Mortificação
Andei a pensar nesta coisa das pessoas que se maltratam. Há muitas formas de agressividade para com o próprio mas neste caso estou a pensar nos maltratos físicos. Suponho que toda a gente tem os seus prazeres masoquistas desde gostar dum limão bem ácido ou, como é o meu caso, fazer alongamentos até doer um bocadinho, pouquinho, porque só assim é que está a alongar (algo me diz que que vou ser esclarecida sobre a natureza dos alongamentos pelo Ricardo).
Segundo percebi das minhas conversas com profissionais de saúde mental estes masoquismoszinhos não são perturbações. As perturbações encontram-se no exagero. Isto é, a pessoa que se corta, queima e causa dor intensa e destruidora em si mesma.
Sendo assim, se um cidadão preocupado souber de um amigo ou colega que se maltrate a este ponto de destruição vai procurar ajudá-lo tentando levá-lo a um profissional de saúde psicológica. Pelo que percebi das minhas conversas, os profissionais consensualmente dizem que esta pessoa precisa de ajuda profissional porque tem uma perturbação a menos que…
… esta mortificação seja por razões de fé.
Estes casos nem sequer são estudados pelos profissionais de saúde pelo que não há dados para perceber se se trata duma perturbação ou não.
Aparentemente o que torna estes maus tratos uma perturbação são as razões que levam a pessoa a maltratar-se. No caso dos fieis não se sabe intimamente a razão que leva a pessoa a infligir dor sobre ela mesma. Enquanto no comum cidadão são desde ódio pessoal, culpa exacerbada entre outras nos fieis as razões serão outras. Serão?
Mais uma vez dualidade de critérios para comportamentos semelhantes.
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No caso católico a mortificação e masoquismos vários não constituem uma “perturbação”, é mais uma vida de “perfeição cristã”.
«No caso dos fieis não se sabe intimamente a razão que leva a pessoa a infligir dor sobre ela mesma».
Claro que se sabe. A prática da mortificação cristã tem as seguintes razões:
* Reparação.
A mortificação tem utilidade, não só como penitência, mas para nos purificar das faltas passadas – como reparação: “Completo em mim o que falta à paixão de Cristo”, diz São Paulo (Col. I,24) e “Aquele que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo e tome a sua cruz e siga-me (Mt. 16,24).
* Santificação.
Tem também como finalidade ajudar-nos a nos prevenir contra as faltas do tempo presente e futuro, diminuindo o apêgo ao prazer, que é uma fonte das faltas pessoais. São João da Cruz sobre isto escreveu: Jamais, se queres chegar a possuir a Cristo, o busque sem a cruz.[2]
De acordo com os téologos católicos os principais benefícios que a “dor cristã” proporciona são: expiação dos próprios pecados, submete a carne ao espírito, desprende a pessoa das coisas da Terra, purifica e embeleza a alma, alcança tudo de Deus, faz da pessoa verdadeiro apóstolo e nos torna semelhantes a Jesus e à Virgem Maria.
Vem na Wikipedia e pode aprender mais aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mortifica%C3%A7%C3%A3o
Mas sempre posso adiantar que, tirando casos extremos e relativamente raros, a mortificação é praticada pelos cristãos com alguma contenção e se reflecte em gestos como o jejum. Penso que certas correntes católicas mais radicais, como a Opus Dei, levam a coisa um pouco mais sério, mas mesmo assim também não acho que façam todos como o tal monge psicopata do Dan Brown. Acho que isso já é entrar no reino do mito literário. Por norma é um pouco mais soft.
Então mas e que acha a Catarina da prática sado-masoquista, que pode ser muito mais violenta e é praticada por dezenas de milhar de cidadãos adultos que levam vidas públicas perfeitamente equilibradas? Também lhe parece perturbação? Ou serão antes opções legítimas da vida privada de cada um que não afectam mais ninguém? É que a mim quer-me parecer que, quer num caso quer noutro, já estamos a entrar mais neste último domínio…
jotapc,
Eu não me estava a referir aos católicos mas às pessoas de fé seja ela qual for.
As razões que me apresenta são as razões formais. Eu não estou a falar dessas. Estou a falar das razões psicológicas.
