De Bernardo Motta
“Num número demasiado grande de jornalistas (arriscaria dizer que se trata da maioria), vive um ódio bizarro à Igreja Católica e ao Papa, seja ele qual for. Hoje em dia, está na moda, para quem gosta de parecer “moderado”, dizer que o Papa anterior é que era simpático, e que este é o mau da fita. Agem como se ninguém se lembrasse das bordoadas que então davam com gosto no Papa João Paulo II, sempre que este se pronunciava sobre o que quer que fosse.
Hoje em dia, nada mudou. Dão-se bordoadas no Papa Bento XVI por qualquer coisa que ele diga. Não por ser Bento XVI, porque também se davam bordoadas em João Paulo II, e em Paulo VI. Dão-se bordoadas porque uma boa parte dos “media” detesta a Igreja Católica e o papel de Papa. E não há quaisquer dúvidas de que muitos profissionais dos “media” têm conseguido imprimir à opinião pública os seus preconceitos ideológicos e as suas esquizofrenias.
A maralha decidiu recentemente linchar o Papa pelas suas corajosas declarações acerca da SIDA em África e da ineficácia das campanhas baseadas na distribuição de preservativos. O Papa afirmou que tais campanhas são claramente ineficazes, e mais, que tais campanhas estão a aumentar o flagelo da SIDA.
Imediatamente, tombou o anátema da Comunicação Social. Recordo-me de ouvir uma jovem jornalista na rádio, com um tom de voz revelador, muito irritada, dizer que tinha notícias “mais do que polémicas” relativamente ao Papa. Estava mortinha por repetir na antena as palavras de Bento XVI, e por lhes dar um tom pessoal de bazófia, de forma a transmitir a sua irritação contra o Papa, através dos feixes hertzianos, aos ouvintes da estação.
No entanto, o Papa não estava a mentir, nem a dizer uma novidade por aí além. Estava a dizer a mais pura das verdades. Estava alinhado com os melhores estudos sobre o tema, com aqueles estudos feitos sem objectivos ideológicos, com aqueles estudos que não são financiados por fabricantes de preservativos.
Edward C. Green, professor de Harvard, Director do AIDS Prevention Research Center, curiosamente concorda com Bento XVI na frase que tanta polémica gerou:
‘We have found no consistent associations between condom use and lower HIV-infection rates, which, 25 years into the pandemic, we should be seeing if this intervention was working.”
So notes Edward C. Green, director of the AIDS Prevention Research Project at the Harvard Center for Population and Development Studies, in response to papal press comments en route to Africa this week.
Benedict XVI said, in response to a French reporter’s question asking him to defend the Church’s position on fighting the spread of AIDS, characterized by the reporter as “frequently considered unrealistic and ineffective”:
I would say that this problem of AIDS cannot be overcome with advertising slogans. If the soul is lacking, if Africans do not help one another, the scourge cannot be resolved by distributing condoms; quite the contrary, we risk worsening the problem. The solution can only come through a twofold commitment: firstly, the humanization of sexuality, in other words a spiritual and human renewal bringing a new way of behaving towards one another; and secondly, true friendship, above all with those who are suffering, a readiness — even through personal sacrifice — to be present with those who suffer. And these are the factors that help and bring visible progress.
“The pope is correct,” Green told National Review Online Wednesday, “or put it a better way, the best evidence we have supports the pope’s comments. He stresses that “condoms have been proven to not be effective at the ‘level of population.’”
“There is,” Green adds, “a consistent association shown by our best studies, including the U.S.-funded ‘Demographic Health Surveys,’ between greater availability and use of condoms and higher (not lower) HIV-infection rates. This may be due in part to a phenomenon known as risk compensation, meaning that when one uses a risk-reduction ‘technology’ such as condoms, one often loses the benefit (reduction in risk) by ‘compensating’ or taking greater chances than one would take without the risk-reduction technology.”
Green added: “I also noticed that the pope said ‘monogamy’ was the best single answer to African AIDS, rather than ‘abstinence.’ The best and latest empirical evidence indeed shows that reduction in multiple and concurrent sexual partners is the most important single behavior change associated with reduction in HIV-infection rates (the other major factor is male circumcision).” (negrito meu)
Este investigador, cuja lista de publicações sobre o tema é impressionante, corrobora as palavras do Papa. Quase ninguém deu por isso, enquanto muitos se esforçavam por criticar o Papa, mesmo de dentro da Igreja. D. Januário Torgal Ferreira fez declarações pouco felizes, ao dizer que «as pessoas que estão aconselhar o Papa deveriam ser mais cultas». A tragédia destas palavras torna-se mais evidente quando elas são comparadas com o apoio do Prof. Green ao Papa.
Mais artigos de Green sobre o tema:
AIDS and the Churches: Getting the Story Right
Uganda’s HIV Prevention Success: The Role of Sexual Behavior Change and the National Response
PS: Note-se que o raciocínio de Green e do Papa Bento XVI é perfeitamente racional e até intuitivo. Aliás, a esmagadora maioria dos que vociferam contra o Papa estariam de acordo em aplicar exactamente o mesmo raciocínio noutra área não ideológica. Ninguém advoga, por exemplo, que a solução para as mortes na estrada passa, sobretudo, pelo fabrico de mais e mais viaturas apetrechadas de ABS e air-bags. Muitos, no caso dado como exemplo, advogam que o problema é comportamental, que o problema é o da condução em excesso de velocidade, ou sob o efeito de álcool ou estupefacientes. No caso dos acidentes na estrada, todos concordam que o problema é comportamental, e que o caminho certo é alterar comportamentos. No caso da SIDA, dá-se uma esquizofrenia ideologicamente motivada, na qual quase toda uma sociedade fica escrava daquilo que lhe dizem para pensar, fica escrava do politicamente correcto: e quase todos caem no ridículo de desprezar as causas comportamentais para a SIDA; e quase todos fecham os olhos à origem do problema. Com autismos ideologicamente motivados, não se vai longe…
PS2: Devia-se ler o artigo de Green sobre o “case study” do Uganda, para se ver, além de resultados concretos de uma estratégia comportamental anti-SIDA, o que a Igreja Católica tem andado a fazer por África, enquanto os anti-papistas da praxe vertem as suas baboseiras na Comunicação Social acerca de um tema que não conhecem, nunca estudaram, e para o qual nunca contribuíram.”
Outros artigos relacionados:

Caro Bernardo,
Muito rapidamente, porque o tempo é-me escasso nesta manhã primaveril:
- Conforme te tentei explicar neste comentário esse teu exemplo da condução segura é falacioso
- O facto do tal Edward C. Green concordar com o Papa apenas prova que ele é um dissidente em relação à opinião generalizada do meio científico
- Não entendo qual é a ideologia de que falas. A ideologia anti-papal? É estranho, uma vez que muitos católicos se opõem às declarações do Papa. Conforme podes ver neste site, o próprio Cardeal Carlo Maria Martini afirmou em 2006:
“We need to do everything possible to combat AIDS. Under certain conditions, the use of condoms is necessary. Those who are afflicted have an obligation to protect the other partner,” he told the Italian weekly newsmagazine L’Espresso. At the same time, he emphasized that this was not a green light for the church to actively start distributing condoms.”
Será que se trata de alguma conspiração ideológica? É que como ele, há muitos mais elementos da estrutura católica que discordam do Papa nesta matéria. Serão esses aqueles a quem a doutrina não ofuscou o bom senso (para não dizer raciocínio)?
- Como deves calcular, eu estou-me a borrifar para o Papa, logo não posso ser anti-Papista. Parece-me é que qualquer pessoa de bom senso, crente ou não, deve ter a capacidade de separar o trigo do joio no que diz respeito às afirmações do Papa. Quem não tiver essa capacidade é porque é católico antes de ser humano e isso é uma condição que apenas me resta lamentar.
Um abraço.
Só uma informação… O AIDS Prevention Research Project (APRP) é suportado pela John Templeton Foundation (http://en.wikipedia.org/wiki/John_Templeton_Foundation). Esta fundação tem recebido críticas por ter um “bias” conservador e por tentar misturar questões de ciência e religião. Parece-me que esta fundação tem uma certa “agenda”.
Caro Bernardo Motta
O autor do estudo, Edward C. Green, é o director de um projecto que opera numa universidade norte americana, projecto esse que é financiado por uma fundação particular, a John Templeton Foundation. Esse projecto (“AIDS Prevention Research Project”) está enquadrado nas actividades de uma unidade dessa universidade (“Harvard Center for Population and Developmente Studies”).
Essa fundação foi criada pelo filantropista Sir John Templeton e é gerida actualmente pelo seu filho John M. Templeton, Jr., que entre outras coisas financiou a campanha “Proposition 8″ ( “has contributed money to the campaigns supporting and opposing California’s Proposition 8, which would ban same-sex marriage”, como se pode ver no San Francisco Chronicle).
Sobre a isenção de tal fundação, que premiou que entre outros a Madre Teresa de Calcutá, veja-se o que é dito, na wikipedia :
“They’re political – that for us is problematic”, and that while Discovery has “always claimed to be focused on the science”, “what I see is much more focused on public policy, on public persuasion, on educational advocacy and so forth”, diz Charles L. Harper Jr., (senior vice president at the Templeton Foundation), quando respondia a criticas sobre o alegado financiamento do “intelligent design movement”.
Ora …
“the entire purpose of the Templeton Foundation is to blur the line between straightforward science and explicitly religious activity, making it seem like the two enterprises are part of one big undertaking. It’s all about appearances.” – Sean M. Carrol, Universidade de Chicago
“feels it is unfortunate that Templeton’s money is used to influence scientific research towards a convergence between science and religion” – Peter Woit, Universidade de Columbia.
” a Templeton official “told us that the meeting cost more than $1-million, and in return the foundation wanted us to publish articles touching on science and religion” – John Horgan
“If I understand Horgan’s point, it is that Templeton’s money corrupts science” – Richard Dawkins.
Ou seja, quanto à (não) isenção científica estamos esclarecidos.
Cordialmente
Como eu já tinha dito, e achei engraçado o Professor Marcelo também o dizer no Domingo, a Igreja e o papa só estão a ser coerentes com os seus ensinamentos, que se seguidos diminuiriam e muito os números da SIDA.
O papa falou em monogamia, ou abstinência, não falou em sexo irresponsável e desprotegido… como disse o Marcelo, o uso do preservativo deve ser um mal menor… e o papa deveria tornar isso mais claro visto haver muitas pessoas com problemas de compreensão neste assunto.
E não me admirava nada, que o uso do preservativo agravasse o problema da SIDA… agora é óbvio que se as pessoas têm relações com diversos parceiros, o uso do preservativo deve ser mandatório…aí é mesmo melhor que nada.
Caro Bernardo Motta
Como sublinha Mário Soares, no DN de hoje, “O grande teólogo católico suíço Hans Küng, que o conhece há longos anos – e tiveram discussões e divergências – deu-lhe, no início, o “benefício da dúvida”. Mas num artigo recente publicado no El País já considera que o pontificado de Ratzinger representa um lamentável passo atrás na abertura da Igreja à modernidade.”
As críticas são feitas ao sr. Ratzinger, e não ao Papa Bento XVI, o que revela respeito pela instituição Igreja Católica, porque não reconhecem ao dito sr. coerência com os princípios que deveriam norteá-lo.
O que é certo é que na questão dos preservativos, se está perante, e tão somente, numa posição política que nada tem de fundamentação religiosa, como se ilustra em # 62 de “Nada de novo”.
Compreendo que um Papa, qualquer um, se sinta atrapalhado na questão. Por um lado há uma decisão tomada, pessoalmente, por um seu antecessor, no caso Paulo VI, que contrariou a posição da comissão cosntituida para o efeito, e por outro há um dogma que sustenta a infalibilidade do Papa.
O que suscita perplexidade é que a tentativa de dar coerência a uma doutrina religiosa, mesmo numa questão que não é religiosa, seja feita à custa de uma mortandade anunciada.
No mundo real mal vai uma empresa quando o seu gestor não corrige atempadamente um gravíssimo erro de gestão.
Mas parece que essa ideia, tão simples, ainda não aflorou em algumas (não todas !) mentes católicas, tal o acriticismo e seguidismo que demonstram perante o “poder do chefe”.
Cordialmente
Caro João Ribeiro
“o uso do preservativo deve ser um mal menor… e o papa deveria tornar isso mais claro”
O sr. Ratzinger foi claro e mesmo muito claro : não só vetou o uso do preservativo como também afirmou que o seu uso teria por efeito aumentar a propagação da doença.
“é óbvio que se as pessoas têm relações com diversos parceiros, o uso do preservativo deve ser mandatório”
Ainda bem que partilha de opinião discordante da do sr. Ratzinger. Olhe que está a fazer progressos, mas ainda só alguns porque se contradiz a si mesmo ao admitir, por admiração (!), que talvez “o uso do preservativo agravasse” etc.
Cordialmente.
