Este primeiro texto como colaboradora do Portal Ateu serve como afirmação de uma posição que julgo ser necessária como forma de introdução.
Não considero a Religião a raiz de todo mal, nem sequer penso que ela deva simplesmente deixar de existir. Pelo contrário, a Religião é, neste momento, ponto central do meu interesse pessoal e académico.
As crenças religiosas, os mitos, as histórias exemplares ou fantásticas fazem parte da História da Humanidade e interesso-me por elas porque representam, de uma forma ou outra, uma manifestação do espírito inventivo e da capacidade de abstracção do ser humano.
Este interesse não me impede, antes pelo contrário, de ter uma posição crítica acerca da influência da Religião sobre o comportamento humano.
Uma recente notícia no Jornal Expresso tornou-se num óptimo ponto de partida para exemplificar esta influência negativa e simultaneamente expor o meu processo de descrença.
(…) “numa reflexão sobre a chamada “infância espiritual”, uma corrente de espiritualidade que atravessa toda a história da Igreja, D. José Policarpo destaca a confiança e a entrega que caracteriza as crianças, que “não têm dúvidas de fé”, e a necessidade de “preservar a criança que há em cada adulto”. Considera, assim, “um erro retardar a vivência dos grandes mistérios” cristãos, relegando-os para um tempo em que “a incerteza e a dúvida começam já a perturbar o coração do adolescente.”
A verdade é que estas palavras, proferidas pelo Cardeal Patriarca tocam exactamente naquilo que me fez desacreditar na Igreja Católica e, posteriormente, abandonar qualquer tipo de crença religiosa.
A dúvida e a incerteza, de uma forma geral, podem conduzir a um maior conhecimento. Acreditar, por acreditar, ou não pôr em causa algo que está protegido por um dogma, ou por uma certeza assegurada por outros, não é razão suficiente para justificar uma crença.
Foi uma simples dúvida, no início da adolescência e à qual não tive resposta cabal por parte da minha catequista, que me levou, progressivamente, à descrença. Considerar que uma criança deverá ser protegida das perguntas normais que se vão criando ao longo do percurso que todos nós fazemos, é uma forma de manipular a curiosidade do ser humano e de certa maneira, de o castrar.
À rebeldia característica da adolescência, responderam-me com a condescência daqueles que não duvidavam, nem sequer se preocupavam em reflectir sobre isso: “Não se deve questionar ou aprofundar esses assuntos, porque senão, perde-se a fé”.
Ainda existem muitos crentes por esse país fora que guardam esta fé a sete chaves, com medo de a perder. Não a deixam à solta, não a deixam ter contacto com outras hipóteses, guardam-na como um tesouro, que não tem qualquer função, senão para ser exibida em caso de confronto e colocar um ponto final na discussão.
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Cara Leonor,
“Ainda existem muitos crentes por esse país fora que guardam esta fé a sete chaves, com medo de a perder. Não a deixam à solta, não a deixam ter contacto com outras hipóteses, guardam-na como um tesouro, que não tem qualquer função, senão para ser exibida em caso de confronto e colocar um ponto final na discussão”
Esperemos que sejam cada vez menos até acabarem por desaparecer.
Saudações,
Alfredo Dinis
Viva Leonor,
“Não considero a Religião a raiz de todo mal, nem sequer penso que ela deva simplesmente deixar de existir”.
“As crenças religiosas, os mitos, as histórias exemplares ou fantásticas fazem parte da História da Humanidade e interesso-me por elas”
Ah…! Mas existe aqui um pequeno passo em falta: “os mitos, as histórias exemplares ou fantásticas” não são necessariamente “religião”: foram sim, codificados e institucionalizados por esta para que uma elite sacerdotal pudesse emergir. Nos primórdios, tinhas o shaman (figura mística e solitária, exercendo o seu poder autorizado no contexto da tribo); hoje tens o clero! Como Nietzsche bem o denunciou, a figura do “padre”, tornou-se representativa do manipulador de massas, do criador de “religião”.
Se estás a estudar religião, uma figura fundamental na denúncia do seu aspecto institucional é Paul Tillich. A leitura é densa, mas vale a pena.
Bye bye.
