Um dos nossos visitantes crentes habituais (e amigo do Portal Ateu) é Domingos Faria, ou Mingos como é o seu “nome de plume” por aqui.
O Mingos é um Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Braga) e um cristão convicto.
O Mingos é também um adepto do dialogo e do entendimento. Enviou para o Portal este texto sobre ateísmo e fé de leitura obrigatória.
De Domingos Faria:
“Comummente os crentes podem ter possivelmente uma certa aversão pelo ateísmo, talvez pelo medo de serem questionados ou incomodados por outros desafios e perspectivas. No entanto, o crente e filósofo judaico Emmanuel Lévinas menciona de forma interessante que “referir-se ao absoluto como ateu é acolher o absoluto depurado da violência do sagrado”[1]. Atendendo a esta afirmação, perspectivamos algumas questões que nos podem auxiliar no nosso caminho reflexivo: Como é que a forma de vida de ateu pode contribuir na purificação de alguma concepção do absoluto[2]? De que forma, como alude Roger Garaudy, a situação de ateu pode ser um primeiro passo para a fé? E de que modo partindo da condição ateia pode existir um melhor acolhimento e desvelar do absoluto?
Sondando a realidade parece-nos que ainda existem muitos seres humanos que se acham possuidores de uma visão total, definitiva e última de Deus ou do mistério, sem qualquer margem para a mínima dúvida, acreditando muitas vezes em «dogmas» inflexivelmente formulados sem hipótese de serem discutidos de forma crítica. Chega-se até a conceber Deus como ditador, empresário, polícia, bombeiro, entre outros… que no fundo é apenas uma projecção de certas relações humanas. Na realidade, pensamos que muitas concepções de Deus ou do mistério não passam de um mero sentimento antropomórfico em que o absoluto dá apenas leis opressoras, proibições absurdas (até diabolizando o prazer), vigiando tudo para castigar quem sair da linha; em que as pessoas metem cunhas, como sacrifícios, para subirem na hierarquia; e em que as relações com Ele são uma espécie de supermercado, negociando promessas, algo parecido com trocas mercantis; em suma, castra a vida.
Num ponto de vista pessoal, consideramos que toda esta panóplia de factos que destacamos obriga ao ateísmo. De facto, só nos poderemos considerar ateus perante um deus ridículo que impede uma efectiva realização e felicidade humanas. Deste modo, concebemos que o ateísmo é fundamental para denunciar o que não é senão uma forma de aviltamento do mistério ou, numa linguagem buberiana, uma degradação do totalmente outro do mistério num mero Isso, enclaustrando-se indevidamente este numa forma limitada e contingente. Perante tal objectualização em vez do mistério ser fonte de revelação e encontro dialogal que plasma o humano de sentido, é uma mera coisa entre coisas, uma forma reificada, que é apenas mais um «Baal», ídolo, ou fantasma.
É preciso admitir, sem medo, que um ateísmo sério pode ajudar a purgar todos estes ídolos e caricaturas que muitas vezes acabamos por venerar. Pelo facto do ateísmo proceder a uma crítica rigorosa possibilita, assim, a aniquilação de todas estas antropomorfizações do divino, ou seja, a eliminação das formas e atributos sempre degradantes que o Homem projecta no absoluto e que não atendem à dignidade humana. Verdadeiramente uma crítica sustentada, como por vezes é apresentada pelo ateísmo, é necessariamente benéfica para qualquer crente não cair no fundamentalismo[3]. Aliás, o ateísmo faz um favor aos crentes por lutar pela eliminação todos os ídolos que impedem o Homem de viver e de ser. Pois, desafia perspectivas que são por vezes tomadas como dogmaticamente seguras e totalmente certas, obrigando a um re-ver das nossas crenças – para ver se afinal cremos num Deus Vivo ou num deus morto.
Do mesmo modo, consideramos que notificações desafiantes, como “There’s probably no God. Now stop worring and enjoy your life” (da recente campanha publicitária nos autocarros de Londres)[4], incitam também as pessoas a re-pensarem doutrinas e a sua concepção de Deus ou do mistério, de modo a eliminar tudo aquilo que é apenas uma mera caricatura da fé. Portanto, tais desafios devem ser acolhidos para uma notável purificação do absoluto, para uma fé mais madura e consciente, em vez de serem rejeitados em bloco como normalmente fazem os crentes.