“O que suscita perplexidade é que a tentativa de dar coerência a uma doutrina religiosa, mesmo numa questão que não é religiosa, seja feita à custa de uma mortandade anunciada.”
Está-me a dizer que se as pessoas ouvissem tudo o que a igreja tem para dizer, a mortandade seria a consequência? Ou parece tipo aquele anúncio do gato que só ouve “whiskas saquetas”…. as pessoas só ouvem ” blablabla não usar preservativo”…. O blablabla da igreja interessa para o contexto em que não se deve usar o preservativo. A igreja não está a dizer às pessoas que se estão nas tintas para as suas regras, para não usarem preservativo nas suas milhentas relações sexuais com milhentos parceiros.
Acho que não é muito difícil de entender.
O secularismo e banalização do sexo é em grande parte responsável pelos números da Sida, uma vez que hoje em dia quem for virgem para o casamento e quem for inexperiente é considerado um totó.
Se as pessoas fossem monógomas e se fizessem sexo apenass após o casamento, como a Igreja propõem… qual é a medida que acha mais eficaz contra a sida? A “secular” ou da igreja?
Agora você afirma.. mas ninguém faz o que a igreja diz… e eu respondo-lhe : “precisamente!”… Por isso é que as coisas estão como estão.
De qualquer maneira, a questão do preservativo tem mesmo de ser clarificada.
Caro João Ribeiro
“se … se … se … ” !
Se eu ganhasse o euromilhões claro que seria rico ! Vivendo no mundo real, onde não acerto no euromilhões, até agora
, não me preocupo nem perco tempo a tecer ecolubrações fantasiosas enquanto não se verificar a tal condição básica : acertar no euromilhões.
Talqualmente fantasiar sobre comportamentos sexuais ou outros numa comunidade africana, que tem valores culturais e ancestrais próprios, com os quais se identificam (leia-se: que não partilharam, não partilham e não partilharão, dos valores cristãos) e uma população maioritariamente jovem, convenhamos que não será uma atitude positiva e construtiva, mas antes utópica e irrealista.
Ou acredita mesmo que as populações, maioritariamente animistas, de um continente inteiro, ou mesmo de um só país, que até agora resistiram à evangelização cristã, apesar das consecutivas campanhas de evangelização feitas ao longo de séculos, irão um dia converter-se e fazer o que um papa, sentado lá na longinqua Roma, lhes diz ?
A menos que se queira fazer um extermínio do género daquele que os católicos espanhóis, em nome da fé e da (fracassada) evangelização fizeram no Novo Mundo. Mas isso é outra conversa, a de como a morte está sempre presente, desde a sua origem, na história e doutrina da igreja católica.
Cordialmente
Victor eu não me devo ter explicado bem, e peço desde já desculpas por isso.
““é óbvio que se as pessoas têm relações com diversos parceiros, o uso do preservativo deve ser mandatório”
Ainda bem que partilha de opinião discordante da do sr. Ratzinger.”
1) Não esquecer que para além o preservativo a igreja tem outros ensinamentos quanto ao sexo e casamento. E é baseado nesses outros ensinamentos que advém a sua posição sobre o preservativo.
2) o Papa fala em abstinência, não aconselha a pessoas com múltiplos parceiros para fazerem sexo desprotegido. Claro que se as pessoas não se conseguem controlar que usem o preservativo. Já vários padres falaram disto na televisão.
É possível que os preservativos aumentem a sida em duas frentes :
1) Banalizam o sexo
2) Não são 100% fiáveis.
Não há dúvida que abstinência e monogamia são mais eficazes.
E não há contradição nenhuma, como é óbvio o sexo com preservativo é mais seguro do que sem…mas nada disso impede que o mesmo seja uma agravante da sida.
““se … se … se … ” !”
Só lhe digo isto, se as pessoas não seguem o que a igreja diz, não vejo qual o seu problema com as declarações do papa.
cumprimentos
Caro João Ribeiro
“Está-me a dizer que se as pessoas ouvissem tudo o que a igreja tem para dizer, a mortandade seria a consequência?”
Nãoooooo !!!
Estou a dizer que se as pessoas seguissem as posições do sr. Ratzinger no que respeita ao uso dos preservativos, e refiro-me a esse aspecto apenas, a mortandade anunciada será consequência.
A posição da igreja, que um papa, seja ele qual fôr, seja ele um João Ribeiro ou um Victor, deveria respeitar, é a expressa pela vasta comissão para estudar o tema, já referida em – repito-me ! – # 62 de “Nada de novo”.
Cordialmente
Pois mas é isso que eu estou a dizer Victor, quando eu falo em todas as posições, falo em as pessoas acatarem, também o sexo monógamo e após o casamento… não existe o aceitar só o não uso do preservativo.. isso seria incoerente.
cumprimentos
Caro Bernardo Motta
… o “case study” do Uganda … ? Vejamos do que se está a falar.
O Uganda tem como presidente, o sr. Museveni, que chegou ao poder no já longinquo ano de 1986 através de uma revolta armada, na sequência da queda do “canibal” Idi Amin, em 1979.
Os escribas do regime, como seria de esperar, enaltecem que tenha acabado com os abusos aos direitos humanos, que iniciou uma politica de liberalização e de liberdade de imprensa, que a economia tenha crescido, que o número de crianças nas escolas primárias tenha duplicado e que a sua política de controle da sida, através da abstinência, é um êxito.
Sucede que um pouco de desconfiança sobre tão encantador e idílico cenário politico leva-me a investigar se essa verdade oficial corresponderá de facto … aos factos.
E assim, recorrendo a outras fontes, descubro que que os pais são do clã “basiita” e do aristocrático clã “bashambo” (detalhes importantes para se perceber politica em África, onde as guerras tribais são uma constante), que o homem “não bebe, não fuma e gosta de se vestir com roupa informal”.
Mais descubro que terá passado 40 anos na guerrilha, incluindo em Moçambique, que “posteriormente (à sua eleiçãocomo presidente) proibiu o pluripartidismo” e que “marxista convicto …decretou rapidamente um programa de privatizações”.
Segue-se que “Em 2005, propôs emenda à Constituição para poder manter-se no poder e imediatamente encarcerou o principal opositor acusando-o de todos os crimes possíveis”.
É assim que o Cardeal Renato Martino, presidente do Pontifício Conselho de Justiça e Paz, visita as casas de acolhimento para os ex-meninos soldados “jovens sem nariz, sem braços, sem dedos, sem orelhas”, vítimas do “Exército de Resistência do Senhor” (esses malvados de outras religiões !) e fala dos “night commuters”, que “… todas as noites quando escurece fojem de suas casas para tentarem ficar a salvo em hospitais, creches missões, escolas … para não serem raptados” ( http://www.30giorni.it/br/ ).
Estamos a falar de um país onde a norte ocorre uma guerra sem cartel entre tutsis e hutus, com chacinas de parte a parte, que motivam êxodos entre paises vizinhos ! E as malfeitorias não serão só de um dos lados.
Caro Bernardo Motta
Nesse contexto poderá dar-se credibilidade a qualquer estudo que se faça por lá ? Não será de esperar que o sr. Museveni faça o que pode, incluindo o tal (pseudo) estudo que refere, para (tentar) ganhar a credibilidade internacional perdida ?
Se o tal “case study” fôsse verdade não seria natural que o sr. Ratzinger agora nessa sua visita em que visou “abraçar” África, como ele disse, tivesse dado um saltinho até ao país ali ao lado que pratica (praticará mesmo ?) aquilo que ele próprio defende, enaltecendo-o como exemplo para combater a sida ? Ou justamente não foi lá porque se trata afinal de uma aldrabice, como ele deverá saber muito bem ?
Cordialmente
Adenda :
Nem seria de excluir que com no tal estudo, admitindo a boa fé dos seus autores, baseados exclusivamente nos dados demográficos de que dispunham, se tenha ignorado aquilo que o sr. Museveni bem pretendia esconder : os morticínios havidos ! O que ilustra como o poder, em particular quando autoritário e repressivo, sabe instrumentalizar incautos e menos avisados … para o seu serviço.
Caro João Ribeiro
Se me apetecer, e tiver parceria para tal, fazer uma bela, luxuriosa e sensual sessão de “ménage-à-trois”, com preservativos de preferência para evitar a sida, porque raio de carga de água não o devo fazer ???
Se há pessoas que não gostam de usufruir a parte “animal” do prazer sexual, é problema delas, e não meu.
Mas como diria o outro … “não sabem o que perdem”.
Agora não podem, nem devem, impedir que quem assim não pense não se possa exprimir e … vivenciar.
Cordialmente
“Nos arredores de Entebe, acompanhei William e Patience [nomes fictícios] quando foram fazer o exame, …Eles haviam se conhecido e se apaixonado na igreja, mas se abstiveram de ter relações sexuais porque ambos tinham segredos. William, 23 anos, jardineiro, mantivera relações com algumas mulheres anos antes. Patience,19 anos, empregada doméstica, fora estuprada pelo patrão. Eles mal conseguiam olhar quando o envelope pardo chegou do laboratório. A conselheira leu os documentos. “Os exames dos dois deram negativo”, disse ela. O casal riu de alívio. “Agora podemos ser fiéis com segurança!”, alegrou-se Patience.” (in http://www.portaldafamilia.org/artigos/artigo248.shtml )
Esta e outras estórias no mesmo site, sobre o êxito da política de abstinência sexual, são mesmo comoventes !
Caro Bernardo Motta
“a twofold commitment: firstly, the humanization of sexuality, in other words a spiritual and human renewal bringing a new way of behaving towards one another” – Ratzinger dixit.
Espero que o sr. Ratzinger para a próxima, ao menos diga : “Patrões, quando estuprarem usem … condoms !”.
Cordialmente
Meus caros Victor e João Ribeiro
Francamente, não percebo a razão de tanta polémica…
No que respeita à SIDA, estamos, essencialmente, perante um problema de saúde pública. E de Saúde Pública fala quem sabe, e não se me consta que o Papa seja autoridade na matéria, e, que eu saiba, ningué3m lhe atribuiu tais créditos. Assim, é óbvio que está a extravazar das suas competências. Como de costuma dizer… “Cada macaco no seu galho”!
Já no que respeita aos comportamentos sexuais que permitem mesmo prevenir a SIDA, há o velho truque do copo de água – nem “antes de…”, nem “depois de…”, mas “em vez de…” Para grandes males, grandes remédios!
Cordialmente
“Revolta em Nampula contra Cruz Vermelha envolve tortura”
Em declarações à Lusa, Xavier Francisco contou que a situação de instabilidade em Muanhapo, distrito de Mogincual, província de Nampula (norte do país), começou em Fevereiro, quando populares começaram a acusar elementos da Cruz Vermelha que distribuiam mosquiteiros e cloro de estarem a disseminar a cólera.
A Cruz Vermelha não paga salários aos seus voluntários, mas disponibiliza-lhes bicicletas para fazerem o seu trabalho.
A tensão aumentou quando se registaram casos de cólera em povoações vizinhas de Muanhapo. “Eles [populares] disseram `já estamos a ver porque é que vocês receberam bicicletas`, e começaram a fazer ameaças`”, contou Xavier Francisco, acrescentando que a situação foi relatada às autoridades e que elementos do Governo estiveram em Muanhapo, explicando o verdadeiro trabalho da Cruz Vermelha. ( in http://tv1.rtp.pt/noticias )
Pois, a culpa foi das bicicletas !
É a essas pessoas que o sr. Ratzinger se dirige quando apela à abstinência sexual ?
Em que mundo vive ele ?
Cordialmente
Victor,
Hans Kung foi suspenso de ensinar pelo Papa João Paulo II e só é conhecido exactamente por dizer coisas contra a Igreja e o Papa. O mesmo se diga do Cardeal Martinez e do Dom Januário.
Juntamento com Padre Anselmo Borges e o Frei Bento Domingues são as vozes que os media e os comentadores pegam sempre para dizer que há dissidências na Igreja.
Ao menos arrajem nomes novos (já para não falar de pessoas com menos de 70 anos…)
Caro Z
Agradeço a referência, pois assim começo a perceber e a interligar aspectos que me escapavam sobre as diferentes teses católicas em presença, nacionais e internacionais.
“A identidade da Catalunha é incompreensível sem o cristianismo” pois “nele se encontram aquelas raízes comuns que fizeram amadurecer a civilização do nosso país e de todo o continente europeu”, disse o Arcebispo de Barcelona, Cardeal Lluís Martínez Sistach. (31/03/08)
Parafraseando, o que ele disse há um ano atrás, “a identidade de África é incompreensível para o cristianismo”, diriam outros ao sr. Ratzinger, que postula, com a sua posição sobre os preservativos, a subversão das raizes dos povos africanos.
Deduzo que a igreja católica está dividida, e seriamente sobre questões de fundo. O que explica, volto a dizê-lo, a importância no seio da igreja das tricas sobre Fátima, os seus dinheiros, o ecumenismo lá praticado, eventualmente as práticas e leituras religiosas, ao arrepio do que manifestou João Paulo II, as mudanças na hierarquia católica portuguesa, etc, sob pretexto da canonização do D. Nuno, que demorou 5 anos, quase um record só ultrapassado pelo João Paulo II (2 anos) e equivalente, salvo erro(*), ao da beatificação de Madre Teresa, que foi o processo mais rápido desse tipo na história da Igreja Católica, apenas seis anos depois de sua morte.