Cara Leonor, gostei do artigo e identifico-me com a sua postura em relação ao fenómeno religioso. Sendo óbvio para mim que a religião é muito mais do que o seu aspecto institucional. É muito mais do que padres e shamans. É até mais do que dogma, até porque os dogmas religiosos também mudam e o que é verdade hoje é mentira amanhã. A história da Igreja Católica é um exemplo evidente disso mesmo. Assim como as igrejas e as doutrinas (o aspecto institucional) se adaptam aos tempos, também mudam as expressões de religiosidade.
E uma das expressões de religiosidade que mais tem crescido, sobretudo no ocidente urbano, é precisamente a de uma espiritualidade livre de amarras institucionais. Algo tipo “religion on demand”… Isso é fruto de uma evolução social no campo das liberdades cívicas e políticas, é certo, mas é sobretudo expressão de uma evolução do tal fenómeno religioso, associada ao individualismo crescente, ao empowerment do indivíduo que caracteriza as sociedades democráticas e liberais.
Basicamente, caminha-se para uma forma de viver religião sem guardiões da fé, sem donos da verdade, sem instituições hierarquizadas nos moldes que fizeram o sucesso centenário do catolicismo romano ou que faz o sucesso do islamismo. No outro lado da barricada, cresce também, naturalmente o campo dos infiéis, dos ateus, dos cépticos, dos agnósticos, dos indiferentes.
Concordo, no entanto, quando diz que as crenças religiosas «representam, de uma forma ou outra, uma manifestação do espírito inventivo e da capacidade de abstracção do ser humano». Para o melhor e para o pior, existem, são uma expressão de humanidade, quer gostemos quer não. E é nessa perspectiva que devem ser toleradas (ainda que não respeitadas) e estudadas.
Jotapc,
“Basicamente, caminha-se para uma forma de viver religião sem guardiões da fé, sem donos da verdade, sem instituições hierarquizadas nos moldes que fizeram o sucesso centenário do catolicismo romano ou que faz o sucesso do islamismo”.
Lamento discordar, mas nada do que descreveste é religião. Chama-lhe “espiritualidade”, chama-lhe “transcedência”, chama-lhe “visão mística”, chama-lhe o que quiseres. Religião, não.
Eu não sou muito fã do recurso constante à Wikipedia, mas acho que neste caso, é fundamental o seu conteúdo:
“A Religião (do latim: “religio” usado na Vulgata, que significa “prestar culto a uma divindade”, “ligar novamente”, ou simplesmente “religar”) pode ser definida como um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que parte da humanidade considera como sobrenatural, divino, sagrado e transcendental, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças”
Portanto, essa visão de “religion on demand”(?) não é religião. Falta-se o aspecto de “religio”, ou seja, essa visão de uma comunidade relativamente unificada sob um qualquer código relacionado com um (ou vários) aspecto(s) daquilo que consideram “o divino”.
Se há coisa que não existe, é “religiosidade privada”.
Cumprimentos
Leonor,
«Foi uma simples dúvida, no início da adolescência e à qual não tive resposta cabal por parte da minha catequista, que me levou, progressivamente, à descrença. »
Não será culpa da catequista?
Não será culpa da idade em que formulaste a pergunta?
Não entendo como é que se fixa um ateísmo decidido em certos episódios pontuais como este que relatas.
Não queres fazer-me de novo a pergunta que formulaste à catequista?
Nunca mais pegaste na pergunta?
Nunca mais procuraste respostas para ela?
É este tipo de fixismo intelectual que me assusta: o ficar preso a uma má memória de infância, o assumir que uma resposta não recebida na adolescência fica sem resposta para sempre. E pronto, fica-se ateu assim!
Bernardo
Ah, esquecia-me…
Bem-vinda!!
Bernardo, não falei com a Leonor sobre o assunto e posso dizer-te que percebi pelo texto que ela não se ficou por aí. Que essa questão da catequista foi o ponto de partida… “que me levou, PROGRESSIVAMENTE, à descrença.”
Bernardo,
É este tipo de fixismo intelectual que me assusta: o ficar preso a um conceito infantil, baseado numa mão cheia de nada. E pronto, fica-se crente assim!
«É este tipo de fixismo intelectual que me assusta: o ficar preso a uma má memória de infância, o assumir que uma resposta não recebida na adolescência fica sem resposta para sempre. E pronto, fica-se ateu assim!»
