Grande parte dos partidos mais reaccionários e conservadores encontram no eleitorado rural, menos letrado e mais religioso as suas bases de apoio.
Apesar da grande afluência (cerca de 85%) às urnas, entre os quais muito jovem (lembro ainda que dois terços da população tem menos de 30 anos) a votar pela primeira vez e preferencialmente em Mir-Hossein Moussavi (que teoricamente reuniria a maior parte do voto urbano e jovem, assim como entre os da sua etnia, cerca de um quarto da população) foi declarado há poucas horas que Ahmadinejad venceu as eleições iranianas com 64% dos votos contra 32% de Moussavi.
A polémica já passou para as ruas. Moussavi era visto pelos jovens como o candidato da mudança, pretendendo abrir mais a economia (e combater o desemprego, um dos principais factores contra o governo no poder), melhorar as relações com o ocidente e expandir os direitos das mulheres, em oposição a Ahmadinejad, famoso pela sua “retórica anti-israelita” e pró-programa nuclear (embora a questão nuclear seja comum aos outros candidatos), sendo o candidato ideologicamente mais próximo dos ayatollahs e o preferido de um eleitorado temente da mudança, opositores do simples facto de uma mulher andar sem véu.
Não se previa que um candidato ultrapassasse os 50% (não obrigando a segunda volta), apesar de uma possível (pré- anunciada) fraude por parte do partido do poder. Moussavi também não pôs de parte uma coligação com outros candidatos no caso de segunda volta.
É óbvio que alguma coisa se passou e que estes resultados não correspondem à realidade. Deixa lá ver o que é que acontece nos próximos dias…
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Aquilo está em polvorosa. Mais uma revolução iraniana, mas desta vez contra o “ayatollismo”?
«Mais uma revolução iraniana, mas desta vez contra o “ayatollismo”?»
Não me parece, Rui.
Um importante ayatollah, cujo nome não recordo, já veio a público contestar a posição de Ahmadinejad, e apoiar os reformistas. Isso tem acontecido, em maior ou menor número, desde a Revolução. Há ayatollas e ayatollahs…
O fenómeno teocrático-revolucionário no Irão tem apenas poucas décadas de existência, e tem um formato muito estranho, quando comparado com a secular tradição religiosa xiita que o suporta. O carácter totalitário do regime instalado com a revolução iraniana (o nome “revolução” é já uma boa posta) tem algumas raízes no comunismo, imitando-o em vários pontos (imita-o na “praxis” e na organização do estado, e reutiliza vários pontos da doutrina, evidentemente, procurando “casá-la” com o xiismo). É interessante investigar a vida das figuras importantes da Revolução Iraniana: onde estudaram, que livros leram, que pessoas seguiram, etc.
Por isso, é normal que dentro do clero xiita existam importantes correntes que tentam contestar o “rumo” traçado pela Revolução Iraniana, procurando eventualmente uma maior “pureza” do xiismo, que foi notavelmente deturpada pela Revolução.
É muito engraçado notar que, em quase toda a história dos xiitas, estes sempre foram vistos com os mais tolerantes dos muçulmanos em matéria de convivência com outras religiões. O que hoje em dia não acontece: o Irão representa a esmagadora maioria dos xiitas actuais, e graças ao regime instalado pela Revolução, o xiismo vestiu um aspecto teocrático que o tornou mais intolerante e intransigente (ou pelo menos tão tolerante e intransigente) que as piores correntes sunitas (como a dos wahabitas).
Estou em crer que a taradeira da Revolução tem os dias contados. Felizmente, para os iranianos!
Mas isso não quer dizer que os “ayatollas” tenham os dias contados! Certamente, a facção “pró-Revolução” poderá estar destinada a tornar-se a minoria… E então surgirão os “ayatollas” ditos “reformadores”, que mais não são do que a voz do xiismo tradicional.
Abraço
Onde se lê :” (o nome “revolução” é já uma boa posta) “,
leia-se : ” (o nome “revolução” é já uma boa pista) ”
Olá Bernardo,
De facto nos últimos dias assistiu-se a muita coisa, entre as quais se destaca o apoio de algumas facções religiosas mais moderadas a Mousavi (ou contra Ahmadinejad).
O descontentamento da juventude (a qual nunca foi na conversa de khomeini obrigando-o a “islamizar” as universidades) contra os líderes religiosos e a classe política mais conservadora (Ahmadinejad) tem sido grande nos últimos anos. Entre documentários e notícias, tenho reparado que entre os mais jovens e “urbanos” a raiva em relação aos líderes religiosos e a respectiva “polícia de costumes” é grande. Basta relembrar os confrontos em 1999 e em 2007 na universidade de Teerão (que bem me lembro foi e continua a ser um dos espaços de maior oposição às ditaduras do Irão, desde o Xá até a Ahmadinejad, passando por Kohmeini)…
Abraço
Rui,
É como dizes.
O descontentamento está ao rubro, e a coisa não pode acabar bem para o Kohmeini e para o Ahmadinejad.
Os “media” passam-nos uma imagem por vezes primitiva do Irão, mas eu tenho em grande consideração a elite intelectual iraniana. Lembro-me de um livro que li no ano passado, não me recordo agora o nome, escrito por um professor da universidade de Teerão, e era do melhor que tenho lido sobre os problemas políticos e religiosos da região.
Esse autor dizia, entre outras coisas, que a revolução iraniana deve ser vista, não só à luz do contexto da política do século XX (comunismo, marxismo, revoluções socialistas), mas também à luz da Xia. Que a Revolução Iraniana representa uma afirmação de força dos xiitas num contexto de minoria face à maioria sunita, é evidente. E a linha dura teocrática defendida por este regime deve ser vista também como um medir de forças com os sunitas, como quem diz: “nós é que somos o Islão ortodoxo”.
Abraço,
Bernardo