O dia de ontem foi especial dentro de toda a instabilidade política vivida no Irão desde há algumas semanas. Em Julho de 1999, há dez anos atrás, registaram-se tumultos em Teerão, os mais violentos até então desde que a Revolução tomou conta do país.
Devido ao encerramento de um jornal reformista (pertencente à facção reformista iraniana da qual fazia parte o presidente em exercício, Mohammad Khatami), realizou-se uma manifestação pacífica de estudantes (apoiantes de Khatami) da universidade de Teerão, a 8 de Julho. No dia seguinte, um grupo de paramilitares (alegadamente pertencentes a forças conservadoras) invadiu um dos dormitórios universitários, agredindo tudo e todos e incendiando os quartos, atirando alguns de varandas do terceiro andar. Pelo menos um morto, centenas de feridos e muitas detenções. No dia seguinte a notícia espalhou-se pelo país e desaguou em manifestações noutras cidades. Durante alguns dias Teerão esteve debaixo de um cenário de guerra, com cerca de 17 mortos, segundo a imprensa estrangeira. A 11 de Julho, a universidade de Tabriz foi alvo de um violento ataque por parte da polícia com quatro mortos registados.
Após os confrontos o poder dos mais conservadores afectos à Revolução foi reforçado, aprovando-se leis a proibir qualquer ataque ou crítica ao regime, assim como colaborações com a imprensa e entidades estrangeiras. Devido a serem os principais focos de oposição ao regime desde os anos 1980, intensificou-se a islamização nas universidades e a perseguição aos alunos e professores “divergentes”, algo que já vinha desde o tempo de Khomeini.
Algo parecido passou-se há dois anos atrás, quando Ahmadinejad ia discursar na universidade de Teerão, com uma plateia “seleccionada” entre estudantes e docentes apoiantes do regime. Os outros estudantes fizeram então uma manifestação com gritos contra a ditadura e repressão. Membros das milícias Basij disfarçados de estudantes colocaram-se entre os manifestantes e o pavilhão onde Ahmadinejad ia discursar. Representantes das associações de estudantes islâmicas tentaram moderar as reivindicações a uma linha reformista, mas não foram ouvidos pela maioria. Tentaram então entrar à força no pavilhão, enfrentando as autoridades. Ahmadinejad foi retirado da zona por uma porta lateral.
No dia de ontem, milhares de pessoas reuniram-se para celebrar os dez anos dos acontecimentos de 9 de Julho de 1999, num desafio à proibição das autoridades que se vem registando desde as suspeitas de fraude nas últimas eleições. Os principais opositores do regime, entre os quais o candidato derrotado Mir Hussein Moussavi, um outro candidato, Mehdi Karroubi e o próprio Mohammad Khatami não compareceram, pois acordaram em continuar a sua luta dentro do sistema legal e não nas ruas, a menos que tal seja autorizado.
Depois de onze dias de alguma calma, realizaram-se manifestações por toda a Teerão, com as ruas patrulhadas por grupos de polícias e das milícias conservadoras Basij. Assim que as pessoas se iam juntando nas ruas os próprios automobilistas paravam e saíam dos carros em solidariedade, entoando “Fora com o Ditador“, “Deus é grande” e “Mousa-vi“. Apesar da polícia ter tentado pôr um fim à manif agredindo algumas pessoas, o grupo ia-se re-organizando, continuando a sua marcha.
O pior parece ter acontecido na universidade de Teerão. Para além das agressões a polícia tentou dispersar a multidão com gás lacrimogéneo, bloqueando os acessos à universidade. Multidão esta que foi crescendo à medida que se juntavam mais grupos nas redondezas.
Uma coisa é certa. O sentimento de missão e de unidade não demoveu esta gente de exprimir a sua indignação, apesar das comunicações móveis cortadas (mas com alguma ajuda das redes sociais, twitter e blogosfera), violência e detenções. As manifestações têm sido pacíficas e a repressão não as tem impedido.
Apesar da eleição já ter sido aprovada pelo Conselho dos Guardiães e até santificada pelo Ayatollah Khamenei, é certo que o actual regime não pode continuar com base no apoio dos iranianos, estando o povo auto-determinado e com sinais de querer uma mudança séria. Para quando?
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Para breve, espero eu, Rui.