Uma mera questão filosófica?

transPor alguns comentários de crentes, tanto aqui no Portal como noutros sítios na Blogosfera, noto que a melhor defesa para a existência de Deus é o sentido filosófico. E que não se pode pedir provas da existência do divino no concreto, que deus não é verificável empiricamente.

Pessoalmente, não tenho qualquer problema com um conceito abstracto e filosófico de Deus, (e isto não é, por si só, uma admissão da minha crença nele ou prova da sua existência), tal como não tenho qualquer oposição ao conceito filosófico de Beleza ou Estética. Este desejo da universalidade dos conceitos não implica necessariamente que esses mesmos conceitos sejam estáticos ou estanques. É apenas um desejo. Há diferentes interpretações para cada um deles, de acordo com a época em que são produzidas.

Na perspectiva abrangente de Deus, como conceito abstracto, a entidade divina é entendida como uma resposta às questões que transvazam a nossa vivência mundana. Torna-se um sentido aos nossos medos e dúvidas perante a nossa efemeridade. Pode ser até uma forma de transformar as nossas grandes capacidades em algo transcendental de modo a torná-las universais, como se tivessem sido concedidas por uma entidade superior. Para os não crentes, basta aceitar o Humanismo como um valor universal e este subterfúgio da entidade divina torna-se desnecessário. O peso da nossa responsabilidade individual aumenta consideravelmente.

O problema consiste, basicamente, no facto de nenhuma das religiões existentes afirmarem Deus como um simples conceito filosófico e para garantirem a sua validade, recorrerem a supostos “factos concretos” a partir dos quais formam todo o seu sistema de crença.

Todas as religiões, sem excepção, desde as mais antigas até às mais recentes, tomam como base um ou mais acontecimentos sobrenaturais, isto é, uma experiência empírica que rompeu com todas as leis naturais. E estes eventos estão longe de serem considerados meros acessórios, são o ponto central da sua doutrina, . Assim, parece-me um absurdo dizer que as provas de deus só podem existir no plano filosófico. A menos que as Igrejas abandonem de vez estes pressupostos sobrenaturais e assumam uma posição unicamente filosófica, faz todo o sentido pedir uma nova evidência na actualidade.

E se esses feitos sobrenaturais realmente aconteceram, porque é que não se manifestam novamente? E porque é que esses fenómenos são tão contraditórios uns com os outros? Se vamos avançar com a hipótese de deus ter vindo à terra feito homem, se é manifesto o seu favoritismo por um povo, se fala directamente através de um profeta, etc., se realmente existe, a sua mensagem deveria ser tão clara que não houvesse dúvidas ou equívocos na sua interpretação.

Não faz é qualquer sentido afirmar que deus se manifestou no mundo físico há séculos e que agora só é possível verificar a sua existência através da filosofia.

Se ele se manifestou, é normal que queiramos saber como. Não nos serve a resposta redundante que foi possível porque com deus tudo é possível. Isso apenas levantaria mais dúvidas. Também não nos serve a resposta que isso está para além da nossa compreensão, esta não é suficiente para sossegar a curiosidade, por isso, porquê calar a pergunta?

A racionalidade moderna exige, da parte de alguns crentes, uma actualização destes pressupostos. Uma construção racional que explique estas “anormalidades”. A explicação passa, muitas vezes, por uma resposta-pergunta. Será a realidade apenas aquilo que é visível com os nossos atributos físicos? Ou passa por uma abstracção em direcção a outro campo, algo para além da nossa realidade? Se deus é deus, então ele não pode ser inteligível através da experiência empírica, está para além daquilo que é cognoscível.

O problema que esta afirmação gera é muito simples e muitas vezes é ignorado ou desprezado pelos seus maiores apoiantes. Abrir a porta a este “mundo paralelo”, abre a possibilidade de existência a todos os outros acontecimentos “sobrenaturais”. Como não podemos nunca provar essa realidade e se existe uma outra dimensão de realidade, fora daquilo que podemos provar empiricamente, então, qualquer outra manifestação “anormal” é possível. Está aberta a porta a demónios, a espíritos que comunicam com os mortais, aos astros que influenciam a vida humana, enfim, a realidades paralelas.

Se vamos ser cépticos em relação a determinados fenómenos paranormais, por falta de provas, ao menos que o sejamos em relação a todos eles.

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