A casa da democracia portuguesa que dá pelo nome de “Parlamento” aprovou anteontem, «com os votos contra do BE e a abstenção do PCP, um voto de congratulação proposto pelos democratas-cristãos pela canonização de D. Nuno Álvares Pereira“.» [JN]
O Bloco de Esquerda foi mesmo o único partido que tentou lembrar os restantes que Portugal é um país laico, entregando «uma declaração de voto onde afirma que o que o CDS-PP quer é pôr a Assembleia de uma república laica a congratular-se com um milagre, o que constitui “uma grave violação do princípio da separação” (…) O PP quer pôr esta Assembleia, de uma república laica, a reconhecer a cura milagrosa das lesões do olho esquerdo da Dona Guilhermina de Jesus, sofridas pelos salpicos ferventes do óleo de fritar o peixe, para a qual invocou a intercepção do beato Álvares Pereira”»
Refere o mesmo artigo que este voto «permitirá um maior conhecimento e divulgação do exemplo” do militar português, que “figura maior” da história portuguesa cuja canonização “justifica a congratulação não só da Igreja e dos católicos mas de todos os portugueses».
E ao que parece a comitiva que representará Portugal no Vaticano para as celebrações da canonização do respeitável D. Nuno (algo quase ao nível de um “Nobel”, mas católico) será numerosa. Resta saber se a Assembleia da República também planeia organizar uma excursão, talvez em parceria com o Presidente da República…
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Eu bem fiz em ter-me filiado no BE na semana passada. Mas alguém me explica o porquê da canonização? Porque o D.Nuno derrotou os espanhóis (matando centenas à la Cristão) numa época em que nós possuíamos mais poder militar que eles? Que me lembre os espanhóis demoraram mais 200 anos que nós a expulsar os mouros…
Bufo, embora não seja por causa disso que D. Nuno vai ser canonizado, convém esclarecer que não é vdd que os Espanhóis tivessem menos poderio militar que nós.
Para além disso o Rei de Castela contava com o apoio francês (tal como nós com o inglês) para além de inúmeros fidalgos portugueses, que preferiram o seu juramente de fidelidade a Dona Beatriz à independência do rei de Castela.
O facto de os espanhóis terem levado mais tempo a expulsar os mouros deve-se não só ao grande poderio do califado de Córdoba, como ao facto de Espanha não estar ainda unificada.
Dom Nuno Álvares Pereira, para além de grande militar, viveu sempre um vida de piedade e austeridade. Após a morte da mulher, Dom Leonor Alvim (se a memória não me falha) e de ter abandonado a carreira de armas entrou para o Convento do Carmo, que ela próprio tinha construido, dando todos os seus bens.
Parece-me que, mesmo para um ateu, é importante conhecer a história de Portugal.
Na batalha de Aljubatorra estavam presentes cerca de 30.000 homens do lado castelhano e 6.000 do lado português. A batalha foi ganha não por uma questão de “poderio” mas antes por uma brilhante estratégia militar, na linha do sucedido nas batalhas de Crécy e de Azincourt, da Guerra dos 100 Anos, em que uso dos arqueiros ingleses derrota exércitos significativamente superiores em número.
Córdova era um exemplo de prosperidade e harmonia entre diferentes religiões (muçulmanos, judeus e católicos). Só com a chegada ao poder dos Reis Católicos, com os seus desejos de expansão territorial e a criação da Inquisição é que se suscita a ideia da tomada de Ceuta por Castela.
D. Nuno Álvares Pereira, um dos 26 filhos (há quem diga que foram 32) do eclesiático Prior do Crato, casa aos 16 anos, e por imposição paterna, com Leonor Alvim, pessoa que, dizem as crónicas, era rica, bonita e, apesar de viúva, virgem.
Leonor morre de parto em 1378.
Desse casamento resultam 3 filhos, dos quais só sobrevive Beatriz, futura fundadora da Casa de Bragança, que vem a falecer em 1415.
Não é pois verdade que D. Nuno se tenha recolhido ao Convento do Carmo, em 1422, pelo “desgosto” atribuido à morte de sua mulher, segundo uns, ou de sua filha, segundo outros.
Sendo a dinastia de Avis recém criada, e num período histórico conturbado, o seu poder afirma-se pela força das armas, papel onde se realça D. Nuno Álvares Pereira, pelo que não admira o reconhecimento que lhe é prestado através da sua nomeação como Condestável do Reino e a concessão de elevados privilégios, honoríficos e territoriais.
D. Nuno torna-se no homem mais rico e poderoso do reino e para garantir a lealdade dos seus apoiantes atreve-se mesmo a ter vassalos, o que era privilégio real, a quem redistribui terras.
