Conta o vigário…

O representante-mor da seita organização católica extremista que dá pelo nome de Opus Dei deu uma entrevista muito interessante ao jornal i.  José Rafael Espírito Santo, vigário regional do OD, “que em Portugal conta com 1500 pessoas” (número que necessitaria de umas listas disponíveis ao público para confirmação), fala de tudo e mais alguma coisa, desde sexualidade a temas do dia-a-dia como o casamento.

Aqui fica (a bold as perguntas do jornalista), com uns comentários meus à mistura…

«Mas é possível sair do Opus Dei? Sem dúvida. Aqui não está ninguém que não queira.

[Claro que é possível, mas as pressões são terríveis da parte dos colegas e alguns nunca são deixados em paz. Há casos de membros incómodos que fazem demasiadas perguntas ou onde a obediência é derrotada pelo bom senso, sendo convidados a sair.]

(…)

Em Portugal, país em que a Constituição define um Estado laico, esta questão antes de ser religiosa não é de igualdade de direitos civis? É uma questão de perspectiva da pessoa humana. Igualar direitos civis, tudo bem, mas o que significa essa igualdade? Estar a tratar de maneira igualitária situações que são diferentes é uma injustiça.

Que papel têm as mulheres no Opus Dei? As mulheres têm o mesmo papel que os homens e têm mais um, que faz com que ainda sejam mais importantes no Opus Dei – é exactamente por serem mulheres que têm essa capacidade de cuidarem da casa. Toda a mulher tem uma vocação para mãe e dona de casa, mesmo que não seja mãe na prática. Têm uma sensibilidade especial para isso.

[Mulheres, leram o mesmo do que eu? Ainda há gente que pensa assim!]

Mas um homem não pode fazer isso? Bom, é uma constatação de facto. Isto a favor das mulheres, porque elas têm uma sensibilidade e uma capacidade de atenção ao pormenor que muitas vezes escapa ao homem. Evidentemente, repare, as mulheres não estão para servir os homens. Cuidam dos centros do Opus Dei dos homens e das mulheres. Aí é um ponto de honra, porque é viver o verdadeiro feminismo, com uma consciência do que significa a dignidade de ser mulher. E os homens não deixam nada por fazer que eles não possam fazer.

[O papel extra referido no ponto anterior é o cargo de "numerária auxiliar", cargo dado a mulheres sem curso superior destinadas ao papel de escravas domésticas nas residências e outros edifícios do OD. A inversão que o vigário dá ao termo feminismo tem muitos paralelismos com o uso que os membros do OD dão à palavra liberdade.]

Por exemplo? A cama. Deixar a roupa tratada, as coisas arrumadas, por exemplo.

(…)

O sofrimento passa necessariamente por infligir dor física? O valor do sofrimento está no amor, não na dor. Por isso, o caminho não é aumentar o nível da dor, mas o nível do amor. Jejuns, abstinência, esmola, penitência corporal (cilício incluído), é óbvio que pertencem ao património da Igreja. A Irmã Lúcia, o Santo Condestável, os pastorinhos praticaram todas essas formas. Não por masoquismo, mas como manifestação de amor. Cada um tem de encontrar o seu caminho, que não tem de passar necessariamente por aí. O dia-a-dia já tem suficientes canseiras e surpresas.

[Segundo relatos de ex-membros este sofrimento é em contínuo. Pondo de parte o cilício e a disciplina, muitos membros numerários auto-privam-se dos pequenos prazeres do dia-a-dia, algo também à custa do voto de pobreza. Carregam apenas o mínimo indispensável para alimentação e transporte. É uma espécie de "masoquismo inconsciente".]

Esta crise financeira mostra desresponsabilização e falta de ética? Sim. A crise que está a passar mostra o que acontece quando se põem de lado uma série de princípios éticos, quando se põe como finalidade da actividade económica meramente o lucro, que leva depois à especulação e a correr determinados processos nos quais se recorre à mentira. Esperemos que se consigam tirar ilações.