Será caso para proclamar-se : “Católicos portugueses, uni-vos contra Ratzinger !” ?
(*) admito alguma imprecisão nestes números, mas não consegui obter as datas correspondentes em tempo útil.
Cordialmente
Começo a desconfiar que o homem deve ter mesmo “pancada” de natureza sexual, uma vez que já antes se tinha referido ao “exemplo” de Josefina Bakhita, uma africana canonizada por João Paulo II (com “as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida”, Ratzinger dixit) ao argumentar sobre o que é, na sua perspectiva, a redenção, como o explica na sua carta encíclica “Spe Salvi”, de 30/11/07.
Talvez isso ajude a entender melhor, psicanaliticamente, a sua politica dos preservativos.
Realmente, vejo que não há nada que eu possa dizer, nem sequer invocar o testemunho de um professor de Harvard e investigador destas matérias, para alterar a força imensa da propaganda.
Tentemos evitar argumentos “ad hominem”. Estou-me nas tintas para a Fundação Templeton, ou o que quer que seja. Realmente, não interessa para nada quem é que paga os ordenados ao Prof. Green. O que interessa, sobretudo, é saber se alguém tem algum erro científico a apontar ao estudo. Estamos a falar do Harvard Center for Population and Development Studies, caramba! De um investigador que diz que os dados disponíveis se adequam ao que o Papa afirmou. Será que a única coisa que têm para me dizer é ir buscar a treta da Fundação Templeton, para tentar tapar o sol com a peneira?
A questão é mais simples do que se julga:
1. O problema da SIDA é comportamental: se um casal infectado se mantiver fiel, não passa a SIDA a outros; se um casal não infectado se mantiver fiel, não apanha SIDA; se um casal em que um deles está infectado se abstiver de relações sexuais, não coloca ninguém em risco nem infecta ninguém.
2. Se uma pessoa infectada opta por ter relações sexuais com pessoas não infectadas, e sabe que está infectada, essa decisão é uma decisão imoral: é DEMASIADO arriscado recomendar o preservativo quando a única sugestão sensata que se deve dar é a da abstinência: uma pessoa infectada com SIDA coloca a vida dos outros em risco se decide manter uma vida sexual activa mesmo estando infectada
É verdade que o Papa tem uma moral sexual a defender, e que o preservativo não cabe nessa moral sexual. E nunca vai caber. Mas não me parece lógico que se pegue por aí.
A questão começa num âmbito mais geral do que o âmbito da moral sexual católica:: o Papa entende, e bem, que é questionável distribuir preservativos a pessoas infectadas, sem dar a máxima prioridade a estratégias de mudança de comportamentos. A disponibilidade abundante de preservativos nada fará (e de facto, até hoje, NADA FEZ) para reduzir os comportamentos de risco: as pessoas infectadas simplesmente farão mais sexo. É verdade que, na maioria das pessoas que usarem bem o preservativo, o risco de infecção será baixo. Isso é verdade. Mas é AINDA MAIS VERDADE que a abstinência é a única sugestão segura (e sensata) para se dar a alguém infectado.
A opinião pública está toda sob uma espécie de esquizofrenia, e isso acontece porque na sociedade ocidental o sexo livre tornou-se sagrado e intocável. Se falássemos de uma pessoa com varíola, uma doença altamente contagiosa (e quase extinta), essa pessoa seria imediatamente sujeita a todo o tipo de precauções para evitar o contágio. Mas como se fala de SIDA e da sua transmissão por via sexual, parece até indecente que se sugira a abstinência (porque é um conceito PROIBIDO, e até ofensivo, na nossa sociedade) a uma pessoa infectada.
Uma pessoa infectada com SIDA que tenha relações sexuais, mesmo com preservativo, coloca outros em risco. Basta que o preservativo seja mal utilizado. Já nem falo de preservativos com defeito.
Já sei: vão dizer que a solução passa pela educação sexual no uso do preservativo.
Então, bolas, porque não usar a educação sexual para promover a fidelidade, para combater a promiscuidade e a troca de parceiros, e desse modo, conter a SIDA?
Estamos a impor a África uma ideologia ocidental de sexo libertário. Estamos a assumir que é impossível, e até para alguns indesejável, promover alterações comportamentais aos hábitos sexuais das pessoas desse continente. Então, nesse quadro ideológico, se desistirmos de travar a batalha pelas mudanças comportamentais, entregamos África à morte.
Quanta incompreensão…
Bernardo
Caríssimo Helder,
«- Conforme te tentei explicar neste comentário esse teu exemplo da condução segura é falacioso»
Não é uma analogia perfeita, mas parece-me adequada e não falaciosa.
Partes do pressuposto que a distribuição de preservativos tem reduzido substancialmente os casos de SIDA. Ora o estudo que indiquei diz precisamente o contrário. E é por isso que ele é importante. Temos décadas de distribuição de preservativos em África e não se pode dizer que a SIDA esteja controlada. Só há pouco tempo se começou a tentar abordagens comportamentais.
O Papa nunca disse que, numa relação sexual entre uma pessoa infectada e outra não infectada, o preservativo não faça nada. É evidente que faz. O que o Papa se esforça por explicar é que nunca é sensato promover práticas que são de risco. E a distribuição de preservativos é um sinal às populações: “façam sexo à vontade, como sempre fizeram, mesmo infectados, mas usem preservativo”. Como é que alguém sensato pode concordar com isto?
Seria como tentar combater as mortes na estrada com este tipo de slogans: “conduzam sob o efeito de álcool e estupefacientes, acelerem à vontade, mas usem cinto de segurança”. Quem concordaria com este tipo de estratégias?
Eu não estou a dizer que os cintos não façam falta SEMPRE. Claro que fazem.
Em analogia, não estou a dizer que, numa relação sexual de risco, o preservativo faz falta. Claro que faz.
Mas porque é que se promoveria uma relação sexual de risco, a reboque do preservativo?
O Papa tem duas razões fundamentais para negar a estratégia de distribuição de preservativos:
1. A moral sexual católica (evidente)
2. O facto de que tais campanhas, longe de procurar reduzir os comportamentos de risco, ou mantêm-nos ou aumentam-nos (é o que Green chama de “risk compensation”): transmite-se às pessoas a ideia de que o preservativo é a solução para a SIDA, quando a solução está no comportamento sexual das pessoas
«- O facto do tal Edward C. Green concordar com o Papa apenas prova que ele é um dissidente em relação à opinião generalizada do meio científico»
Helder: peguei nesse estudo com meia dúzia de “googladas”. Arranja-se mais, se for preciso. Quem tem estado atento aos relatórios de muitas ONGs sobre a SIDA tem notado, nos últimos anos, um aumento do apoio a técnicas de mudança comportamental. E esta viragem, que já se vai vendo, mas que os “media” nunca reportam, tem-se dado devido à simples análise de estatísticas e de eficácia das diversas estratégias.
«- Não entendo qual é a ideologia de que falas. A ideologia anti-papal?»
A ideologia que diz que todas as opções morais são relativas, e que nunca se deve atacar um problema como o da SIDA entrando no campo das decisões morais. Que se uma pessoa infectada quer ter sexo com todos, é lá com ela. Essa ideologia é insensata.
«É estranho, uma vez que muitos católicos se opõem às declarações do Papa.»
A tontaria reina, mesmo nas fileiras católicas. As pessoas andam baralhadas. Se lêem num jornal que o Papa cometeu uma gaffe, acreditam, sem sequer lerem as palavras do Papa. As pessoas comuns não lêem artigos científicos nem seguem os “proceedings” de conferências internacionais sobre SIDA. As pessoas pegam em “sound bytes”, e dizem, coitadas, “ah, realmente, o Papa está a leste, etc, etc…”.
É um fenómeno triste, que nos diz muito sobre a falta de preparação dos católicos, mas não nos diz nada sobre a natureza do problema.
«Conforme podes ver neste site, o próprio Cardeal Carlo Maria Martini afirmou em 2006:
“We need to do everything possible to combat AIDS. Under certain conditions, the use of condoms is necessary. Those who are afflicted have an obligation to protect the other partner,” he told the Italian weekly newsmagazine L’Espresso.»
Olha que exemplo é que foste buscar…
«Será que se trata de alguma conspiração ideológica? É que como ele, há muitos mais elementos da estrutura católica que discordam do Papa nesta matéria. Serão esses aqueles a quem a doutrina não ofuscou o bom senso (para não dizer raciocínio)?»
Não, Helder. São a tal meia dúzia de sectários. São os que usam os “sound bytes” dos media para conduzirem as suas guerrinhas dentro da Igreja. São os que se preocupam mais com o seu orgulho intelectual do que com Cristo e com a Igreja. Há algumas pessoas assim. Felizmente, são a minoria.
«- Como deves calcular, eu estou-me a borrifar para o Papa, logo não posso ser anti-Papista. Parece-me é que qualquer pessoa de bom senso, crente ou não, deve ter a capacidade de separar o trigo do joio no que diz respeito às afirmações do Papa. Quem não tiver essa capacidade é porque é católico antes de ser humano e isso é uma condição que apenas me resta lamentar.»
Achas que as pessoas estão a separar o trigo do joio?
Achas que papaguear e repetir de forma acrítica tudo o que vem nos jornais é separar o trigo do joio?
Hoje em dia, não confio em nada do que vem nos jornais. Serve-me apenas para perceber que há qualquer coisa de novo sobre determinado assunto. Depois, tenho sempre que fazer a minha pesquisa pessoal.
Um abraço,
Bernardo
Caro Bernardo Motta (?)
Desenvolvi alguns argumentos, em comentários separados (# 3, #5, # 13, #14), para que o texto não ficasse demasiado extenso e para que o foco de abordagem utilizado facilitasse o entendimento do debate que eventualmente viesse a suscitar-se ao seu “artigo de opinião”.
Se é a mim, Victor, que se estará a referir no seu comentário # 22, porque não nomeia, não cita, nem comprova, responder-lhe-ia que não se trata, como quer fazer crer, de argumentos “ad hominem”, mas tão somente de relatos e interpretações de factos para situar devidamente o contexto da sua análise, coisa que o caro Bernardo, como autor do artigo, devia ter feito e não fez.
Esperava que, investido na qualidade de autor de um artigo de opinião, o que lhe dá uma responsabilidade acrescida, tivesse o cuidado de responder, contrapondo, eventualmente um a um, aos argumentos dos seus co-arguentes naquilo que achasse por bem discorrer, os quais mereceriam depois, pelo menos do meu lado, a melhor e cuidada atenção.
Doutro modo estamos naquele jogo infantil do “toca e foje”.
Em #3 demonstro a inexistência de credibilidade científica da fonte que publica o artigo em que se apoia.
Em #5 demonstro que a posição da igreja no assunto se deve apenas a uma decisão pessoal de Paulo VI, decisão que contrariou a posição de uma comissão especial criada para o assunto, sob a égide do Vaticano.
Em #13 e # 14 demonstro que o local onde terá decorrido o tal estudo não merece qualquer credibilidade.
A não serem contraditados, e fundamentados, os argumentos dos seus co-arguentes o seu artigo cai por terra, por descrédito.
Comentários aos seus comentários (# 22 #23 etc), se merecem a minha atenção, terão naturalmente numa abordagem diferente de análise e metodologia de resposta, e fá-los-ei posteriormente, em comentários àparte, subtema a subtema, para que não se misturem alhos com bugalhos.
Fico pois a aguardar a sua resposta.
Cordialmente
Caro Victor,
«Doutro modo estamos naquele jogo infantil do “toca e foje”.»
Eu não gasto o meu tempo com brincadeiras aqui no Portal Ateu. Se tiver seguido os comentários que faço no Portal Ateu, verá que eu costumo reservar as brincadeiras para outros locais e outros temas.
«Em #3 demonstro a inexistência de credibilidade científica da fonte que publica o artigo em que se apoia.»
Só pode estar a brincar comigo.
Não demonstra coisa nenhuma. Está a aplicar uma falácia “ad hominem” direitinha e óbvia.
Está a dizer:
1. Cientista A diz proposição P
2. Cientista A trabalha em Centro de Investigação C
3. Centro de Investigação C foi fundado por Fundação F (até lhe dou esta de borla, porque não o investiguei)
4. Fundação F tem má fama (até lhe dou esta de borla, sem lhe pedir que o PROVE)
5. Logo, proposição P é falsa
Gostava que me dissesse em que galáxia é que este argumento é um argumento sério.
«Em #5 demonstro que a posição da igreja no assunto se deve apenas a uma decisão pessoal de Paulo VI, decisão que contrariou a posição de uma comissão especial criada para o assunto, sob a égide do Vaticano.»