Tais condutas suscitam a indignação da restante nobreza e mais tarde a perda de influência a nível militar, pois apesar do cargo de Condestável não é ele que dirije a conquista de Ceuta , em 1415, onde desempenha papel secundário.
Decaindo a sua importância na corte, a que não seriam alheios os constantes conflitos em que D. João I era chamado a intervir para dirimir questões dos limites territoriais das concessões dadas, não admirará que D. Nuno se tenha recolhido ao convento que fundou mais por ostracismo na corte do que pelos motivos de desgosto alegados.
Parafraseando, parece-me que, mesmo para um católico, é importante conhecer a história de Portugal, e não se embarcar com ligeireza na versão católica oficial, porque de “pio e austeridade” a vida de D. Nuno nada tem.
Cordialmente
O Victor focou um ponto bastante interessante e que gostaria de ver debatido muito mais no Portal Ateu: a manipulação da História pela intelligentsia católica (afinal, eram eles que a escreviam! É caso para dizer: “a pena é mais poderosa que a espada”).
Por exemplo, ainda hoje se fala de uma “História da Igreja” baseada nessa grande obra de intrujice realizada por Eusébio de Cesareia.
Isto para já não falar dos Actos dos Apóstolos…
Victor,
Que o homem foi peça importante na nossa História, foi. Apenas me pergunto se não andará a dar voltas na campa com todo este folclore.
Há quem seja ignorante e não saiba, há quem saiba e não queira saber e há quem saiba e não queira que os outros o saibam…
Lucas,
Fica registado.
Cada vez que um português recebe um galardão internacional, seja um Saramago, um Cristiano Ronaldo ou um D. Nuno Álvares Pereira, lá temos a manifestação provinciana de exaltação patrioteira, a que se aliam as “autoridades oficiais”.
Tendo sido, como foi, uma importante figura na história pelo seus próprios actos, choca-me este aproveitamento da Igreja de utilizar um dos principais simbolos pátrios a pretexto de um milagre ocorrido no ano de 2000.
E que milagre ? A senhora Guilhermina de Jesus, de 65 anos, devota do beato Nuno, vítima de um salpico do óleo de fritar peixe, recuperou de uma úlcera na córnea do olho esquerdo “porque” quando estava a rezar tocou numa imagem do Santo Condestável no olho ferido.
Que se realce a figura de D. Nuno Álvares Pereira pelo que ele fez, é uma coisa, mas que se realce por causa do óleo de fritar peixe é ridículo e rebaixa a pessoa que “oficialmente” se pretende engrandecer.
Porque, se a Igreja queria realmente enaltecer o papel ,como católico, de D. Nuno, haveria certamente nas suas próprias obras e acções, e por mérito próprio, muitos outros motivos a que recorrer.
Francamente !
“Porque, se a Igreja queria realmente enaltecer o papel ,como católico, de D. Nuno, haveria certamente nas suas próprias obras e acções, e por mérito próprio, muitos outros motivos a que recorrer”
Sim, tais como…
“TU NÃO MATARÁS”…Excepto castelhanos…!
Lucas : (#7)
Tendo sido, como dizem os católicos, uma pessoa tão pia, canonizem-no, se quizerem, por qualquer outro motivo que não o invocado.
Nem que fôsse a construção do Convento do Carmo ou o seu papel no desenvolvimento da ordem que professou, os Carmelitas. Coisas assim … menos o óleo de fritar peixe, caraças !
“Fátima” dá dinheiro, e não é pouco, pois a nova basílica terá custado cerca de 70 milhões de euros e foi paga a pronto, sem se recorrer a auxilios estatais ou de … Roma.
O Vaticano vem tentando alterar a relação de forças com as autoridades da Igreja portuguesa: por uma lado porque quer ser beneficiária directa de tal fonte de receitas, e por outro porque não aprecia uma actuação evangélica da Igreja portuguesa que leva a Fátima o Dalai Lama, a comunidade hindu e outros actos “ecuménicos” que não estarão lá muito conformes com a linha doutrinal de Ratzinger.
E é nesse contexto, de guerrilha interna, que o Jornal Português de Notícias titulava “Vaticano pede a demissão do Bispo de Fátima e do Reitor do Santuário” e o Correio da Manhã com “Vaticano chocado com Fátima”
( http://www.fatima.org/port/news/monsguerraf.asp )
É também nesse contexto, de guerrilha interna na Igreja, que se percebe que a causa de canonização dos Pastorinhos tenha perdido força em detrimento de uma outra “visão” porque importava alterar os simbolismos em presença.