[Para além de acumularem o dinheiro do trabalho dos numerários e algum dos supranumerários há casos de operações financeiras entre pouco éticas a ilegais e a várias escalas, muitas vezes mascaradas com propósitos de benificiência social operados entre instituições pertencentes à OD, muitas delas "mascaradas".]

(…)

O BCP não é um banco controlado pelo Opus Dei? Não, quando muito era… [risos] Conhecendo bem o que é o Opus Dei e qual é a função vê-se que não fazia sentido essa associação. O Opus Dei dá formação, através de uma série de actividades ajuda a que as pessoas tenham a consciência do que significa viver a sua fé no trabalho e depois actuem livremente na família, na sociedade, na sua profissão. Ninguém em nome do Opus Dei toleraria qualquer intromissão naquilo que é o âmbito da sua liberdade de actuação. (…)

Ainda assim as figuras que controlavam o BCP [Jardim Gonçalves, Líbano Monteiro, mais tarde Paulo Teixeira Pinto] eram um referencial muito forte entre o Opus Dei e o que era o maior banco privado de Portugal. Ficou desiludido com o que aconteceu? Seja com quem for, se uma pessoa que tem boa vontade tem um revés na sua vida, isso é uma coisa de que tenho pena. Se o Carlos Queiroz não levar a selecção nacional ao mundial tenho pena – é uma pessoa bem-intencionada.

Mas o Carlos Queiroz é do Opus Dei? Não, não [risos]. Seja quem for, seja ou não do Opus Dei, as pessoas fazem o melhor que podem, mas aquilo corre mal. Agora com a crise há muita gente do Opus Dei que conta até ao último cêntimo e que se calhar passa fome. A maioria das pessoas do Opus Dei é de classe média, que vive remediada.

[Com os efeitos da crise e com o número de filhos que alguns têm não me admirava que lhes faltasse algum dinheiro...]

Isso que diz choca com a imagem de associação ao dinheiro que o Opus Dei tem? Mas não é. Isso é uma visão superficial. Evidentemente há certas pessoas que chamam a atenção, mas não se repara nas outras, que não chamam a atenção e que são a maioria. São pessoas normais. Em Portugal podemos dizer que do ponto de vista sociológico corresponde à distribuição média da sociedade.

[O mundo da alta finança ou jovens estudantes dessa área são um dos principais alvos a nível de proselitismo.]

(…)

Como se financia o Opus Dei? O financiamento vem daquilo que as pessoas livremente dão de acordo com as suas capacidades. Todas as pessoas vivem do seu trabalho e dão dentro das suas possibilidades. As iniciativas que temos com uma finalidade apostólica são sempre deficitárias. E contam com a generosidade de cada um.

[Se entrevistassem um dos membros da IURD a resposta não seria muito diferente...]

(…)

Não há um orçamento? Não, isto funciona tudo de maneira informal e descentralizada.

Tinham dinheiro no BPN ou no BPP? O Opus Dei não tem dinheiro.

Não tem dinheiro? O Opus Dei como instituição não tem dinheiro. As pessoas vivem do seu trabalho, as diversas iniciativas apostólicas têm uma estrutura dentro da sociedade civil, auto-sustentam-se.

(…)

E de Saramago?
Saramago? francamente, eu uma vez comecei a ler um livro de Saramago e desisti à segunda página.

Qual? “O Memorial do Convento”. Ali há uma intenção desde a primeira página de transmitir determinados conceitos. Vê- -se como é uma distorção da realidade.

Desencorajam a leitura de livros que ponham em causa a fé católica? Qualquer pessoa que lê um livro convém que antes se informe. Procura-se aconselhar as pessoas que se informem e vejam se precisam de ler um livro que possa pôr em causa as suas convicções. A fé não é uma questão de inteligência. Há pessoas muito inteligentes que não têm fé e outras menos que têm.

[A crítica literária parece-me a melhor maneira de se ter informação sobre literatura, não o superior hierárquico. O índex de livros proibido/Guia Bibliográfico do OD refere dois livros de Saramago- Evangelho Segundo Jesus Cristo e  Manual de Pintura e Caligrafia- no grau mais alto de proibição (varia de 1 a 6). Os membros numerários não podem ler um livro destes sem autorização da Prelatura. Em destaque na lista dos mais proibidos estão ainda Jorge Amado, Garcia Marquez, Umberto Eco, Karl Marx, Rousseau, Sartre, Gore Vidal, entre muitos outros.]

