E continuam a insistir na formação/educação “integral”, mas na deles!

Catequeses e educações morais nem sempre em sintonia com a realidade e a várias escalas são objectos de formatação em massa de jovens de tenra idade para que sigam ou obedeçam a determinado conjunto de regras e onde a crítica nem sempre é tolerada. É assim que as religiões e doutrinas associadas vão sobrevivendo, pois educar/doutrinar um adulto é teoricamente bem mais difícil.

Bem me lembro eu de relatos de colegas que faziam perguntas difíceis nas aulas de catequese e eram “convidados a sair”, assim como de gente que se inscrevia nas aulas de EMRC apenas por causa das viagens de estudo, sendo referido muitas vezes que “nunca faziam nada” (em comparação com as exigências das outras cadeiras). No meu tempo quase ninguém se inscrevia a EMRC porque a cadeira de Desenvolvimento Pessoal e Social (dada em alternativa) não era dada por falta de professores (sabe-se lá porquê), ficando quase toda a turma com uma hora a menos de carga horária. Tal demonstra bem o “grande interesse” (citado mais abaixo) dos meus colegas nesta cadeira.

Preocupado com a fraca afluência sentida (mas com as suas oscilações) na disciplina de EMRC, o Secretariado Nacional de Educação Cristã «quer relançar a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica nas escolas», pois esta «disciplina é um espaço educativo de grande interesse para o seu filho/educando”», tendo mesmo elaborado um «prospecto dirigidos aos pais e encarregados de educação. O SNEC evidencia razões humanas, éticas, de diálogo entre ciência e religião, de livre escolha da educação que os pais devem dar aos filhos, como motivos para “uma autêntica educação integral”» [Ecclesia]

É certo que atravessamos uma crise de valores, onde as pessoas carecem de formação ética e filosófica, mas tal não passa necessariamente pela educação religiosa, aqui referida como “autêntica”, como se fosse a única que pode fornecer a “educação integral”. É necessário inserir nos conteúdos programáticos temas dirigidos à ética, filosofia, ambiente, cidadania, saúde (onde se insere a parte da educação sexual). Sem preconceitos de doutrinas desfasadas e pretenciosas. Atenção que eu defendo a liberdade religiosa, mas defendo ainda mais a liberdade individual, e a EMRC tem todo o direito a existir mas fora da escola pública, como uma espécie de ATL.

Citando ainda partes do artigo, é referido que a «“dimensão religiosa é fundamental” para dar resposta à “inquietação humana e porque a educação exige “uma consciência ética”, porque a ciência não é suficiente para “transformar o mundo, segundo critérios de justiça e de paz”, porque o diálogo “entre religiões” promove “a construção da paz mundial“»

Claro que os jovens que sintam que lhes “falta algo” (traduzível como os mais “inquietos”) bem que podem procurar algo onde se agarrar no sector privado ou quando forem maiores de idade ou auto-determinados. Em termos de justiça e paz as religiões são facas de dois gumes. Os melhores mecanismos para se construir a paz passam por elevar os padrões de educação (algo que por norma é proporcional à não religiosidade), pois a ignorância é a fonte de grande parte dos males, preconceitos e ódios.

Todos puxam a brasa à sua sardinha, pois acabar com esta disciplina (que tem todo o direito de existir mas fora da escola pública) irá atirar para o desemprego (digamos que deixam de sugar dinheiro do erário público) os respectivos docentes e  acabar com um dos focos das religiões em geral, “educar” os mais novos. Não esqueçamos ainda que os docentes de EMRC não se sujeitam a concurso tal como os seus outros colegas.

Num estado que se diz laico a “formação integral” tem outra definição. Tal pode passar pela criação de uma cadeira (se não existe já, obrigatória e nunca em alternativa a uma EMRC) que inclua todos os conteúdos que mencionei mais atrás, e claro que sobrará espaço para capítulos dedicados às religiões, nomeadamente no que toca à vertente histórica.

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