Quanto ao jejum isso ultrapassa-me. O Ramadão é uma coisa que não compreendo nem por nada. Vamos empantorrarmo-nos de noite e não engolir nem a própria saliva durante o dia. E isto não é uma perturbação é obediência cega porque há milhões de pessoas a fazer isto durante um mês todos os anos. Duvido muito que estejam todas perturbadas.
Eu nunca disse que a mortificação por questões de fé são perturbações. Eu não sou psicóloga. Eu digo que nem sequer estão estudadas. Diferentes critérios para a religião.
Quanto às pessoas tiram prazer com a dor. Não sei se têm perturbações ou não. Mas há estudos sobre o assunto e há casos que os psicólogos/psiquiatras identificam como perturbação e há outros que não.
Mais uma vez é o facto de nem sequer se tocar no assunto só porque é uma questão de fé. E mais uma vez pode ser uma pessoa com uma perturbação que se refugia inconscientemente na fé ou pode ser um devoto que faz o que lhe manda a consciência.
Mas quem é que não toca no assunto?
E, sendo uma coisa da intimidade de cada um que não prejudica mais ninguém, e sendo regra geral uma prática comedida, porque é que a Catarina acha que deve ser “um assunto”?
Quanto ao jejum e ao ramadão, não há nada como estarmos sempre a aprender. É como dizem que dizia o outro, procura e encontrarás: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jejum
Catarina,
Eu sempre achei curioso, nesta sociedade marada em que vivemos, que tanta gente se choque com uns jejunzinhos, e uns duches de água fria, e umas camas sem colchão, e uns cilíciozinhos, que fiquem indignadas com tudo isto porque quem o faz, faz por amor a Cristo. E depois achem perfeitamente normal e sensato o tatuar o corpo todo (em intervenções bastante dolorosas), bem como todas as formas de “piercings” cujos efeitos para a saúde podem ser bastante nocivos quando não devidamente executados.
É algo que me deixa perplexo.
Catarina: uma pessoa que perfura os seus órgãos genitais para lá meter uma argola metálica está a precisar da tal ajuda psicológica que refere? Ou a ajuda psicológica deve cingir-se apenas aos cristãos que jejuam?
Francamente…
Eu não tenho nada, mas rigorosamente nada, contra a tatuagem. Já os piercings parecem-me bastante tontos, pelos riscos que a perfuração da pele sempre comporta. Mas enfim…
Não me vêem na rua, a marchar contra tatuagens ou piercings.
Mas deixem o cristão fazer os seus jejuns, por favor.
Deixem-no procurar, quando quiser, aquele desconforto físico que lhe recorda do sofrimento físico que o próprio Filho de Deus sofreu por todos nós. Deixem-no dar-se conta do que o próprio Deus sofreu por amor a toda a humanidade.
Concordo que é tudo uma questão de temperança. A mutilação não é cristã, nem a procura da dor pela dor em si.
No entanto, dentro dos limites do sensato, sofrer por amor (a uma pessoa ou a Deus) é das coisas mais humanas e normais que existem.
Eu sei que hoje em dia, o normal passou a anormal, e o anormal é apregoado como normal.
Mas tenhamos, pelo menos, alguma coerência.
Quem condena o cilício usado pelo cristão por amor a Deus deve, em coerência, condenar toda a forma de dor auto-infligida. E se me disserem: “o piercing dói, mas quem o faz, não o faz pela dor”, eu respondo que o cristão não pratica a mortificação pela dor, mas sim por amor a Cristo. É o que distingue radicalmente a mortificação do masoquismo: o objecto, o fim em si mesmo.
Bernardo
Caro Bernardo,
Esse paralelismo com os piercings não tem qualquer fundamento. Primeiro o risco que se incorre com a colocação de piercings é muito mais pequeno do que o caro amigo sugere. Depois, a motivação de quem o coloca é puramente estética e nada tem que ver com a dor em si.
Quem faz estiramentos até ao limiar da dor, fá-lo porque sabe que assim previne lesões. O motivo também não é a dor. Quem corre uma maratona e sofre no processo, fá-lo pelo prazer fisico que sente (provocado pela libertação de endorfinas, etc) e pela sensação de auto-superação. Também não o faz pela dor em si.
Para cada um destes actos existe uma motivação objectiva e bem definida.
Agora vejamos:
Quem se auto-flagela, fá-lo por amor a Cristo?