É como a bondade. Há muitas boas pessoas que não são religiosas…. Sim, mas se acreditassem em Deus seriam muito melhores.

[Esta última é para rir, não é?]»

Fica por aqui uma entrevista bem orientada e que foca grande parte dos principais temas ligados à Obra. Pode ser lida na íntegra no link, apenas destaquei aquilo que mais se relaciona com a instituição.

Quem quiser saber mais sobre o modo de funcionamento do OD (relatado por dissidentes) pode dar um pulo aos sites opuslibros.org, opuslibre.fr ou opus-info.org.

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8 Comentários

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  1. “Procura-se aconselhar as pessoas que se informem e vejam se precisam de ler um livro que possa pôr em causa as suas convicções.”

    Esta frase tem uma mensagem muito importante!
    Os argumentos usados para manter as pessoas presas a uma religião são tão débeis que não convém mexer muito, não convém que se oiçam opiniões contrárias. Isto é uma prova da debilidade dos argumentos usados como alicerces por muitas fés e religiões.

  2. Exactamente!

    Podem pôr em causa? Claro que põem em causa! É mais uma questão de dar a volta à palavra “censura” transformando-a numa espécie de “filtro”.

  3. Mas que entrevista tão reveladora. Apesar de tudo, apreciei a sinceridade. Só não vê quem não quer.

  4. Rui, Rui…
    Para quando uma visita a um centro do Opus Dei?
    Se preferires ficar pelo conhecimento das coisas em segunda e terceira mão, é inevitável que vais ler qualquer texto ou entrevista com as “lentes” da ideia que tens do Opus Dei.

    Eu não sou suspeito: não pertenço nem nunca pertenci à Obra.
    Mas é infame insinuar que é uma seita (sei que riscaste a palavra, mas ela está lá por alguma razão). Seita é tudo o que está separado, como indica o significado do termo. O Opus Dei faz parte da Igreja Católica.

    “Extremista”?
    Eu tenho dificuldades em entender porque é que usas esta palavra: se a usas, é porque consideras que há pontos nos ideais do Opus Dei que não são católicos, ou que extravasam as fronteiras do que é católico. Que pontos são esses?

    Onde é que encontras “heresias” extremistas no Opus Dei?

    Quem leu alguns “posts” meus de há uns 8 anos atrás (ninguém leu, claro!, que lata achar que sim…) poderá testemunhar que eu escrevia muito contra o Opus Dei. Considerava-os perigosos. Foi a minha fase de sujeição à “lenda negra” anti-Opus Dei. Eu fui contra o Opus Dei muito antes do Dan Brown lançar a moda. Eu sou do tempo em que aquela activista anti-Opus Dei deu início às suas campanhas de disseminação da “lenda negra”, essa senhora omnipresente que dá pelo nome de Maria de Carmen Tapia, que não tem feito outra coisa senão transformar a sua vida numa guerra contra a Obra.

    Já acreditei nisso tudo, nas conspirações financeiras, no Opus Dei envolvido com os altos poderes, nas crueldades, nos masoquismos, nessas patetices todas.

    Sucedeu que, no auge da euforia Dan Brown, eu fui contactado por pessoas reais do Opus Dei. E, pasme-se: encontrei-me com elas. Almocei com elas. Visitei as suas casas. Conversei com elas. Percorri, durante quase dois anos, várias casas do Opus Dei: conheci dezenas de pessoas. Pessoas normais, simples, afáveis, simpáticas.

    Por isso, não posso deixar de te dizer, Rui, que esta tua leitura do Opus Dei é surreal.
    Mas eu compreendo-a, porque também eu já a tive. Muitos católicos também a têm. Há uma “xenofobia” anti-Opus Dei dentro da Igreja Católica. É um bocado “tabu” falar sobre ela, mas como todas as xenofobias, está errada e nasce da ignorância.

