“Chorar antes de ser magoado”

Este é mais um texto de opinião absolutamente brilhante por parte de Christopher Hitchens, que recomendo vivamente na sua integra (para quem domina melhor o Inglês). Hitchens fala-nos da auto-censura por medo da sociedade ocidental, principalmente naquilo que deve ser uma das suas mais vibrantes características: a sua cultura.

Mais uma vez, deixo aqui algumas partes em Português.

O original pode ser encontrado aqui.

De Christopher Hitchens

“No dia de S. Valentim, em 1989, o Ayatollah Khomeini do Irão dava ao livro “Os Versículos Satânicos” a pior critica que um novelista poderia alguma vez ter, clamando pela morte do autor e de todos aqueles “envolvidos na sua publicação”.

Esta foi a primeira vez que muitas pessoas fora do mundo muçulmano ouviram a palavra fatwa (…) desde então temos visto outras expressões de violência pelos mesmos fiéis nos seus periódicos acessos de raiva. O cineasta holandês Theo van Gogh, foi assassinado e mutilado numa rua de Amesterdão depois de ter feito um pequeno filme onde retratava os maus-tratos das mulheres muçulmanas na Holanda. A sua colega Ayaan Hirsi Ali, um membro eleito do parlamento Holandês tem de viver no exílio devido às repetidas ameaças de morte (…).

Em Outubro último a Sony PlayStation teve de adiar o lançamento do jogo LittleBigPlanet devido a existir no jogo uma canção do artista Toumani Diabaté, que, de acordo com um relatório da Press Association, continha duas expressões que “podem ser encontradas no Alcorão”. O relatório não explicava que “expressões” eram essas, num exemplo de auto-censura, ou se preferirem de “chorar antes de ser magoado”.

Mas as pessoas podem se magoar, não haja dúvidas sobre isso. Umas semanas depois da Sony ter capitulado, uma bomba incendiária foi lançada sobre uma casa particular no norte de Londres, que é igualmente a sede de uma pequena editora chamada Gibson Square Books. O director, Martin Rynja, foi o alvo do atentado devido a ter decidido publicar uma novela romântica chamada The Jewel of Medina, pela escritora Americana Sherry Jones, que conta a história da mais nova, e preferida, esposa de Maomé, a menina de 9 anos de idade chamada Aisha (casada aos 6 anos). O romance tinha sido originalmente sido encomendado pela Random House de New York. Como aconteceu ser uma pequena editora Inglesa a ter os direitos do livro? Por causa da Random House ter desistido da publicação do dito livro quando recebeu uma ameaça que dizia que a Random House poderia ter outro “caso Rushdie” (…).

Duas décadas depois, Salman vive muito bem e é novamente um homem livre. Mas a cultura que o sustem retorceu-se para uma cultura onde existe uma auto-censura resultado de uma condenação de um teocrata já falecido, mas que continua a exercer uma influência aterradora. E já agora, da próxima vez que as adoráveis crianças de Khomeini quiserem se fazer presentes, eles não estarão apenas armados com fatwas, mas com armas nucleares.”

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