Conta o vigário…

O representante-mor da seita organização católica extremista que dá pelo nome de Opus Dei deu uma entrevista muito interessante ao jornal i.  José Rafael Espírito Santo, vigário regional do OD, “que em Portugal conta com 1500 pessoas” (número que necessitaria de umas listas disponíveis ao público para confirmação), fala de tudo e mais alguma coisa, desde sexualidade a temas do dia-a-dia como o casamento.

Aqui fica (a bold as perguntas do jornalista), com uns comentários meus à mistura…

«Mas é possível sair do Opus Dei? Sem dúvida. Aqui não está ninguém que não queira.

[Claro que é possível, mas as pressões são terríveis da parte dos colegas e alguns nunca são deixados em paz. Há casos de membros incómodos que fazem demasiadas perguntas ou onde a obediência é derrotada pelo bom senso, sendo convidados a sair.]

(…)

Em Portugal, país em que a Constituição define um Estado laico, esta questão antes de ser religiosa não é de igualdade de direitos civis? É uma questão de perspectiva da pessoa humana. Igualar direitos civis, tudo bem, mas o que significa essa igualdade? Estar a tratar de maneira igualitária situações que são diferentes é uma injustiça.

Que papel têm as mulheres no Opus Dei? As mulheres têm o mesmo papel que os homens e têm mais um, que faz com que ainda sejam mais importantes no Opus Dei – é exactamente por serem mulheres que têm essa capacidade de cuidarem da casa. Toda a mulher tem uma vocação para mãe e dona de casa, mesmo que não seja mãe na prática. Têm uma sensibilidade especial para isso.

[Mulheres, leram o mesmo do que eu? Ainda há gente que pensa assim!]

Mas um homem não pode fazer isso? Bom, é uma constatação de facto. Isto a favor das mulheres, porque elas têm uma sensibilidade e uma capacidade de atenção ao pormenor que muitas vezes escapa ao homem. Evidentemente, repare, as mulheres não estão para servir os homens. Cuidam dos centros do Opus Dei dos homens e das mulheres. Aí é um ponto de honra, porque é viver o verdadeiro feminismo, com uma consciência do que significa a dignidade de ser mulher. E os homens não deixam nada por fazer que eles não possam fazer.

[O papel extra referido no ponto anterior é o cargo de "numerária auxiliar", cargo dado a mulheres sem curso superior destinadas ao papel de escravas domésticas nas residências e outros edifícios do OD. A inversão que o vigário dá ao termo feminismo tem muitos paralelismos com o uso que os membros do OD dão à palavra liberdade.]

Por exemplo? A cama. Deixar a roupa tratada, as coisas arrumadas, por exemplo.

(…)

O sofrimento passa necessariamente por infligir dor física? O valor do sofrimento está no amor, não na dor. Por isso, o caminho não é aumentar o nível da dor, mas o nível do amor. Jejuns, abstinência, esmola, penitência corporal (cilício incluído), é óbvio que pertencem ao património da Igreja. A Irmã Lúcia, o Santo Condestável, os pastorinhos praticaram todas essas formas. Não por masoquismo, mas como manifestação de amor. Cada um tem de encontrar o seu caminho, que não tem de passar necessariamente por aí. O dia-a-dia já tem suficientes canseiras e surpresas.

[Segundo relatos de ex-membros este sofrimento é em contínuo. Pondo de parte o cilício e a disciplina, muitos membros numerários auto-privam-se dos pequenos prazeres do dia-a-dia, algo também à custa do voto de pobreza. Carregam apenas o mínimo indispensável para alimentação e transporte. É uma espécie de "masoquismo inconsciente".]

Esta crise financeira mostra desresponsabilização e falta de ética? Sim. A crise que está a passar mostra o que acontece quando se põem de lado uma série de princípios éticos, quando se põe como finalidade da actividade económica meramente o lucro, que leva depois à especulação e a correr determinados processos nos quais se recorre à mentira. Esperemos que se consigam tirar ilações.

[Para além de acumularem o dinheiro do trabalho dos numerários e algum dos supranumerários há casos de operações financeiras entre pouco éticas a ilegais e a várias escalas, muitas vezes mascaradas com propósitos de benificiência social operados entre instituições pertencentes à OD, muitas delas "mascaradas".]