    Adoraria poder falar um dia contigo, com calma, sobre todas as tuas objecções, sobre tudo o que contestas neste “post”. O melhor que farias, se eu fosse a ti, era entrares em contacto com o José Rafael Espírito Santo, e tentar chegar à fala com ele. Cara a cara. As pessoas não são papões, e se não há contacto humano, é fácil ficarmos pelos nossos estereótipos e preconceitos.

    Um abraço!

    Bernardo

  5. «[Para além de acumularem o dinheiro do trabalho dos numerários e algum dos supranumerários há casos de operações financeiras entre pouco éticas a ilegais e a várias escalas, muitas vezes mascaradas com propósitos de benificiência social operados entre instituições pertencentes à OD, muitas delas "mascaradas".]»

    Tens a noção de que este tipo de insinuações, sem provas, sem nomes concretos, sem nada que o suporte, não andam longe de pura e dura difamação?

    Quando tu escreves isto, Rui, pensas por uns breves momentos que há pessoas reais, que pertencem ao Opus Dei, e que podem estar a ler isto que tu escreves, e podem sentir-se profundamente magoadas pela injustiça das tuas palavras?

    Evidentemente, ninguém está livre de errar, de cometer erros. Haverá, com enorme certeza, pessoas que erram no Opus Dei, como em qualquer organização. A questão central está em dizer que TODA a organização é criminosa e corrupta. Ou pelo menos, em insinuar, como o fazes, que as figuras no topo da hierarquia do Opus Dei estão envolvidas em negócios ilícitos e obscuros. São acusações graves, que não se devem fazer de ânimo leve…

    Abraço,

    Bernardo

  6. Bernardo,

    “Para quando uma visita a um centro do Opus Dei? Se preferires ficar pelo conhecimento das coisas em segunda e terceira mão, é inevitável que vais ler qualquer texto ou entrevista com as “lentes” da ideia que tens do Opus Dei.”

    Mostram-me o que aquilo realmente é ou o que eles querem que se veja?
    Porque é que o OD não abre as portas à sociedade para mostrar que essa “ideia” pode ser errada? As teorias da conspiração e especulações são muito por causa do secretismo. Creio que é tudo uma questão de transparência…

    “Mas é infame insinuar que é uma seita (sei que riscaste a palavra, mas ela está lá por alguma razão). Seita é tudo o que está separado, como indica o significado do termo.”

    Sim, mas considere-se que uso o termo “seita” para falar de manipulação de pessoas ao estilo do que as seitas fanáticas fazem. Mas pronto, no futuro posso tentar encontrar outra palavra.

    “Extremista”?”

    Moderados eles não são. Não levam a coisa um bocado ao extremo?

    “Quem leu alguns “posts” meus de há uns 8 anos atrás (ninguém leu, claro!, que lata achar que sim…) poderá testemunhar que eu escrevia muito contra o Opus Dei. Considerava-os perigosos. Foi a minha fase de sujeição à “lenda negra” anti-Opus Dei. Eu fui contra o Opus Dei muito antes do Dan Brown lançar a moda. Eu sou do tempo em que aquela activista anti-Opus Dei deu início às suas campanhas de disseminação da “lenda negra”, essa senhora omnipresente que dá pelo nome de Maria de Carmen Tapia, que não tem feito outra coisa senão transformar a sua vida numa guerra contra a Obra.”

    Eu não gosto de Dan Brown. Teve sorte, criou uma “moda” e colocou o OD nas bocas do mundo. E pelo que tenho lido sobre ele peca um bocado no que toca a pesquisa histórica. Má literatura, ou pelo menos em parte.

    “Já acreditei nisso tudo, nas conspirações financeiras, no Opus Dei envolvido com os altos poderes, nas crueldades, nos masoquismos, nessas patetices todas.”

    O OD respeita as leis civis e o direito canónico?

    “Tens a noção de que este tipo de insinuações, sem provas, sem nomes concretos, sem nada que o suporte, não andam longe de pura e dura difamação?”

