Não sei se posso continuar colaboradora do portal ateu. Continuo convictamente ateísta e sem compreender isso da fé mas nestas férias tive um momento transcendente que gostava de partilhar convosco.
Na primeira quinzena de Junho fui a Itália passar férias. Há muito a dizer sobre esta terra. Algumas coisas hei-de partilhar convosco à medida que me der na telha, principalmente quando tiver as fotografias. Mas hoje vou falar duma experiência do último dia que estive em Roma.
Contextualizando, no dia anterior o nosso plano era museu do Vaticano com a monumental capela Sistina (maior que muita igreja nossa) e basílica de S. Pedro. Fomos ao museu, maravilhámos com o museu e quando saímos fomos para a basílica e a bicha para entrar era enorme, chegava ao meio da praça, ao sol e eram duas da tarde. Não sei se sabem mas a praça de S. Pedro é gigante. Estilo mais que um campo de futebol, para não dizer dois ou três. Nessa altura voltámos para trás mas eu disse que queria lá ir e havia de lá ir nem que fosse no dia a seguir às sete, que é a hora que a basílica abre, porque à tarde íamos para Florença.
Meio dito meio feito. Pus o despertador para a seis e meia e às sete e dez estava a pôr a minha mochila no raio X para o qual ninguém olhou. Isto é uma cena muito italiana, nem no aeroporto olharam. Tive pena de não me poder ir aproximando da basílica pela frente e subir as escadarias. Tive de ir pelas arcadas laterais e la fui andando e lá fui maravilhando. A Basílica é uma mescla de tudo e mais alguma coisa e é gigante. Põe o nosso mosteiro da Batalha num canto. Lá fui andando, observei os tectos magníficos, os anjos pirosos, os papas antipáticos, alguns tinham mesmo ar de nos querer dar uma sova. Em cada altar, e há lá dezenas, estavam membros do clero com vestes escarlate com outros membros ao lado e mais uns acólitos e mais umas devotas (curiosamente vi muito poucos devotos…). Mais tarde soube tratar-se de missas nas mais variadas línguas. Várias missas ao mesmo tempo numa mesma igreja. Fiquei maravilhada e lembrei-me porque é que a Igreja recebeu o prémio Ignóbil da economia aqui à uns anos. A dada altura fui à sacristia onde estava uma parafernália de homens do clero a mudar a sua roupa preta e colarinho branco para as ditas vestes vermelhas e vice versa. Aquela sacristia era maior que muitas capelas onde já cantei. Seria porreiro ter sempre aquele espaço todo para mudar para a roupa de concerto. Saí da sacristia e fui ver o fundo da nave central. A certa altura vira-se um senhor para mim (têm que imaginar isto com sotaque italiano) “Presto! Miss, miss, for mass only, not for sight” Eu perguntei em que língua era a missa, “Portuguese, spanish, english…” e eu “I’ll go see”. É aqui que me podem chamar hipócrita. Lá segui um padre de vermelho, o acólito e quatro devotas. Cheguei ao altar, fiz como elas e fui dando uma vista de olhos. O padre começou a falar em espanhol e eu fui-me embora encolhendo os ombros ao guarda dizendo “spanish”. Depois fui ver a ala lateral e disseram-me “only for confession.” Aí a minha lata já não foi tão grande. Não faço a menor ideia no que consiste uma confissão por isso pedi para dar cinco passos em frente para sentir a envolvente e havia uma série de confessionários com uma plaquinha à frente com a língua da confissão. Depois foi a capela da reza. Entrei, sentei-me, maravilhei-me e meditei um pouco. Aproveitei o silêncio e o ambiente de introspecção para pensar na enxurrada de sensações que me passavam pela mente. Foi muito bom. As igrejas são boas para isso. São solenes. A sua arquitectura serve esse propósito. Saí da zona de reza e fui ver as imagens bizantinas da capela central onde se acredita que foi enterrado S. Pedro, o primeiro papa. As inscrições dizem “Pedro está aqui” e estão datadas para o primeiro século depois de Cristo. E comecei a sair. Chão bonito, tecto bonito e de repente olho para a esquerda e está uma estátua branca a chamar por mim. Começo a reconhecê-la e começo a ouvir “stabat mater dolorosa” (nos 50 segundos). É fantástico a maneira como a minha ignorância às vezes me surpreende. À minha frente estava a Pietá do Miguelangelo. É soberba. A dor, o movimento… que peso no peito. Este momento que as pietás e os stabat maters deste mundo tentam descrever é o momento da mitologia cristã que melhor compreendo. O desespero, a dor, a angústia da mãe que vê o seu filho morto. É universal e avassalador. Respirei três vezes bem fundo e saí da basílica. Foi como se uma onda me levasse entre o cansaço físico, a fome e o esplendor artístico e senti-me nas alturas e chorei. Chorei copiosamente por mim, pelas freiras que vinham atrás de mim, pelos acólitos, pelos padres, pelas devotas e pelos devotos, pelos famélicos, pelos fartos, pelo amor e pelo ódio, pela paixão, pela volúpia, pelas artes e pela beleza, pelas mães que vêem os filhos morrer e foi catártico e supremo e único.