Mas que afirmação tão disparatada! Por falar em fixismos intelectuais…
Caro Lucas, percebo a tua argumentação e, sim, tendo a admitir a tua razão. Os próprios novos crentes são os primeiros a traçar a distinção – recordo-me de um poster que vi algures aos trambolhões pela net e que trazia uma frase engraçada, a propósito: “religious people scare me, spiritual people inspire me”, ou qualquer coisa parecido. Quando me refiro a essas novas formas mais livres de viver a religiosidade é mais desse domínio, entendido como mais “aberto”, que me refiro. O teu reparo é pertinente. Se bem que qualquer seguidor de uma religião tradicional te dirá que é uma pessoa espiritual e que a sua religião é do domínio da espiritualidade. A espiritualidade será, então, o grande chapéu sob o qual pululam todas as formas de religião e misticismo, organizadas ou desorganizadas.
Também queria no entanto ressalvar que as novas tendências religiosas, perdão, espirituais não passam apenas, nem sobretudo!, pela vivência livre, subjectiva e individualista de uma transcendência pessoal qualquer. Tem mais a ver com a fragmentação das crenças em milhares de pequenos cultos e doutrinas “à la carte”. Ou, como diria o outro “on demand”. E isso será potenciado naturalmente pelas novas tecnologias de comunicação, pela web e principalmente pela web 2.0, pelos novos mecanismos de criação digital de comunidade. Pela facilidade de “religar” que nos é oferecida pela internet e pela globalização. É hoje muito mais fácil encontrar um grupo, por muito fringe que seja, com que nos identifiquemos. E multiplicam-se, de facto, os cultos dos mais bizarros. O neo-paganismo, com os wicans à cabeça, será um deles, mas há mais, sem hierarquia definida mas com doutrina, como o culto de uma entidade chamada Kryon, que tem cada vez mais adeptos, ou o culto do reiki, ou o culto dos anjos da guarda, ou o tarot,
etc. Mas o facto é que as pessoas tendem cada vez mais também a fazer as suas sínteses pessoais, tiram um bocadinho do cristianismo, um bocadinho do judaísmo místico, um bocadinho do budismo ou do hinduismo, um bocadinho da teosofia, misturam tudo e vivem uma espiritualidade muito própria e muito nova. mas que não deixam também de constituir «um conjunto de crenças relacionadas com aquilo que parte da humanidade considera como sobrenatural, divino, sagrado e transcendental, bem como o conjunto de rituais e códigos morais que derivam dessas crenças»
Caro Lucas, super-herói do Portal Ateu.
Aceito o sentido que dá a Religião, mas isso não altera em nada aquilo que eu disse. Continua a ser uma forma do ser humano, em conjunto ou não, de manifestar o espírito inventivo do ser humano. Podemos ou não concordar com elas, mas isso é outra coisa.
Quanto à religiosidade, discordo da ideia que esta não possa ser privada. Religiosidade é a “qualidade daquilo que é religioso, tendência, disposição religiosa, etc”. É óbvio que cabe aqui o sentido individual ou privado.
Caro jotapc
Obrigada pelos comentários.
A ideia de “Religion on deman” faz recordar-me da devotio moderna, uma forma de religiosidade que cresceu no final da Idade Média e no início da época Moderna. É um sinal dos tempos…
Caro Bernardo,
Obrigada pelas boas-vindas.
“Não será culpa da catequista?”
Longe disso, foi graças à catequista. Reconheço que foi uma resposta má formada, sei já há muito tempo que a resposta que ela deu é totalmente errada segundo os parâmetros da Igreja católica. Mas tenho tudo a agradecer por ela ter dado a resposta que deu. Se quer realmente saber a pergunta, foi algo tão simples como perguntar por que razão me ensinavam uma coisa nas aulas de ciências da natureza – a origem do ser humano – e por que razão tinha de responder outra coisa totalmente diferente na catequese. A resposta foi: “Na escola respondes uma coisa, aqui respondes outra”.
Bastou isto, tinha eu 12 anos, para eu duvidar daquilo que me ensinavam na catequese. Mas isto não ficou por aqui, nem sequer foi um episódio pontual. Lamento que tenha dado a impressão que tenha sido uma mera questão como esta. E está longe de ter sido um processo imediato. Tive uma educação bastante vinculada na religião e demorou imenso tempo até me afirmar como não crente.