Engana-se redondamente. Decisão pessoal do Papa Paulo VI baseia-se nos ensinamentos de Cristo. Basta ler a Humanae Vitae. Comissão especial criada para o assunto depende SEMPRE do Papa e não pode nunca ter a autoridade de um Papa. Decisão do Papa Paulo VI é soberana e infalível, pois trata de matéria de moral.
MAS SOBRETUDO, nada disto tem a ver com a SIDA em África.
Faltou o Victor demonstrar que tem.
«Em #13 e # 14 demonstro que o local onde terá decorrido o tal estudo não merece qualquer credibilidade.»
Demonstrou coisa nenhuma.
De novo, uma trapalhada pseudo-argumentativa:
1. Estudo E coordenado por Edward Green, de Harvard, versa sobre país Uganda
2. País Uganda foi governado por políticos sem credibilidade (até lhe dou esta de borla)
3. Logo, Estudo E está mal feito
Eu, sinceramente, caro Victor, fico a achar que você é que está a gozar com a minha cara.
Não gosto de perder o meu tempo em palhaçadas.
Ou passa a redigir argumentos dignos desse nome, ou então vou gastar o meu tempo com pessoas que saibam o que é um argumento, e gostem de usar argumentos.
Cumprimentos,
Bernardo Motta
Algumas entrevistas a Edward Green acerca do que o Papa disse::
http://www.christianitytoday.com/ct/2009/marchweb-only/111-53.0.html
http://www.catholicnewsagency.com/new.php?n=15445
Já sei, já sei… Se os artigos aparecem em sites cristãos, então têm que ser falsos!
Bom, se alguém quiser enveredar por uma abordagem mais séria, e quiser ler estas entrevistas, aqui ficam…
Até para se saber que Edward Green não partilha da moral sexual do Papa, apesar de afirmar que a frase polémica do Papa se coaduna com os dados científicos à sua disposição.
Bernardo Motta
Caro Bernardo Motta
Li com muita atenção a sua réplica. Lamento que não tenha compreendido a minha argumentação, talvez por falta de clareza minha para o seu espirito.
Portanto expressar-me-ei , agora, por outras palavras.
Em #3 – e não ponha na minha boca o que eu não disse – demonstro que não há unanimidade nem receptividade entre a comunidade científica da área, ao contrário do que haverá, por exemplo, sobre a Universidade Católica portuguesa, cuja respeitabilidade cientifica não é (que eu saiba) constestada.
Em #5 demonstrei, e reconhece-o, que as conclusões da tal comissão não foram subscritas por Paulo VI. Se entende que a decisão de um homem, só e isolado na questão , ao arrepio dos pareceres que solicitou, vincula toda a igreja e todos os católicos, toda a moral e toda a doutrina, só porque ele é papa, será a sua opinião, que eu evidentemente respeito.
Tal como eu espero que respeite a minha, e de muitos outros, muitissimos outros aliás, católicos e não católicos, de que se trata de uma decisão absurda e idiota, decisão essa que só por si, põe em causa o conceito da infalibilidade papal ao mostrar que afinal o papa é apenas um homem, e que como tal … também erra.
Que não queira ver que tal posição de Paulo VI, agora reafirmada por Bento XVI, com impacto agravado pelo contexto em que o foi, causou uma indignação generalizada a nivel mundial, incluindo no “sentir” católico, não conforme com as teses papais, é, evidentemente, problema seu. Mas não me retira o direito de (re)afirmar o que sustentei : foi meramente a decisão de um homem, que por acaso era o chefe, contra a opinião dos que o aconselhavam, e com autoridade para tal, sobre o assunto.
“MAS SOBRETUDO, nada disto tem a ver com a SIDA em África. Faltou o Victor demonstrar que tem.”
Não abordei sequer esse ponto no meu comentário. Mas se quizer que o esclareça terei todo o gosto.
Em #13 e #14 demonstrei o que se passa no terreno do país em causa : guerras e morticinios. Se acha que isso nada lhe diz nem constitui argumento válido para desmistificar a validade do estudo que invoca para sustentar a sua opinião … problema seu.
“Não gosto de perder tempo com palhaçadas” diz. Olhe que não … olhe que não … !
A prova ? Acreditar puerilmente, sem capacidade de análise crítica autónoma, em tudo aquilo que “o chefe” diz, sem querer ver as causas, as razões, os motivos e os contextos envolventes. Ou acreditar nessa trapalhada de Deus, de Jesus Cristo, da Santissima Trindade, etc etc etc. Porque perde tempo afinal com essas coisas ?
Acredito que a seus olhos os meus argumentos sejam, como diz, “uma trapalhada pseudo-argumentativa”. Mas acredite que a meus olhos o que sustenta, quer no artigo que assina quer na réplica que faz, nem sequer é argumento, tais as fragilidades e contradições de que padecem as suas teses, teses que para serem válidas e aceites careciam de ser minimamente demonstradas, o que sintomaticamente não o faz.
Ou será ingénuo ao ponto de acreditar que aceitariam publicar o seu artigo na Science Review ???
Caro Bernardo Motta
A axiomática de alguns católicos, os “fiéis”, é :
- 1º o chefe tem sempre razão.
- 2º reafirmar o que o chefe diz é ter-se razão.
- 3º qualquer argumento contra o que o chefe diz não é argumento válido.
Evidentemente que não há diálogo possivel perante quem se coloca nessa axiomática.
Cordialmente
PS: Teria sido mais simpático, e mais genuinamente católico, os tais que pregam o amor, ter-me pedido desculpa pelo que assinalei no início do meu 2º parágrafo em # 24, não acha ?
Olá Bernardo,
“Hoje em dia, está na moda, para quem gosta de parecer “moderado”, dizer que o Papa anterior é que era simpático, e que este é o mau da fita. Agem como se ninguém se lembrasse das bordoadas que então davam com gosto no Papa João Paulo II, sempre que este se pronunciava sobre o que quer que fosse.”
Quer queríamos quer não, JP2 era um bom diplomata e era bem mais afável do que Ratzinger, apesar da sua ortodoxia em relação aos temas “fracturantes”. E Ratzinger nem para os seus fiéis é consensual.
Mas tentando ir um bocado ao encontro do que diz, temas como o futebol, mexericos e religião são sempre alvos preferenciais da imprensa tablóide menos séria… Mas quando tem a imprensa dita séria e mesmo diplomatas e ministros a reagir algo de estranho se passa…
“Hoje em dia, nada mudou. Dão-se bordoadas no Papa Bento XVI por qualquer coisa que ele diga. Não por ser Bento XVI, porque também se davam bordoadas em João Paulo II, e em Paulo VI. Dão-se bordoadas porque uma boa parte dos “media” detesta a Igreja Católica e o papel de Papa. E não há quaisquer dúvidas de que muitos profissionais dos “media” têm conseguido imprimir à opinião pública os seus preconceitos ideológicos e as suas esquizofrenias.”
Independentemente das “bordoadas”, não esqueçamos que muita coisa é perdoada ao Papa apenas por ele ser quem é. Mas há sempre gente que defende a ICAR com unhas e dentes, tal como João César das Neves (que não deixa também de ser alvo de bordoadas, mas ao menos ainda dá para rir com ele).
Se um qualquer político fizesse as declarações que Ratzinger fez era bem provável que acabasse a sua carreira. A responsabilidade que um líder como o Papa tem é enorme e qualquer declaração da sua parte influencia milhares. Eu não gosto de politicamente correctos e Ratzinger apenas veio defender a doutrina da ICAR. Tem todo o direito de o fazer, mas que pense primeiro nas consequências. Cá por mim devia era estar calado.
Todas essas campanhas de abstinência e fidelidade são muito bonitas, mas para serem realmente eficientes as pessoas têm de cumpri-las em absoluto. Haverá sempre facadas no matrimónio, casamentos falhados desde o início e outras situações em que haja o recurso a mais do que um parceiro sexual. E se as pessoas não estão preparadas para isso nem informadas acerca dos contraceptivos e educação sexual estaremos perante uma situação potencialmente complicada.
Muita gente não quer ter o mesmo carro durante toda a vida…
Abraço
Fala-se nele e ele aparece!
DN de hoje,
http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1185595&seccao=Jo%E3o%20C%E9sar%20das%20Neves&tag=Opini%E3o%20-%20Geral
Rui Janeiro como está?
Por favor explique-me de qual é o mal do papa dizer que o uso do preservativo agrava os números da Sida se faz favor.
“Por isso é que dizer, como se ouve muito, que a atitude da Igreja condena os africanos à sida não faz o menor sentido. Se as pessoas cumprirem os preceitos da Igreja, vivendo a sua sexualidade na castidade e fidelidade conjugal, eliminam totalmente o risco de contágio. Se violam os preceitos da Igreja na sua vida sexual, caem fora dos limites da moral cristã. Nesse caso porquê ligar a esse detalhe secundário? O elementar bom senso recomenda o preservativo.”
Pois exactamente, o que eu disse..
“PS: Teria sido mais simpático, e mais genuinamente católico, os tais que pregam o amor, ter-me pedido desculpa pelo que assinalei no início do meu 2º parágrafo em # 24, não acha”
O Victor além de não ter argumentos, de não apresentar um único estudo que suporte as suas afirmações ditas científicas, ainda é um ateu moralista. Parece-me uma pessoa um tanto ou quanto confusa.
Caro Vitor,
«Em #3 – e não ponha na minha boca o que eu não disse – demonstro que não há unanimidade nem receptividade entre a comunidade científica da área, ao contrário do que haverá, por exemplo, sobre a Universidade Católica portuguesa, cuja respeitabilidade cientifica não é (que eu saiba) constestada.»
Engraçado… A Ciência nunca progride por unanimidades. Progride quando pessoas sérias desconfiam dos resultados estabelecidos pela maioria, e tentam o progresso. São as revoluções que fazem a ciência avançar. Se o Prof. Green engolisse a opinião da “maioria” e não procurasse olhar para os dados, que tipo de cientista seria? É precisamente porque ele diz algo diferente da maioria que eu o considero interessante, sobretudo considerando que é um homem que estuda este fenómeno há décadas no terreno.
«Em #5 demonstrei, e reconhece-o, que as conclusões da tal comissão não foram subscritas por Paulo VI. Se entende que a decisão de um homem, só e isolado na questão , ao arrepio dos pareceres que solicitou, vincula toda a igreja e todos os católicos, toda a moral e toda a doutrina, só porque ele é papa, será a sua opinião, que eu evidentemente respeito.»
É a opinião acertada de qualquer católico. Qualquer católico reconhece no Papa, qualquer Papa, o pastor moral de toda a Igreja, cuja posição em matéria de moral e doutrina vincula a consciência de todos os católicos, pelo facto de ser posição infalível. E não há nada de extraordinário nisto, pois se um Papa aplicar os ensinamentos de Cristo a qualquer questão moral ou doutrinal nunca falhará. É, obviamente, de Cristo que vem a infalibilidade, e não da pessoa individual de cada papa. É o cargo que confere a infalibilidade, e não os méritos do indivíduo.
«Tal como eu espero que respeite a minha, e de muitos outros, muitissimos outros aliás, católicos e não católicos, de que se trata de uma decisão absurda e idiota, decisão essa que só por si, põe em causa o conceito da infalibilidade papal ao mostrar que afinal o papa é apenas um homem, e que como tal … também erra.»
Para isso, o Vitor teria que provar que Paulo VI errou. Ou acha que não?
O Vitor diz:
1. Paulo VI errou
2. Logo, os papas não são infalíveis
Primeiro, tem que demonstrar que um só (basta um) Papa errou em matéria de doutrina e moral, e então poderá afirmar com triunfo e glória que os Papas não são infalíveis. De facto, a mais elementar lógica dita que, um só Papa errando nestas matérias, a infalibilidade papal cai por terra. Mas, curioso, é preciso DEMONSTRAR que um só Papa errou, nem que seja uma vez, em matéria de doutrina e moral.
«Que não queira ver que tal posição de Paulo VI, agora reafirmada por Bento XVI, com impacto agravado pelo contexto em que o foi, causou uma indignação generalizada a nivel mundial, incluindo no “sentir” católico, não conforme com as teses papais, é, evidentemente, problema seu.»
Aquilo que chama de “indignação do sentir católico” eu chamaria de “indignação do sentir anti-católico”, ou do “sentir pseudo-católico”.
«Mas não me retira o direito de (re)afirmar o que sustentei : foi meramente a decisão de um homem, que por acaso era o chefe, contra a opinião dos que o aconselhavam, e com autoridade para tal, sobre o assunto.»
Eu não lhe retiro direito nenhum, homem. Era só o que faltava. Pode dizer o que lhe apetecer. Daí a ter razão…
«Em #13 e #14 demonstrei o que se passa no terreno do país em causa : guerras e morticinios. Se acha que isso nada lhe diz nem constitui argumento válido para desmistificar a validade do estudo que invoca para sustentar a sua opinião … problema seu.»