De facto, pensamos que não podemos tomar o ateísmo como algo ameaçador ou competitivo, mas devemos atender que o ateísmo «provoca» nas pessoas o pensar e o interrogar sobre a questão de absoluto, denunciando questões de idolatria e desumanidade, contribuindo assim, mesmo sem o saber, na depuração da concepção do absoluto. Certamente, muito pior seria toda uma ausência de pensamento e interrogação que é um grande convite à criação de mais ídolos e caricaturas. Ademais a atitude ateia é um habituar a desabituar-se, lembrando-nos que não há uma última palavra, que não temos a verdade completa, que não há uma leitura unívoca, mas sim que somos seres finitos, contingentes, com uma linguagem espacio-temporal, que apreendemos a verdade num contexto sempre limitado e, portanto, temos sempre uma leitura penúltima da realidade. Desta forma, consideramos que pelo facto da forma de vida de ateu denunciar situações de idolatria e caricatura, bem como por alertar para assumimos uma espécie de atitude de douta ignorância, pode ser um primeiro grande passo para uma fé mais autêntica, sincera e real, que aponte para um efectivo referencial último de sentido e realização, e em que a glória de Deus seja o Homem vivo (plenamente realizado), como salienta Santo Ireneu. Perante isto certamente se dá um melhor acolhimento e desvelar do absoluto, em que não fabricamos um deus, mas O adoramos “em espírito e verdade” (Jo 4, 23).
________________________________
[1] E. Lévinas, Totalité et infini, La Haye, 1965, p. 49.
[2] Neste texto, para tentarmos ser claros conceptualmente, concebemos pessoalmente o termo “absoluto” como alusão ao “mistério”, i.e., uma realidade que realiza as funções da divindade, mas mais ampla que esta figura da divindade presente nas religiões do livro. Parece haver congruência entre diferentes tradições ao acentuar a concomitante absoluta transcendência e radical imanência do “mistério”.
[3] Consideramos que a fé do crente para ser uma experiência humana relevante tem que acatar também o espírito crítico. Quando se recusa as instâncias críticas isso pode ser sinónimo de fundamentalismo, fanatismo e intolerância.
[4] Esta campanha ateísta insurgiu-se contra outra campanha que afirmava que os não-cristãos iriam arder por toda a eternidade no inferno. Logo se vê que se trata de mais uma caricatura que seria preciso eliminar.
–
Domingos Faria
www.domingosfaria.net
blog.domingosfaria.net
df@domingosfaria.net
“Nulla est homini causa philosophandi nisi ut beatus sit” S. Agostinho
“Ich werde am Du” M. Buber
“Aimer um être c’est lui dire: toi, tu ne mourras pas” Gabriel Marcel”
Outros artigos relacionados:

Bolas!
Este estilo de filosofia que o ateísmo só faz bem à “verdadeira religião” e que ajuda esta a crescer e a ficar melhor, ainda vai deixar os ateístas no… “desemprego”.
Quer dizer que temos de voltar ao ateísmo do “não porque não!”?
Mingos, estragas-me a militância.
“afirmava que os não-cristãos iriam arder por toda a eternidade no inferno. Logo se vê que se trata de mais uma caricatura que seria preciso eliminar”
Velho truque dos católicos, que eu tão bem conheço.
Dizem isso aqui, mas não o vão dizer nas missas onde os padres fazem as suas ameaças infernais. Nem nos retiros espirituais de convertidos seguros.
É que isto, de eliminação em eliminação nunca se sabe onde acaba…
Sim, já conhecia o termo dupli-pensar.
José Simões
Cuidado, eles amansam-nos que é para miarmos em vez de rugirmos.