    Atenção que me baseio em relatos. Aqui está um exemplo:

    http://www.opuslibros.org/nuevaweb/modules.php?name=News&file=article&sid=6192

    “Adoraria poder falar um dia contigo, com calma, sobre todas as tuas objecções, sobre tudo o que contestas neste “post”

    Claro que sim. Já temos outro assunto pendente, um dia secalhar não chega para isto tudo… ;)

    RJ

  7. Rui,

    «Mostram-me o que aquilo realmente é ou o que eles querem que se veja?»

    Quase todos os meses, uma vez por mês, eu vou almoçar a uma casa da Obra, e a seguir desse almoço há uma conferência sobre um tema sempre diferente (50% dos temas terão a ver com religião, mas os restantes não). É muito interessante. E isto é só um exemplo: tenho tido várias ocasiões de contacto próximo com pessoas do Opus Dei.

    Evidentemente, eu não vasculhei os arquivos contabilísticos da Obra!
    Mas nunca vi nada de minimamente suspeito. Antes pelo contrário: histórias de beneméritos que oferecem subsídios à Obra, ou bens materiais, para a ajudar, são vários. Qual é o mal disso?

    A Igreja Católica, e todas as organizações que a ela pertencem, vivem dessas ofertas.

    «Porque é que o OD não abre as portas à sociedade para mostrar que essa “ideia” pode ser errada? As teorias da conspiração e especulações são muito por causa do secretismo. Creio que é tudo uma questão de transparência…»

    Sob pena de parecer oportunismo, arrisco dizer que bem mais secretista é a Maçonaria.
    Ninguém no Opus Dei está obrigado a prometer discrição sobre a sua pertença, e os maçons estão. O que se passa, e sei isso por experiência própria, é que o Opus Dei não faz grande alarido, porque não é sua vocação fazer alarido.

    E agora imagina que era contigo: que alguns insinuavam que tu fugias ao fisco, e desviavas verbas para um país “offshore”, mas ninguém provava essas insinuações. Tu tinhas obrigação de mostrar os teus papéis? Ou não era teu direito ignorar as insinuações não provadas, e fazer o óbvio que é dar o ónus da prova a quem te acusa?

    «Sim, mas considere-se que uso o termo “seita” para falar de manipulação de pessoas ao estilo do que as seitas fanáticas fazem. Mas pronto, no futuro posso tentar encontrar outra palavra.»

    Bom, se é esse o caso, então entendo a palavra que escolheste. Mas é uma palavra enganadora: ela transmite, nomeadamente, a ideia errada de que o Opus Dei estaria separado da Igreja. Sobre as pressões psicológicas, seria demasiado optimista, conhecendo-se as fraquezas humanas, afirmar que não há nem houve casos de pressões psicológicas no Opus Dei, como em qualquer organização.

    A questão passa por:

    a) perceber se as alegadas pressões são decorrentes das “regras da casa”, e então seria correcto falar de “seita” no sentido que empregas; ou seja, se as ditas pressões fariam parte do “modus operandi” explícito ou implícito da Obra

    b) perceber se, estatisticamente, os casos de pressão psicológica no Opus Dei são mais elevados do que a média que se encontrará em qualquer organização humana

    No mundo empresarial, são frequentes as pressões psicológicas, das mais variadas formas. Numa estrutura complexa, como uma prisão, um hospital ou uma universidade, elas também existem. E em todos estes casos, têm a ver com as fragilidades humanas das pessoas que pertencem a esses contextos, e não são decorrentes do “modus operandi” da organização.

    Evidentemente, há casos bem reais de “seitas” no sentido que falas. É mais que certo que os malogrados membros da seita de Jonestown foram sujeitos a reais pressões psicológicas, e isso está bem documentado.

    «Moderados eles não são. Não levam a coisa um bocado ao extremo?»

    Depende, mais uma vez, das pessoas.
    Conheço pessoas no Opus Dei de práticas religiosas muito rigorosas (algo que eu admiro, mas do qual ainda estou muito longe – certamente por falta de esforço pessoal), e outras de prática religiosa menos rigorosa.

    No entanto, prática de parte, o importante é a doutrina. A doutrina do Opus Dei é puramente católica. Sem tirar nem por. Não tenho uma só vírgula de divergência doutrina com o Opus Dei, como este não tem, evidentemente, com a doutrina da Igreja. São uma e a mesma coisa.