Vitor: não é problema meu. É problema do seu raciocínio. Se quer avaliar a eficácia das políticas ugandesas na erradicação da SIDA, e o Uganda tem estatísticas fantásticas (e únicas) nesta matéria, tem que olhar para as medidas, e para a evolução dos números da SIDA nesse país. Ora, se certas medidas, como as de promoção da alteração dos comportamentos, foram acompanhadas de uma redução drástica no número de infectados, o que é que isso nos diz?
Entende que esta é a questão central?
Fala em guerras e morticínios, mas já fez as contas? Veja, no estudo de Green, qual foi a redução no número de infectados, e depois procure ver quantos morreram no Uganda, por outras razões que não a SIDA. E depois, mostre-me que a redução do número de infectados se deve a outras mortes que não de SIDA (guerras, ou outras).
São contas objectivas! Mostre-me que estou errado. Mostre que a redução dos casos de SIDA se deve a outras causas de morte: guerras, morticínios, ou outras. Não atire coisas para o ar sem concretizar.
«“Não gosto de perder tempo com palhaçadas” diz. Olhe que não … olhe que não … !
A prova ? Acreditar puerilmente, sem capacidade de análise crítica autónoma, em tudo aquilo que “o chefe” diz, sem querer ver as causas, as razões, os motivos e os contextos envolventes. Ou acreditar nessa trapalhada de Deus, de Jesus Cristo, da Santissima Trindade, etc etc etc. Porque perde tempo afinal com essas coisas ?»
Vitor, sabe bem que por “palhaçadas” eu me referia aos seus pseudo-argumentos, e não aos temas em questão. Evidentemente, se me interesso por certos e determinados temas é porque lhes dou valor.
«Acredito que a seus olhos os meus argumentos sejam, como diz, “uma trapalhada pseudo-argumentativa”.»
Oh, se são…
«Mas acredite que a meus olhos o que sustenta, quer no artigo que assina quer na réplica que faz, nem sequer é argumento, tais as fragilidades e contradições de que padecem as suas teses, teses que para serem válidas e aceites careciam de ser minimamente demonstradas, o que sintomaticamente não o faz.»
Por favor: leia o artigo do Prof. Green, e indique-me a página e o parágrafo que quer contestar. Indique-me, ESPECIFICAMENTE, que parte do artigo referido é que está cientificamente mal feita. Ajude-me, por favor, e depois vamos ambos enviar um mail para Harvard, para o Prof. Green, para o corrigirmos, de forma a que ele faça, da próxima vez, um artigo mais bem feito.
«Ou será ingénuo ao ponto de acreditar que aceitariam publicar o seu artigo na Science Review ???»
O “seu” artigo, de quem? Agora não percebi.
«A axiomática de alguns católicos, os “fiéis”, é :
- 1º o chefe tem sempre razão.»
Se o Papa for fiel a Cristo, então terá sempre razão em matéria de doutrina e moral. Só nestas matérias. Um Papa não é infalível em política, em matemática, ou em direito internacional.
«- 2º reafirmar o que o chefe diz é ter-se razão.»
Evidentemente que se o Papa está certo em matéria de doutrina e moral, quem concorda com ele também está certo nestas matérias.
«- 3º qualquer argumento contra o que o chefe diz não é argumento válido.»
Evidentemente, se o Papa está certo ao afirmar uma proposição P, então quem afirmar o seu contrário, ou seja, ~P, estará errado: lógica elementar.
«Evidentemente que não há diálogo possivel perante quem se coloca nessa axiomática.»
Há sempre diálogo, desde que as pessoas saibam as regras básicas da argumentação, dominem os princípios fundamentais da lógica, e procurem sinceramente a verdade, detestando o erro.
«PS: Teria sido mais simpático, e mais genuinamente católico, os tais que pregam o amor, ter-me pedido desculpa pelo que assinalei no início do meu 2º parágrafo em # 24, não acha ?»
Não sei. Não percebi a sua queixa. Mas, evidentemente, se nalguma situação procedi mal para consigo, então terei que me retrair. Mas não vejo onde. Note que a minha irritação é para com os seus erros, e para a forma como o Vitor apresenta argumentos falaciosos. Não tenho qualquer razão para me irritar com a sua pessoa, que não tenho o prazer de conhecer.
Cumprimentos,
Bernardo
Caríssimo Rui,
«Quer queríamos quer não, JP2 era um bom diplomata e era bem mais afável do que Ratzinger, apesar da sua ortodoxia em relação aos temas “fracturantes”. E Ratzinger nem para os seus fiéis é consensual.»
Depende do que se quer num Papa.
Tomemos um exemplo: de um palhaço, ou de um comediante, eu espero que ele me faça rir.
De um Papa, eu espero um pastor moral que sirva de alerta para os erros éticos e morais, e que me ajude a ser uma melhor pessoa, transmitindo-me os ensinamentos que, por via apostólica, recebeu de Cristo.
Nesta matéria, não tenho parado de aprender com a obra de Bento XVI, que já era grande quando ele ainda não era Papa.
Para além de Papa, Bento XVI é um grande filósofo, um estudioso incansável, e um escritor talentoso.
Evidentemente, nestes tempos de grande superficialidade, muitas pessoas (mesmo católicas), aderem à ideia de que é preciso um “papa super-star”, e vêm para os microfones dizer que João Paulo II é que era simpático, e coisa e tal… O Papa não tem que ser um “entertainer”, nem tem que ser uma figura com carisma, nem tem que ser elegante ou divertido.
Para além de ser um juízo muito injusto que se faz a Bento XVI, porque poucos se deram sequer ao trabalho de tentar conhecer o homem na cadeira de Pedro, é uma forma muito “light” de ver as coisas e as pessoas.
«Mas tentando ir um bocado ao encontro do que diz, temas como o futebol, mexericos e religião são sempre alvos preferenciais da imprensa tablóide menos séria… Mas quando tem a imprensa dita séria e mesmo diplomatas e ministros a reagir algo de estranho se passa…»
Mas Rui, isso não espanta nada. A esmagadora maioria da elite intelectual europeia defende uma moral arruinada. Eu diria mesmo que a moral está em crise na intelectualidade das nossas elites políticas, diplomáticas, governamentais. A moral desses diplomatas e desses ministros é radicalmente antagónica à moral que o Papa defende, que é a moral cristã de sempre, a moral que estruturou esta Europa que agora quer cortar as suas raízes.
Um pouco como dizia Chesterton, o homem moderno está tão desesperado por arrancar a mitra da cabeça da Europa, que corre o risco de a cabeça vir atrás.
Por isso, não se passa nada de estranho. Os mesmos políticos e diplomatas que não vêem qualquer problema no aborto, no sexo homossexual, na entrega de crianças a homossexuais, na destruição de embriões humanos para pesquisas científicas, na mistura entre células Homo Sapiens e células de outros animais, são os mesmos que não entendem a moral defendida pelo Papa.
Obviamente, quem está mal são os ditos, e não o Papa, que apenas afirma o que a Igreja sempre afirmou, e que deriva do que Cristo ensinou.
«Independentemente das “bordoadas”, não esqueçamos que muita coisa é perdoada ao Papa apenas por ele ser quem é.»
Ao dizer “perdoada”, dás a impressão de que o Papa cometeu erros que necessitam de perdão público.
De que erros falas? O (presumido) erro de expressar uma opinião e de ensinar uma doutrina, ou outro erro diferente?
«Mas há sempre gente que defende a ICAR com unhas e dentes, tal como João César das Neves (que não deixa também de ser alvo de bordoadas, mas ao menos ainda dá para rir com ele).»
É (muito) raro eu discordar do que ele escreve. Pena é que sejam poucos os corajosos para enfrentar o “establishment”.
«Se um qualquer político fizesse as declarações que Ratzinger fez era bem provável que acabasse a sua carreira.»
O Papa não é um político.
«A responsabilidade que um líder como o Papa tem é enorme e qualquer declaração da sua parte influencia milhares.»
Sem dúvida. Não posso concordar mais com esta tua frase.
«Eu não gosto de politicamente correctos e Ratzinger apenas veio defender a doutrina da ICAR.»
Claro que veio defender a doutrina cristã: é para isso que ele foi eleito pelos cardeais!!
E quase nada do que o Papa diz é politicamente bem visto hoje em dia: salva-se talvez as afirmações da Igreja sobre ecologia…
«Tem todo o direito de o fazer, mas que pense primeiro nas consequências. Cá por mim devia era estar calado.»
Bom, para que serve um Papa calado?
Entendes que para um católico, um Papa calado é uma contradição nos termos?
Eu sei que isto é complicado de entender, mas eu tenho um orgulho imenso no Papa Bento XVI, pelo que ele diz, pelo que ele ensina, pelos seus gestos concretos, pela coerência da sua vida, pela sua imensa cultura. E estou longe de estar sozinho.
«Todas essas campanhas de abstinência e fidelidade são muito bonitas»
Mais do que bonitas, são verdadeiras. Aliás, só o verdadeiro é bonito. A mentira é feia que dói. A verdade das verdades é que o homem e a mulher foram feitos para terem um domínio sobre a sua sexualidade, e não para serem escravos dela. Foram feitos para a plena realização das suas vidas, em todas as áreas da vida.
« mas para serem realmente eficientes as pessoas têm de cumpri-las em absoluto.»
Ora bolas: isso é um truísmo. Para que a minha vida seja realmente plena e estimulante, como cristão, tenho que cumprir em absoluto os princípios que norteiam a minha vida.
«Haverá sempre facadas no matrimónio, casamentos falhados desde o início e outras situações em que haja o recurso a mais do que um parceiro sexual.»
Bom, mas isso é mesmo que dizer que haverá sempre roubos e assassinatos, como se isso fosse uma coisa porreira. É evidente que o cristão tem uma visão positiva: acredita que o homem e a mulher são pessoas capazes do bem e de se superarem todos os dias da sua vida. Contra um ambiente depressivo e traumatizado, contra uma anti-moral do “desiste”, o cristão responde com uma tremenda confiança no ser humano.
«E se as pessoas não estão preparadas para isso nem informadas acerca dos contraceptivos e educação sexual estaremos perante uma situação potencialmente complicada.»
Tudo o que mete o bicho homem é uma situação potencialmente complicada. Se viver moralmente fosse fácil, não havia mal no mundo que fosse praticado por humanos.
«Muita gente não quer ter o mesmo carro durante toda a vida…»
Cá está de novo, Rui, a tal visão pequenina e destrutiva do ser humano. A pessoa com quem escolhemos viver toda a nossa vida não é um “carro” ou um objecto. É, ao contrário disso, a pessoa a quem decidimos entregar a nossa vida de forma gratuita, para nos realizarmos, e para levarmos essa pessoa à realização.
A tua frase mostra às claras a visão possessiva que ela acarreta em matéria de relacionamentos humanos. Ora Cristo ensinou que o Amor deve ser a balança pela qual se regem as relações humanas, e o amor nunca pode ser possessivo sem se auto-destruir. Um marido, ou uma mulher, não é uma posse: são pessoas.
Ao ler estas coisas, cada vez mais me convenço de que o cristianismo demonstra, todos os dias, ser a única doutrina que fala a verdade sobre o ser humano, e que nos mostra o caminho para atingirmos o máximo do nosso potencial humano.
Um abraço,
Bernardo
Bom dia a todos,
gosto sempre de ouvir crentes a “dar tareia” na comunicação, porque convenhamos, utilizam os media a seu belo prazer, depois quando não lhes convem, já são meios de propaganda!
São mesmo meios de propaganda, cheios de inverdades e notícias sensacionalistas!
E por isso é que as media não deixam o santo padre, porque a religião continua a vender e a aumentar o share!!
Os meios dee comunicçao social funcionam assim, mas faz-vos bem provar do p´roprio veneno! manipuilador de opiniao!
Quanto às afirmações ” a utilização do preservativo aumenta a propagaão da sida”…
Talvez o sr papa, devesse passar dois meses a visitar países em Africa, mudava de opinião que era um instante, quando visse o numero de pessoas que morrem por dia!
Sejamos razoaveis, sabemos que em politicas de intervenção ” a proibição” não resolve absolutanmente nada!
Cumprimentos,
Ana
Ana e desde quando é que o papa disse que a alternativa a não usar preservativo era fazer sexo desprotegido com vários parceiros (que é o que as pessoas fazem).
Se as pessoas querem seguir o caminho de diversos parceiros, aí sim que usem o preservativo, já vários padres tornaram isso claro.
E é possível que o uso do preservativo de certo modo aumente os números da sida… não se sabe a sua verdadeira eficácia, para além de como já foi referido dá uma falsa sensação de absoluta segurança, o que pode aumentar a “rodagem” de parceiros.
Agora é óbvio que não vai passar pela cabeça de ninguém que o sexo desprotegido é mais seguro….”ah e tal o papa diz que o preservativo aumenta a sida, portanto vamos fazer o mesmo mas sem protecção! e até calha bem porque o prazer é maior”..
Ana, porque raio é que pensa que o Papa não sabe o que se passa em África?