Gostei muito do texto, Contudo, como ateísta, não posso deixar de referir que a questão da existência ou não existência de Deus, não se resume aos casos em que este é antropomorfizado. É curioso que o autor refira que o ateísmo é óptimo para apontar falsos ídolos e situações em que a dignidade está em causa mas não se aperceba que a própria existência de um ser divino, superior, criador, seja o bastante para retirar ao homem a sua dignidade como ser pensante.
Olá Ricardo,
Obrigado pela tua disponibilidade em colocares o meu texto aqui para reflectirmos um pouco sobre ateísmo e teísmo. No fundo como sugeri na imagem, tanto as pegadas na areia do ateu como do crente devem caminhar lado a lado na edificação de um mundo melhor, de um mundo mais humano.
Só uma nota: de ti não espero um ateísmo do “não porque não”. Mas sim um ateísmo que advogue sempre a causa do Homem, que denuncie aviltamentos, e que do mesmo modo implicitamente depure a própria crença de todas as caricaturas. Portanto, de ti espero um “ateísmo sério”, que não seja um mero desprezo irracional dos crentes pelo facto de serem crentes, mas sim um caminhar juntos e auxílio mútuo para preservarmos sempre o Homem Vivo.
Saudações cordiais,
Caro José Simões,
Não tenho qualquer pretensão de lançar truques. Pretendo aqui ser totalmente sincero e expor o que penso sempre de uma forma penúltima! Assim, não considero adequado atribuíres à minha pessoa essa intencionalidade Orwelliana (de dupli-pensar).
Tudo o que exponho aqui também apresento noutros sítios.
Espero que reflictas minimamente sobre o texto que escrevi, nem que seja para tomares em atenção que talvez o diálogo e o caminhar juntos seja mais frutífero tanto para ateus como para crentes.
Saudações cordiais,
Caro Nuno Leal
Dizes que “Cuidado, eles amansam-nos que é para miarmos em vez de rugirmos”. No entanto, eu não tenho qualquer dessas intenções. Como o Ricardo já sabe, o que pretendo aqui é DIALOGAR (com tudo o que isso implica), em vez de discutir ofendendo.
Obrigado por gostares do texto. E concordo contigo quando afirmas que “a questão da existência ou não existência de Deus, não se resume aos casos em que este é antropomorfizado”. É claro que existem outras dimensões e perspectivas para a crença ou descrença em Deus.
No entanto, o que queres dizer com esta conclusão: “a própria existência de um ser divino, superior, criador, seja o bastante para retirar ao homem a sua dignidade como ser pensante”? Quais são as premissas que a sustentam? Como fundamentas esta tua afirmação?
De facto, não vejo contradição entre Deus e pensamento filosófico ou espírito crítico. É claro que se tiveres a falar de um “deus morto” e “antropomórfico”, que seja uma mera caricatura ou Baal, certamente será impeditivo para o pensamento livre. Mas, quando se fala de “Deus Vivo”, que pode aparecer (para quem livremente assim o queira) como referencial último de existência e como alguém que atende sempre ao Homem Vivo e Livre (como expus em http://www.portalateu.com/2008/08/05/porque-o-mal-se-existe-deus/ ) então a contradição que tu advogas deixa de fazer qualquer sentido.
Saudações cordiais,
Se existe um deus omnipotente e omnipresente, todas as nossas acções já são por ele conhecidas. Assim, tudo o que fazemos está delineado pois é deus que permite que a vida se desenrole de determinada forma, sendo isto válido também para um deus espectador. Nunca existirá livre arbítrio enquanto o criador for todo poderoso, exactamente porque nós fazemos apenas o que ele permite. E permitir que tenhamos acções livres, originais e até “aleatórias” é impossível quando essa entidade já conhece o futuro.
Digo eu…
Caro Nuno Leal,
Dizes que se deus é omnipotente, então, não pode existir livre arbítrio. Mas, de que deus estás a falar? De um deus polícia? De um deus castrador? De um deus ditador? No artigo que escrevi inicialmente penso que sou claro quando me declaro totalmente ateu perante um deus que não atenda ao Homem Vivo (isto é, ao Homem livre, plenamente realizado). Por isso, sou ateu, como tu és, perante um deus como tu o descreves… pois, seria uma castração do Homem.
