Noticia o Público do passado Domingo, na sua edição impressa, que a “moral e a religião e as lacunas de pluralismo desportivo” constituem os temas que mais queixas e protestos levantam na ERC.
O sketch “Louvado sejas, ó Magalhães!” registou um número recorde de queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social ao longo dos seus dois anos de existência. Ao todo, 121 almas católicas manifestaram o seu desagrado em relação à homilia de Ricardo Araújo Pereira. Não esqueçamos ainda o excelente programa Os Contemporâneos (que começa a ameaçar os fedorentos em termos de qualidade de humor e tipo de conteúdos), que recebeu três queixas por causa da “linguagem brejeira e obscena” num dos episódios, outra por causa da sexualidade no programa “Novas Oportunidades” e outra por causa de um sketch sobre homossexualidade.
Mas, ao mesmo tempo que ainda se levanta alguma polémica quando o tema em causa é a religião, começam a aparecer mensagens de apoio aos programas (em particular para o “Zé Carlos”) e mesmo “contra o envio das queixas”. E o melhor exemplo veio (curiosamente) da parte de D. Januário Torgal Ferreira, que afirmou: “quem não tiver humor, que não veja“.
O Provedor do Telespectador Paquete de Oliveira refere, no mesmo artigo, que a temática ligada às questões morais e religiosas “Tem a ver com configuração do universo dos portugueses, que reagem de uma forma muito forte em relação à questão religiosa”. Mas já foi pior.
Se no final dos anos 80 e inícios dos 90 ainda apareceram casos de censura que envergonham qualquer sociedade civilizada, como foi para o programa “Humor de Perdição”, quase 20 anos depois a sociedade parece ter mudado. A ridicularização de personagens da história de Portugal foi o motivo dado para a censura ao programa de Herman José (claro que a gente acredita que não se deve ridicularizar as personagens da história do nosso país, nomeadamente quando um dos episódios alvo de censura foi sobre a Rainha Santa Isabel). Outros casos foram o episódio da última ceia no programa “Herman Zap” e o veto do governo PSD ao “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de Saramago.
Não é tempo dos católicos mais intolerantes perceberem que estamos num Estado laico?
À parte do tema religião destaca-se ainda, entre as muitas queixas na ERC, a questão do futebol (cujo envolvimento da população e correspontentes emoções associadas apenas rivalizam com a própria religião em si, com a grande diferença de haver poucos “não praticantes”). Milhares de queixas são apresentadas em relação ao desporto-rei, nomeadamente no que toca ao alinhamento dos telejornais (muito exagerado e a roçar o ridículo, como se vê nos directos do autocarro da selecção a viajar para o estádio, por exemplo) e à atenção pouco ou nada dada às outras modalidades. Apesar de ser grande fã de futebol irritam-me os telejornais, quando são dadas honras de abertura ao desporto-rei, para além dos fait-divers e outras notícias completamente desprezíveis envolvendo dirigentes.
E quem diz dirigentes desportivos, diz padres e bispos. Não esqueçamos a nossa classe clerical, a qual debita barbaridades em horário nobre.
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Esses 121 devem ser ex-PIDE ainda não recompostos pelo fim da ditadura e da censura. Querem por certo voltar ao tempo em que a igreja se imiscuía na vida social e cultural do país, filtrando tudo o que fosse do desagrado de “nosso senhor jesus cristo filho unigénito de deus criador de todas as coisas visíveis e invisiveis”. Felizmente, esse tempo já passou. É que se assim não fosse, até eu ia para o tarrafal expiar os meus pecados, com a benção do senhor, é claro, porque ele ama-me.
Bom artigo
Marco
Portanto, uma pessoa exercer os seus direitos (uma queixa a ERC é um direito que assiste a todos, fundamentada ou não) é ser ex-PIDE.
Ou seja, voces podem ofender-se e fazer queixas por tudo e por nada que estão a lutar pela liberdade. Os católicos fazem uma queixa e são ex-PIDES ridiculos. Certissimo, “Todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais que outros”…
Oh meu caro Z,
Como disse e bem o seu D.Januário, quem não tiver humor, que não veja. Mas ainda digo mais. Quando é o mais alto representante do Estado a ser satirizado ninguém se queixa, nem o prório. Mas quando é um culto mitológico de formatação cerebral, cai logo o carmo e a trindade. Quem é que, tão púdico ao ponto de fazer este tipo de queixas, num estado onde impera a liberdade de expressão, vai ver um programa onde o sarcasmo e a ironia são os pratos fortes. Fazem lembrar aqueles e aquelas beatas de adro de igreja, que viam filmes e novelas com nudez para no dia seguinte poderem dizer mal. Ganhem juízo! Vejam a TV Record. VIVA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO!
Marco
E onde é que foi ofendida a liberdade de expressão? Alguém impediu o programa?