A religião não envenena tudo. Hitchens, estás errado!

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HEREGE!!! A falar mal do DEUS Hitchens?!!??!!? Como podes???!!!
Serás excomungada do Portal!!!
Ao ler o teu relato só posso chegar a uma conclusão: A capacidade humana para se projectar para além da vida mundana é fabulosa.
ps. Sempre me disseram que a praça do Santuário de Fátima era muito maior,.
A arte extravasa tudo, todos os conceitos são possíveis. E claro que religião também é cultura. Apesar da qualidade destas obras primas temos ainda que considerar que na altura apenas o clero e os nobres mais abastados tinham capacidade económica para contratar artistas…
De fato, é um exagero dizer que a religião envenena TUDO.
Pode-se encontrar bondade em beleza em quase todas as coisas, inclusive nas religiões.
Mas colocando numa balança o bem e o mal que a religião proporcina, você realmente acha que essa tua experência é suficiente para deixar de critíca-la?
L. Abrantes,
a praça do Santuário pode ser maior mas sempre que vou àquela terra só me lembro duns desenhos animados que vi em miúda de Jesus Cristo a correr com os vendilhões do templo. E há a diferença entre uma coisa com séculos e outra com décadas…
Rui Janeiro,
Tecnicamente isso era verdade em Roma mas nas outras cidades de Itália havia inúmeras famílias mecenas sendo uma das mais famosa os Medicis ou os doges de Veneza, A questão é que até ao barroco fazia.-se muito pouca arte não sacra e no renascimento a arte não sacra tinha quase toda motivos mitológicos romanos ou helénicos. Ainda havia os retratos mas pouco mais. As cenas do quotidiano na arte só surgiram no século VII. Na música com as pavorosa óperas barrocas com as áreas da capo. Havia alguma arte não sacra a nível popular mas não era muito significativa, Mais um vez, na música temos o exemplo dos madrigais… muito divertidos.
Daniel.
A arte é a única coisa que me lembra assim num repente que a religião não envenena. Quando disse que não sabia se posso continuar colaboradora do portal ateu estava a brincar ou a pensar, também a brincar, que o Ricardo ia correr comigo daqui para fora.
Ricardo, não vais, pois não?
Catarina
Queira me perdoar, sou novo por aqui =P
Sem necessidades de desculpas. Estamos aqui para o bom diálogo. Achei bem esclarecer.
Um ateu com emoções!!! Alive….she’s alllllivee!
Tenho inveja dessa tua viagem Catarina…
Com que então, afinal a religião só envenena 99,999% das coisas!?
Deve ser a isto que chamam um “ateu fraco”, digo eu, reles agnóstico
“Experiência religiosa”, hum… Está bem, em certa medida não deixa de ser, mas é sobretudo o relato de uma experiência emocional perante a beleza e a grandiosidade da obra, do engenho e da sensibilidade humana. Mais do que meramente racionais, somos criaturas conscientes. Esse dom da consciência torna-nos emotivos, sensíveis e empáticos. E a religião, seja ela qual for, é de facto e antes de mais um domínio profundamente emocional. Irracional, também no “bom sentido”, no sentido de despertar em nós sentimentos que a lógica não explica. Não no “mau sentido” de nos levar a fazer asneiras.