Sinal do atrito entre as partes são as notícias :
13/10/07 – o Cardela Saraiva Martins defende rapidez na canonização de Lúcia
O Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos diz que veria com bons olhos a dispensa dos prazos canónicos para abrir o processo de beatificação da Irmã Lúcia.
31/10/08 – Igreja convida Papa para visitar Fátima
Os bispos portugueses vão convidar o Papa Bento XVI a visitar o Santuário de Fátima no próximo ano, na esperança de que a deslocação seja aproveitada para canonizar o beato Nuno Álvares Pereira.
Mas o Papa não vem !
Tal é a importância da questão, que a causa da canonização de D. Nuno se sucede com uma rapidez invulgar, em apenas 5 anos.
O que me revolta é que a Igreja use desta maneira a imagem de D. Nuno para resolver as suas tricas internas, e tenhamos as autoridades oficiais mais o Zé Pagode a aplaudir, em lugar de se estar a protestar.
Caríssimos:
Primeiro ponto e que me parece que todos os participantes desta discussão estão a ignorar, como grandes imbecis que são é que OS TEMPOS SÃO OUTROS. Não passa pela cabeça de ninguém andar, hoje em dia, à espadalhada. Contudo, na altura, tal coisa podia considerar-se uma profissão. Aliás, como todos deviam ter estudado no quinto ano, havia um estrato social, a nobreza, que não fazia mais nada da vida. Portanto, não me parece que dizer que D. Nuno não devia ser canonizado porque fez aquilo que lhe era devido, seja justo.
Segundo, D. Nuno não é santo porque no fim da sua vida se enfiou num mosteiro. Enfiou-se num mosteiro PORQUE era santo.
Terceiro, e algo que me parece que o querido Vítor está a ignorar é que a Igreja, como todos deviam saber, percorre um trabalho intensivo de anos antes de mandar canonizar alguém. Cientistas. Teólogos. Malta beata que ficaria horrorizada por ter um santo “que matou gente”. Alguém já ouviu falar no “advogado do diabo”? É o tipo que passa a canonização toda a pescar factos que podem não deixar que ele seja canonizado. Porque fez uma birra com dois anos, porque deu um murro num amigo, por uma série de razões que nem podem imaginar para além do facto de ter morto castelhanos. Que eu saiba, se um segurança de um banco matar um criminoso em auto-defesa ninguém o chateia.
Quarto: D. Nuno viveu uma vida de obediência. Não queria casar – aliás, queria “dedicar a sua vida a Deus e à pátria” – e casou porque o pai o mandou. Era misericordioso com os ditos castelhanos que matava. Há um caso relatado numa crónica em que os castelhanos, antes de uma batalha foram ter com ele, atravessando o campo até ao posto do INIMIGO. Quando lhes perguntaram que raio é que eles lá estavam a fazer, responderam: “Queremos ver o Santo.” Anotem que o Santo, no dia seguinte era aquele em que teriam de dar cacetada se tal fosse requerido. E levaram-nos a ele, que os agasalhou e deu um salvo conduto para voltarem em segurança para o seu próprio campo. E no dia seguinte os espanhóis que tinham ido ver o santo foram derrotados e possivelmente mortos. Se eles não se importavam, porque raio é que nós nos havemos de importar?!
Quinto: o Santo Condestável é considerado Santo à cerca de oito séculos. As razões pelas quais finalmente o é podem não ser as melhores, mas o facto é que quero lá saber porque o fazem. O que interessa é que finalmente, aquele que chamamos “Santo”, daqui a dois dias, o vai ser. E se não percebem o quão importante isso é, não percebam. Podia escrever todo o dia se tivesse tempo para isso. Infelizmente, tenho mais que fazer da minha vida do que andar a ensinar coisas que deviam tentar perceber por vocês próprios, em vez de começar logo a axincalhar a Igreja, o Dom Nuno e a coitada da Dona Guilhermina que nem devia saber que raio é que tinha no olho.
Atenciosamente, Maria
Subscrevo-a totalmente Maria. Sem tirar nem por!
Epá…!
Com esta é que não contávamos: a honra de D. Nuno defendida pela Padeira de Aljubarrota…
Vou já fugir…
Responde o imbecil-mor autor do post à padeira de Aljubarrota, autora do comentário que começa com “caríssimos”, termina com um “atenciosamente” e pelo meio chama “imbecis” a todos os intervenientes da conversa, crentes e ateus:
“Segundo, D. Nuno não é santo porque no fim da sua vida se enfiou num mosteiro. Enfiou-se num mosteiro PORQUE era santo (…) o Santo Condestável é considerado Santo à (sic) cerca de oito séculos”
Afinal já o era? E eu que pensava que a morosidade da justiça portuguesa era elevada, pois este precisou de uns seiscentos anos para resolver esta progressão na carreira.