    Mas insisto: a “praxis” religiosa do Opus Dei é muito séria e rigorosa. Faz parte do seu sucesso junto de pessoas que dão grande valor a esse rigor religioso na sua vida. Eu digo-te objectivamente que não me vejo como membro do Opus Dei apenas porque duvido que consiga acompanhar o rigor que lá se promove, e que esse seja o caminho certo para mim. Parte de mim gostava de ser assim, admito, mas ao mesmo tempo, dou-me conta de que há várias formas de se ser cristão, e de que o meu caminho pessoal pode não passar por aí.

    Mas o que eles fazem é perfeitamente “standard” em termos cristãos.
    Quando falamos de rigor, falamos de coisas como jejum em certas épocas do ano, falamos em fazer pequenos sacrifícios, abdicando de coisas que gostamos, para oferecê-los a Deus em gesto de amor por outras pessoas. Isso é muito cristão. Falamos de rezar o terço e o Angelus todos os dias. Boas práticas cristãs!
    Até o cilício, longe de ser obrigatório (a obrigatoriedade destrói o valor de um gesto voluntário), é algo perfeitamente cristão. A mortificação corporal, palavrão assustador, é uma prática muito digna e decente, e que faz parte do património do cristianismo. Um exemplo de mortificação corporal (algo que eu tento fazer, com mais ou menos sucesso), tão conhecido das pessoas, é o tradicional jejum de Quaresma. No meu caso, procuro abster-me de sobremesas (doces). Não porque comer doces seja pecado ou seja algo de mau. Mas porque desse modo, preocupo-me em viver, durante algumas semanas, sem coisas supérfluas, aproximo-me de quem não tem essas possibilidades, recordo-me dos sacrifícios que Cristo suportou pela minha salvação. Que mal poderá ter isso?

    Há outros gestos de mortificação corporal mais duros: dormir numa cama desconfortável, usar o cilício, tomar banho de água fria. O objectivo é sempre o mesmo, e se for algo forçado perde-se o sentido. Obviamente, se for algo que faz mal à saúde, perde-se TOTALMENTE o sentido.

    Espero não ser preciso explicar que o cilício apenas causa ligeiro desconforto. Não há nem sangue nem feridas envolvidas, é claro. Pessoalmente, é um tipo de mortificação corporal que não me atrai, mas não sou arrogante ao ponto de pensar que o que não me atrai não possa atrair outros.

    «Eu não gosto de Dan Brown. Teve sorte, criou uma “moda” e colocou o OD nas bocas do mundo. E pelo que tenho lido sobre ele peca um bocado no que toca a pesquisa histórica. Má literatura, ou pelo menos em parte.»

    Peca totalmente no que toca a pesquisa histórica. É uma miséria. É mesmo inexistente.

    «O OD respeita as leis civis e o direito canónico?»

    Nos seus estatutos, certamente.
    Na prática concreta de cada um dos seus membros, obviamente, depende de cada pessoa analisada em concreto.

    «http://www.opuslibros.org/nuevaweb/modules.php?name=News&file=article&sid=6192»

    Conheço o site.
    Pelos relatos, fica-se com a sensação de que se trata de pessoas muito descontentes. Se estão a ser objectivos nas suas queixas, seria necessário investigar mais a fundo, caso a caso. Mas não me espantaria se eu encontrasse directores espirituais (um conceito normal no cristianismo) mais zelosos (no mau sentido), e que tivessem lidado mal com certas pessoas em concreto.

    Daí ao polvo tentacular, malévolo, satânico e perverso, vai um salto muito grande.
    E os casos pessoais que conheço provam o contrário. Pessoas normais, divertidas, salutares, realizadas, entusiasmadas, modestas, etc.

    «Claro que sim. Já temos outro assunto pendente, um dia secalhar não chega para isto tudo… »

    É só sugerires um local e um dia!