É assim que os fiéis evangélicos choram, esperneiam e gritam que nem uns perdidos nas suas celebrações. É assim que os monges budistas ou católicos encontram a paz e o equilíbrio nos seus conventos ascéticos, nos seus rituais e nas suas crenças. Etc. Também eu já vi gente boa, que pouco ou nada conhecia do hinduismo, a chorar comovida e num estado de grande alegria depois de sair de um encontro hare krishna com cantorias, danças, beijos e abraços que proporcionaram aquelas pessoas uma comunhão humana intensa. E foi bonito.
As religiões – tal como Hollywood, ideologias seculares como o comunismo ou o Nicolas Sparks – não só são peritas em explorar essa nossa natural propensão emocional (que não é, de resto, restrita à nossa espécie), como não podem existir sem ela, já que o fundamento do fenómeno religioso é todo ele do domínio da emoção, da fé, da crença, de uma entrega incondicional a uma promessa imprometível, a uma utopia, a uma ideia fantasiosa. Uma ideia que desperta nos crentes sentimentos dos mais díspares mas frequentemente desregrados (sobretudo quando não se é monge ascético): de júbilo, de alegria, de compaixão, de ódio, de raiva. Etc. E nisso, são profundos os paralelos com a arte e com o emocional domínio da beleza.
Eu próprio, por exemplo, que nem sou muito dado a emoções fortes e a êxtases públicos, nunca evito derramar umas lágrimas piegas de cada vez que vejo a cena final do Cinema Paraiso. É mais forte do que eu, é irracional, é bom, é libertador, é catartico. Tal como o foi certamente a sua explosão de sentimentos no Vaticano.
Na esteira disso, dessa maneira de ser e actuar, as religiões realmente não envenenam tudo, essa é uma perspectiva redutora do fenómeno religioso que não ajuda nada a causa ateista e secular. O Hitchens, em nome da eficácia de um título, esqueceu-se efectivamente de Michelangelo, mas também de Bach, das catedrais, de Omar Kahyam, de Rumi, de toda a beleza inspirada ou comissionada pela religião.
Mas é verdade que envenena muita coisa, isso sem dúvida.
Ai esta Catarina,voce sentiu um pouco do que sente um crente,agora compare esse sentimento com as perspectivas,o mundinho terra a terra do ateismo e compreendera porque a religiao JAMAIS sera extinta.
Posso estar enganado,mas considero hipocrita o sorriso de um cetico
Amigo Mateus, está de facto enganado. Mas não se preocupe, errar é humano. Acredito, no entanto, que tem razão numa coisa: a religião só será extinta quando acabar a nossa espécie. Até lá, há-de haver sempre alguém a magicar mitos para explicar mistérios.
Catarina,
Recomendo-te que, com carácter de urgência, programes uma visita aos seguintes locais:
- Museu Nacional de História Natural
- Planetário Gulbenkian
- Jardim Zoológico de Lisboa
Como complemento, recomendo-te a audição das seguintes obras:
- 5ª Sinfonia de Beethoven
- Abbey Road, The Beatles
- The Dark Side of The Moon, Pink Floyd
Se não tiveres muito tempo disponível, fica-te pela Bohemian Rhapsody, dos Queen.
Muito interessante (e bonito) também é o painel de rocha ornamental por detrás da escultura: granito, brecha e calcário.
(quem for geólogo normalmente repara nestas coisas)
Discordo que a religião jamais será extinta.
O nível de religião é inversamente proporcional ao nível de educação e conhecimento e quanto mais o mundo avança, mas acessível tornam-se estas coisas.
Reitero as sugestões do Helder Sanches, e acrescentava-lhe o Mozart, que não era um homem religioso, até creio que era Maçon, mas fez das coisas mais belas e emocionantes da história da Criação humana. Mas uma coisa é certa, sobretudo os museus e sítios de ciência não lhe vão proporcionar certamente a mesma catarse emocional. A ciência é bela mas nem tanto… E para êxtases com a natureza, talvez seja preferível uma visita ao Gerês, num fim de tarde primaveril, isso sim, é jubilosdo e digno de lágrimas
A questão é que todo o contexto religioso, arquitectónico, artístico, ritualístico, é destinado a valorizar a experiência emocional. Daí que não seja nada estranha a reacção da articulista.