O que o Santo Padre disse foi simplesmente que o problema não se revolve mandado apenas dinheiro e preservativos para África. Isso é um facto evidente, já que têm sido a estratégia que o Ocidente, por descargo de consciência hipócrita, tem feito e até agora a SIDA está a aumentar não a diminuir.
Já no Uganda, a experiência do programa ABC mais que aprovada pela Igreja, que aposta numa educação para a sexualidade e só em último caso preservativo têm tido sucesso.
João Ribeiro
“Por favor explique-me de qual é o mal do papa dizer que o uso do preservativo agrava os números da Sida se faz favor.”
Como pessoa influente e mediática que é pode estar a deitar por terra as campanhas levadas a cabo em África para reduzir os números da SIDA. A ideia que fica é que o preservativo não é eficiente para lutar contra a epidemia. E como representa uma instituição que defende que não deve ser usado em qualquer caso, mesmo quando um dos cônjuges está infectado, oferecendo a castidade como alternativa…
Olá Bernardo,
“Mas Rui, isso não espanta nada. A esmagadora maioria da elite intelectual europeia defende uma moral arruinada. Eu diria mesmo que a moral está em crise na intelectualidade das nossas elites políticas, diplomáticas, governamentais. A moral desses diplomatas e desses ministros é radicalmente antagónica à moral que o Papa defende, que é a moral cristã de sempre, a moral que estruturou esta Europa que agora quer cortar as suas raízes.”
É certo que há uma crise de valores. E também é certo que a Europa e o mundo ocidental têm muita influência dos valores judaico-cristãos. Agora resta saber o que é que se aproveita dessa moral que estruturou a Europa…
“Por isso, não se passa nada de estranho. Os mesmos políticos e diplomatas que não vêem qualquer problema no aborto, no sexo homossexual, na entrega de crianças a homossexuais, na destruição de embriões humanos para pesquisas científicas, na mistura entre células Homo Sapiens e células de outros animais, são os mesmos que não entendem a moral defendida pelo Papa.”
Os outros serão os conservadores e democratas cristãos mais à direita, imagino…
“Ao dizer “perdoada”, dás a impressão de que o Papa cometeu erros que necessitam de perdão público. De que erros falas? O (presumido) erro de expressar uma opinião e de ensinar uma doutrina, ou outro erro diferente?”
Quando digo perdoada é pelo facto de nem sempre ter as devidas consequências para um teórico “infractor”. E nem falo só do Papa. Clérigos de todo o tipo e credo debitam barbaridades em horário nobre muitas vezes sem o devido tratamento da imprensa. Não falo de erros, mas de opiniões.
“O Papa não é um político.”
Então a ICAR deve-se meter na política ou em assuntos de Estado?
“Bom, para que serve um Papa calado?
Entendes que para um católico, um Papa calado é uma contradição nos termos?
Eu sei que isto é complicado de entender, mas eu tenho um orgulho imenso no Papa Bento XVI, pelo que ele diz, pelo que ele ensina, pelos seus gestos concretos, pela coerência da sua vida, pela sua imensa cultura. E estou longe de estar sozinho.”
Claro que ele pode dizer o que entender. Quando refiro calado é apenas pelo facto de que não devia ter proferido as afirmações que fez em relação ao preservativo. Ele pode pensar o que bem entender, mas podia ter pensado um bocado pois as consequências das suas palavras podem, em teoria, ser graves.
“Ora bolas: isso é um truísmo. Para que a minha vida seja realmente plena e estimulante, como cristão, tenho que cumprir em absoluto os princípios que norteiam a minha vida.”
Mas nem todos as cumprem. Outros, pelos mais diversos motivos, nem querem.
“Bom, mas isso é mesmo que dizer que haverá sempre roubos e assassinatos, como se isso fosse uma coisa porreira. É evidente que o cristão tem uma visão positiva: acredita que o homem e a mulher são pessoas capazes do bem e de se superarem todos os dias da sua vida. Contra um ambiente depressivo e traumatizado, contra uma anti-moral do “desiste”, o cristão responde com uma tremenda confiança no ser humano.”
Uma coisa é ser pessimista, outra é ser realista. Há quem desista demasiado cedo, há quem viva a pensar que devia ter desistido mais cedo…
“Cá está de novo, Rui, a tal visão pequenina e destrutiva do ser humano. A pessoa com quem escolhemos viver toda a nossa vida não é um “carro” ou um objecto. É, ao contrário disso, a pessoa a quem decidimos entregar a nossa vida de forma gratuita, para nos realizarmos, e para levarmos essa pessoa à realização.”
Agora pegue-se na realidade. Taxa de divórcios, gente que casa mas que gosta de andar “à caça”… E não é diferente entre os casamentos católicos.
“A tua frase mostra às claras a visão possessiva que ela acarreta em matéria de relacionamentos humanos.
Ora Cristo ensinou que o Amor deve ser a balança pela qual se regem as relações humanas, e o amor nunca pode ser possessivo sem se auto-destruir. Um marido, ou uma mulher, não é uma posse: são pessoas.”
Mas claro que não são uma posse. Apenas me custa a entender como é que, por exemplo, uma pessoa ou instituição que seja contra o divórcio não veja um cônjuge como propriedade do outro.
Abraço,
RJ
Caros senhores,
O link deste artigo foi-me enviado por um conhecido, desconhecia o site. Agradou-me bastante o artigo mas não posso deixar de sublinhar um ponto importantíssimo que apenas foi referido num comentário, o programa ABc http://www.usaid.gov/our_work/global_health/aids/News/abcfactsheet.html
Este programa é apoiado pela Igreja e é o mais claro exemplo do que o discurso do Papa realmente significa. O acrónimo ABc significa: “Abstinence” mas se tal não for possível “Be faithful” e se tal não for possível “contraception”, a Igreja não condena em particular o uso do preservativo nem lhe atribui a responsabilidade pelo aumento dos casos de HIV/SIDA, condena isso sim a atitude de desresponsabilização das campanhas que o apontam como solução. O c minúsculo sublinha bem este facto, a contracepção não é a solução do problema, é um último recurso.
Antes de entrar por argumentações baseadas na religião há que procurar informação e sobretudo ter bom senso! Um infectado pelo vírus tem obviamente de ser cuidadoso e quando expõe um parceiro/parceira ao risco não está de todo a sê-lo, a questão não é se usa preservativo ou não, é a atitude que está a ter. E é mesmo possível não “saltar” o A e o B e ir logo ao c? É para isso que o programa serve, para que tal não aconteça.
Basta consultar os resultados do programa e compara-los com os outros para constatar que este é francamente mais eficaz.
É inútil discutir afirmações sem avaliar as acções, reitero o meu convite para que se informem acerca do programa e já agora leiam o discurso do Papa e não se cinjam aos “sound bytes” como li nalgum comentário.
Por último recomendo a leitura da entrevista a Rose Busingye “que dirige o Meeting Point de Kampala, um lugar de renascimento para 4 mil pessoas, entre doentes e órfãos, que de outro modo estariam condenados a viver no silêncio e no abandono o destino dos marcados pelo HIV.”
http://www.pucsp.br/fecultura/textos/amor_humano/aprender_amar.html
Melhores cumprimentos,
FVG
FVG,
Não tenho a certeza, mas penso que a Igreja tolera, de facto, o método ABC, pelo menos em alguns países do continente africano.
Depois da abstinência e da fidelidade, vem, então o preservativo.
Infelizmente, até se perceber que a principal causa e verdadeiro raiz do problema da SIDA é a promiscuidade e que a verdadeira e única solução é a mudança de mentalidades e comportamentos, com a adopção de comportamentos sensatos e dignificantes do ser humano (a fidelidade, por exemplo), penso que é preciso remediar com o preservativo.
Eu, como enfermeiro, não posso negar (nem, em consciência o faria) um preservativo que fosse, a alguém infectado, ou com risco de infecção. No entanto, cabe-me também a mim alertar essas pessoas para os comportamentos de risco, para a mudança desses comportamentos e que o preservativo não resolve, por si só, o problema da SIDA. Agora, enquanto não se perceber isso, é um acto criminoso negar o preservativo a alguém infectado.
Mesmo sendo católico, como enfermeiro é impensável insurgir-me de uma maneira tão radical contra o preservativo.
Há pessoas que sofem muito com este problema. Afinal, este é o mundo real e nós vivemos nele…
O que escrevi não põe nada disso em causa, concordo plenamente consigo mas a questão é que o programa não se baseia nisso (preservativo como solução). A Igreja não nega o uso de preservativo nas condições em questão, mas apenas admite o seu uso em condições excepcionais (em coerência com o programa). O problema não é o preservativo, é o facto de se estar a expor alguém a doença. Não me parece que a Igreja se insurja contra o preservativo (continuo a cingir-me a este caso específico), acho que se insurge contra a ideia que é através ele que se limita o contágio. Como em todos as parábolas há que saber ter vistas largas, os ensinamentos de Jesus Cristo são muito abrangentes e na minha opinião têm fundamentos que se traduzem em factos concretos na nossa vida, o problema é que nem sempre são fáceis de atingir.
http://www.worldvision.org/aoa.nsf/0783167f5da26bf6872570a200775036/c88dc4aa3b4ef1ba8825733e001217c5/$FILE/The%20ABC%20Approach.pdf
Cumprimentos,
Concordo inteiramente consigo, FVG. Percebi o seu ponto de vista.
Um abraço
Cara Ana Valente,
«Talvez o sr papa, devesse passar dois meses a visitar países em Africa, mudava de opinião que era um instante, quando visse o numero de pessoas que morrem por dia!»
A Igreja Católica é a ONG com mais presença em África, com mais anos de trabalho, com mais experiência de terreno. Os “media” calaram um facto: o Papa foi a África levar o documento de preparação para o próximo Sínodo Africano (em Novembro próximo). Traduzido em miúdos, trata-se de um documento sobre África que demorou 15 anos a ser preparado. Se alguém conhece África, é o Papa e a Igreja.
Isto é um facto objectivo, Ana. Escrever uma frase como a sua é demonstrar uma completa falta de conhecimento acerca deste facto objectivo.
Se calhar, pessoas como a Ana é que deveriam passar dois meses em África para ver a acção católica por todo o continente. Não leve isto como insulto pessoal, mas sim como chamada de atenção: antes de se lançarem frases bombásticas, mesmo num blogue, há que ver se correspondem à realidade, e não ao espelhar de preconceitos.
Cumprimentos,
Bernardo
João, mais do que tolerar a Igreja incentiva o plano ABC, que foi feito com a ajuda da conferência episcopal ugandesa…
Olá Rui,
As minhas desculpas pela demora: só hoje vi o teu comentário.
«É certo que há uma crise de valores. E também é certo que a Europa e o mundo ocidental têm muita influência dos valores judaico-cristãos. Agora resta saber o que é que se aproveita dessa moral que estruturou a Europa…»
Eu espero que se aproveite muito. Essa moral realmente estruturou a Europa, e dela partiu para o mundo inteiro. Há poucos recantos do mundo que estejam “intactos”, sem contacto com esses valores judaico-cristãos.
«Os outros serão os conservadores e democratas cristãos mais à direita, imagino…»
Rui: o discurso “conservador” vs. “progressista” está um bocado ultrapassado. Como dizia o Chesterton, há um século atrás, o objectivo dos progressistas é cometer erros, e o objectivo dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. É assim que eu penso. Para além disso, o que é que resta da democracia cristã? Em Portugal, desapareceu, e também um pouco por toda a Europa.
Eu, como português cristão, e digo-te com toda a sinceridade, nunca sei em quem votar.
«Quando digo perdoada é pelo facto de nem sempre ter as devidas consequências para um teórico “infractor”. E nem falo só do Papa. Clérigos de todo o tipo e credo debitam barbaridades em horário nobre muitas vezes sem o devido tratamento da imprensa. Não falo de erros, mas de opiniões.»
Bom, mas concordas que “barbaridades” é uma palavra tua, que deriva da tua opinião, certo?
«Então a ICAR deve-se meter na política ou em assuntos de Estado?»
Penso que nunca é demais tentar desfazer estes equívocos: uma Igreja calada não é Igreja.
Explico de forma sintética: a figura do padre, do bispo, do Papa, é a do “pastor de almas”, de quem tem que zelar pela pedagogia da moral.
Agora, o que é a moral? É a recta conduta do ser humano.
Logo, tudo o que o ser humano faz cai na esfera da moral, logo cai na área de responsabilidade de qualquer pastor cristão.
Evidentemente, isto não implica, nem deve implicar, o alinhamento da Igreja com qualquer partido político. Duvido mesmo que isso seja possível: mesmo na Polónia, várias posições do partido político dominante têm sido criticadas pela Igreja. A Igreja gosta pouco de se meter com políticos, mesmo que ditos “conservadores”. A Igreja tem aprendido muito com os perigos da proximidade entre “pastor” e “político”. Nota, por exemplo, que a Igreja não autoriza que padres ou bispos assumam cargos políticos.