Na fase complicada da adolescência, questionei-me diversas vezes com questões muito concretas, como a salvação, que passava por acreditar e ter fé em Jesus Cristo. Se isto era condição para nos salvar, então o que dizer de imensas crianças por esse mundo fora que não tinham qualquer contacto com o Cristianismo. Seriam condenadas ao Limbo (que curiosamente encerrou as portas recentemente, mas que na altura em que eu cresci ainda fazia parte do imaginário católico)? Que deus poderia ser este, que não admitia no seu seio crianças inocentes? Não poderia ser um deus bondoso, com certeza.
Esta dúvida foi apenas o salto, foi o “tirar a venda dos olhos”. Houve muitas outras que surgiram entretanto e que até agora ninguém me respondeu satisfatoriamente. Progressivamente cheguei à conclusão que a ideia de Deus é fabricada pelo Homem, reage a determinados problemas em determinados momentos. Sofre uma evolução, tal como o pensamento da Humanidade. É apenas uma projecção da nossa mente.
Foi uma tomada de consciência que está longe de ser uma decisão pontual, foi um processo que foi bastante difícil e que ocupou grande parte das minhas discussões ideológicas com amigos. Não foi um fixismo intelectual, isso chama-se fé, e isso é coisa que não compreendo nem aceito como modo de pensar.
Tcharan! Super-Ateu ao seu serviço cara Leonor!
A religião “continua a ser uma forma do ser humano, em conjunto ou não, de manifestar o espírito inventivo do ser humano. Podemos ou não concordar com elas, mas isso é outra coisa”. Nopes! É este acordo ou desacordo que faz toda a diferença. A mim não me interessa nada um “espírito inventivo” que conceba sacrifícios humanos, queima de heréticos em fogueiras, perseguições a escritores inconvenientes, mutilação genital e subserviência patriarcal, etc., etc. Por muito que goste de história das religiões, gostaria que a mesma se ficasse por aí mesmo: na história e não no presente!
Em relação à “religiosidade privada”, acho que não fui bem entendido. É evidente que algumas manifestações religiosas envolvem aspectos de interiorização e meditação pessoal em espaço privado (constata-se esse facto em qualquer mosteiro de Capuchinhos!). No entanto, essa reclusão acontece enquanto extensão de um “quadro geral” pré-concebido pela comunidade religiosa como “ideal”; ninguém que se envolve numa religião, pratica reclusão ou meditação porque lhe deu na real gana fazê-lo! Isso faz parte de uma filosofia presente na religião que essa pessoa resolveu abraçar. Na Cientologia, por exemplo, tens algo completamente diferente: o famoso “auditing”.
Tudo isto para dizer que, apesar de alguns aspectos de devoção religiosa poderem parecer espontâneos (envolvendo essa tal privacidade), existe sempre um quadro ordenador do sistema religioso que a isso pode (ou não) induzir.
Bem…está na hora de voar e empreender mais uma batalha épica contra o Lex Lutero e o Super-Agostinho. Será uma batalha dura mas conto com a ajuda do Super-Silvestre e do Homem-Sanches.
Bye bye!
Lucas Lanterna Verde Samuel…
To infinity… and beyond!!!
O Lucas é um bonacheirão. E faz bem, porque rir é o melhor remédio. Também é uma pessoa muito fácil de entender, como o são todos os homens sem dúvidas, por isso não houve qualquer equívoco. No que respeita à dicotomia espiritualidade/religião, penso que ficámos entendidos lá atrás. Adiante. Que existe sempre um “quadro ordenador” é questionável mas não vamos por aí. Até porque serão casos de excepção, digamos assim. Efectivamente, até o panteísmo, essa forma mais livre e individualista de espiritualidade (i.e. não-organizada), assenta numa série de pressupostos pré-existentes. Mesmo que não exista doutrina, tradição ou instituição, admito que a generalidade das manifestações ou vivências espirituais tenha um quadro ordenador. Isso mesmo, de resto, se conclui dos meus anteriores comentários, se o Lucas se desse ao trabalho de ler com atenção.
As novas formas de religião, perdão, espiritualidade, consistem regra geral em sínteses pessoais (que se organizam ou não) de diversas tradições, mitos e doutrinas antigas ou recentes. Isto é, na confluência de vários “quadros ordenadores”. Isto significa, entre outras coisas, que uma experiência espiritual privada (ou desinstitucionalizada) não implica necessariamente espontaneidade.
