Epidemia homofóbica católica

Estando em debate público a possibilidade de se deixar de ter uma descriminação legal à homossexualidade não seria anormal esperar uma vaga de homofobia católica, aliás, a primeira instituição a ser responsável pelo mesmo atentado aos direitos humanos. Se no debate Prós e Contras da RTP1 sobre o mesmo tema a representação católica fugiu ao tema, agora sem a possibilidade de ser interpelada pelos seus disparates desumanizantes vai vomitando doses intoleráveis de totalitarismo, sobre uma nota pastoral intitulada “Em favor do verdadeiro casamento“, o católico claro está, o civil será por exclusão de partes falso, ou possivelmente confundem os dois, veio a oposição a tudo e qualquer coisa que “equipare as uniões homossexuais ao casamento das famílias constituídas na base do amor entre um homem e uma mulher.“. Antes de qualquer coisa seria necessário definir amor, quantativa e qualitativamente, de que forma a violência doméstica num casal de pénis e vagina com devidas procriações se enquadra nesse amor, especialmente se for eterna, ou caso exista um termómetro do amor, a partir de que temperatura é que é considerado, durante o coito procriativo claro está.

Alude o Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, na filial do Vaticano chamada Fátima, a uma “tentativa de desestruturar a sociedade portuguesa“, esquecendo-se de aludir a que estrutura se apoia tal sociedade, mas não esquecendo realmente que a tentativa de acabar com determinada discriminação é uma desestruturação, então a estrutura da sociedade portuguesa é a discriminação, a ser realmente merece ser desestruturada o mais rapidamente possível.

O discurso variou para a rejeição de “uma lei que permita a adopção de crianças por homossexuais“, e caso tais ilustres clérigos não saibam, a lei é para os cidadãos portugueses e não para o Vaticano, assim sendo a sua rejeição pode manter-se nas suas fileiras como se tem mantido, e ainda bem, no Vaticano não habitam muitas crianças, questões de gosto não se discutem, desde que não acarretem os desgostos alheios. Ora um homossexual pode adoptar uma criança, obviamente, a menos que existam detectores de sexualidade espalhados por todo o lado da marca ICAR. Resta saber se existiriam as mesmas rejeições para pessoas que gostem de bacalhau com natas, para pessoas que não sejam católicas, para pessoas que toquem violino, para pessoas que tenham uma cárie dentária, e outras. Tentar misturar os seus discursos irracionais advindos de dogmas ignorantes num tema civil, onde a racionalidade é factor necessário, é bastante complexo numa sociedade laica.

A luta contra a homofobia é vista por estes personagens como “Uma alteração grave das bases antropológicas da família e com ela de toda a sociedade, colocando em causa o seu equilíbrio.“, e que bases antropológicas seriam essas? Claro, nenhumas. O conceito de família é algo muito diversificado, como a antropologia nos mostra, desde poliandrias no norte da Índia até à simples partilha de casa no Antigo Egipto em casamentos experimentais, uma prova aos sentimentos, fundar uma casa (gerep per) era um acto social, não jurídico e muito menos católico claro está, coabitação livre, pura e simplesmente. Equilíbrio em causa da discriminação existente poderá ser um equilíbrio futuro de uma discriminação menos existente, a desigualdade absurda é tudo menos equilibrada, pelo menos para pessoas que usufruam da totalidade da sua racionalidade, o problema parece residir no problema de desequilibrio de ovelhas, possivelmente a reduzirem, com a descriminação sexual, a empresa vaticanista trata de negócios, mas outros tratam da realidade e do bem-estar e felicidade das pessoas.

Abordada a “dimensão central da complementaridade dos sexos” e a declaração médica de que a existência de “diversos modelos alternativos de casamento e família constituiria fonte de perturbação para adolescentes e jovens“, declaração saída de um santo ofício onde os dados são nada e coisa nenhuma, psicologia juvenil é um tema de grande importância que não pode ser abordado desta forma demente e anti-científica, nem mesmo abordada por experiências pessoais terá sido, os elaboradores destes textos de banha da cobra assumem-se como incapazes de lidarem com mulheres e homens de uma forma afectiva e sexual, logo as suas experiências são a nulidade que o debate não precisa. Sem formas empíricas nem científicas de abordar o tema, é lógico que sai asneira, e se para os seus clientes vendem e legislam o que querem, para uma sociedade plural as coisas não funcionam assim, até ver a sociedade portuguesa tem um Estado, ou seja, não está legislada pelo Vaticano, os modelos alternativos de família são feitos por quem as incorpora, ou seja, cada um decide o melhor para si e para aqueles por quem nutre afectos, cada um trata da sua família, tribunais inquisitoriais dentro de casas que não pediram opinião é reles e de uma arrogância, essa sim, divina. Personagens que são contra estruturas afectivas por motivos pessoais a demonstrarem uma descomunal prepotência para quem é a favor de estruturas afectivas por ser em si mesmo um ser afectivo, querer entrar pela casa dentro das pessoas dizendo que uns afectos são legais e outros ilegais é presunção a mais e racionalidade a menos, ainda para mais o debate é feito sobre o casamento civil e não sobre o casamento religioso, ou seja, muitas das pessoas da sociedade portuguesa nem são ovelhas do Vaticano.

