Será possivel ser-se cristão mesmo quando não se acredita em Deus? Isto pode parecer um absurdo, mas o que é que defini exactamente um cristão?
Em diversas pesquisas que fiz sobre a definição de “cristão”, o que descobri de comum a todas elas foi que cristão é todo aquele que vive de acordo com os ensinamentos de Jesus. Parece-me que faz sentido. Existem denominações para quem, para além da definição de cristão – acredita ainda que ele foi o Messias ou que ele faz parte da Santíssima Trindade ou, ainda, que ele foi o primeiro comunista na face da Terra. Mas, para a definição de cristão, tudo isso é supérfluo.
Gostaria de saber a opinião dos nossos leitores sobre esta questão. Alguns ateus já se equacionaram se são ou não cristãos? E os nossos visitantes crentes – muitos deles católicos – estão todos confiantes que são cristãos, de acordo com a definição supra referida? Irei ainda mais longe nesta questão: para os crentes católicos/protestantes/evangelistas é mais importante ser cristão ou pertencer a uma dessas religiões?
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Caro Helder,
para mim, ser Cristão, é mais do que viver de acordo com os ensinamentos de Cristo, é viver Cristo (como disse S.Paulo). Se viver é Cristo, então, é ser um “outro” Cristo para os outros. Ser um “outro” Cristo porque se aderiu a Cristo. Mas não ser um “outro” Cristo sozinho, porque se é apenas um “outro” Cristo quando amo reciprocamente e por isso preciso do outro. Quando o amor é recíproco, Jesus está presente entre nós (Mt 18, 20), em nós, logo não sou que amo, mas Jesus em mim que ama. E não é o outro que eu amo, mas Jesus no outro, logo, o amor é de Jesus para Jesus e nesse sentido somos “um”, tal como na Trindade são “Um”. Porém, isso não anula o outro enquanto “si”, mas é Jesus no outro que me leva a vê-lo tal qual é, e não tal qual parece ser.
Neste sentido, não me identifico totalmente com a definição supra referida.
A outra pergunta: “para os crentes católicos/protestantes/evangelistas é mais importante ser cristão ou pertencer a uma dessas religiões?”
Penso que o mais importante é ser Cristão, e tenho dificuldade em separar o ser do pertencer, porque ser Cristão implica necessariamente a dimensão comunitária dessa espiritualidade. Porém, se um ateu viver segundo os ensinamentos de Cristo é Cristão? Eu penso que não, na medida em que para ele viver não é Cristo, mas se o fizer, tem alguma dúvida de que ele vai para o “Céu”? Eu não …
Mas isso levanta uma outra questão: se viver segundo os ensinamentos de Cristo vou para o Céu, de que vale ser Cristão? Eu penso que vale, por ser um “vale mais”, não anulando o “vale” do não-crente, mas por enriquecimento da experiência de vida que advém desse “vale mais” de quem crê; pelo sentido de vida e percepção do mundo que se adquire dessa experiência, que deixa de ser individual, para ser colectiva, centrada no outro, relacional.
Cordiais saudações,
Miguel Panão
Dos dois ou três meses que voluntariamente fui à catequese houve uma coisa que me ficou dos chamados ensinamentos de Cristo. Não sei se esta é a citação certa mas o conteúdo é este: Ama o próximo como se fosse a ti mesmo e Deus acima de todas as coisas.
Não me posso identificar com a segunda parte da frase, naturalmente, mas tento, nem sempre com sucesso, viver segundo a primeira parte. É uma frase magnífica porque dá espaço para todos. Para mim, que me amo e para os outros que amo igualmente. Como disse, nem sempre é fácil. Às vezes, raramente, não gosto muito de mim e há algumas pessoas difíceis de se gostar.
O problema da doutrina de Cristo, nos meus conhecimentos limitados, é o sua ênfase na fé. É aí que nunca poderia ser Cristã filosoficamente falando porque no meu dicionário fé é uma palavra vazia de conteúdo.
Questão interessante…
Se pretendermos ser rigorosos, ‘Cristianismo’ não seria a palavra ideal para circunscrever uma dimensão mais humana da filosofia anunciada por Jesus: “Christos” reporta-se ao “Ungido”, ou seja, ao acto consagrador da divinização do homem. No máximo dos máximos, um ateu poderia eventualmente aderir ao “Jesuísmo”.
