Mas o homem não disse nada de mal!

«Os líderes da Igreja Católica na Terra Santa emitiram um comunicado conjunto condenando os “repugnantes ataques” contra Jesus Cristo e a Virgem Maria (…) “nestes dias, durante um programa nocturno do Canal 10, uma série de horríveis ofensas foram lançadas contra a nossa fé e, por conseguinte, contra nós, cristãos” (…) o canal foi utilizado “para profanar a nossa fé e ofender milhares de cidadãos israelitas cristãos e milhões de cristãos no mundo”.»  [Agência Ecclesia]

Maria foi engravidada aos 15 anos por colega de turma“.

Eis uma das frases com que Leor Shlein, humorista israelita, brindou os espectadores do canal privado “Canale 10″. Brincar com a vida de Jesus e a sua imaCUlada mãe não é para qualquer um, e o homem teve a proeza de provocar a ira do Vaticano, acrescentando-se a indignação adicional de cristãos e clérigos locais.

Resultado? Interrupção do programa (lembro que passou num canal Privado, mas como estamos na teocracia israelita, imagino que tal seja possível), para não lhe chamar censura. O humorista entretanto fez um pedido de desculpas público. Sabe-se lá se não o ameaçaram de morte ou simplesmente com a perda do emprego.

«Os bispos católicos da Terra Santa consideram este programa “como um sintoma dos maiores problemas que afectam a sociedade, como a intolerância, a rejeição do outro e o ódio”.»

Uma instituição que fez jusrisprudência no capítulo do ódio (ainda para mais quando o autor das blasfémias se trata de um judeu) e da intolerância arroga-se do direito de tentar censurar toda e qualquer coisinha que não lhe agrade. Planeta Terra, Século XXI. 

Entrevistas com a Rainha Santa, batráquios crucificados e outras quaisquer manifestações de arte ou humor dos mais variados tipos levam com a ira e a indignação instantâneas da classe clerical, o mesmo não acontecendo com atrocidades cometidas um pouco por todo o mundo, desde o Holocausto ao genocídio no Ruanda (onde a indignação quando a há, peca por ser tardia). 

Mas não esqueçamos que enquanto continuarem a reagir nestes termos mais motivos há para continuar a escrever coisas bonitas sobre o cristianismo. Não perde a piada, não senhor!

Em jeito de solidariedade com o ocorrido gostaria de passar aqui, com a devida vénia ao autor, os seguintes trechos. Isto sim, é bonito e devia fazer parte dos programas de língua portuguesa nas escolas!

«A barriga de Maria crescia sem pressa, tiveram de passar-se semanas e meses antes que se percebesse às claras o seu estado, e, não sendo ela de dar-se muito com as vizinhas, por tão modesta e discreta ser, a surpresa foi geral nas redondezas»

«Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxílio dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas ancas, de um lado e do outro. Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele (…) Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto já. Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa, o ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa. Maria parou -ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele (…) Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito»

[O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago]

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