Outro assunto bem diferente, que ninguém contesta, são os «aspectos de interiorização e meditação pessoal em espaço privado», que se constatam nos Capuchinhos, nos monges budistas ou nos xamans animistas: práticas ritualizadas de determinada doutrina.
O que te quero transmitir, basicamente, é que questões complexas não se resolvem com sentenças maniqueistas e simplistas desse calibre. Tu olhas para a religião e vês apenas um amontoado de barbaridades. Ponto. O resto, a ti, “não interessa nada”. Ora, o nada é muito. Desde logo porque o problema das barbaridades não se esgota nas religiões, é antes de mais, fruto de duas questões: Contexto e indivíduo. Ou por palavras mais simples, o problema não é das religiões, é de quem as pratica. Ou, em última análise, radica na questão mais vasta da crença, do mecanismo de acreditar. Em qualquer coisa, seja ela religiosa ou secular. De facto, os homens (e as mulheres) fazem as mais diversas coisas, umas boas, outras más, em nome de ideias, que são a matéria prima das crenças. E é isso que as religiões são: ideias que se tornam crenças, crenças que geram emoções, etc.. Como o são os clubismos, os partidarismos, os nacionalismos ou as ideologias políticas – vide, por exemplo, o terror laico e secular da I República francesa, as guilhotinas, o Robespierre e outra gente simpática que tal. Ora, como tudo isto é complexo, todos estamos de acordo que a revolução republicana francesa não foi inteiramente má (é claro que se acharmos que há barbaridades que se justificam e outras que não, esta conclusão não se aplica), que foi um passo em frente fundamental para a libertação dos povos. O mesmo é válido para as religiões.
Não me será difícil encontrar exemplos de confissões religiosas ou tradições espirituais que nunca fizeram mal a ninguém – os capuchinhos são um exemplo, os sufis são outro, etc., basicamente quase todas as tradições mais místicas e com uam natureza mais contemplativa. Assim como não me será difícil de encontrar, no seio de confissões religiosas que já fizeram muito mal a muita gente, muita gente incapaz de fazer mal a alguém e que não participa em barbaridades. Contexto e indivíduo. Porque a verdade completa é que a religião deu-nos muito mais do que barbaridades. Nem é uma questão de sermos justos para com as religiões, é uma questão de sermos justos para com a história. Muito pensamento importante, muita beleza, muita felicidade, muita esperança, muita coisa positiva. O budismo, por exemplo, também tem a sua quota-parte de barbárie, não tanto como outras, mas enfim, mas é uma doutrina que aconselho vivamente a estudar, porque contém muitos ensinamentos valiosos. Mesmo para a vida descrente, é uma filosofia muito rica.
A mim o que me incomoda nas religiões é antes uma certa forma de viver as religiões, por exemplo, proselitista, fundamentalista, impositiva, política, totalitária ou intolerante. Que são precisamente as mesmas coisas que me incomodam noutra qualquer actividade humana. Não são as religiões em si, muito menos a espiritualidade, latu sensu. Como sou um amante da liberdade, acredito antes de mais que todos devem ter a liberdade de pensar e agir como bem lhes apetecer ou como se sentirem mais confortáveis, no quadro, obviamente, da Lei e do Direito secular vigente. Por mim até podem rezar a fazer o pino ou uivar à lua cheia no solstício. Está certo. Quanto muito acho fascinante, enquanto manifestação do “espírito inventivo humano”, que não deixa de ser, quer concordemos quer não, como estava a Leonor a tentar explicar. Tal como acho curiosa a pancada muito americana do estilo de vida klingon – gente normalíssima que aprende a falar klingon e se encontra regularmente enfarpelada de klingon a discutir assuntos klingon. E que leva tudo aquilo muito a sério.
Agora, se queres ser coerente nessa cruzada purificadora, tens de combater também os republicanos, os socialistas, os patriotas e uma carrada de outra gente que também carrega uma herança de sangue. Pronto, agora podes ir brincar aos super-heróis.