Quem se deixa crucificar com pregos e tudo, fá-lo por amor a Cristo?
Quem nega uma transfusão de sangue e coloca a sua vida em risco, fá-lo por amor a Cristo (e reverência às escrituras)?
Meu caro, por menos que isto já muitos deram entrada em hospitais psiquiátricos.
cumprs.
Não sou crente, muito menos partilho das opções e ideias do Bernardo Motta, pessoa que não conheço de lado nenhum a não ser destes fóruns e que não precisa certamente de advogados, mas quer-me parecer que argumentação do Ernesto é, desde logo, falaciosa. A começar no facto do Bernardo ter explicado claramente que os crentes que o fazem, não o fazem “pela dor em si”. Têm um objectivo para além disso.
“Quem se auto-flagela, fá-lo por amor a Cristo?”: Faz, o Bernardo explica.
“Quem se deixa crucificar com pregos e tudo, fá-lo por amor a Cristo?”: Tirando um evento específico nas Filipinas, creio eu, essa é uma prática não só extrema como rara. E mesmo aí, tal como no sado-masoquismo – onde o praticante retira prazer da dor e da submissão e que as mentes mais liberais e esclarecidas não contestam -, também ninguém obriga ninguém a fazer nada: é, antes de mais, um acto que deriva da nossa liberdade de por e dispor do nosso corpo. Mas por norma (isto é, na esmagadora maioria dos casos), como o Bernando também explica, a mortificação é feita com muito mais comedimento. O que significa que a esmagadora maioria dos crentes não é gente “perturbada”.
“Quem nega uma transfusão de sangue e coloca a sua vida em risco, fá-lo por amor a Cristo (e reverência às escrituras)?”: Completamente à margem da discussão em apreço. Não tem rigorosamnente nada a ver com a mortificação. Além de ser um hábito bastante minoritário, apanágio de algumas confissões evengélicas mais radicais.
“Quem condena o cilício usado pelo cristão por amor a Deus deve, em coerência, condenar toda a forma de dor auto-infligida.”
Acho isto um comportamento patológico, e condeno todas as formas de dor auto-infligidas.
Acho os comportamentos descritos pelo Bernardo perturbantes.
Olha, mais um adepto da pureza social, mais um arauto do homem novo, mais um candidato a cyborg, mais um… Adiante. Nesse caso, caro Rui, não há psiquiatras que cheguem para tanta patologia e tanta perturbação! E nem sequer estou a pensar apenas no mundo dos crentes dados às mortificações.
Convém é perceber, como não parece perceber o Ernesto, que ninguém o faz “pela dor em si”, há sempre um motivo subjacente, seja ele religioso, estético, desportivo, sexual, terapêutico ou outra coisa qualquer.
Já agora, que mal pergunte, que pensa o Rui acerca do suicídio? Também é um comportamento patológico? Ou não o é se for indolor?
Caríssimos,
Eu nunca sei se uma pessoa que se sujeita a dor física tem uma perturbação. Cabe aos psicólogos dizê-lo. Cada caso é um caso. A minha questão é que no que toca às pessoa que se mortificam por fé os psicólogos nem tentam saber. É esta nuance.
Há gente que se tatua perfeitamente saudável. Há gente que se tatua que não é saudável. É o caso da Ana Malhoa que está viciada em tatuagens e faz terapia para tentar vencer este vício.
A gente que se esburaca que é saudável. há gente que não é saudável.
E o mesmo para todos os exemplos. Assim como provavelmente há gente que jejua por fé e amor a Cristo e ninguém tem nada a ver com estes casos e provavelmente há gente que diz que jejua por fé mas no fundo está a castigar-se por outra razão qualquer e engana-se e aos outros com a fé e aí é dever da sociedade proteger esta pessoa de si mesma até estar saudável.
A minha questão é que sempre a desigualdade de critérios. Se nas outras situações se analisa caso a caso, na questão de fé também deveria ser feito.
Caro Ernesto,
Obrigado pelo seu comentário.
De facto, toca no ponto nevrálgico: a motivação.
«Para cada um destes actos existe uma motivação objectiva e bem definida.»
A motivação é central. Para decidir o que é certo e o que é errado.
Eu repito que nada tenho contra tatuagens ou piercings. Usei esses exemplos para explicar que a motivação é tudo. Se as motivações para a tatuagem e o piercing são as que referiu (estéticas, significados pessoais, etc.), tudo bem. Desde que não advenham daí prejuízos graves para a saúde.
