“Wrecking the minds of young people, with Heavy Metal!”

Aproveitando a onda dos posts sobre a Irlanda já aqui colocados pelo Ricardo Silvestre gostaria de mostrar neste espaço um debate de Maio de 2007 na BBC irlandesa, com a presença da banda britânica de BlackDeathProg Metal com conteúdos erotico-satânicos Akercocke. Uma espécie de duelo entre religião e liberdade de expressão.

akercocke_picO baterista David Gray e o vocalista/guitarrista Jason Mendonça enfrentaram neste debate dois representantes cristãos, um dos quais missionário (cuja prestação ainda é pior do que a do padre Carreira das Neves nas “Tardes da Júlia”). Tanto eles como o próprio apresentador manifestam alguma ignorância em relação à verdadeira essência da banda, coisa comum a muitas outras do género (e ao próprio estilo em si). O estereótipo associado é o de gente que venera o diabo em rituais cabalísticos, mas o que realmente se passa é bem diferente. Trata-se de uma expressão de arte, não de uma ameaça de morte.

Entre perguntas sobre a “invocação do anticristo” ou se “acham que serão bem-vindos ao país”, os membros da banda reagiram calmamente e humoristicamente, ao mesmo tempo que debicavam uma garrafa de vinho tinto, arrancando algumas risadas ao público. A melhor  foi a resposta de David Gray quando perguntam se “não se preocupa com o facto da comunidade cristã poder ser ofendida”: “não quereríamos que a comunidade cristã viesse a um concerto nosso, pois não se iriam divertir“.

O que é fantástico ver é um dos “cristãos” convidados (parecendo acabados os argumentos) emitir juízos de valor sobre os conteúdos da música, entre o “depravada” e o “nojenta”, acrescidos de “a Irlanda não precisa disto, nem o Reino Unido, nem (…)”. Uma atitude arrogante digna do pior dos populistas no sentido em que tudo o que não vier da moral cristã ou dos seus dogmas (pior ainda o que se inserir no pólo oposto) é passível de ser considerado depravante, desviante para a juventude, para corromper as pessoas.

Segue-se uma tentativa de mostrar que se está a lutar contra um satanismo organizado, como que a polarizar os dois lados da barricada, uma luta entre o bem e o mal, “eu fixe, tu mau”. Resultado? Mais um argumento pela sanita abaixo. Não esquecendo que se lembrou de mandar de seguida as habituais teorias do amor de Cristo e outras banalidades, que desaguam num “quando acordares entre o teu próprio vómito hás-de te lembrar de mim e convidarás Jesus para o teu coração“. Ao vivo e apenas com o poder de improvisação consegue ser mais evil do que a própria banda, uma espécie de “mais papista do que o papa”, mas invertido. Um exemplo de intolerância que eu sei que não é comum a todos os religiosos (felizmente) mas que mostra muito do que estes “bons cristãos” pensam. Mais parecem os evangélicos na América.

O concerto realizou-se passado pouco tempo apesar de alguma oposição dos locais, fruto também da publicidade originada pelo programa. Infelizmente o vídeo apenas está disponibilizado em inglês (e com um sotaque por vezes algo difícil de entender), mas aqui vai…

[video]http://www.youtube.com/watch?v=dl9oM4f1xdQ[/video]

Quem veja o programa entende que não é merecedor de grande credibilidade, pois mais se assemelha ao fatídico “Opinião Pública” (Sic Notícias) ou mesmo ao “Fórum TSF”, ponto de encontro de donas de casa, reformados e gente em geral emocionável e irracional sem grande coisa para fazer e com uma cultura geral que se resume ao jornal “A Bola” ou à revista “Maria”. O pior para mim é que, tal como em alguns programas de debate de Portugal, nem se deixam falar uns aos outros e interrompem-se mutuamente.

E espero que não seja representativo da sociedade irlandesa, pois se o é, há um grande problema pela frente…

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