“Bendita seja esta tua submissão.”

“Bendita seja esta tua submissão.”,

Josemaria Escrivá de Balaguer

Uma das palavras que mais aparece neste livro que recomendo é a seguinte: SEITA. Palavra que não chega para descrever a organização mais reaccionária da ICAR.

Da autoria do jornalista italiano Ferruccio Pinotti, Opus Dei Secreta constitui um apanhado dos relatos (livros já existentes e entrevistas exclusivas realizadas um pouco por todo o mundo) de quem deixou esta organização, tendo sido sujeito às mais variadas pressões e abusos do ponto de vista psicológico. Renúncia ao individualismo, submissão, obediência, penitência e proselitismo fazem parte da actividade desta organização.

Aqui encontram-se testemunhos de ex-membros da Obra, alguns durante décadas e que saíram ou foram postos na rua sem um cêntimo no bolso. Operações financeiras duvidosas a várias escalas, manipulação de gente com cargos importantes, criação de entidades “falsas” (tais como clubes ou associações de solidariedade) com o único objectivo de angariar dinheiro ou novos membros “efectivos” (os chamados numerários, havendo ainda, para as mulheres, o cargo de numerária auxiliar) ou “aderentes” (chamados supranumerários).

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Uma maneira de explicar este livro passa por fazer um apanhado de como funciona a Obra e que é comum a muitos dos testemunhos, senão a todos, independentemente da posição geográfica.

A angariação e proselitismo atingem sobretudo os adolescentes de 13-17 anos (mentes ainda não totalmente desenvolvidas, um alvo mais fácil e ainda por cima proibido pelo código de direito canónico, que exige os 18 anos) por intermédio de grupos culturais ou clubes fictícios feitos com um objectivo apenas. A partir do momento em que são entregues a uma espécie de orientador espiritual (um numerário, por norma) é avaliada a sua aptidão para a entrada na Obra, podendo ser postos de parte ou convidados a “apitar” (termo usado para pedir formalmente a entrada na Obra, como numerário).

Toda a ideia que um jovem destes desenvolve antes de “apitar” é que a OD é um centro orientador da espiritualidade e (por incrível que pareça) laico. Mentiras dos prosélitos ao rebanho. A partir do momento em que entram como numerários aparece a verdadeira faceta da Obra: afastamento da família e amigos (estando as “amizades” restringidas apenas à captação de novos membros), dedicação total e exclusiva, um índex de livros proibidos (e é preciso pedir autorização para tudo), mortificação corporal (cilício duas horas por dia e látego uma vez por semana), entrega da totalidade do salário, pressão para a elaboração de um testamento em que se deixa tudo à OD. E para as mulheres ainda é pior.

Quem sai da OD fá-lo completamente de rastos a nível psicológico, por norma. Suicídios e depressões são comuns. A perseguição por parte dos ex-colegas persiste após anos. Há mesmo uma clínica psiquiátrica em Pamplona, Navarra (cidade espanhola onde a OD é mais forte) especializada em tratar os numerários com problemas psicológicos (claro, por médicos e enfermeiros pertencentes à Obra).

A OD tem uma presença quase global. Uma rede de infra-estruturas espalhada por todo o mundo, destacando-se escolas, universidades e residências. O grande alvo do proselitismo e aliciamento para além dos jovens de tenra idade (nomeadamente para numerários) é no mundo da alta finança. Operações financeiras pouco transparentes e eticamente questionáveis são efectuadas entre entidades pertencentes ou administradas pela OD. Empréstimos a juros baixíssimos são concedidos a indivíduos afectos à organização.

A última palavra vai para o fundador. Feito santo por João Paulo II (outro amigo da OD), Josemaria Escrivá de Balaguer é aqui apresentado (por quem o conheceu) como alguém “inteligente mas não intelectual”, anti-intelectual, anti-comunista (simpatizava com a investida nazi por entre a URSS “ateia”, referindo-se a Hitler como uma “cruzada contra o marxismo”) e anti-liberal (é referido que as “máculas” contra as quais lutou desde sempre foram o ateísmo, o comunismo e o liberalismo). Outra das referências é o cariz militar da OD a nível de disciplina e obediência, muito inspirado no seu mentor. Escrivá, pelo relato de quem o conheceu, era uma pessoa autoritária, que renegava os sentimentos, com uma “concepção esquizofrénica do sexo”, exercia a mortificação corporal a um nível quase extremo e zangava-se com facilidade.

As três “anti” referidas no parágrafo definem muito bem o que a Obra realmente defende, daí o seu perfeito encaixe e crescimento na Espanha Franquista (e Portugal foi o primeiro país para onde se expandiu), não esquecendo o apoio financeiro dado às ditaduras sul-americanas (continente que contém metade dos membros) no Chile, Paraguai e Argentina (onde alguns militares que detinham cargos políticos eram supranumerários).

Em jeito de resumo, a OD é uma organização fortemente hierarquizada (cujos cargos cimeiros estão ocupados por clérigos), baseada na manipulação e obediência, com forte poder financeiro (possuem mesmo um arranha-céus de dezassete andares em Manhattan) e com uma rede tentacular que impinge a censura (possui desde gente em cargos importantes que fazem pressão para que certas coisas não venham para a opinião pública até jornalistas que abafam ou filtram “más notícias” sobre a Obra), despedaça famílias e explora pessoas até ao extremo, com um comportamento que se pode definir de criminoso e actividades pouco transparentes, mesmo para quem está dentro.

Teria lido este livro em dois dias (pois prende o leitor da mesma maneira que a OD prende os seus numerários) se não tivesse tido tanto trabalho nas últimas duas semanas e meia. Fica por aqui uma sugestão de leitura que considero imprescindível tanto para religiosos (nomeadamente católicos praticantes a partir dos doze anos de idade) como para não crentes.

“Opus Dei Secreta”; Pinnoti F.; Campo das Letras- Editores S.A.; Porto, 2008.

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