No entanto, se atender que verdadeiramente Deus é omnipotente (ou pleno) em amor (e não omnipotente em autoritarismos, castigos, violências, etc…), como nos apresenta Jesus Cristo, então, a tua crítica relativamente à castração do livre-arbítrio deixa de fazer qualquer sentido. Pois, Deus amor dá sempre liberdade ao ser humano. Um exemplo paradigmático disto é a parábola do filho pródigo. Ou até mesmo o evangelho de hoje (cf, Jo 6,60-69). Este texto de João revela a disposição adversa de algumas pessoas que não queriam seguir a vivência e propostas de Jesus; ou seja, simplesmente não estavam dispostos a renunciar aos seus próprios projectos, e a embarcarem com Jesus no caminho do amor e da entrega, a fazer da própria vida um serviço, uma doação e uma partilha com os outros; esse caminho parece-lhes, além de demasiado exigente, um caminho ilógico. No entanto, Jesus não força nenhuma dessas pessoas; apenas apresenta a sua proposta – proposta radical e exigente (morte de todo o egoísmo, para o nascimento da doação de si) – e espera que o “Homem” faça a sua opção, com toda a liberdade.
Saudações Cordiais,
Olá Mingos
dizes: ” Mas, de que deus estás a falar? De um deus polícia? De um deus castrador? De um deus ditador? No artigo que escrevi inicialmente penso que sou claro quando me declaro totalmente ateu perante um deus que não atenda ao Homem Vivo (isto é, ao Homem livre, plenamente realizado). Por isso, sou ateu, como tu és, perante um deus como tu o descreves… pois, seria uma castração do Homem”
Si te de auto-calificas de ateu, não podes dizer depois que acreditas num qualquer deus depois. Posso perceber que tu tenhas a tua própia definição de um deus, está no teu direito. Mas por respeito a lógica básica, e para podermos dialogar (assim como tu o manifestas) tens de manter uma ilação lógica e não cair em contradições, i.e. o es crente (sejam lá o que for a tuas divindades!) ou és ateu, nunca podes ser os dois au mesmo tempo (não pelo menos no mundo onde tu e eu nos movemos, tal vez num mundo quántico sim!!)
Para saude do dialogo que queres manter, recomendo que definas claramente o que é o teu deus, usando as tuas propias palabras e não as das religões instauradas. Descreve concretamente como é esse o teu deus… para podermos dialogar concretamente con relação a ele… e depois ver se concordamos com a sua existência. Concordas??
Cumps.
Peço desculpa pelos erros na minha escrita, mas o português não é meu idioma nativo e tambem não é o idioma em que habitualmente escrevo.
Mingos
Parece-me que o que pretendes é misturar o azeite com o vinagre (pelo menos em condições normais é muito difícil de fazer!!) É dificil pôr dois “ateus” a caminhar juntos, quanto mais um crente junto de um ateu.
Se bem, concordo contigo até certo ponto, a crítica do ateu devería despertar a mente crítica do crente. Mas digo até certo ponto porque, em todo o caso, a origem dessa crítica estimulante não devería importar, é irrelevanteque provenha dum ateu ou não, de facto o idial é que a crítca fosse proveniente do propio crente ou dos seu colegas de culto.
Mas eu não estou a visualizar a possibilidade de religiões formadas por seguidores com uma capacidade ampliamente crítica, isso desarticularia o rebanho!!. Ainda que não mencionas directamente as religiões, incluiste o termo “tradição” associado com “o absoluto”, “misterio” e “divindades”, e isso leva a religião (que é un fenómeno social).
Tambem não estou a ver um acto de fé (que é un fenómeno de origem individual) baseado numa analise crítica. Por definição a fé carece propiamente dessa analise, a fé é por definiçaõ uma crença cega, essa crença é considerada como verdade sem sequer tentar verifiicà-la. Assim, se as nossas ações de fé fossem producto duma analise ´teriamos que utilizar outra palavra para calificà-las.