Se o povo queria e tal aconteceu muito mais tarde apenas prova que o condestável é uma espécie de Vítor Baía durante a era Scolari, com a grande diferença de Scolari ter levado 3 a 0 em Braga dos Espanhóis, vingando-se entretanto no Euro 2004…
“As razões pelas quais finalmente o é podem não ser as melhores, mas o facto é que quero lá saber porque o fazem.”
É milagre ou não é? Se não lhe interessa os motivos então para que serve todo o processo? “Para inglês ver”?
Lucas Samuel:
Se a única forma que consegue encontrar para discordar daquilo que afirmo é recorrer a bocas foleiras sugiro que se abstenha de fazer figuras tristes e se enterre num buraco com o resto das pessoas sem opinião ou argumentos. Se o compreendi mal e tem de facto algo produtivo a dizer, faça favor e terei o maior prazer em debater consigo.
Mantenho o caro em relação a si, Rui, porque não tenciono mudar a minha forma de escrever por sua causa. E porque é muito mais simpático que chamar-lhe outra coisa. O facto é que, concordo que “óleo de fritar” como salientou alguém, não me parece um grande motivo para uma canonização. Podiam ter arranjado melhores razões, parece-me. Contudo, se chega aos ditos autores do “processo”, chega-me a mim que não conheço todos os factores que levaram a essa decisão e confio na autoridade maior. E sim, o Santo Condestávelk já era chamado Santo na altura. Peço ainda desculpa a todos os que se sentiram imbecis porque a Padeira os chamou de tal.
Os maiores cumprimentos, Maria
“Era misericordioso com os ditos castelhanos que matava.”
Oh, mas isso muda tudo!!
Pronto, assim já não há nada a apontar ao senhor! Afinal, se se foi misericordioso, matar “ditos” castelhanos não soa assim tão mal, pois não?
Já faltou mais para dizer que era “misericordioso para aqueles que é dito que foram mortos”
O facto do Condestável ser canonizado é-me indiferente – é apenas um pormenor que terei de acrescentar quando estiver a ver a sua estátua de herói de espada na mão em frente ao Mosteiro da Batalha.
O que acho curioso e até mesmo escandaloso, é que se use este tipo de subterfúgios como “OS TEMPOS SÃO OUTROS” e “porque fez aquilo que lhe era devido, seja justo.” ou “E no dia seguinte os espanhóis que tinham ido ver o santo foram derrotados e possivelmente mortos. Se eles não se importavam, porque raio é que nós nos havemos de importar?!”
Afinal, onde está a santidade deste senhor? Ou basta apenas não querer casar, obedecer ao pai e entrar para um convento? E entretanto, matar uma quantidade gente pelo caminho, um bom católico com toda a certeza!
Wow. Nunca pensei que alguém, de todas as coisas que podia criticar no que eu disse – e que seriam muitas – fosse pegar numa que eu NÃo disse. “Os ditos” é uma forma de não cometer repetições desnecessárias, não de dizer que eles são supostos. Para mais, salientei diversas vezes que de facto o homem matou gente. Que se há de fazer?
Não tenho tempo hoje para lhe dar razões suficientes pelas quais D. Nuno vai ser canonizado. Mas não disse que foi apenas por essas, nem lá perto. Também não disse que matar faz com que as pessoas mereçam ser canonizadas. Felizmente, as coisas não se passam assim. Contudo, terei o maior prazer em fazer uma pesquisa intensiva dos motivos que levaram à canonização e farei um texto crítico e coerente em que com sorte não direi o mesmo tipo de asneiras que digo quando estou com pressa. É um grande defeito. (Façam-me um favor e não batam muito no que eu disse agora…)
Até breve, Maria
“Não queria casar – aliás, queria “dedicar a sua vida a Deus e à pátria” – e casou porque o pai o mandou.”
Seria gay? (na altura não eram permitidas uniões de facto)
Aparentemente, fora de tópico:
Existe um pérola famosa proferida pelo juíz Edilson Rumbelsperger Rodrigues de Sete Lagoas, Minas Gerais, que se recusou a aplicar a lei contra a violência doméstica assim como rejeitou outas queixas contra homens que agrediram as suas mulheres:
Escreveu ele na altura:
“Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher, todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem (…) O mundo é masculino! A idéia que temos de Deus é masculina! Jesus foi homem!”.