Jotapc,
“O Lucas é um bonacheirão. E faz bem, porque rir é o melhor remédio. Também é uma pessoa muito fácil de entender, como o são todos os homens sem dúvidas, por isso não houve qualquer equívoco”
Ah…mas os simplistas são ainda mais fáceis de entender, porque presumem coisas para lá daquilo que os bonacheirões dizem ou pensam. Normalmente, têm uma capa de tolerantes, liberais e mentes muito abertas; mas na realidade, tudo isso é só fachada para a aplicação de chavões libertários (a maneira mais simples de camuflar a ignorância).
“O que te quero transmitir, basicamente, é que questões complexas não se resolvem com sentenças maniqueistas e simplistas desse calibre”.
Então resolvem-se como? Assim…
“Não me será difícil encontrar exemplos de confissões religiosas ou tradições espirituais que nunca fizeram mal a ninguém – os capuchinhos são um exemplo, os sufis são outro, etc., basicamente quase todas as tradições mais místicas e com uam natureza mais contemplativa. Assim como não me será difícil de encontrar, no seio de confissões religiosas que já fizeram muito mal a muita gente, muita gente incapaz de fazer mal a alguém e que não participa em barbaridades. Contexto e indivíduo.”
Parabéns pela banalidade! E o que é que isso me interessa? A questão é: por termos uns tipos muitos porreiros ou muito maus, no que é que isso afecta a veracidade da mensagem? Se Hitler me explicasse correctamente a teoria da gravidade, não deixava de acreditar nela só por ter vindo de quem veio. O que me interessa a mim que os sufis ou os capuchinhos sejam tipos porreiros? Que me interessa a mim a mão cheia de nada que eles apresentam? A curiosidade acerca da sua mensagem é meramente poética. Nada mais.
“O budismo, por exemplo, também tem a sua quota-parte de barbárie, não tanto como outras, mas enfim, mas é uma doutrina que aconselho vivamente a estudar, porque contém muitos ensinamentos valiosos. Mesmo para a vida descrente, é uma filosofia muito rica”.
Ora aí está a palavra mágica: filosofia (e não religião). E filosofias há muitas. Enquanto formulação filosófica, cada escola de pensamento terá a sua mensagem, o seu mérito ou demérito. O facto de as catalogarmos “A” ou “B” não acrescenta nada ao mérito ou demérito das ideias que defendem. Eu aconselho vivamente as pessoas a estudarem não só o budismo (e porquê o budismo? Talvez porque o budismo hoje seja uma moda “bem”…), mas TODAS as doutrinas; porque todas elas contém ensinamentos muito valiosos (no melhor e no pior sentido): cepticismo, pacifismo, nazismo, feminismo, fascismo, existencialismo, utilitarismo, ambientalismo, pragmatismo, republicanismo, ateísmo, etc., etc.
“A mim o que me incomoda nas religiões é antes uma certa forma de viver as religiões, por exemplo, proselitista, fundamentalista, impositiva, política, totalitária ou intolerante. Que são precisamente as mesmas coisas que me incomodam noutra qualquer actividade humana.”
Are you talking to me? Para este tema, é melhor recorreres ao Bernardo…
“Não são as religiões em si, muito menos a espiritualidade, latu sensu. Como sou um amante da liberdade, acredito antes de mais que todos devem ter a liberdade de pensar e agir como bem lhes apetecer ou como se sentirem mais confortáveis, no quadro, obviamente, da Lei e do Direito secular vigente.”
If you’re going to San Francisco
Be sure to wear some flowers in your hair
If you’re going to San Francisco
You’re gonna meet some gentle people there
For those who come to San Francisco
Summertime will be a love-in there
In the streets of San Francisco
Gentle people with flowers in their hair
Acho que estás um bocadinho atrasado: o comboio para Woodstock já passou há 40 anos atrás…
“Se queres ser coerente nessa cruzada purificadora, tens de combater também os republicanos, os socialistas, os patriotas e uma carrada de outra gente que também carrega uma herança de sangue”
Hmmm? Como disse? Alguém iniciou uma “cruzada purificadora” e não me disseram nada? Não é justo!
“Pronto, agora podes ir brincar aos super-heróis”.
Yeeea! Tu fazes de Jesus Cristo e eu de Pilatos, ok? Tens o poder da ressuscitação, de atravessar paredes, de andar sobre água e de curar leprosos. Eu tenho o poder de crucificar tolinhos que se gostam de armar em Deus, ok?
Ok. Acho que está tudo dito. Saudinha!