Pelo que percebí, o que tu queres é construir mais um deus utópico (que ainda não o descreveste concretamente!), que seja producto de uma analise crítica (com o contributo dos ateus), e assim tentar conciliar duas posições antagónicas. O problema é que terás de incluir a crítica não só dos ateus, mas a dos agnósticos, a dos pagãos, a dos feiticeiros, a dos crentes on outras religiões, a dos hipócritas e ftambem a opinião de aquela quantidade enorme dos que verdadeiramente não sabem porqué acham que são crentes (desculpem se me esquecí de mencionar alguem!).
Eu particularmente, acho que o que faz falta é começar a apagar esses deuses ou divindades, esclarecendo os falsos “misterios” que escondem detrás de todos eles, e ensinando que os “absolutos” não estão lá.
Cumps.
Na sua aparente humildade, este texto é sobranceiro e paternalista. Aprecio muito mais a posição em que nos coloca a ICAR: numa posição antagonista igualitária (A em contraste com B). A postura pseudo-consensual-vamos-todos-ser-amiguinhos tem qualquer coisa de deveras perturbador e Orwelliano (“Admirável Mundo Novo): as castas superiores A1 agradecem às castas inferiores A2 (aquelas que “ainda não descobriram Deus” – os tais “ateus depuradores do Absoluto”) o admirável contributo que dão para o enriquecimento espiritual das primeiras. O ateu é, portanto, e utilizando a terminologia heideggeriana que o Mingos tanto gosta, um “ser-a-caminho-de”; um “ser-acessório-de”.
Mingos: já vi que és um gajo porreiro e bem-intencionado, mas, tal como a Hannah Arendt, também tu caíste na armadilha retórico/fiosófica de Heidegger: a tal que nos transporta inevitavelmente para um “Admirável Mundo Novo” onde a meta final está já definida.
Também me deu a impressão de ver no texto do Mingos uma utilização do ateísmo como “ser caminho de” e de não considerá-lo como o que é: uma negação. Mas por outro lado é inteiramente compreensível que um crente necessite do ateísmo como meio para limpar a sua fé, trata-se de colaborar com pessoas críticas e atentas às incoerências da religião de forma a vivê-la melhor. Isso é mau? O ateísmo não utiliza a fé como meio de se promover, de apontar nela o que acha contrário à natureza humana para assim afirmar a sua alternativa como mais válida?
Agora não concordo com a seguinte afirmação: “De facto, só nos poderemos considerar ateus perante um deus ridículo que impede uma efectiva realização e felicidade humanas.” Mesmo que a imagem de deus estivesse purificada aos olhos de todos continuariam a existir ateus. E mesmo que os ateus fossem os melhores do mundo continuariam a existir pessoas religiosas. O não gostar de ouvir falar de “colaboração entre a fé e o ateísmo é não aceitar a realidade como ela é: que como sempre existiram as duas no passado sempre existirão no futuro. Pensar nos dias de hoje como “tempos novos” onde a consciência humana caminha para o seu desenvolvimento máximo: onde todos seremos ateus é um engano e comporta em si certa prepotência e talvez um certo sentimento de revolta adolescente (vamos ver se o pai que tanto mandou durante estes séculos desaparece de vez). Desaparecerá a religião como autoritária, isso espero, mas não como uma voz dentro da sociedade.
Até considero a posição do Mingos algo difícil para os cristãos de hoje em dia, aceitar o ateísmo como normal, algo a respeitar e até a aprender… e por outro lado devo querer que tantos ditos cristãos que todos os domingos vão à missa se declarem ateus de uma vez por todas e deixem essa vida dupla e algo esquizofrénica que só se mantém por sentimentos de culpa criados pelas religiões.
Pensar estas duas posições como antagónicas não é real. É verdade que uma nega implicitamente os pressupostos da outra, mas não nega o seu direito a existir nem a aproveitar as conquistas intelectuais e humanas que as duas vão fazendo.
Algo que penso ser desprestigiante é pensar o outro com um certo sentimento de raiva contida, e pior, utilizar os fracassos históricos que uns e outros têm para generalizar (ver a árvore como se fosse a floresta) e minar a credibilidade tanto de ateus como de religiosos. O que têm de bom e fazem de meritório não é mencionado pelo grupo da “oposição”, não interessa obviamente.
