Dúvida de fé

Este primeiro texto como colaboradora do Portal Ateu serve como afirmação de uma posição que julgo ser necessária como forma de introdução.

Não considero a Religião a raiz de todo mal, nem sequer penso que ela deva simplesmente deixar de existir. Pelo contrário, a Religião é, neste momento, ponto central do meu interesse pessoal e académico.
As crenças religiosas, os mitos, as histórias exemplares ou fantásticas fazem parte da História da Humanidade e interesso-me por elas porque representam, de uma forma ou outra, uma manifestação do espírito inventivo e da capacidade de abstracção do ser humano.

Este interesse não me impede, antes pelo contrário, de ter uma posição crítica acerca da influência da Religião sobre o comportamento humano.

Uma recente notícia no Jornal Expresso tornou-se num óptimo ponto de partida para exemplificar esta influência negativa e simultaneamente expor o meu processo de descrença.

(…) “numa reflexão sobre a chamada “infância espiritual”, uma corrente de espiritualidade que atravessa toda a história da Igreja, D. José Policarpo destaca a confiança e a entrega que caracteriza as crianças, que “não têm dúvidas de fé”, e a necessidade de “preservar a criança que há em cada adulto”. Considera, assim, “um erro retardar a vivência dos grandes mistérios” cristãos, relegando-os para um tempo em que “a incerteza e a dúvida começam já a perturbar o coração do adolescente.”

A verdade é que estas palavras, proferidas pelo Cardeal Patriarca tocam exactamente naquilo que me fez desacreditar na Igreja Católica e, posteriormente, abandonar qualquer tipo de crença religiosa.

A dúvida e a incerteza, de uma forma geral, podem conduzir a um maior conhecimento. Acreditar, por acreditar, ou não pôr em causa algo que está protegido por um dogma, ou por uma certeza assegurada por outros, não é razão suficiente para justificar uma crença.

Foi uma simples dúvida, no início da adolescência e à qual não tive resposta cabal por parte da minha catequista, que me levou, progressivamente, à descrença. Considerar que uma criança deverá ser protegida das perguntas normais que se vão criando ao longo do percurso que todos nós fazemos, é uma forma de manipular a curiosidade do ser humano e de certa maneira, de o castrar.

À rebeldia característica da adolescência, responderam-me com a condescência daqueles que não duvidavam, nem sequer se preocupavam em reflectir sobre isso: “Não se deve questionar ou aprofundar esses assuntos, porque senão, perde-se a fé”.

Ainda existem muitos crentes por esse país fora que guardam esta fé a sete chaves, com medo de a perder. Não a deixam à solta, não a deixam ter contacto com outras hipóteses, guardam-na como um tesouro, que não tem qualquer função, senão para ser exibida em caso de confronto e colocar um ponto final na discussão.

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