Neste “Jesuísmo” poderá eventualmente afirmar-se: “o que eu aprecio é a moral cristã e a filosofia de solidariedade comunitária praticada por Jesus-ser-humano”. No meu entendimento, nenhum ateu pode afirmar-se defensor desta filosofia quando na base da mesma está inevitavelmente o anúncio do Reino de Deus. Tudo se justifica a partir daí. Portanto, “eu não sou solidário pela solidariedade em si mesma, mas porque isso agrada a Deus”. A moral de Jesus é uma moral subsidiária da existência de Deus – e como tal, inconsistente, irreflectida, incoerente e… imprópria para um ateu.
É certo que poderíamos ter uma visão consequencialista do ‘Jesuísmo’ (ou seja, independentemente da motivação da acção, interessava-nos essencialmente o resultado). No entanto, também esta posição é um flop porque cairia no domínio da hipocrisia – uma hipocrisia pretensamente condenada pelo próprio Jesus.
Para além de afirmar a impossibildiade de ‘Cristianismo’ num ateu, eu até vou mais longe: afirmar a impossibilidade de Cristianismo num…Cristão! Para isso, vou pegar numa frase do Panão e desmistificar, mesmo dentro do “cristianismo”, aquilo que eles poderiam eventualmente tomar como uma doutrina unificada e coerente:
“para mim, ser Cristão, é mais do que viver de acordo com os ensinamentos de Cristo, é viver Cristo”
Nesta frase está espelhada toda a impossibilidade de se ser Cristão: “PARA MIM, ser Cristão é…”. Para mim??? Ou «ser Cristão» vale por si mesmo, ou «para mim, ser Cristão é…» resume-se a um exercício relativista e puramente subjectivo: «para mim é assim, para outro será assado…». Logo, nem os cristãos sabem o que significa «ser cristão»! Ou quando sabem, sabem-no com tantas certezas que não se inibem de colocar o seu ‘irmão’ de doutrina distinta – seja ela católico, protestante, copta, ortodoxo, gnóstico, etc. – num patamar inferior, num patamar de ‘ignorância’ – as Guerras Religiosas e as cruzadas contra os heréticos bem o provam.
Cumprimentos
Tendo percebido este como um espaço de opinião, não pensava comentar, mas como fui visado …
Caro Lucas,
quando escrevi “para mim”, fi-lo na humildade, porque “viver Cristo” é um processo gradual de maturidade Cristã, pelo que ao longo da vida vamos percebendo aquilo que significa. É uma experiência que se faz todos os dias, recomeçando cada dia.
Ou seja, não foi nenhum exercício relativista ou puramente subjectivo da minha parte. Concluir de um “para mim” mal interpretado por si que “nem os cristãos sabem o que significa «ser cristão»!” é aquilo que é … meramente uma opinião sua.
Cordiais saudações,
Miguel Panão
Caro Miguel,
“Quando escrevi “para mim”, fi-lo na humildade, porque “viver Cristo” é um processo gradual de maturidade Cristã”
Ahhh…tão lindo! Mas assim fiquei a perceber uma coisa: se o processo é gradual e se a humildade é a tua postura, presumo que estejas para aí num nível intermédio da caminhada, certo? Portanto, o teu nível de certezas acerca daquilo que afirmas também deve ser intermédio, certo? Portanto…alguém que afirma que “só sabe que nada sabe” e no final, parece “saber tanto” acerca da vida “de acordo com os ensinamentos de Cristo”, isso só quer dizer uma coisa: que não sabe mesmo nada de nada!
Vocês crentes, realmente são o esplendor da lógica! Seguem bem as pegadas do vosso mestre Tertuliano: “acredito porque é absurdo”. Assim, para vocês não há problema nenhum em viver de acordo com os seguintes ditames: “visto de branco porque gosto do preto”, “gosto de vinho tinto, por isso é que tenho bagaço na adega”, “sou humilde porque ambiciono o absoluto”, etc., etc.
Está tudo dito.
Cumprimentos.
