao “raio-que-os-parta”… Chega a ser ridículo, claro, mas cada um vestirá a carapuça que lhe servir!

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O que mais admiro nesta história da elevação de Pio XII e João Paulo II a veneráveis é a naturalidade com que se mandam às urtigas os mais elementares princípios do próprio cristianismo para justificar o acto. Finge-se que se desconhece que Pio XII foi muitas vezes conivente com o regime Nazi, tendo inclusivamente fechado os olhos à chacina de mais de dois mil e quinhentos padres católicos durante a invasão da Polónia (o que foi, por muitos, considerado uma traição), finge-se não se saber que Pio XII estava convencido de que a Alemanha Nazi deveria ser o grande pólo dinamizador do catolicismo na Europa Central e finge-se não saber que Pio XII foi muito mais rápido a criticar publicamente a invasão russa da Finlândia do que o fez em relação às invasões alemãs por toda a Europa. Finge-se, também, desconhecer-se o facto de que, durante todo o período da II Guerra Mundial, Pio XII raramente se referiu em público ao povo judeu.

Mas, independentemente de tudo isto, temos que perguntar: afinal, se estamos a falar de uma organização que se baseia num deus a fingir, num profeta a fingir, numa moral a fingir e até num monoteísmo a fingir, porque raio é que os santos não deveriam de ser – também – a fingir?

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