Eu sinto-me reconfortado por encontrar tantos ateus e pessoas religiosas que enveredam por outro caminho, e tentam não encontrar as diferenças mas os pontos de encontro que nos permitem, enfim encontrar aquilo que sim vale a pena: como ser feliz… ou simplesmente viver a vida com sentido.
Caro Lucas Samuel,
Não coloques indevidamente intencionalidades onde não as conheces! De facto, não me enquadro minimamente nos aspectos que salientaste no teu comentário.
Em primeiro lugar – O facto de se ser amigo não implica pensamento único como pareces propor no teu comentário. Na realidade, quando existe pensamento único temos apenas uma massa amorfa, e não verdadeiros amigos que se ajudam mutuamente também pela sua pluralidade e diversidade de visões de mundo. Portanto, ser todos amigos não tem nada a ver com ausência de espírito crítico, com massa amorfa, ou até com “Admirável Mundo Novo” (quem escreveu esta distupia foi Aldous Huxley e não George Orwell). O que aqui proponho não tem nada a ver com distupias. Por isso, deixa de vez de gozar e inventar intencionalidades na mente das outras pessoas.
Em segundo lugar – Nunca disse, nem sequer nunca direi, que “as castas superiores A1 agradecem às castas inferiores”. Não sei onde foste novamente inventar esta ideia. De facto, a tua hermenêutica carece de todo o fundamento. O que advogo é o Homem Vivo, logo é uma humanidade onde todos têm a mesma dignidade. Não há superiores, nem inferiores. Não há castas! Mas sim o ser humano vivo (independentemente de professar ou não um religião, de serem ateus ou crentes). O crente não pode ser considerado mais importante ou estar numa casta superior só pelo facto de ser crente, o mesmo acontece com o ateu. Portanto, não tem qualquer sentido aquilo que tu propões entre “castas superiores” e “castas inferiores”; porque é absurdo, e não respeita o ser humano integralmente. O que é fundamental, e o que pretendo transmitir é que tanto ateus como crentes podem e devem caminhar juntos na edificação de um mundo melhor, mais humano, que respeite o Homem Vivo (sem castas, sem dualismos, sem aviltamento, etc…). E apesar de toda a diversidade e oposição que existe entre ateus e crentes, estes podem ajudar-se mutuamente neste projecto.
Em terceiro lugar – Acho sem qualquer sentido e fundamento esta tua afirmação: «O ateu é, portanto, e utilizando a terminologia heideggeriana que o Mingos tanto gosta, um “ser-a-caminho-de”; um “ser-acessório-de”». Esta tua frase é totalmente absurda simplesmente porque não faço acepção ou sequer aviltamento de pessoas pelo simples facto de serem ateus ou crentes. Volto a repetir – o que é importante é o Homem Vivo – que sejam todos respeitados, que todos possam realizar-se plenamente, etc… Não faço a mínima ideia onde foste buscar tanta interpretação abusiva e sem qualquer sentido em relação às minhas palavras. O que escrevi é diametralmente oposto ao que estás a interpretar abusivamente no teu comentário.
Em quarto lugar – Não consigo perceber como podes ligar o meu pensamento ao de Heidegger. Mas é muito mais plausível encontrares algum paralelo do meu pensamento com o de Marcel e Buber.
Saudações cordiais,
Meu caro Mingos,
“Não coloques indevidamente intencionalidades onde não as conheces! De facto, não me enquadro minimamente nos aspectos que salientaste no teu comentário.”
Mas eu não te enquadrei em nada. Referia-me apenas ao teor do texto e não à tua pessoa que muito respeito: “Na sua aparente humildade, este texto é sobranceiro e paternalista”.
“O facto de se ser amigo não implica pensamento único como pareces propor no teu comentário. Na realidade, quando existe pensamento único temos apenas uma massa amorfa, e não verdadeiros amigos
que se ajudam mutuamente também pela sua pluralidade e diversidade de visões de mundo”.
Concordo inteiramente.
