O que mudará tudo? Dawkins responde.

“O que mudará tudo?” foi a pergunta feita a filósofos, cientistas, escritores e artistas. Sam Harris, Brian Eno, P.Z. Myers e Ian McEwan foram algumas das personalidades abordadas.

Respondendo ao desafio lançado por edge.org o biólogo evolucionista (que dispensa apresentações) Richard Dawkins é polémico e põe o dedo na ferida:

«O cientista Richard Dawkins não esteve com meias medidas. Para ele se há algo que pode mudar as concepções que a sociedade tem sobre o homem – que estão na base de muitas discussões éticas sobre temas como o aborto ou a eutanásia – é a “hibridação com sucesso entre um humano e um chimpanzé”.

(…) “A nossa ética e as nossas políticas assumem, na sua maioria sem questionarem ou sem discutirem seriamente o tema, que a divisão entre o humano e o ‘animal’ é absoluta”, começa o cientista, para quem é este pensamento que está na base de políticas pró-vida que rejeitam o aborto e a eutanásia.

[Acrescento eu, a partir do artigo do Guardian:"Abortion clinic bombers are not known for their veganism, nor do Roman Catholics show any particular reluctance to have their suffering pets 'put to sleep'." : Os que colocam bombas em clínicas de aborto não são conhecidos pelo seu veganismo nem os católicos mostram relutância quando colocam "a dormir" os seus animais de estimação em sofrimento.]

“Nas mentes de muitas pessoas, o zigoto humano [a célula que resulta da fusão de um óvulo e de um espermatozóide], que não tem sistema nervoso e não pode sofrer, é infinitamente sagrado somente por ser humano. Mais nenhuma célula tem um status tão nobre”.

(…) Segundo Dawkins, se houvesse um Paraíso com todos os animais que já viveram, o reflexo da evolução mostraria um continuo de animais que permitiria ligar-nos em rede, através da reprodução, tanto a um chimpanzé, como a um canguru ou a um peixe-gato.

(…) Apesar de em teoria o cientista defender que as pessoas percebem este raciocínio, “o que mudaria seria uma demonstração prática”. Dawkins dá quatro exemplos do que poderiam ser estas demonstrações: a descoberta de uma população de hominídeos vivos algures na Terra (o investigador não acredita nesta possibilidade), a hibridação com sucesso entre um humano e um chimpanzé, a produção de uma quimera com células de chimpanzé e de humano e a produção, através de engenharia genética, de um ser com ADN das duas espécies.

Referindo-se ao híbrido, o investigador explicou que, “mesmo que fosse infértil, as ondas de choque que iriam ser propagadas pela sociedade seriam de salutar. É por isto que biólogos iminentes descreveram esta possibilidade como a experiência científica mais imoral que se pode imaginar: porque mudaria tudo!”.

Mas as quimeras e a produção de um ser com ADN das duas espécies também seriam motivos de mudança. “Quão humana terá que ser uma quimera antes de haver regras de investigação mais restritivas?”, avança Dawkins.

Em relação ao ser fabricado por engenharia genética, o investigador defende que através do conhecimento do genoma humano e do chimpanzé pode chegar-se a genomas intermédios de um ancestral comum das duas espécies. “O genoma intermédio entre este ‘ancestral’ reconstituído e um homem moderno, poderia, se fosse implantado num embrião, desenvolver-se no que seria um austrolopiteco renascido”

(…) “Eu não disse que espero que alguma destas possibilidades se realize. Para isso era necessário reflectir mais.” Mas o autor admite que há um grau de excitação sempre que se é forçado “a questionar o que até agora é inquestionável.”» [Público]

A ciência bem pode, a curto prazo, dar cabo das aspirações das religiões e líderes religiosos que envenenam a mente das pessoas. Se a teoria da evolução já abalou os alicerces de muito culto (apesar do evidente amuo de alguns sectores que levam a coisa mais à letra), imagine-se o que será se se puser em prática o que Dawkins menciona…

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