Usei esses exemplos, NÃO PARA OS CONDENAR (como o Ernesto parece ter achado), mas para explicar a incoerência de muita gente que condena a mortificação cristã.
«Quem se auto-flagela, fá-lo por amor a Cristo?»
Defina “flagela”.
Se falamos em feridas e chagas auto-infligidas, isso não é cristão. Está para lá do aceitável em matéria de mortificação.
Se falamos de um cilício, não vejo problema.
«Quem se deixa crucificar com pregos e tudo, fá-lo por amor a Cristo?»
Por acaso, fá-lo. Mas há limites. Isso não é correcto. O que se passa nas Filipinas (caso mais mediático) é sempre condenado pela Igreja Católica.
«Quem nega uma transfusão de sangue e coloca a sua vida em risco, fá-lo por amor a Cristo (e reverência às escrituras)?»
FALSA reverência às escrituras. Não encontra um só católico a defender essa tontice. Cristo não quer proibir-nos de fazer transfusões. Isso é um disparate. Cristo apresenta-se sempre como a verdadeira “medicina” espiritual, num paralelismo notório com a louvável e preciosa actividade do médico. O médico exerce funções de cura física, e isso é totalmente cristão. Qualquer lógica de desprezo pela actividade médica e pela cura pela medicina não é uma atitude cristã.
Cumprimentos,
Bernardo
Cara Catarina,
Desta vez, tenho que concordar quase 100% com o que deixou no último comentário. Só posso concordar com a sua análise. Só “implico” com pequenos detalhes:
«A minha questão é que no que toca às pessoa que se mortificam por fé os psicólogos nem tentam saber. É esta nuance.»
Como é que sabe que eles não tentam saber? Há estudos conhecidos sobre essa aversão do psicólogo a tratar o maníaco só porque ele tem fé?
«Há gente que se tatua perfeitamente saudável. Há gente que se tatua que não é saudável. É o caso da Ana Malhoa que está viciada em tatuagens e faz terapia para tentar vencer este vício.»
Precisamente!
Era o que eu queria dizer com a questão da motivação: o motivo é tudo.
«E o mesmo para todos os exemplos. Assim como provavelmente há gente que jejua por fé e amor a Cristo e ninguém tem nada a ver com estes casos e provavelmente há gente que diz que jejua por fé mas no fundo está a castigar-se por outra razão qualquer e engana-se e aos outros com a fé e aí é dever da sociedade proteger esta pessoa de si mesma até estar saudável.»
Claro que sim. Eu não teria escrito isto melhor.
«A minha questão é que sempre a desigualdade de critérios. Se nas outras situações se analisa caso a caso, na questão de fé também deveria ser feito.»
Qualquer inclinação psicológica que aparente ser patológica deve ser analisada.
Como discordar?
Também na esfera da fé, também entre os crentes, há casos de pessoas com patologias psíquicas e que fazem certas coisas cuja aparência até pode parecer normal, mas cujas motivações são doentias. É claro que há. Porque razão não encontraríamos, também entre os cristãos, pessoas com doenças psíquicas?
Se tanto o ateu como o crente podem ter crises de fígado, tanto o ateu como o crente podem ter patologias psíquicas. E nesse caso, ambos precisam de um médico, é claro.
Abraço,
Bernardo
Em relação à questão fundamental levantada pelo jotapc:
«Então mas e que acha a Catarina da prática sado-masoquista, que pode ser muito mais violenta e é praticada por dezenas de milhar de cidadãos adultos que levam vidas públicas perfeitamente equilibradas? Também lhe parece perturbação? Ou serão antes opções legítimas da vida privada de cada um que não afectam mais ninguém? É que a mim quer-me parecer que, quer num caso quer noutro, já estamos a entrar mais neste último domínio…»
Eu tenho a opinar o seguinte: no caso do sado-masoquismo, parece-me evidente que há duas motivações patológicas (doentias):
a) procurar a própria dor física (masoquismo)
b) procurar a dor física do outro (sadismo)
Bem sei que na “tolerante” sociedade moderna (nada é tolerante se é irracional), somos todos levados a dizer que o que adultos fazem entre si é da sua competência. Mas neste caso, eu atrevo-me a molhar a minha mosquinha no frasco da compota: o que esses adultos sado-maso fazem é claramente do foro patológico, pois têm motivações doentias. E a sociedade têm a obrigação de se preocupar com pessoas doentes.
