É comum ver comentários nos mais variados post deste portal sobre a terrível revolução sexual ou o papel da religião na emancipação da mulher e coisas assim.
Neste texto proponho-me a dar a minha, e não só, interpretação da história relativamente à emancipação da mulher no mundo ocidental e como acho que a religião tem muito pouco a ver com a mesma.
Na pré-história pré-sedentária as sociedades eram matriarcais. A mulher era responsável por 60 a 80% da comida adquirida, para não falar do seu papel na propagação da espécie. Quando a agricultura foi inventada e foram criadas sociedades sedentárias a mulher deixou de ser responsável pela recolha da comida porque o homem era consideravelmente mais eficiente no trabalho agrícola. Nesta altura começou o domínio do homem sobre a mulher.
Houve dois momentos na história recente, e sublinho, do mundo ocidental que tirou a mulher desta posição de sexo fraco. A primeira foi a revolução industrial. Basicamente a mulher passou a ser igualmente capaz no trabalho que sustenta a sociedade. As guerras ajudaram muito porque diminuíram de forma drástica a população masculina activa. Apesar disso, nos trabalhos físicos pré industriais ainda se vê actualmente desigualdade. No trabalho rural o salário de um dia de trabalho na agricultura de um homem é maior que o de uma mulher, quando não há máquinas envolvidas, porque o homem em média produz de facto mais e tem o trabalho mais duro. Acreditem que este é um sapo que me custa muito a engolir.
O segundo momento histórico foi a invenção da pílula contraceptiva. Este comprimido milagroso permitiu que as mulheres tivessem as mesmíssimas consequências por ter relações sexuais que os homens. Até essa altura a grande diferença era que as mulheres engravidavam e os homens não. As mulheres eram umas meretrizes se tivessem um filho fora do casamento e os homens era bom que tivessem sexo antes do casamento e eram os próprios pais que levavam os filhos às “meninas”. Eu não estou a falar de doutrina ou filosofia, estou a falar da realidade dos anos 50 imediatamente antes da pílula começar a ser comercializada. Com a pílula a mulher, ao conseguir manter as suas aventuras sexuais secretas, deixou de ter de o fazer.
E quebraram-se assim as duas grandes correntes que prendiam a mulher à cozinha. Que somos menos produtivas e que produzimos bastardinhos.
Não foram encontrados artigos relacionados.
Olá Catarina
Concordo contigo. A religião não só não tem nada a ver com a emancipação feminina, como é um dos factores que promove a sua submissão ainda hoje.
“Does God Hate Women?” de Ophelia Benson, Jeremy Stangroom
“This fascinating book explores the role that religion and culture play in the oppression of women. Philosophy writers Ophelia Benson and Jeremy Stangroom ask probing questions about the way that religion shields the oppression of women from criticism and why many Western liberals, leftists and feminists have remained largely silent on the subject.The lives of women in the industrialized world have improved enormously in the last hundred years, especially so, in social, cultural and political terms, in the last forty. But throughout the rest of the world, a great many women lead lives of misery and sometimes plain horror. They are often considered and treated as the property of men and have few, if any, rights. Such treatment is generally sustained and protected by a combination of religion and culture.”Does God Hate Women?” explores instances of the oppression of women in the name of religious and cultural norms and how these issues play out both in the community and in the political arena. Drawing on philosophical concerns such as truth, relativism, knowledge and ethics, Benson and Stangroom assess the current situation and provide a rallying call for a progressive politics that is committed to universal values. This important new book will appeal to anyone interested in issues of global justice, human rights and multiculturalism. ”
About the Author
Ophelia Benson is editor of http://www.butterfliesandwheels.com, deputy editor of The Philosophers’ Magazine and co-author, with Jeremy Stangroom, of Why Truth Matters. She is also a frequest contributor to Free Inquiry. Jeremy Stangroom is co-editor, with Julian Baggini, of The Philosophers’ Magazine and co-author of Do You Think What You Think You Think? (Granta, 2006), What Philosophers Think and Great Thinkers A-Z. He and Ophelia Benson are co-authors of Why Truth Matters and The Dictionary of Fashionable Nonsense.
http://www.amazon.co.uk/Does-Hate-Women-Ophelia-Benson/dp/0826498264
Via De rerum Natura
De Catarina: :O segundo momento histórico foi a invenção da pílula contraceptiva. Este comprimido milagroso(…)
Catarina, o comprimido nada tem de “milagroso”.
Ricardo,
Deixa-me inteirar toda a gente com o conceito de figuras de estilo. São artefactos estilísticos da escrita que a enriquecem. Assumo que toda a gente aqui sabe que não considero o sobrenatural quando vivo a minha vida pelo que quando uso a palavra milagroso estou a usar uma metáfora para “muito positivo”. Pensava que se depreendia pelo contexto quando digo que a religião nao tem nada a ver com o assunto. Se tal não acontece esclareço já agora que o que queria dizer era “O segundo momento histórico foi a invenção da pílula contraceptiva. Este comprimido fantástico, estupendo e profundamente inesperado(…)”
Boa tarde,
concordo com a tua teoria, mas deixa-me acrescentar os movimentos sufragistas do século XIX, foi esta forma de pressão social que permitiu às mulheres o acesso ao direito de voto, direito que ainda não foi adquirido em todo o mundo e que a sua implatação demorou anos nos países ocidentais. Numa perspectiva histórica recente o movimento hippie ajudou também à emancipação da mulher e acesso a vários direitos fudamentais da mulher.
Por acaso acho que a pílula foi uma invenção com factores positivos e negativos.
O facto de usar os níveis de estrogenio e progesterona para regular o ciclo da ovulação, implica alguns efeitos secundários.
Entre os menos conhecidos, estão a alteração da libido, e interferências com a atracção naquilo que depende das ferormonas (masculinas e femininas).
O DIU já é conhecido há muito tempo, e o método de contracepção por controle de temperatura também já é antigo.
Um dos grandes impulsionadores da emancipação feminina nos EUA, foi a 2ª guerra mundial. As mulheres (até aí donas de casa) foram chamadas para as fábricas de material bélico, e não só. Chegou a haver uma liga de baseball feminina.
Depois da guerra, as mulheres recusaram-se a voltar a assumir o papel de domésticas.
Catarina,
Peço que explique melhor a sua afirmação:
“Com a pílula a mulher, ao conseguir manter as suas aventuras sexuais secretas, deixou de ter de o fazer.”
Obrigado.
Alfredo Dinis
Lady_Death,
Os movimentos sufragistas foram posteriores à revolução industrial. Eu vejo-os como consequência do crescente poder económico da mulher. O caso dos movimentos hippies ainda é mais fácil vê-los como consequência da comercialização da pílula. Sem pílula não haveria de todo amor livre.
Rui Rodrigues,
Eu não disse que a pílula era perfeita, só estupenda. O DIU só pode ser usado por mulheres que já tiveram o seu primeiro filho por isso é que nunca resolveu realmente a questão das consequências do sexo e o método das temperaturas é só extraordinariamente ineficiente. Conheço alguns filhos do método das temperaturas.
Quanto às guerras do século XX. Eu sei que elas tiveram um impacto fantástico na emancipação da mulher mas sem a revolução industrial elas não serviriam de nada assim como não serviu de nada a guerra civil americana que também reduziu significativamente a população activa masculina na altura.
Alfredo,
As mulheres ao não terem filhos ilegítimos conseguiam esconder a sua vida sexual. Desta forma ganharam poder e legitimidade para deixarem de o fazer. Não sei se consigo explicar isto melhor. É claro que ainda há muito caminho para andar mas o começo foi aí.