Daniel: Pois discordo da sua discordância. O Daniel parte do princípio, utópico quanto a mim, que todas as sociedades e geografias evoluirão no sentido nórdico, secular e esclarecido. Isso quanto a mim não é muito diferente da utopia comunista do “homem novo”. Ou da utopia iluminista da vitória da razão sobre a superstição. É certo que olhamos para a história e vemos, a partir de certa altura, um avassalador movimento secular a ganhar terreno. Mas tenho muitas dúvidas que a religião seja algum dia extinta por completo.
Além disso, as religiões começam a acabam, e surgem sempre novas para substituir as defuntas. O politeismo egípcio existiu durante milénios, muito mais tempo do que o cristianismo, e acabou por soçobrar. A própria religião pode é vir a tomar formas que hoje não sonhamos. Talvez reciclando velhas religiões. Lembro-me do caso por exemplo, do chamado neo-paganismo, que nem por acaso tem uma implantação cada vez maior nos países do norte da Europa, supostamente depurados de religiosidade.
A prosseguirmos neste caminho de democratização e liberdade no mundo, e se tudo isto não explodir entretanto, acredito por exemplo, que as religiões institucionais se verão em declínio e que se multipliquem ainda mais cultos espirituais mais heterodoxos, de que o vastíssimo e plural movimento new age é um caso paradigmático – enquanto antevisão do que ai pode vir. E fascinante, para quem se interesse em estudar tendências religiosas. Para os interessados em conhecer melhor para onde é que isto caminha, aconselho por exemplo a “Enciclopédias das Novas Religiões”, de Christopher Partridge, editada em Portugal pela Verbo. É uma obra muito interessante.
Catarina,
Parabéns pela descoberta dessa nobre religião chamada…ARTE!
Infelizmente, ela foi desde há muito, tomada de assalto por imaginativos parasitas que resolveram enganar as massas inventando uma história da carochinha ilustrada pelos mais distintos artistas.
Assim, só nos resta babar perante o menino em pé, o menino deitado, o menino nas palhinhas, o menino ao colo, o marmanjão em pé, o marmanjão deitado, o marmanjão crucificado, o marmanjão nas nuvens, etc.
Há quem louve a Igreja e a religião pelas maravilhosas obras de arte que nos “deram”. É uma visão tacanha e mesquinha. A verdadeira obra de arte deve ser… cada um de nós! E essa, ainda continua por desvendar por debaixo do pó e da lama que a opressão castradora de beatos eunucos quer permanentemente impor-nos.
Portanto… não chores pelos dramas do mundo rapariga! Antes, ri pela alegria e o espectáculo da VIDA!
Como diria esse grande teólogo Boss AC, “vive a vida”!
Tacanho e mesquinho é pensar que este episódio é apenas uma questão de ARTE. Isso é que é tacanho e mesquinho.
Yey! o nosso Lucas Samuel voltou!!!
Estávamos com saudades…
Já conheço isso da Arte e sou uma devota há uns tempos. A surpresa aqui foi a forma de arte. Sou muito mais sensível às artes musicais, à literatura e à sétima arte. Havias de me ver num concerto de Sérgio Godinho, baba e ranho. Nunca fui muito sensível às artes plásticas por isso o facto de uma estátua ter mexido comigo, huuuu. Novo e poderoso. Quanto ao choro. Não foi de tristeza. Foi de êxtase. Quanto à arte sacra. Há muito boa arte sacra. Sentimentos fortes propiciam boa arte e a fé aparentemente pode ser um sentimento forte logo também produz boa arte. Caso do mosteiro da batalha, os templos no Egipto, o requiem de verdi e outros que não tive o prazer de ver ao vivo.
E digo-te já que aquele marmanjão ao colo da mãe que parece mais nova que ele… Boa arte.
“Sentimentos fortes propiciam boa arte e a fé aparentemente pode ser um sentimento forte logo também produz boa arte”. Nem mais.
Há pessoas que choram a ouvir Tony Carreira.
Hei, o Tony Carreira deve ter o seu valor. Nunca tive o prazer, ou não, de o ouvir ao vivo mas ouvi dizer que ele domina o palco. Sensibilidades diferentes são tocadas por artes diferentes. Comigo é musica de intervenção, muita, românticos e russos do principio do século passado. E arquitectura megalómana, muita. ficção científica e fantasia, realismo mordaz e humor engenhoso. outros… Tony Carreira, Pedro Abrunhosa ou anjinhos barrocos.
Venerar Tony Carreira é bem mais grave do que venerar Jesus, Shiva ou Baco… É inqualificável mesmo!