Caro Lucas,
Mmmm …”isso só quer dizer uma coisa: que não sabe mesmo nada de nada!” … como é que sabe isso?
Cordiais saudações,
Miguel Panão
Caro Miguel,
Mmmm …”isso só quer dizer uma coisa: que não sabe mesmo nada de nada!” … como é que sabe isso?
Fácil: foi o anjo Gabriel que me disse
Cumprimentos.
Caro Helder
Huumm!!!
NÃO, porquê??? Repara q Deus está sempre presente nos ensinamentos d Jesus, tudo o q ele diz/faz está directamente relacionado com o “Pai”, aliás é o “Pai” q o manda espalhar a palavra, ora s a definição aceite de cristão é seguir os ensinamentos de Jesus, então tem q se acreditar na existência desse Deus, por isso a resposta é NÃO, não se pode ser cristão e não acreditar em Deus.
Mas, vamos virar a questão ao contrário, ou seja, pode-s ser ateu e acreditar/seguir os preceitos cristãos sem acreditar em Deus??? Aqui a minha resposta é SIM, porquê??? porque o simples facto d não acreditar em Deus não é impeditiva de d s acreditar em preceitos como “Amar os outros…etc.”, “dar d comer/beber…etc”, “não faças aos outro…etc”… e outros do género, porque considero e muita boa gente, estes preceitos como universais e humanistas e não um exclusivo das religiões.
Concordas???
saudações
Deus existe ? Não existe ? É uma questão.
E se Cristo, o Cristo a que se refere a Igreja Católica, de facto não existiu ?
Imagine-se tal, por hipótese académica que seja.
E nem é de excluir que tal seja, amanhã, provado cientificamente.
Que aconteceria ? Que faria a Igreja ? Fechava as portas ?
Que fariam os católicos ? Suicidavam-se ?
Cordialmente
Os ensinamentos de Cristo segundo a Bíblia são na minha opinião, muito à frente do seu tempo. Eu penso nele como uma espécie de Ghandi ancestral.
Isto é puramente a minha interpretação pessoal mas acho que a frase “Dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César” talvez se refira a uma separação da religião e do governo. Pelo menos faz todo o sentido na minha opinião.
Agora na minha opinião ser Cristão significa aceitar Cristo como o salvador, aceitar a sua divindade. Por isso acho que alguém que ache que os ensinamentos de Cristo são os correctos, mas negue a sua divindade, ou não o aceite como salvador não é Cristão.
O Richard Dawkins propôs um slogan chamado “Atheists for Jesus” onde ele realmente afirma as ideias de Jesus, caso tenha existido, são de facto muito humanas. Mas é óbvio que ele não se identifica como Cristão.
será q Jesus se revê no cristianismo???
Helder,
“Isto pode parecer um absurdo, mas o que é que defini exactamente um cristão”?
Na minha opinião, um Cristão, é todo aquele que “Deus ungiu com o Espírito Santo” (At 10,38). Neste sentido, e estou de acordo com o Miguel Panão, o Carlos Rocha e o Rick A., alguém que não tem compaixão para com o próximo ou fé na ressurreição de Jesus Cristo, não são verdadeiros Cristãos (Gl 5:22-23).
“Irei ainda mais longe nesta questão: para os crentes católicos/protestantes/evangelistas é mais importante ser cristão ou pertencer a uma dessas religiões”?
No seguimento da resposta anterior, depreende-se claramente que é mais importante ser Cristão.
Um abraço!
Errata
Onde se lê…não são verdadeiros Cristãos (Gl 5:22-23).
Leia-se…não é um verdadeiro Cristão (Gl 5:22-23).
Caro Ilidio Barros
Para evitar mal entendidos, tanto seus como de outrem, deixe-m dizer-lhe desde já, q m assumo como ateu.
Mas, fico satisfeito q concorda comigo no ponto de ajudar o próximo, confesso q não gosto da palavra compaixão, mas, repare q eu digo, q isso são preceitos universais e humanistas e não um exclusivo das religiões, seja ela qual for.