Se alguém disser que concorda com o sado-masoquismo mas que condena a mortificação cristã, demonstra ou grande atrevimento, ou crassa incoerência intelectual.
Bernardo
Jotapc:
«Ou serão antes opções legítimas da vida privada de cada um que não afectam mais ninguém? É que a mim quer-me parecer que, quer num caso quer noutro, já estamos a entrar mais neste último domínio…»
Imagine que vai no meio da rua. Pára no semáforo para peões. Do lado de lá do passeio, uma pessoa rega-se com gasolina e ateia fogo a si mesma. Imola-se pelo fogo. Isso é algo da “vida privada de cada um”?
E agora, suponhamos que essa imolação se dá, não na esfera pública, mas dentro de casa, à porta fechada. O que é que muda?
É evidente que vivemos em sociedade.
É evidente que tudo o que fazemos pode afectar, em maior ou menor grau, a sociedade em que estamos inseridos: não somos caixas estanques.
É evidente que, como sociedade, temos obrigação de protegermo-nos uns aos outros, e de nos ajudarmos nas nossas doenças e dificuldades.
Não concorda que um doente psiquiátrico, que procura cortar sistematicamente os seus pulsos, veja a sua liberdade de movimentos restringida para evitar o suicídio? Se concorda, é porque aceita que tal pessoa está doente, e a precisar de protecção dela própria.
Ora, o caso é análogo ao do sado-masoquismo.
A única dificuldade para a mente moderna, e isso é culpa do adormecimento intelectual em que vivemos mergulhados, é que nos dias de hoje, não se pode tecer juízos de valor sobre sexo. Em sexo, tudo é permitido. Aos olhos do pensador moderno, o tal pensador “esclarecido”, o prazer é motivação correcta para todos os actos, mesmo os da mais perversa depravação e imoralidade. Logo, por essa lógica ilógica, o sado-masoquismo é considerado aceitável por muita gente.
Obviamente, não é aceitável.
Bernardo
Bernardo,
“Como é que sabe que eles não tentam saber?”
Porque eles me disseram. Toda a posta anda à volta de conversas sobre o tema que tive com profissionais da saúde psicológica. E como, a menos de situações muito extremas (ao ponto de pôr em causa a vida) de mortificação, é comum os psicólogos nem pegarem na pessoa porque nem lhes chega às mãos. Uma pessoa que se maltrata tipicamente não procura ela mesma ajuda. É levada pelos familiares e amigos. Como a sociedade aceita placidamente a mortificação por fé…
Foi isto que percebi das conversas que tive. Se calhar percebi mal ou pior, transmiti mal o que percebi.
“Há estudos conhecidos sobre essa aversão do psicólogo a tratar o maníaco só porque ele tem fé?”
Não perguntei isso exactamente. Mas há poucos artigos sobre a fronteira da psicose nestes casos. Não sei se é por aversão ou por falta de casos de estudo.
“Não concorda que um doente psiquiátrico, que procura cortar sistematicamente os seus pulsos, veja a sua liberdade de movimentos restringida para evitar o suicídio?”
E pimba! Lá se vai o livre-arbítrio!…
Estes crentes são um pagode…
É óbvio que o meu caro Bernardo terá essa opinião, é católico, é a sua moral, é pecado, é doentio, está tudo ligado, adiante. Opiniões são como as cerejas. No que me toca, concordo com a mortificação e concordo com o sado-masoquismo. Isto é, concordo no sentido de não condenar. Concordo no sentido de achar que são opções legitimas da vida privada de cada um. Isto é, sim, sou tolerante (sem aspas) em relação a essas e outras questões. Até sou tolerante em relação aos crentes, veja lá. Não o sou em relação a outras questões, nomeadamente as que estão tipificadas na lei penal, por exemplo. É esse o alcance da tolerância numa sociedade secular. O resto (”nada é tolerante se é irracional” e outras pérolas irracionais que tais) é fumaça retórica e vazia. O que os adultos fazem entre si é da sua competência? Depende. Há limites. Desde logo os do Direito. Mas também os da psiquiatria e da psicologia, que têm isso tudo mais ou menos tipificado também.