“Portanto, ser todos amigos não tem nada a ver com ausência de espírito crítico, com massa amorfa, ou até com “Admirável Mundo Novo” (quem escreveu esta distupia foi Aldous Huxley e não George Orwell)”
Tens razão: foi Huxley. My mistake. Contudo, isso nada altera o sentido da mensagem – que se mantém.
“O que aqui proponho não tem nada a ver com distupias. Por isso, deixa de vez de gozar e inventar intencionalidades na mente das outras pessoas”
Bem…então também poderia dizer o mesmo: “deixa de inventar intencionalidades de gozo na minha própria mente!” Ninguém está aqui a gozar com ninguém. Estamos a falar e a tentar escalpelizar conteúdos; se não se concorda com eles, azar. Cada um é livre de ficar com as suas interpretações (ou será que a tua “filosofia inclusiva” pretende aboli-las?).
“O que advogo é o Homem Vivo, logo é uma humanidade onde todos têm a mesma dignidade. Não há superiores, nem inferiores. Não há castas! Mas sim o ser humano vivo (independentemente de professar ou não um religião, de serem ateus ou crentes)”
Sim…sim… e seremos todos irmãos e vestiremos de branco cantando lindas canções do John Lennon…Por favor! Acorda e vive no mundo real! O “Homem Vivo” de que falas não existe, nunca existiu, nem nunca existirá. Aliás, basta veres os comentários de atrasados mentais que se vangloriam com a troca de um Huxley por um Orwell, para veres que o “Homem Vivo” não passará nunca de uma criatura reles e mesquinha centrada inevitavelmente no seu umbigo.
“o que é importante é o Homem Vivo – que sejam todos respeitados, que todos possam realizar-se plenamente, etc…”
Claro! Deixemos a Hitler ou a Stalin a oportunidade de se “realizarem plenamente”! Afinal, TODOS sem excepção devem realizar-se plenamente. Nada de restrições, nada de amarras ao Homem Vivo!
Podes continuar a escrever as tuas lindas filosofias de “aperfeiçoamento humano” e inclusão, bem à medida dos movimentos New Age, no entanto, isso não passa de treta bem-falante sem qualquer concretização prática.
Saudações também cordiais
Caro amigo Lucas,
Vamos ver se nos tentamos entender. Achas mesmo que quando eu falo de Homem Vivo me quero referir a que “seremos todos irmãos e vestiremos de branco cantando lindas canções do John Lennon”? Ou será que dizes isso só para a anedota? Será que ainda não fui totalmente claro quando falo do termo “Homem Vivo”? Ou será que és tu que não gostas do termo? Se é assim, traduzo o termo que eu gosto e acho pertinente de “Homem Vivo” por toda a denuncia “do terrorismo, do extermínio de populações, da violação flagrante dos mais importantes direitos fundamentais do Homem, da submissão de fanáticos a princípios (…), desde os mais simples e despreocupados aos mais complexos e destrutivos” (cf. editorial Portal Ateus 18/1/08) que impedem o Homem de ser verdadeiramente. Será que assim já consegues entender, ou precisas de um desenho? Mas, se conseguires entender, verás que o “Homem Vivo” não tem nada a ver com “uma criatura reles e mesquinha centrada inevitavelmente no seu umbigo” que tu falas. Pelo contrário, será um ser responsável pelos outros, pela denuncia de violência, do aviltamento, da castração, dos totalitarismos, do desrespeito dos direitos humanos, etc… como tantos ateus e crentes denunciam. Plausivelmente assim será possível que todos os seres humanos sejam respeitados e possam realizar-se… Ou ainda achas que a realização do Homem passará pelo niilismo e com tudo o que isso implica?
Saudações cordiais,
Caro Mingos,
“o “Homem Vivo” não tem nada a ver com “uma criatura reles e mesquinha centrada inevitavelmente no seu umbigo” que tu falas. Pelo contrário, será um ser responsável pelos outros, pela denuncia de violência, do aviltamento, da castração, dos totalitarismos, do desrespeito dos direitos humanos, etc…”
“Será que assim já consegues entender, ou precisas de um desenho?”
