“Um dia voltarás ao Pai”

Esta é a transcrição de parte de um e-mail que o nosso visitante (e amigo) Bernardo da Motta me enviou relativamente ao meu pedido de apostasia.

Como é seu costume, o Bernardo acredita no que escreve, é honesto no que tem para dizer, e tem uma forma de apresentar os seus argumentos sempre muito interessante.

Sem mais demoras, deixo aqui o seu texto.

De Bernardo da Motta:

“Caríssimo,

Duas coisas, aparentemente contraditórias, que eu gostaria de te dizer acerca da tua apostasia:

1. Concordo plenamente:
Não faz qualquer sentido que sejas contado entre os católicos quando rejeitas liminarmente o teu baptismo.
Até à tua apostasia, contribuias para uma estatística enganadora: são, na realidade, bem poucos os católicos convictos, quando comparados com o universo dos baptizados.
A mim, como a qualquer pessoa que preza o rigor, repugnam-me esses números de baptizados como se representassem com rigor o fenómeno do catolicismo em Portugal.

2. Discordo plenamente:
Por duas razões:

a) porque a apostasia, apesar de ser algo importante para ti (e compreendo que o seja), acaba na prática por ser um pro-forma, um desvincular jurídico: o baptismo, na sua essência, é irreversível; ensina a doutrina cristã que o baptismo “imprime carácter”, que é como que um “selo” (o termo usado pela patrística grega era “sphragis”, que quer realmente dizer “selo”) inapagável na alma da pessoa; ora, sendo a apostasia uma decisão que não é capaz de remover esse “selo” baptismal (porque não foi lá colocado por mãos humanas – os pais e padrinhos pedem o baptismo, o padre serve apenas de mero canal, mas é o Espírito Santo quem o dá), então serve de pouco apostasiar (a não ser para rectificar aquelas estatísticas falseadas que ambos rejeitamos, e para que possas publicamente dar um sinal claro da tua vontade de desvinculação da Igreja)

b) porque os teus pais e padrinhos, ao te baptizarem, deram-te o maior e melhor dom que se pode dar a alguém, e é pena colocar de parte esse maior dom: o teu baptismo, apesar de o rejeitares, ninguém to tira: estás contado entre aquelas felizes criaturas que podem tratar a Deus como Pai; isto não é apenas “lenga-lenga” poética, é algo de muito real e concreto; porque és baptizado, a qualquer altura podes voltar a tua cara para Deus e chamá-Lo de Pai, que Ele imediatamente deita para trás esta apostasia temporária, e outras blasfémias tuas, como coisas pequenas, e sem grande importância; qualquer pai é assim: está-se nas tintas para as questões menores, desde que o filho pródigo volte para casa: e esse regresso é festejado sempre com um banquete dos melhores.

Bom, não sei se ficou clara esta minha posição, aparentemente contraditória.
Tu fizeste a apostasia que eu deveria ter feito na minha “fase ateia”, entre os 15 e os 20 e tal anos. É a atitude coerente que se deve ter, quando queremos repor o “status quo” mais adequado às nossas convicções do momento.
No entanto, devo dizer-te que, no meu caso, o meu baptismo de infância fez um efeito ricochete do caraças, lá por volta dos 20 e tal anos de idade. É lá se foram, pelo ralo abaixo, os meus anos agnóstico-ateístas…

Já deves ter precebido que eu não tenho grandes dúvidas de que tu és um pré-convertido ao cristianismo.
É simples de perceber porquê: tens um espírito questionador, uma grande necessidade de coerência e és tudo menos conformado. Ora, tudo isso são características cristãs. Não há volta a dar.
O Chesterton era um tipo com um feitio muito parecido com o teu. Foi, durante a primeira metade da sua vida, um dos grandes e mordazes críticos ateus da sociedade cristã inglesa. E olha no que ele se tornou: um ícone do convertido católico de grande craveira intelectual (num país de protestantes, atenção).

Atrevo-me a deixar um modesto conselho: sei que não rejeitas tudo o que Cristo disse, e por isso, cá fica uma expressão famosa do Evangelho de São Mateus, cap. 7, vs. 7: “…quaerite et invenietis”, ou seja, “…procurai e encontrareis”.
Não é por presunção que cito a frase em latim, mas sim porque tem uma curiosidade etimológica que não se deve perder: “invenire” é o verbo latino para “descobrir” ou “encontrar”. É curioso que, nos dias de hoje, “inventar”, palavra com a mesma raiz latina, é usado para designar coisas totalmente inéditas, enquanto que a raiz da palavra remete-nos para algo pré-existente e que o “inventor” descobre. Ou seja, o “inventor” sempre foi um “achador”, apesar de o sentido moderno da palavra ter sido perdido. Basta evocar a origem etimológica do termo “trovador”: os trovadores medievais bem sabiam que apenas descobriam a música e a poesia que compunham (este vestígio ainda está presente no occitano “troubadour” e no verbo francês “trouver”).

Só um cristão entende que o “inventor” não cria nada de inédito, e que apenas descobre coisas ainda não descobertas, pois Deus é o Criador de tudo. O cristão reserva sempre o acto puro de criar para Deus.
É que o cristão rejeita liminarmente a auto-suficiência do Homem, e por isso, não se atreve a dizer que “inventar” é diferente de “descobrir”.

Mas nem por isso o cristão é menos curioso ou menos “inventor”.
Se persistires numa atitude de questionamento e de procura constante, vais encontrar Cristo.
Se não tivesses sido baptizado, até te poderias “safar”. Mas é tarde demais…

Um abraço, e espero que não leias qualquer paternalismo nestas palavras (até porque és mais velho: 38 anos? livra…).
Não me atrevo a dar conselhos a ninguém, nem gosto de dar ares de superioridade, mas não consigo deixar de dizer o que penso!

Bernardo”

umdiavoltarasaopai

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