Um adulto sado-masoquista tem motivações “doentias” na sua católica apostólica cabeça moralista. Na minha, por exemplo, não são doentias. Ou são tão doentias como as que usam o cilício e outras formas de sofrimento auto-inflingido.
Mas o Bernardo claramente fala do que não conhece. A motivação de um sado-masoquista não é a dor física (já faz lembrar o outro que fala da “dor em si”…). A dor física, precisamente como no cilício, é um meio para atingir um fim. O objectivo é o prazer sexual. Sentem-se bem, são cidadãos livres e voluntários, fazem-no de comum acordo e no quadro da sua auto-determinação, não constituem um perigo para a sociedade, nem chocam ninguém já que o fazem no recato das suas vidas íntimas. O resto são considerações moralistas subjectivas.
É evidente, por outro lado, que quer no caso das mortificações, quer no caso do sado-masoquismo, quer como em tudo o resto na vida, há uma questão de escala, de intensidade. Tudo o que for excessivo pode ser, sim, considerado doentio, reconheço, e essa (definir o que é ou não “excessivo”) é sobretudo uma questão para psicólogos, psiquiatras e outros médicos da mente. Mas regra geral, quer os sado-masoquistas quer os crentes que se mortificam, fazem-no com algum comedimento. Tomar a parte (os excessos) pelo todo (a moderação) é demagógico.
Tal como é demagógica a analogia com o cidadão que se imola pelo fogo. Nem vejo como é possa ser comparável com o que temos estado a falar. Uma situação dessas pode ser doentia, ou pode não ser. Pode ser uma declaração política, por exemplo, uma forma de activismo (são raros, mas há vários casos documentados). Ou pode ser um acto desesperado. Ou pode ser fruto de loucura. Etc. Mas é sem dúvida um acto extremo. Mesmo que legítimo, no quadro da auto-determinação do indivíduo, quando não há um contexto patológico (e nem sempre há). Aliás, regra geral, os casos de imolação que conheço são todos fruto de uma decisão consciente e militante por parte do imolado. Não são casos de loucura. Como o é, por exemplo, o de alguém que corta sistematicamente os pulsos.
Também é óbvio que não partilho da visão do mundo do Bernardo. O seu não é um olhar lúcido, muito menos justo. “Adormecimento intelectual”? Ó Bernardo, não brique comigo!Não se pode tecer juízos de valor sobre o sexo?! Onde é que não pode? Só se for na sua casa, ou na sua congregação. No mundo onde em vivo toda a gente o faz e tem cada vez mais canais pra o fazer. Um exemplo é este blog e esta discussão, onde o Bernardo se farta de emitir juízos de valor! Adormecimento? Ó meu amigo, essa aqui não funciona.
Em sexo “tudo é permitido”? Outra barbaridade demagógica. É claro que não. Não são permitidos, por exemplo, exageros violentos tipificados na lei penal de que lhe falei há pouco. Quanto aos actos de “perversa depravação e imoralidade”, meu amigo, isso é que já é do domínio da moralidade de cada um. A sua moralidade católica (que eu e muitos outros concidadãos não partilham inteiramente, apesar de existirem alguns valores comuns), a moral religiosa do seu grupo, acha que é depravado, outros acham que não, adiante, cada um tem o direito de achar o que bem entender. Agora, não me venha é dizer que há por aí um vazio moral ou uma grande crise de valores, isso é que é demagogia barata. O que há é algo que não havia quando a sua igreja tinha poder, que é liberdade e pluralidade de crenças e modos de vida. Agora, também acho natural que certas pessoas não saibam conviver com essa pluralidade e com essa liberdade, mas paciência.
«Aos olhos do pensador moderno, o tal pensador “esclarecido”, o prazer é motivação correcta para todos os actos». Posto isto, é evidente que esta frase não faz qualquer sentido, “conversa da treta”, como diria alguém. Desde logo, pensadores modernos há muitos e muito diferentes. E não conheço muitos que deêm essa primazia ao hedonismo. Nem sequer conheço muita gente (aliás, até conheço poucos) que coloquem o prazer como motivação para todos os seus actos. Normalmente, as pessoas têm motivações e vidas mais equilibradas, com múltiplas motivações, sendo o prazer apenas uma delas.