Os dislates continuam, “A família, fundada no casamento entre um homem e uma mulher, tem o direito a ver reconhecida a sua identidade única, inconfundível e incomparável, sem misturas nem confusões com outras formas de convivência.“, uma estranha tentativa de obrigar tudo e todos a comprar o produto católico, nem tão pouco a definição de família é correcta, o que não é de estranhar, tal ignorância, os personagens que vomitam tais disparates aparentemente não possuem qualquer família, conhecimento de causa é bom para debates, mas o intuito destes seres não é o debate obviamente, apenas um campeonato de débito de maior número de totalitarismos vesgos. Relativamente a misturas e confusões, com a sua definição de família, mais parece uma tentativa de inquisição, para não existirem misturas e confusões com as famílias de definição católica a única forma seria a criação de guetos, e nisso a Igreja Católica Apostólica Romana estaria muito provavelmente disposta a ajudar, muitos anos de conhecimentos nas lides.

A nota afirmava que “estas posições são aceites pelas diferentes culturas e civilizações, pela revelação judaico-cristã e assim o reconhece implicitamente a nossa Constituição da República e explicitamente o Código Civil Português.“, e realmente ai é que está o problema, Portugal não é uma filial do Vaticano, ou seja, possui cidadãos católicos e não católicos, portanto é aberrante impingir dogmas e outras irracionalidades a todos os cidadãos, que, segundo parece, são livres.

Seguidamente, “a homossexualidade denota a existência de problemas de identidade pessoal“, afirmação baseada em dados de nada e de coisa nenhuma, muito embora a frase faça sentido nos seguintes termos: a homofobia pode provocar a existência de problemas de identidade pessoal. Uma espécie de doença? Com que sintomas? Com que efeitos negativos no indivíduo? Aparentemente a felicidade dos indivíduos é uma possível doença na cabeça destes senhores. Mas realmente o assunto não lhes diz respeito algum, a psicologia e a psiquiatria não são religiões nem tão pouco se exercem com terapias de choques em homossexuais ou exorcismos, a identidade pessoal de um indivíduo é inviolável, porque os indivíduos são livres, e se não o são que lutem para o serem, contra qualquer tipo de opressão. Entrar dentro da cama das pessoas para lhes dizer que possuem problemas de identidade pessoal é aberrante e pérfido, querer atribuir contornos de doença a pessoas que simplesmente querem dar e receber afectos é de uma selvajaria ideológica brutal, uma desumanidade atroz.

Não obstante, “a Igreja rejeita todas as formas de discriminação ou marginalização das pessoas homossexuais e dispõe se a acolhê-las fraternalmente e a ajudá-las a superar as dificuldades que, em não poucos casos, acarretam grande sofrimento“, ou seja, tentar torná-las heterossexuais à força, retirando esses “problemas de identidade pessoal“, coisas que levam sem dúvida ao sofrimento, e ai a Igreja Católica Apostólica Romana tem as suas vendas de piedades e caridades hipócritas. Inventar doenças para vender remédios, como a história desta instituição nos habituou a isso… Mas obviamente que quem quiser cair no engodo é livre de o fazer, querer que o engodo seja forçado a todos os cidadãos portugueses é simplesmente macabro.

A linha de acção da Igreja Católica Apostólica Romana continua nos mesmos moldes de ódio e intolerância, de imbecilidade e agressão gratuita, não esquecendo obviamente a prenda de Ratzinger no Natal também sobre o tema, “[A Igreja] deverá proteger o homem de se destruir a ele mesmo. É preciso uma espécie de ecologia do Homem“, ecologia essa que defende que “salvar a humanidade de comportamentos homossexuais ou transexuais é tão importante como salvar as florestas tropicais da destruição.“. É grave e completamente desumano atentar de forma tão atroz contra a felicidade e o bem-estar das pessoas, ainda por cima, este despotismo começa a ser monótono, a mesma verborreia despejada durante quase 2000 anos.

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