(…)

O BCP não é um banco controlado pelo Opus Dei? Não, quando muito era… [risos] Conhecendo bem o que é o Opus Dei e qual é a função vê-se que não fazia sentido essa associação. O Opus Dei dá formação, através de uma série de actividades ajuda a que as pessoas tenham a consciência do que significa viver a sua fé no trabalho e depois actuem livremente na família, na sociedade, na sua profissão. Ninguém em nome do Opus Dei toleraria qualquer intromissão naquilo que é o âmbito da sua liberdade de actuação. (…)

Ainda assim as figuras que controlavam o BCP [Jardim Gonçalves, Líbano Monteiro, mais tarde Paulo Teixeira Pinto] eram um referencial muito forte entre o Opus Dei e o que era o maior banco privado de Portugal. Ficou desiludido com o que aconteceu? Seja com quem for, se uma pessoa que tem boa vontade tem um revés na sua vida, isso é uma coisa de que tenho pena. Se o Carlos Queiroz não levar a selecção nacional ao mundial tenho pena – é uma pessoa bem-intencionada.

Mas o Carlos Queiroz é do Opus Dei? Não, não [risos]. Seja quem for, seja ou não do Opus Dei, as pessoas fazem o melhor que podem, mas aquilo corre mal. Agora com a crise há muita gente do Opus Dei que conta até ao último cêntimo e que se calhar passa fome. A maioria das pessoas do Opus Dei é de classe média, que vive remediada.

[Com os efeitos da crise e com o número de filhos que alguns têm não me admirava que lhes faltasse algum dinheiro...]

Isso que diz choca com a imagem de associação ao dinheiro que o Opus Dei tem? Mas não é. Isso é uma visão superficial. Evidentemente há certas pessoas que chamam a atenção, mas não se repara nas outras, que não chamam a atenção e que são a maioria. São pessoas normais. Em Portugal podemos dizer que do ponto de vista sociológico corresponde à distribuição média da sociedade.

[O mundo da alta finança ou jovens estudantes dessa área são um dos principais alvos a nível de proselitismo.]

(…)

Como se financia o Opus Dei? O financiamento vem daquilo que as pessoas livremente dão de acordo com as suas capacidades. Todas as pessoas vivem do seu trabalho e dão dentro das suas possibilidades. As iniciativas que temos com uma finalidade apostólica são sempre deficitárias. E contam com a generosidade de cada um.

[Se entrevistassem um dos membros da IURD a resposta não seria muito diferente...]

(…)

Não há um orçamento? Não, isto funciona tudo de maneira informal e descentralizada.

Tinham dinheiro no BPN ou no BPP? O Opus Dei não tem dinheiro.

Não tem dinheiro? O Opus Dei como instituição não tem dinheiro. As pessoas vivem do seu trabalho, as diversas iniciativas apostólicas têm uma estrutura dentro da sociedade civil, auto-sustentam-se.

(…)

E de Saramago?
Saramago? francamente, eu uma vez comecei a ler um livro de Saramago e desisti à segunda página.

Qual? “O Memorial do Convento”. Ali há uma intenção desde a primeira página de transmitir determinados conceitos. Vê- -se como é uma distorção da realidade.

Desencorajam a leitura de livros que ponham em causa a fé católica? Qualquer pessoa que lê um livro convém que antes se informe. Procura-se aconselhar as pessoas que se informem e vejam se precisam de ler um livro que possa pôr em causa as suas convicções. A fé não é uma questão de inteligência. Há pessoas muito inteligentes que não têm fé e outras menos que têm.

[A crítica literária parece-me a melhor maneira de se ter informação sobre literatura, não o superior hierárquico. O índex de livros proibido/Guia Bibliográfico do OD refere dois livros de Saramago- Evangelho Segundo Jesus Cristo e  Manual de Pintura e Caligrafia- no grau mais alto de proibição (varia de 1 a 6). Os membros numerários não podem ler um livro destes sem autorização da Prelatura. Em destaque na lista dos mais proibidos estão ainda Jorge Amado, Garcia Marquez, Umberto Eco, Karl Marx, Rousseau, Sartre, Gore Vidal, entre muitos outros.]

É como a bondade. Há muitas boas pessoas que não são religiosas…. Sim, mas se acreditassem em Deus seriam muito melhores.

[Esta última é para rir, não é?]»

Fica por aqui uma entrevista bem orientada e que foca grande parte dos principais temas ligados à Obra. Pode ser lida na íntegra no link, apenas destaquei aquilo que mais se relaciona com a instituição.

Quem quiser saber mais sobre o modo de funcionamento do OD (relatado por dissidentes) pode dar um pulo aos sites opuslibros.org, opuslibre.fr ou opus-info.org.

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