Muçulmanos, um Cardeal e muita demagogia

Numa das minhas actividades preferidades – passear os olhos pelas prateleiras mais ou menos organizadas da secção de livros da FNAC – encontrei um pequeno livro que me chamou imediatamente a atenção: “Muçulmanos esclarecem o Cardeal D. José Policarpo”. Ora, concordando que D. José Policarpo mereça ser esclarecido de muita coisa, questionei em que é que os muçulmanos seriam recomendados para o fazer. Em letras mais pequenas, na capa, podia-se ler:

A RESPEITO DAS SUAS DECLARAÇÕES
“Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um
muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de
sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam…”
proferidas
na tertúlia 125 minutos com Fátima Campos Ferreira,
que decorreu no Casino da Figueira da Foz, em 14/01/2009.

(destaques no original)

Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy

Mahomed Yiossuf Mohamed Adamgy

Numa edição da Al Furqán, M. Yiossuf M. Adamgy explica que este livro surgiu da necessidade que alguns muçulmanos sentiram de esclarecer o Cardeal sobre as considerações que este teve sobre os muçulmanos e o Islão no evento supra citado.

Depois dos devidos cuidados a explicar que os muçulmanos apenas desejam o bem a todos os adeptos do Livro e é assim que o Alcorão prescreve. Achei muito interessante um ponto – que penso ter escapado à maioria -que é alvo da indignação muçulmana. “Nem Alá sabe onde acabam…” é uma afirmação que, segundo o autor do livro, pode sugerir que o Deus que revelou o Alcorão não é o mesmo que suscitou os profetas bíblicos que, este sim, sabiria tudo.

O que salta à vista neste livro é a estratégia usada pelo seu autor de confrontar passagens da Bíblia com passagens do Alcorão sobre determinadas matérias: A Natureza Feminina, O Pecado Original na Mulher, O Papel da Mulher, O Casamento, A Poligamia, O Incesto, etc… Claro está que com as passagens da Bíblia e do Alcorão seleccionadas pelo autor, o Alcorão parece a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Bíblia apenas um compêndio de atrocidades.

Em suma, os muçulmanos optaram por esclarecer o Cardeal recorrendo à pura demagogia, à escolha dos excertos que lhes convinham, utilizando, portanto, um método com o qual todos os católicos estão intrinsecamente familiarizados. Bastava que tivessem acusado o Cardeal de islamofobia e intolerância. Mas, não! Quiseram ir mais longe e, no seu deslumbramento, perderam toda a credibilidade.

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