    Abraço

    Bernardo

  8. Bernardo,

    “Sob pena de parecer oportunismo, arrisco dizer que bem mais secretista é a Maçonaria. Ninguém no Opus Dei está obrigado a prometer discrição sobre a sua pertença, e os maçons estão. O que se passa, e sei isso por experiência própria, é que o Opus Dei não faz grande alarido, porque não é sua vocação fazer alarido.”

    O cidadão comum não devia ter o direito de saber quem é ou não membro de uma organização como a Maçonaria ou o OD?

    “E agora imagina que era contigo: que alguns insinuavam que tu fugias ao fisco, e desviavas verbas para um país “offshore”, mas ninguém provava essas insinuações. Tu tinhas obrigação de mostrar os teus papéis? Ou não era teu direito ignorar as insinuações não provadas, e fazer o óbvio que é dar o ónus da prova a quem te acusa?”

    Não se pode confundir os casos. Uma coisa é do foro pessoal: impostos, rendimentos. Outra é do foro colectivo, saber que tipo de lobbys é que uma pessoa representa, ainda que indirectamente. Quando se fala de gente com cargos públicos ou cuja decisão afecta muitos outros (como um político ou um juíz) acho muito bem que provem a sua idoneidade e neutralidade para não haver conflito de interesses.

    “perceber se as alegadas pressões são decorrentes das “regras da casa”, e então seria correcto falar de “seita” no sentido que empregas; ou seja, se as ditas pressões fariam parte do “modus operandi” explícito ou implícito da Obra”

    A Obediência não é um dos principais instrumentos usados para controlar toda aquela gente?

    “No mundo empresarial, são frequentes as pressões psicológicas, das mais variadas formas. Numa estrutura complexa, como uma prisão, um hospital ou uma universidade, elas também existem. E em todos estes casos, têm a ver com as fragilidades humanas das pessoas que pertencem a esses contextos, e não são decorrentes do “modus operandi” da organização.”

    São pressões pontuais e específicas, mas na OD é o modus operandi, ou pelo menos aparenta ser para os menos obedientes…

    “A doutrina do Opus Dei é puramente católica. Sem tirar nem por. Não tenho uma só vírgula de divergência doutrina com o Opus Dei, como este não tem, evidentemente, com a doutrina da Igreja. São uma e a mesma coisa.”

    Diz-se que Escrivá andou muito deprimido com o Concílio Vaticano II…

    “Há outros gestos de mortificação corporal mais duros: dormir numa cama desconfortável, usar o cilício, tomar banho de água fria. O objectivo é sempre o mesmo, e se for algo forçado perde-se o sentido. Obviamente, se for algo que faz mal à saúde, perde-se TOTALMENTE o sentido.”

    Então o que é que achas realmente do facto de incentivarem as numerárias auxiliares a uma vida quase permanente de sofrimento?

    “Espero não ser preciso explicar que o cilício apenas causa ligeiro desconforto. Não há nem sangue nem feridas envolvidas, é claro. Pessoalmente, é um tipo de mortificação corporal que não me atrai, mas não sou arrogante ao ponto de pensar que o que não me atrai não possa atrair outros.”

    Há casos de feridas e cicatrizes. Não sei se o usaram demasiado apertado, mas pronto.

    “Pelos relatos, fica-se com a sensação de que se trata de pessoas muito descontentes. Se estão a ser objectivos nas suas queixas, seria necessário investigar mais a fundo, caso a caso. Mas não me espantaria se eu encontrasse directores espirituais (um conceito normal no cristianismo) mais zelosos (no mau sentido), e que tivessem lidado mal com certas pessoas em concreto.”

    É espantoso os paralelismos entre os casos apresentados. Em todo o lado há boa gente e má gente, incluindo boa gente coagida a fazer coisas más.

    “Daí ao polvo tentacular, malévolo, satânico e perverso, vai um salto muito grande. E os casos pessoais que conheço provam o contrário. Pessoas normais, divertidas, salutares, realizadas, entusiasmadas, modestas, etc.”

    Alguns relatos indicam que há ordens (ou “incentivos”) para que os membros demonstrem sempre felicidade no mundo exterior. Tal parece-me uma espécie de “gato por lebre”.

    Depois combinamos qualquer coisa em Lx ou Coimbra,

    Abraço,
    RJ

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