Senti-me aviltado com esta “pergunta” jocosa, própria de alguém a quem a arrogância assiste. Constato portanto que não serás tu um bom exemplo de “Homem Vivo”. Ficarei então à espera que ele apareça…algures numa manhã de nevoeiro…
Saudações cordiais
“Sim…sim… e seremos todos irmãos e vestiremos de branco cantando lindas canções do John Lennon…Por favor!”
As minhas desculpas a ambos mas não é permitido no Portal Ateu, seja sob que prisma for, questionar a vida e a obra de John Lennon. Este nome jamais poderá estar incluído num raciocínio de ironia.
John Lennon is da man!!!
Censura! Censura!
Mas a verdade já está aí! Não há como escondê-la:
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1397126
Amigo Lucas,
Não quis de forma alguma proceder a um aviltamento a tua pessoa. Só nos estamos a tentar entender… e por vezes um esquema ou desenho a nível pedagógico é melhor que mil palavras.
Abraço,
Caro pedrommf,
Obrigado pelo teu comentário; aprendemos sempre uns com os outros…
O texto que escrevi retrata a experiência de primeira pessoa do meu entendimento do ateísmo. Uma das ideias que mais salientei refere-se que o ateísmo pode implicitamente ajudar a uma crença mais depurada. Mas esta é a minha visão do ateísmo como crente. Um ateu pode ter legitimamente outra visão do ateísmo advogando que é uma mera negação, etc.
A afirmação “só nos poderemos considerar ateus perante um deus ridículo que impede uma efectiva realização e felicidade humanas” encontra-se no plural majestático. E expressa aquilo que eu penso: se me apresentam um deus que apenas quer morte, aniquilação, castração, etc… só poderei ser ateu porque não atende, como tu dizes, ao “ser feliz” do humano “ou simplesmente viver a vida com sentido”. Será que um deus que impede o Homem de viver é um Deus omnipotente em amor (como p.e. salienta o credo cristão)? Claro que não!
E termino com uma citação tua que parece exprimir também as minhas ideias e salienta realmente o importante entre ateus e crentes: “encontrar aquilo que sim vale a pena: como ser feliz… ou simplesmente viver a vida com sentido”.
Saudações cordiais,
“quem escreveu esta distupia foi Aldous Huxley e não George Orwell”
Mingos irei responder-te logo que possa. No entanto, não posso deixar de me rir deste reparo. Diz lá Lucas Samuel, há ironias do camandro! Afinal o “bom rebelde” é bem melhor que o “rebelde mal educado, ignorante com a mania que é esperto, prepotente e parvo”.
“Também me deu a impressão de ver no texto do Mingos uma utilização do ateísmo como “ser caminho de” e de não considerá-lo como o que é: uma negação”
Pedrommf, tens dito em vários comentários que o ateísmo é a negação da existência de deus. Não me parece. O Teísmo é que é a afirmação. Em termos matemáticos o ateísmo seria a Hipótese 0, a situação basal da qual, racionalmente, todos os humanos partem. Parece-me que à uma grande diferença pois quem quer aceitar H1 é que o tem de provar.
Realmente, não tinha percebido esse detalhe, é realmente interessante ver as coisas desse prisma. Fico a reflectir sobre o assunto. Coloca-se o problema imediato do ser ou não natural “acreditar” (alguns textos do blog falam em disposições biológicas… não sei) e de que significado tem a presença histórica da religião. Não me é tão fácil perceber como “base da qual, racionalmente, todos os humanos partem.” Mas prometo reflectir o assunto.
Vê isto: http://www.portalateu.com/2009/08/24/sam-harris-mostra-o-caminho/
Não estamos a discutir o que é natural… Se a crença acontece na natureza, então é natural. No entanto, pode ser errada.
Não me é tão fácil perceber como “base da qual, racionalmente, todos os humanos partem.”
À partida, racional e logicamente, ninguém acredita em nada sem provas.
Embora perceba no dito “absoluto” uma simples generalização das figuras ficcionais (deuses) criadas pela Humanidade em épocas e lugares específicos, manifesto meu respeito e admiração por Domingos Faria, pela coragem, honestidade e
e discernimento.
JOSEPOG (BR)