Lucas Samuel “in da house, yooo!”
Obrigado pela recepção Catarina.
Em relação à divinização desse “monstro da música romântica ligeira” chamada Tony Carreira, acho que vocês estão todos desactualizados: tenham pietá meus caros! O que está a dar agora é Mickael Ângelo. Acompanhado de Floribela às vocais, claro está.
“E digo-te já que aquele marmanjão ao colo da mãe que parece mais nova que ele… Boa arte”
Ahh…bom olho! E o grande segredo é mesmo esse: aquela não é a mãezinha dele! O Dan Brown vê teoria da conspiração em todo o lado, mas não topou a mais evidente: aquela não é Maria, mãe de Jesus, mas sim, Maria Madalena! Além disso, quem pertenceu ao Priorado do Cifrão foi Mickael Ângelo (aprendiz de Mickael Jackson) e não o cantor Leonardo da Vida, da dupla de música sertaneja Leandro & Leonardo.
Aliás… se repararmos bem numa das letras de Leandro & Leonardo, percebemos um dos grandes mistérios da história da humanidade:
“Você é doida demais”
“Eu pensei em me entregar
Meu amor, meu coração
Meu carinho e muito mais
Mas parei por um instante
Pensei mais dois minutinhos
E voltei um pouco atrás
Recordei pelo passado
Você esteve ao meu lado
E roubou a minha paz
Você me serve de exemplo
Vou fugir enquanto é tempo
Você é doida demais
Você é doida demais
Você é doida demais
Você é doida demais, doida, doida
Você é doida demais
Eu não quero e nem preciso
De amor doido e sem juízo
Para comigo viver
Pois eu sou aquele homem
Com intenção de dar o nome
E você nem quis saber
Todo dia me enganava
Você sempre me trocava
Pelo amor de outro rapaz
Você é tão leviana
Nisso você não me engana
Você é doida demais “
Resumindo: Jesus não morreu crucificado. Jesus morreu de…como hei-de dizer isto…bem…Jesus morreu de “exaustão”! Se repararem bem na escultura, os lençóis onde repousa Jesus estão bastante amarrotados da festa da noite anterior com Maria Madalena…além disso, a postura do Filho de Deus é típica de alguém que abusou do fandango. Se repararem também na face de Maria Madalena, repararão que o seu olhar é indiferente – como quem diz: “mais um que não deu luta”. Além disso, olhem só o dedinho na mão esquerdo da Madalena. A mensagem escultórica é evidente: “Que chatice, pá! Agora vou ter que me entreter sozinha…”
Não se deixem enganar pela mensagem choramingona da Igreja acerca desta escultura! Não foi essa a intenção do escultor!
Os tipos eram bem mais humorados do que aquilo que nos querem fazer crer!
A propósito deste artigo, lembrei-me de um excerto de Thomas Mann, do As Cabeças Trocadas, que acho que pode ter algo a acrescentar. Quanto mais não seja, à discussão!:
“Há uma beleza espiritual e há outra beleza que fala aos sentidos. Certas pessoas pretendem que o belo pertence exclusivamente ao campo dos sentidos, separando dele por completo o espiritual, de modo que o nosso mundo apresente uma cisão entre os dois. Nisso também se baseia o ensinamento verídico: «Apenas por dois modos a felicidade é cognoscível em todo o Universo: a que nos vem das alegrias do corpo e a que nos vem da paz redentora do espírito». Desta doutrina, no entanto, segue-se que o espiritual não se acha, para o belo, na mesma relação em que o belo se encontra para com o feio e que, só em certas condições, se confunde com este.
O espiritual não é sinónimo de beleza pelo conhecimento e pelo amor do belo, amor este que se exprime em beleza espiritual. Tal amor, em absoluto, não é absurdo ou sem esperança, pois, pela lei da atracção dos opostos, o belo por sua vez anseia pelo espiritual, admirando-o e recebendo-lhe com agrado a corte. Este mundo não está constituído de tal modo que o espírito esteja fadado a amar apenas o espiritual, nem a beleza unicamente votada a procurar o belo. Na verdade, o próprio contraste entre os dois indica, com clareza ao mesmo tempo espiritual e bela, que a meta do mundo é a união entre o espírito e a beleza, isto é, uma felicidade não mais dividida porém total e consumada.”