«Claro que ele pode dizer o que entender. Quando refiro calado é apenas pelo facto de que não devia ter proferido as afirmações que fez em relação ao preservativo. Ele pode pensar o que bem entender, mas podia ter pensado um bocado pois as consequências das suas palavras podem, em teoria, ser graves.»
Mas dizer a verdade é um erro?
Dizer aquilo que corresponde à realidade é um erro?
Era melhor mentir?
«Mas nem todos as cumprem. Outros, pelos mais diversos motivos, nem querem.»
Bom, mas isso é normal.
Não cumprir um objectivo que nos propusemos cumprir é, afinal de contas, resultado das nossas limitações humanas: nem sempre conseguimos fazer o que queremos, como queremos.
Os que “nem querem” cumprir são hipócritas. Também os há.
«Uma coisa é ser pessimista, outra é ser realista. Há quem desista demasiado cedo, há quem viva a pensar que devia ter desistido mais cedo…»
Mas Rui, eu acho que a visão do cristianismo é eminentemente realista. Ela sabe bem que somos imperfeitos, e por isso, acolhe o pecador (todos somos pecadores), mas ao mesmo tempo, mete à frente dos nossos olhos uma meta não inferior à santidade: Cristo. É realmente humano, ao mais alto nível, dar-nos um horizonte de plenitude, e acolher-nos quando ficamos aquém desse horizonte.
Outras sugestões são tontas e pseudo-realistas: ou não dar horizonte nenhum, ou dar um falso horizonte, ou não ter misericórdia por quem fica aquém desse horizonte.
Não dar qualquer horizonte não é ser realista, é ser tonto.
«Agora pegue-se na realidade. Taxa de divórcios, gente que casa mas que gosta de andar “à caça”… E não é diferente entre os casamentos católicos.»
OK: e à conta da imperfeição humana, deve-se alterar o ideal?
É isso que eu considero a suprema tontice: o ser humano tem dificuldades em seguir o ideal: muda-se o ideal?
Um exemplo: quero ir de Lisboa ao Porto. Tenho a A1 cortada. Desisto de ir ao Porto, ou procuro um caminho alternativo?
O cristão sabe que quer a realização plena da sua pessoa. Vai desistir desse ideal, só porque tropeça e cai no caminho?
A “desistência” é que é realista?
Ora bolas…
Nunca percebi porque é que se critica a moral cristã só porque as pessoas tropeçam e caem no seu caminho em direcção a ela. A direcção é má, por acaso?
O caminho é que é difícil. A “porta” é que é estreita. Mas por acaso é uma má “porta”?
«Mas claro que não são uma posse. Apenas me custa a entender como é que, por exemplo, uma pessoa ou instituição que seja contra o divórcio não veja um cônjuge como propriedade do outro.»
A visão cristã é o oposto de uma visão de posse. O marido dá-se à sua mulher. A mulher dá-se ao seu marido. E, no entanto, ninguém é “dono” do outro. Porque “dono” é quem mantém o seu “eu” juntamente com outra coisa sua propriedade. Ora se ambos dão o seu “eu” ao outro, não há “donos” na equação.
O matrimónio é a visão do ser humano completo, homem e mulher, e é a materialização biológica, psicológica e espiritual do amor como união e dádiva total.
Abraço,
Bernardo
Bom dia!
“As minhas desculpas pela demora: só hoje vi o teu comentário.”
Eu já nem me lembrava e só vi a resposta hoje de madrugada
“Eu, como português cristão, e digo-te com toda a sinceridade, nunca sei em quem votar.”
Há um partido que se afirma como tal. O maior partido da Europa é coligação entre democratas cristãos e conservadores.
“Bom, mas concordas que “barbaridades” é uma palavra tua, que deriva da tua opinião, certo?”
Exacto. E vice-versa.
“A Igreja gosta pouco de se meter com políticos, mesmo que ditos “conservadores”.”
Não me parece e ao longo da história tal não tem acontecido. América Latina, Croácia, Europa de Leste, Espanha Franquista, Portugal Salazarista…
“Mas dizer a verdade é um erro? Dizer aquilo que corresponde à realidade é um erro? Era melhor mentir?”
É irresponsável e é intencional. A doutrina defende o sexo apenas após o casamento com uma pessoa apenas. Em África com a taxa de DST que há denegrir o uso do preservativo é contribuir para que haja mais infectados. Independentemente de ter razão ou não, o que JR disse é criminoso. Cá para mim nem se preocupa com as pessoas infectadas, está-se completamente nas tintas e apenas está interessado em que o rebanho cumpra o que ele manda.
O que me espanta é que muito clérigo diz a coisa como se fosse aplicada a todos. Em vez de dizerem que “não se deve usar o preservativo por este ou aquele motivo” deviam dizer que “a doutrina da ICAR considera que usar o preservativo é imoral e os fiéis devem preocupar-se em cumprir isso”. Atacar com argumentos de que a distribuição não funciona e que o vírus é suficientemente pequeno para atravessar os poros do látex parece-me algo tendencioso e fruto de alguma raiva.
“OK: e à conta da imperfeição humana, deve-se alterar o ideal? É isso que eu considero a suprema tontice: o ser humano tem dificuldades em seguir o ideal: muda-se o ideal?”
Depende. Há coisas inocentes e outras muito mais graves. O adultério ainda é criminalizado em alguns países. Outros nem possibilitam o divórcio.
“Um exemplo: quero ir de Lisboa ao Porto. Tenho a A1 cortada. Desisto de ir ao Porto, ou procuro um caminho alternativo?”
Há sempre a auto-estrada do litoral… (just kidding)
“O cristão sabe que quer a realização plena da sua pessoa. Vai desistir desse ideal, só porque tropeça e cai no caminho?”
Depende das mazelas e do que uma pessoa está disposta a aturar. Pode tropeçar todos os dias, pode ter um tropeção de vez em quando… Achas que há gente que está para desperdiçar a vida? Eu não…
“A visão cristã é o oposto de uma visão de posse. O marido dá-se à sua mulher. A mulher dá-se ao seu marido. E, no entanto, ninguém é “dono” do outro.”
Um casal não se pode entregar um ao outro numa vida de comunhão até que a morte os separe sem estarem casados? O facto dos opositores à nova lei do divórcio virem de sectores católicos, estando nomeadamente contra o divórcio unilateral não vai ao encontro de uma lógica “apenas até que a morte vos separe”?
Abraço,
RJ
Rui,
«Eu já nem me lembrava e só vi a resposta hoje de madrugada »
Bom: idem para mim. Só agora li a tua resposta.
«Há um partido que se afirma como tal. O maior partido da Europa é coligação entre democratas cristãos e conservadores.»
Em Portugal, não há nenhum partido cristão. Em tempos, houve: era o CDS.
«Não me parece e ao longo da história tal não tem acontecido. América Latina, Croácia, Europa de Leste, Espanha Franquista, Portugal Salazarista…»
Uma análise atenta aos casos que referes mostra:
a) simpatias inegáveis entre leigos e clero local por esses políticos
b) censura e repreensão por tal, emanada da Santa Sé
É um fenómeno típico: as estruturas locais procuram os “amigos” errados na política do seu país. A Santa Sé, cuja responsabilidade não é a política local, mas sim a salvação das almas, “puxa” as orelhas. É preciso ter cuidado, quando falas em “a Igreja”. É certo e sabido, só para ir buscar o nosso caso português, que a igreja em Portugal simpatizou, em larga escala, com Salazar. Por outro lado, é sabido que a antipatia da Santa Sé pelo ditador português não era escondida. Devias ver, por exemplo, a grave disputa da Santa Sé com Salazar sobre a nomeação dos bispos (Salazar queria “herdar” algo semelhante ao antigo beneplácito régio) e sobre a grave questão do Padroado das Índias. Salazar, antes de ser cristão, era um Chefe de Estado autoritário. Ele nunca colocou o cristianismo acima disso, e como concordarás, isso é algo incompatível com a doutrina cristã, que diz que se deve ser cristã acima de tudo, mesmo acima de cargos altos de Estado. Sugiro a obra do Bruno Cardoso Reis, “Salazar e o Vaticano”. Mas o caso de Salazar repete-se noutros países autoritários, nos quais algum clero local apoiava políticos no poder, e era repreendido pela Curia Romana.
«É irresponsável e é intencional. A doutrina defende o sexo apenas após o casamento com uma pessoa apenas. Em África com a taxa de DST que há denegrir o uso do preservativo é contribuir para que haja mais infectados.»
Altamente duvidosa, esta tua tese. Eu sei que é a tese que está na moda, mas nem sequer é lógica.
Evidentemente, o problema da disseminação da SIDA é comportamental. Se tenho sexo de risco, com grande frequência, fora do casamento, com múltiplos parceiros, ajudo a propagar a SIDA, mesmo que use preservativo. O preservativo tem que ser bem usado. Como sabes, o uso correcto do preservativo aumenta a sua eficácia. Mas se aumentares os comportamentos de risco (mesmo com preservativo), aumentas o número de situações de possível contágio. É simples estatística.
Se fosse impossível usar um preservativo mal usado, terias razão.
Se o preservativo fosse uma protecção tão simples e segura que fosse impossível usá-lo mal e ele fosse 100% eficaz na protecção da SIDA, então seria uma peça essencial na equação.
Mas o preservativo, em África, também é usado para evitar gravidezes, e num contexto de adultério e múltiplos parceiros sexuais. Nesse sentido, o preservativo é um “conforto” para quem não é fiel nem sexualmente responsável. O preservativo aumenta uma sensação de confiança, que por sua vez, aumenta o número de relações sexuais.
O preservativo pode ser muito bom, num caso isolado de sexo entre uma pessoa infectada e outra não infectada. Mas se a pessoa infectada aumenta, graças ao preservativo, a sua actividade sexual com múltiplos parceiros, aumenta a probabilidade de, numa dessas vezes, usar mal o preservativo.
É mesmo uma questão de estatística, e há que não viciar os números. É como as mortes na estrada: é bom ter carros seguros, topo de gama, com ABS. Em caso de despiste, esses carros protegem-me. Mas bom, bom, é andar devagar na estrada: evitar os comportamentos de risco. Foi o que o Papa disse. Andar a 200 à hora só porque o carro é bom pode aumentar o número de mortes na estrada. Foi nesse sentido que o Papa disse que a disseminação de preservativos, porque aumenta as ocasiões de contágio, pode ser contraproducente e agravar o fenómeno.
Os responsáveis máximos do combate à SIDA na África do Sul disseram várias vezes que estão saturados de campanhas de preservativos, que há décadas o fenómeno da SIDA só tem agravado nesse país. Penso que, décadas passadas de distribuir preservativos em massa, era interessante experimentar abordagens comportamentais, ou não?
«Independentemente de ter razão ou não, o que JR disse é criminoso.»
É criminoso dizer a mais pura das verdades?
Não compreendo esta lógica.
«Cá para mim nem se preocupa com as pessoas infectadas, está-se completamente nas tintas e apenas está interessado em que o rebanho cumpra o que ele manda.»
Rui: o que conheces de Joseph Ratzinger para intuires esses sentimentos tão negativos da sua parte?
Conheces-lhe o feitio, para dizeres que ele é cruel e calculista como afirmas?
Que ele se está nas tintas para os africanos?
Numa missa campal em Angola, morreram duas adolescentes angolanas, esmagadas pela multidão.
Em qualquer comício político, a questão era “silenciada” para não estragar “o ambiente”.
O Papa, muito entristecido, fez questão de “estragar” o momento mediático para recordar e rezar pelas duas raparigas, dizendo com imensa tristeza que elas “morreram porque me queriam ver”. Isto diz tudo sobre quem é este Papa.
«O que me espanta é que muito clérigo diz a coisa como se fosse aplicada a todos. Em vez de dizerem que “não se deve usar o preservativo por este ou aquele motivo” deviam dizer que “a doutrina da ICAR considera que usar o preservativo é imoral e os fiéis devem preocupar-se em cumprir isso”.»
A Igreja diz ambas as coisas. Que usar o preservativo é imoral (algo que só será tido em conta por quem partilha da sua moral), mas também diz que o uso do preservativo agrava o problema da SIDA, o que corresponde à mais pura das verdades científicas e estatísticas.
«Atacar com argumentos de que a distribuição não funciona e que o vírus é suficientemente pequeno para atravessar os poros do látex parece-me algo tendencioso e fruto de alguma raiva.»
Essa argumentação foi deixada de parte. Não me vês a usá-la, e não foi esse o argumento defendido por Bento XVI. Esse argumento do tamanho dos poros do latex foi usado por certas pessoas com responsabilidade na Curia Romana, há uns anos atrás, e foram muito contestados, mesmo dentro da Igreja. A Igreja é feita de pessoas, e certas pessoas têm, por vezes, reacções individuais que podem estar erradas.
«Depende. Há coisas inocentes e outras muito mais graves. O adultério ainda é criminalizado em alguns países. Outros nem possibilitam o divórcio.»
Tanto o adultério como o divórcio são imorais.
