Quer queiramos, quer não, com maior ou menor relevância, consoante o enquadramento social, nós, os ateus, ainda somos vistos por uma parte considerável da sociedade como gente duvidosa, estranha e pouco indicada para relacionamentos mais sérios. As reacções possíveis são tão díspares que não vou aqui enumerá-las.
Devido à minha profissão, contacto diariamente com público das mais diversas origens, etnias, faixas etárias, classes sociais, etc. Naturalmente, não perco uma oportunidade para promover o Portal Ateu – e para me assumir como ateu convicto – sempre que a conversa o justifique. Raramente recebo de volta uma uma mensagem eufórica de reconhecimento; nada que se compare – nem de perto, nem de longe – com o que acontece quando digo que sou do Benfica, embora não passe cartucho ao futebol. Porque será que isto acontece?
Antes de mais, quero recordar que para mim ser ateu apenas significa que não acredito em deuses. Esse facto pode causar outras tomadas de posição, mas não é garantido que tomadas de posição idênticas não possam partir de crentes. Princípios humanistas, defesa da liberdade, credito à ciência, princípios éticos e morais que defendem a igualdade e a responsabilização individual, etc… Todas estas características também são comuns a muitos crentes, arrisco-me mesmo a dizer à maioria.
O ateísmo esteve durante séculos associado ao que de pior se pode imaginar. A fértil capacidade da igreja dominante ostracizar quem mais lhe pode provocar danos enquanto força reguladora da moral pública deixou, naturalmente, as suas marcas; ainda hoje, para quem não o é, ser ateu carrega uma forte simbologia negativa.
Ao contrário do que muitos ateus pensam, não me parece que devamos ficar na expectativa de que sejam os crentes a aceitarem-nos ou a verem-nos com melhores olhos por iniciativa própria. É claro que só lhes ficava bem, mas penso que não será expectável que tal aconteça dessa forma. Devemos ser nós a promover-nos. E, como qualquer bom comercial sabe, dizer mal do produto concorrente não é de forma nenhuma a melhor estratégia de vendas. Há sempre algo no nosso produto de que também podem dizer mal, claro está. Então, não será preferível promover o ateísmo e promover-nos a nós próprios enquanto ateus realçando e valorizando o que temos de bom, descartando a critica constante ao produto concorrente? Parece-me que sim.
Então, porque não pensarmos numa campanha de marketing pessoal ateísta? Algo que mexa mais com as pessoas do que meras faixas publicitárias em autocarros de carreiras duvidosas com frases banais de cariz panfletário; algo que faça com que as pessoas realmente se interessem e se surpreendam com o ateísmo… Isso está ao alcance de todos nós, é mais barato do que a publicidade e será, sem dúvida, muito mais eficiente e duradouro.
Vamos fazer com que o ateísmo passe a ser bem considerado na sociedade graças aos seus méritos e não apenas por servir de policia do deméritos das religiões.
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Viva Helder! Há bastante tempo que aqui não vinha e tem sido bom por certas leituras em dia. Gostei deste artigo e acho que foca um tema pertinente. Não sou ateu, mas para efeitos de um crente, é como se fosse. O agnosticismo também é pecado e de resto entre nós separa-nos, penso por vezes, uma questão de semântica, já que os ateus (pelo menos muitos) também têm dúvidas. Aliás, ouço dizer que os crentes (pelo menos alguns) também as têm. Enfim, seremos então todos agnósticos, uns mais assertivos e outros menos. os mais insidosos dirão uns mais cobardes, outros mais corajosos, enfim, cada um que faça o seu juízo de valor, cada um assuma a posição em que se sente mais confortável.
A religião para mim é um tema de estudo e reflexão, fascina-me o impulso religioso, mas não consigo crer. Isto é, interessa-me, recuso liminarmente os deuses no mercado, mas deixo em aberto a questão de Deus. Em termos sociais, porém, para essa parte considerável da população (os crentes) quem “não acredita” é raça daninha, seja ateu, seja agnóstico. Nós, os que gostamos de pensar que somos “livres pensadores”, o clube do demo. É natural e sucederia o contrário se numa sociedade maioritariamente e culturalmente ateia alguém se afirmasse católico apostólico romano num grupo de conversa. Desconfio que os ateus baixariam todos o copo e olhavam para o crente como quem olha desdenhosamente para uma ave rara.
Apesar de pessoalmente não sinta qualquer necessidade de ser aceite por quem quer que seja, muito menos por crentes, também não sinto necessidade de ser mais “afirmativo” numa questão que só a mim me diz respeito, mas por outro lado acho que esse tipo de publicidade positiva ao ateismo seria, no entanto, uma óptima ideia. Quanto mais não seja para o arejamento das ideias neste país. E para os crentes irem percebendo que já não estão sozinhos neste país e que outras forças se movem nos intestinos da nação. Creio já ter visto, penso que nos EUA, campanhas desse género, “humanizando” de certa forma o ateísmo e o cepticismo. Força nisso.
“Antes de mais, quero recordar que para mim ser ateu apenas significa que não acredito em deuses.”
Muito bem Hélder. Apesar de concordar que o ateísmo está associado a uma péssima imagem, mais nos EUA do que tanto aqui na Europa, sei que apenas é resultado da campanha (esta sim negra) de ignorância das diversas religiões. Dizia, apesar de concordar tens razão quando dizes que o ateísmo é simplesmente não acreditar em deuses, não implica mais nenhum tipo de visão ou filosofia de vida que seja exclusiva dos Ateus. A imagem mudará, quantas mais pessoas com influência na sociedade sairem dos armários ou das mesinhas de cabeçeira onde se encontram e derem a cara…
Abraço
Caro Helder,
Pior do que te manifestares, em público, como ateísta, é dizeres que és ateísta E gostas de heavy metal!
Aí o embaraço do teu interlocutor é total….
Ficas duplamente condenado ao fogo do inferno…
cumprs,