Perante isto, ficamos um pouco parvos a pensar como é que é possível existirem bestas destas…
Mas começamos aos poucos a perceber como, quando pessoas ditas “ responsáveis e de bem” respondem da seguinte forma em entrevistas, tal como fez o Monsenhor Luciano Guerra:
- Na sua opinião, uma mulher que é agredida pelo marido deve manter o casamento ou divorciar-se?
- Depende do grau de agressão.
- 0 que é isso do grau de agressão?
- Há o indivíduo que bate na mulher todas as semanas e há o indivíduo que dá um soco na mulher de três em três anos.
Trocando em miúdos:
Se dá um soco e se arrepende a seguir, não há problema.
Se dá um soco periodicamente, não há problema se se arrepender também periodicamente.
Se dá um soco com frequência, também não há problema se se arrepender também frequentemente.
E o limiar da frequência excessiva aceitável (uma semana ou três anos) é um problema de definição de cada um…
Já percebemos que o truque por aqui, é arrependermo-nos e no fim tudo acaba bem!
É basicamente este tipo de raciocínio que preside a canonização de um militar com sangue nas mãos como o santo contestável.
Senão vejamos:
Matou por motivos pueris?
É o responsável pela morte de milhares desnecessariamente?
Não faz mal pois arrependeu-se e ficou bonzinho.
É com este tipo de heróis que se pretende passar algum valor ético e moral à nossa juventude?
Qual será esse valor?
«- Afinal se ele até matou e é santo, então qualquer um também pode fazer as suas traquinices, desde que se arrependa a seguir…»?
Percebemos assim finalmente como é que existem senhores como o Monsenhor Guerra e o juíz Edilson Rodrigues.
Esta canonização ao tentar branquear as atrocidades de um guerreiro em nome do turismo religioso, está no fundo a passar a seguinte mensagem.:
Bons socos lá em casa e – e não se esqueçam – bons arrependimentos!
Abraços
Cara Maria
Ao contrário do que afirma o actual sistema de canonização, implementado por João Paulo II, em 25 de Janeiro de 1983, com a constituição apostólica “Divinus Perfectionis Magister”, já não contem a figura do “advogado do diabo”, a tal figura que passaria tudo a pente-fino e procuraria aduzir factos ou motivos que evitassem a canonização.
Desaparecido esse obstáculo, desde então o trabalho intensivo da Igreja que refere tem sido mesmo intensivo. Sob o pontificado de João Paulo II, em apenas 27 anos, cerca de 1.340 beatificações e mais outras 500 canonizadas, mais do que em toda a anterior história da igreja.
O ainda breve papado de Bento XVI já leva à sua conta com 577 canonizações e beatificações, a acreditar-se no Cardeal Saraiva Martins.
O que terá levado a igreja católica a tão prolixa actividade senão um puro jogo político para tentar “segurar” os fiéis em debandada espalhados pelos quatro cantos do mundo ?
Se D. Nuno “era” santo, isso terá sucedido à revelia da igreja, pois só a Comissão das Causas dos Santos, de que o português Saraiva Martins era o perfeito, é que detêm a autoridade para tal proclamar. Ou não terá já ouvido histórias de outros apregoados santos como a “santinha da ladeira” e outros mais ?
“D. Nuno viveu uma vida de obediência” ! É preciso lata, francamente, para fazer tal afirmação. D. Nuno, como garante militar do reino, na prática extorquia, para si e para os seus apoiantes, favores reais tais que se tornou na pessoa mais rica e mais importante do reino, ousando mesmo ter vassalos, mostrando aí desobediência uma vez que isso era privilégio real, e criando problemas ao rei e conflitos na corte, para além da vergonha que foi de sendo o Condestável e como tal comandante militar, não ter assumido esse papel no assalto a Ceuta, motivos esses, de vergonha tal, que o forçaram a refugiar-se no mosteiro depois de ter distribuido a sua fortuna aos netos. Mas ainda há quem diga que se refugiou no mosteiro devido à dôr da morte da sua mulher, ocorrida quase 50 anos antes, tal a inverosimilhança da pia lenda criada á sua volta.
Se o homem matou gente isso só por si deveria ser razão suficiente para não o beatificarem sequer, uma vez que contrariou claramente os mandamentos da lei de Deus que explicitamente postulam o “não matarás”.
Finalmente, se como reconhece as razões para a canonização não são as melhores, mais valia que não o canonizassem por essas razões e assim não maculassem o símbolo nacional que indubitavelmente é.
Daí que tal canonização não deva ser motivo de orgulho mas antes motivo de repúdio, como aliás já em 1942 o governo de então o fez, por se tratar de mera manobra politiqueira do Vaticano.
Cordialmente