Sam Harris (e Ricardo Silvestre) sobre Francis Collins

Depois de ter colocado artigos sobre a nomeação do Doutor Francis Collins para ser o Director do Instituto Nacional de Saúde Americano (National Institutes of Health no original) aqui e aqui, volto novamente a apresentar um artigo de opinião sobre este assunto.

Neste caso, faço a transcrição de um artigo de opinião de Sam Harris no New York Times, onde Sam deixa a sua opinião sobre a importância de saber quais as crenças religiosas do Doutor Collins, e como isso pode influenciar o seu desempenho a frente do NIH.

Deixo aqui o texto traduzido. Não está todo transcrito, para ver o original vá aqui, e tive de tomar algumas liberdades de tradução (poucas, garanto) para fazer mais sentido em Português.

No final deixo também a minha opinião sobre este assunto.

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“O Presidente Obama nomeou Francis Collins para ser o próximo director dos National Institutes of Health (…). O Dr. Collins [nos Estados Unidos, um doutorado é apresentado como Dr] é regulamente agraciado por cientistas seculares por não ser aquilo que podia ser: ele não é um “criacionista” nem é um proponente do “desenho inteligente”. Devido ao estado do conhecimento sobre o processo evolutivo, estas duas coisas são coisas boas de não se ser quando se é um cientista.

Como Director dos Institutos, o Dr Collins terá mais responsabilidade na área da investigação biomédica e de saúde pública do qualquer outra pessoa no planeta, controlando um orçamento superior a 30 mil milhões de dólares. Ele será igualmente um dos mais importantes representantes de ciência nos Estados Unidos. Por esta razão é importante entender como o Dr Collins e a sua crença se relacionam com o espírito científico.

O que se segue são um conjunto de slides, apresentados em ordem, de uma palestra sobre ciência e crença que o Dr. Collins deu na Universidade de Califórnia em Berkeley em 2008.

Slide 1: “O Deus Todo-Poderoso, que não é limitado em espaço ou tempo, criou o universo há 13.7 mil milhões de anos com os parâmetros exactamente propícios para o desenvolvimento de complexidade.”

Slide 2: “O plano de Deus incluiu o mecanismo da evolução para criar a maravilhosa diversidade de seres vivos no nosso planeta. Especialmente, esse plano incluia os seres humanos.”

Slide 3: “Depois da evolução ter preparado uma “casa” suficientemente avançada (o cérebro humano), Deus atribuiu à humanidade o conhecimento do que é bom e mau (a lei moral), o livre arbítrio, e uma alma imortal”.

Slide 4: “Nós, os humanos, usamos o nosso livre arbítrio para quebrar a lei moral, o que causa o nosso distanciamento para com Deus. Para os Cristãos, Jesus é a solução para esse distanciamento.”

Slide 5: “Se a lei moral é apenas um efeito secundário da evolução, não existe tal coisa como bem ou mal. Tudo é uma ilusão. Foi-nos colocada uma venda. Estará algum de nós, especialmente os ateístas convictos preparados para viver a sua vida sem esta visão do mundo?”

Muitos dos cientistas que estudam a mente humana estão convencidos que as nossas mentes são produto dos nossos cérebros, e que os nossos cérebros são produtos do processo evolutivo. O Dr Collins aborda este tema de uma forma diferente: ele insiste que num qualquer momento do nosso desenvolvimento, Deus inseriu componentes cruciais – incluindo a alma imortal, livre arbítrio, a lei moral, apetite espiritual, altruísmo genuíno, etc.

Como alguém que acredita que o nosso conhecimento da natureza humana pode ser derivado da neurociência, psicologia, ciências cognitivas, e economia comportamental, entre outras, eu fico muito perturbado pelas convicções do Dr. Collins. Se tivermos de olhar para o fenómeno religioso para explicar o nosso sentido de moral, o que devemos pensar dos casos onde existem deficits de sentido de moral associados a lesões do lobo frontal ou em comportamentos de psicopatia. Serão estas desordens mais bem entendidas através da teologia?

Francis Collins é um cientista com mérito e um homem sincero nas suas crenças. E é exactamente por causa disso que me sinto tão desconfortável por causa da sua nomeação. Devemos verdadeiramente confiar o futuro da investigação biomédica nos Estado Unidos a um homem que acredita sinceramente que o entendimento científico da natureza humana é impossível?”

Volto eu à escrita.

Eu compreendo a exasperação da comunidade científica naturalista nos Estados Unidos (podem ser vistas mais opiniões recentes aqui, e aqui)

Em Portugal, felizmente não temos uma situação como estas para nos debatermos, mas o discurso dos crentes é basicamente o mesmo.

Tal como diz Sam no artigo, também nós em Portugal temos crentes sofisticados que dizem que deus é responsável pelo aparecimento do cosmos, pelo aparecimento da vida, pela sua evolução e produto actual, e quanto isso é um testemunho do “amor” de deus pela sua criação. Mas quando se trata de explicar cientificamente esses processos, ou a manifestação concreta desse “amor” – mediante os horrores que se podem constatar que acontecem ao “produto actual” da sua criação – deus é colocado fora da natureza, fora da ciência, e como tal, não pode ser explicado ou entendido pelos métodos científicos ou naturalistas. Mais uma vez, é o “mistério” que o ser humano, na sua limitação, não consegue alcançar.

Alias, alguns desses crente sofisticados são nossos visitantes no Portal Ateu, e bem podemos ver as suas opiniões sobre este tema. Quando deus é “aquilo que dá jeito que seja” para se fugir a qualquer responsabilidade explicativa mais séria, não podemos estar a jogar um jogo leal. Com o Doutor Collins é igual.

PS: Mais uma semana de férias e já volto ao activo ao Portal. Bom final de Julho

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