Eu não digo que se deva ter moldura penal para esses comportamentos, mas é inegável que eles afectam o tecido social e fragilizam as estruturas familiares. A família é, e continuará sempre a ser, a célula elementar de sustento de uma sociedade e de estruturação da formação do indivíduo. É defensável querer tomar medidas para minimizar o adultério e o divórcio, porque ambos são nocivos para a sociedade. Insisto: não digo que devemos fazer disso crime, mas certamente não devemos promovê-los (como o PS fez, ao instituir o injusto “divórcio na hora”).
«Depende das mazelas e do que uma pessoa está disposta a aturar. Pode tropeçar todos os dias, pode ter um tropeção de vez em quando… Achas que há gente que está para desperdiçar a vida? Eu não…»
A vida é desperdiçada quando se procura atingir um ideal?
«Um casal não se pode entregar um ao outro numa vida de comunhão até que a morte os separe sem estarem casados?»
O que é que queres dizer com “casados”?
Essa entrega é um compromisso formal, assumido publicamente, perante a sociedade. Eu não me casei em segredo com a minha mulher, assumi um compromisso formal e público. Isso é o casamento. Seja na Igreja ou não, o casamento é um compromisso de homem e mulher perante a sociedade. A figura jurídica do casamento é precisamente o reconhecer de uma realidade social: aquele homem e aquela mulher, a partir de agora, são um casal entregue um ao outro de forma estável e duradoura.
«O facto dos opositores à nova lei do divórcio virem de sectores católicos, estando nomeadamente contra o divórcio unilateral não vai ao encontro de uma lógica “apenas até que a morte vos separe”?»
Rui: o divórcio unilateral, de que falas, é uma aberração socialista, que consiste em remover o conceito de culpa. Isso é tremendamente injusto: um tipo farta-se da mulher e dos filhos, e pisga-se com a secretária para as Maldivas. Não tem que dar tornas à mulher, porque ao abrigo da nova lei, nenhum tribunal português pode atribuir a essa besta qualquer tipo de culpa. Ou seja, a lei antiga via o salafrário como alguém que faltou aos compromissos contratuais implicados no casamento. Agora, é indiferente. Ele pode pisgar-se. E sabes que mais? A lei antiga previa, ao abrigo do conceito de culpa (quem se pisgava era o culpado, por falhar ao compromisso matrimonial), que o tipo tinha que manter o nível de vida da mulher e dos filhos. Agora, não é assim. Suponhamos que ambos auferem 50% dos rendimentos do casal. Ele pisga-se, a mulher fica a pagar sozinha as contas e a educação dos filhos, e ele não tem que lhe manter (nem a ela nem aos filhos) o nível de vida. Ela fica, literalmente, lixada.
Este tipo de raciocínio é puramente de justiça, nada tem de religioso. Foi esta a argumentação usada pelo Cavaco, mas ninguém ligou peva. Grandes injustiças estão a acontecer em Portugal, ao abrigo desta lei injusta. Conheço casos reais, de tipos que ficaram à espera da promulgação da nova lei para “darem à sola”. Pessoas vivem mal, Rui, à conta desta treta socialista do “divórcio unilaterial”.
Conheces mais alguma realidade social, nos contratos empresariais, de trabalho, ou outros, nos quais uma das partes do contrato possa falhar aos compromissos contratuais, sem consequências?
A Igreja, e os católicos, envolvem-se em elementares causas de justiça social (combate ao “direito” a abortar, combate ao absurdo do “casamento gay”, combate ao “divórcio unilateral”), porque infelizmente o resto da sociedade anda a dormir, e deixam hoje em dia fazer as maiores barbaridades ao abrigo do “progresso”.
Porque é que calha aos católicos terem mais visão moral?
Bom, a resposta é simples: eles têm uma moral estruturada e deontológica.
Antigamente, muitos não católicos, ou mesmo não cristãos, tinham uma moral não religiosa mas deontológica. Hoje em dia, a moral clássica ruiu. A moral, hoje em dia, é toda consequencialista, ou utilitarista.
Mas falamos de filósofos da moral, porque a maralha dos políticos nem sabe o que é isso de filosofia da moral.
É sintomático que as bestas políticas que promovem estas “experiências sociais”, quando questionadas acerca do porquê das suas decisões políticas (claramente, “oportunistas” em termos eleitorais), em vez de darem razões objectivas, limitam-se a falar em “progresso” e em referir países que já o fizeram.
É um argumento manhoso: “ah, e tal, vamos fazer, está na hora, porque na Holanda já se faz, ou na Suécia já se pode, etc.”. E a carneirada vai toda atrás…
Abraço,
Bernardo
Bernardo,
«A Santa Sé, cuja responsabilidade não é a política local, mas sim a salvação das almas, “puxa” as orelhas. É preciso ter cuidado, quando falas em “a Igreja”.»
A influência do Vaticano é directa no regime croata, por exemplo. Alguns membros até foram beatificados…
«Devias ver, por exemplo, a grave disputa da Santa Sé com Salazar sobre a nomeação dos bispos»
Pois custa muito à Igreja perder autonomia sobre os seus membros não é? Sempre me intriguei pelo facto de não ser o cardeal a eleger os bispos, mas sim o próprio papa. Aliás, até acho que o CC do partido comunista se foi inspirar no vaticano…
«Altamente duvidosa, esta tua tese. Eu sei que é a tese que está na moda, mas nem sequer é lógica. (…) Mas se aumentares os comportamentos de risco (mesmo com preservativo), aumentas o número de situações de possível contágio. É simples estatística.»
Então sem preservativo imagino a situação…Então e um casal que queira fazer planeamento familiar, sem estarem infectados, monógamos e fieis, já podem usar preservativo?
«Penso que, décadas passadas de distribuir preservativos em massa, era interessante experimentar abordagens comportamentais, ou não?»
Uma campanha de consciencialização sem imposição de comportamento, concordo.
«É criminoso dizer a mais pura das verdades? Não compreendo esta lógica»
Não necessariamente. E se o preservativo não existisse? Quais seriam as estatísticas?
«Rui: o que conheces de Joseph Ratzinger para intuires esses sentimentos tão negativos da sua parte? Conheces-lhe o feitio, para dizeres que ele é cruel e calculista como afirmas? Que ele se está nas tintas para os africanos? Numa missa campal em Angola, morreram duas adolescentes angolanas, esmagadas pela multidão. (…) O Papa, muito entristecido, fez questão de “estragar” o momento mediático para recordar e rezar pelas duas raparigas, dizendo com imensa tristeza que elas “morreram porque me queriam ver”. Isto diz tudo sobre quem é este Papa.»
É um gesto bonito, mas não chega para me convencer. Não só por ele, mas pela instituição a que ele preside. Quando mudar de atitude em relação a determinados temas, merecerá uma nova abordagem.
« É defensável querer tomar medidas para minimizar o adultério e o divórcio, porque ambos são nocivos para a sociedade. Insisto: não digo que devemos fazer disso crime, mas certamente não devemos promovê-los (como o PS fez, ao instituir o injusto “divórcio na hora”).»
O divórcio simplex é para casais em mútuo acordo. Simplifica-se o processo e elimina-se recursos e burocracias.
«A vida é desperdiçada quando se procura atingir um ideal?»
Depende do ideal.
«O que é que queres dizer com “casados”? Essa entrega é um compromisso formal, assumido publicamente, perante a sociedade.»
Mesmo assim não considero assim tão necessário esse compromisso para que a coisa corra bem. Até pode ter o efeito inverso…
«Ou seja, a lei antiga via o salafrário como alguém que faltou aos compromissos contratuais implicados no casamento. Agora, é indiferente. Ele pode pisgar-se. E sabes que mais? A lei antiga previa, ao abrigo do conceito de culpa (quem se pisgava era o culpado, por falhar ao compromisso matrimonial), que o tipo tinha que manter o nível de vida da mulher e dos filhos. Agora, não é assim. Suponhamos que ambos auferem 50% dos rendimentos do casal. Ele pisga-se, a mulher fica a pagar sozinha as contas e a educação dos filhos, e ele não tem que lhe manter (nem a ela nem aos filhos) o nível de vida. Ela fica, literalmente, lixada.»
Recordo ainda os casos empatados em tribunal à custa de um cônjuge teimoso que não quer deixar o outro “fugir”, independentemente da farsa em que se tornou o casamento deles. Recordo a avalanche de divórcios no fim da ditadura, gente que vivia separada apesar do acordo ainda vigente, uniões hipócritas apenas presentes no papel.
É certo que o que referes são situações más feitas por gente mesquinha, mas não me parece que esses casos correspondam ao divórcio dito “standard”.
«Conheces mais alguma realidade social, nos contratos empresariais, de trabalho, ou outros, nos quais uma das partes do contrato possa falhar aos compromissos contratuais, sem consequências?»
Bem, com a confusão que é a justiça, com os atrasos nos pagamentos por parte de autarquias, estado e particulares, conheço. Mas atenção, falo na prática e não da questão jurídica.
«Mas falamos de filósofos da moral, porque a maralha dos políticos nem sabe o que é isso de filosofia da moral.»
Políticos, empresários, entre outros. E o povo vai atrás dos piores.
«É sintomático que as bestas políticas que promovem estas “experiências sociais”, quando questionadas acerca do porquê das suas decisões políticas (claramente, “oportunistas” em termos eleitorais), em vez de darem razões objectivas, limitam-se a falar em “progresso” e em referir países que já o fizeram.»
Países que já o fizeram com resultados positivos (claro que este positivo está sujeito a interpretações diversas), imagino. O mesmo digo eu da Igreja quando procura justificar algumas coisas. Falam por charadas, quase, falam da imoralidade sem conhecer a realidade, é assim porque sim.
Abraço,
RJ
olá meninos. quando eu li o artigo do Dr Green eu fiquei também espantado, afinal o Dr Green é um especialista. eu pesquisei seus artigos e enviei um email a ele. em resumo, o DR Green fala em “comportamento de risco” e o fator “compensação de risco”, algo que é bem diferente do que o sr ratzinger e o Vaticano que afirmam exatamente a falibilidade do equipamento, não de seu usuário.
mais informações, vejam meu blog…
Bernardo: “Já sei, já sei… Se os artigos aparecem em sites cristãos, então têm que ser falsos!”
Exato, é isso mesmo, agora começas a compreender..:-) Cristãos mentem, muito, a rodo, a beça, pois como “sabem a verdade”, e nem sempre essa “verdade” se coaduna aos fatos, precisam mentir a granel para diminuir a dissonância cognitiva e manter a fé.
Mentir é quase uma segunda natureza em religiosos, em especial em católicos cristãos (e os padres pedófilos estão ai para não me deixar mentir), bispos e papas, de todas as épocas, embora muitas vezes chamem as mentiras de “teologia” e outros termos mais brandos.
A questão principal, como bem ponderado pelo Vitor, é que uma vez não se submetendo “a verdade” de uma religião, como a catolica/cristã, não há porque condenar uma orgia com camisinhas só por ser uma orgia. Culturas distintas, e mesmo religiões distintas, considerariam um bom orgasmo algo próximo do sagrado, e a promiscuidade (que tem peso negativo apenas pelo esforço idiotizante da fé catolica/cristã) uma virtude, não um defeito.
Assim, pessoas saudáveis, bem dispostas, e que desejam uma vida sexual ativa, com diversos parceiros, tem todo o direito de agir como lhes agrada, e com segurança, sem que o Papa tenha que falar o que quer que seja. Em especial, na África, lugar de diversas culturas e diversos comportamentos conflitantes com as bobagens do cristianismo.
A parte boa, se é que há uma, da filosofia cristã, isso de amar o próximo e se comportar de modo justo (justo, no sentido de justiça humana, não fogueiras para hereges, claro), pode ser aproveitada sem o ranço papal, até porque não é mérito da fé, mas criação humana, racional, e mesmo biológico/evolutiva (animais gregários, como lobos e chimpanzés e seres humanos tem regras e comportamentos solidários, sem necessidade de divindades malucas e amigos imaginários).
Se o Papa tiver a humildade de se posicionar como modelo para católicos, nada contra. Mas a arrogância de pretender ser o modelo ético (baseado “na verdade verdadeira que só ele sabe porque deus falou com ele”) de toda humanidade, estará completamente fora de sua alçada e sendo bastante ridículo, como as charges, piadas e gozações que seus últimos pronunciamentos tem gerado demonstram.
O papa (e você concorda, me parece) que o mundo está “pior” por causa do distânciamento de suas regras e ordens. Eu, como muitos, acho que o mundo está melhor, mas muito melhor, pelo mesmo motivo (nada foi melhor para as sociedades e culturas humanas que a recente separação igreja/estado, como os países muçulmanos bem ilustram). Quanto menos o papa e as religiões derem palpite sobre qualquer coisa, melhor, e quanto menos as pessoas prestarem atenção no que ele ainda insiste em dizer, melhor.
“corajosas declarações acerca da SIDA em África”
Considero-as declarações que compactuam com genocídio.
“tais campanhas estão a aumentar o flagelo da SIDA”
É isso e ter sexo em prol da virgindade