Já quanto ás sua frases, “Deus ungiu com o Espírito Santo” e “fé na ressurreição de Jesus Cristo”, como já deve supor, não acredito nada nisso.
saudações
Caro Ilídio Barros
“Irei ainda mais longe nesta questão: para os crentes católicos/protestantes/evangelistas é mais importante ser cristão ou pertencer a uma dessas religiões”?
Se uma pessoa sentindo necessidade de acreditar em algo, como ponto de referência da sua vida, aprecie e retenha a imagem de um Jesus Cristo que defende os pobres, os doentes, os miseráveis e os moribundos, e como tal se sinta cristão, irmanado em Cristo exclusivamente por esses mesmos valores, será obviamente cristão.
O problema que se coloca é se haverá alguma igreja cristã que seja coerente com tais princípios, uma vez que são fabulosas máquinas de fazer dinheiro, como claramente se demonstra no filme que em boa hora o Portal Ateu decidiu promover.
A alternativa ? Construir a sua própria fé à luz da imagem que retem de Cristo. E daí em diante será aí que se pode agarrar e apoiar, dispensando os serviços dos que se intitulam representantes de Cristo.
Porém se tal conceito vingasse e se generalizasse, estariam em causa as fontes de receitas dessas igrejas, pelo que não será de estranhar uma reacção dizendo que tal é impossível e sem sentido, com os argumentos mais espatafúrdios baseados em doutrinas sem nexo para o senso comum.
Sintomaticamente nenhum católico, ou de outra fé cristã, se atreveu (ainda) a responder à questão que suscitei em #9, talvez porque estando em estado de negação se recusem a confrontar-se com tal hipótese.
Cordialmente
É precisamente isto que acontece na civilização ocidental, de matriz judaico-cristã: Gente religiosa apenas no que toca ao “picar o ponto”. Por exemplo:
Gente que se diz religiosa mas nunca põe os pés na missa nem acredita em grande parte dos milagres e dogmas, preferindo a praia à prática pia em fins de semana ponte com feriado religioso.
Gente para quem aquilo tudo não significa grande coisa mas que continua a ir à missa apenas por hábito/tradição.
Ateus ou agnósticos que são mais cristãos do que os que deviam ser (ou uma espécie de “mais papista do que o papa”, mas invertido).
Políticos cuja conduta nem sempre é a melhor mas que são considerados “bons cristãos e com valores morais”, factor suficiente para ganharem o voto de um sector eleitoral mais sensível a esse tipo de características.
Casamentos pela igreja por razões puramente estéticas.
E não esqueçamos aqueles que acreditam em “Deus” (whatever…) mas que odeiam a igreja. E creio que são cada vez mais. São uma espécie de cristãos freelancer…
Isso é uma falácia e armadilha lógica! Como foi reportado acima, desvencilhar “ser cristão” da figura de Jesus, sua pessoa, vida e ressureição, é amputar o seu sentido do contexto, os seus ensinamentos de alto valor humanitário, (este é o cerne da pergunta) se tirado do seu objetivo, que é uma transformação pessoal, cognitiva e emocional, de uma crença de vida em uma nova sociedade, mais justa, ideal ( claro que tá intrinseca a idéia da não destruição da consciência depois da morte), “meu mundo não é desse mundo” , ‘esperamos novos céus e nova terra” , está em moldar esse “novo cidadão”, assim como os budistas cujo objetivo é nirvana, o confucionismo, a ética ( mas traz o papel dos espíritos) , reduzir os ensinamentos a uma prática ritualística ou a um conjunto de normas de conduta, de caráter rotineiro, é morrer na praia , como diz Paulo: ” se Cristo não ressucitou, é vã nossa pregação, e somos os mais desgraçados de todos os homens”, se “ser cristão” e praticar seus ensinamentos é uma questão de fé, pode ser! Mas por isso não pode ser desacreditada, ou sepultada como “utopia”, não podemos esquecer que infelizmente a ciência tb tem os seus dogmas, suas paixões desenfreadas, como diz Einstein: “A ciencia sem religiao é manca,
a religiao sem a ciencia é cega!”, não desmerecendo o conjunto das religiões, seus relatos, sua cultura, mas vendo na ciência a chave para, desvelar esses mistérios. E que os fanáticos, estão de ambos os lados da trincheira, e que são a verdadeira ameaça aos dois lados.