E n há liberdade para se queixarem? Não percebo…
Aqui concordo absolutamente com o Z. Estaremos dispostos a aceitar que alguém, crente ou não, não tenha a capacidade de se queixar do que vê na televisão? A liberdade de expressão implica que se possa exprimir variadissimos pontos de vista mas também que estes possam ser questionados por quem discorda deles. Este portal e os seus posts estão relacionados normalmente com o ultraje em relação a afirmações proferidas por crentes. Também este espaço deveria ser fechado? Algum de nós quer ser chamado de oficial das SS por discordar das afirmações de indole religiosa?
Esta incapacidade dos ateístas em passarem as suas criticas por um critério de idoneidade é contraproducente para a causa. “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”.
Toda a gente tem o direito à indignação, traduzida neste caso como uma queixa formal num organismo do Estado. O que critico é o facto desta gente pensar que as suas crenças estão acima da liberdade de expressão.
As ofensas ao sentimento religioso são invocadas em todo o mundo para se tentar acabar com coisas teoricamente aceites por muitos. Para isso já nos chegou uma ditadura. Habituem-se.
O melhor era terem estado calados. Publicicade boa ou má, é sempre publicidade. Não fosse essa avalanche de queixas e o sketch passaria quase despercebido, a menos que os fabricantes do Magalhães também apresentassem queixa.
O Rui continua a querer atirar o proverbial bebé com a água do banho. “Toda a gente tem o direito à indignação…. O melhor era estarem calados.” Defendamos a liberdade de expressão mas devemos suprimir os que se opuserem ao que concordamos. Liberdade de expressão não é uma questão de cinzentos, ou existe ou não. Para que existe então a ERC ou o Provedor?
Esse ateísmo militante espelha muitas vezes o fundamentalismo dos religiosos. Já não é a primeira vez que chamo a atenção para extremismo ateísta de alguns destes posts. Isso em nada ajuda a causa. Se este espaço chama-se Portal Ateu acho que devem ter a responsabilidade de ter critérios editoriais que sigam um minimo denominador comum e que deixem os radicalismos para a secção comentários, para que todos possamos ser representados. Não é justo ser colocado na situação em que tenho ao mesmo tempo de usar o chapéu da verdadeira liberdade de expressão e o chapéu de ateísta. Deveriam ser duas faces da mesma moeda. A mim ofende-me tanto que islamo-fascistas usem todos os métodos para silenciar uns cartoons sobre o profeta como que alguns países criminalizem os oposicionistas ao Holocausto. Liberdade de expressão funciona para o bem e para o mal; para ser verdadeiramente representativa não há outra alternativa.
Luís Nascimento,
Quando digo que deviam ter estado calados apenas queria dizer que o facto de se terem queixado provocou uma onda de publicidade grátis ao sketch. O efeito que pretendiam com a queixa pode ter sido o oposto.
Todo o cidadão tem o direito a usar os instrumentos legais e os meios de comunicação para exprimir as suas ideias, mas neste caso creio que é um tiro no pé. D Januário TF acaba por ser a pessoa mais lúcida e deu o exemplo.
Estes 121 parecem mais papistas do que o Papa, não acha?
Eu gostaria de saber como seria tratado um ateu ou uma pessoa de outra religião (neo-pagã, por exemplo) caso este se queixasse das televisões portuguesas apenas transmitirem missas cristãso (como acontece na TVI, por exemplo).
Eu fico é desapontado com o número de queixas: apenas 121????
Por favor! Num pais de 9.380.000 católicos (acreditando nestes dados: http://www.ecclesia.pt/estatistica_igreja2004.pdf), e deduzindo que a audiência dos Gatos ronde os 11% de portugas, isso quer dizer que 1.100.000 – 121 = 1.099.879 de católicos não se indignaram??? Assim não! Que raio de humor consensual é este?
Eu só fico feliz quando a ERC receber 9.380.000 milhões de reclamações. Isso sim, seria bonito!
Draconus Thorn,
Uma pessoa que se queixasse das missas nesses termos creio que passaria despercebida, a menos que viesse algum bispo manifestar a sua indignação em relação à queixa.
A grande questão está na televisão pública. Um Estado laico nunca devia ter missas, homilias de natal e outras beatices na sua estação de televisão. Quanto à TVI a coisa já é diferente (mas não esqueçamos que enquanto foi “propriedade” da igreja nunca conseguiu grande nível de audiências).
Lucas Samuel,
Esses 121 são os únicos que cumprem a 100% as emanações da ICAR, os outros pecam de vez em quando ou inserem-se dentro dos “não praticantes”.
Exacto, eu não estou a dizer que um Estado laico deveria ter missas e rituais de qualquer religião que seja. Claro que podem e devem ser transmitidos documentários sobre as diferentes religiões, porque conhecimento nunca fez mal a ninguém. Excepto a Adão, claro! xD
Eu até sou a favor da privatização da RTP, mantendo apenas um canal Público ao estilo da RTP2: cultura, informação, divulgação, cidadania.
Blasfémia! Os Contemporâneos é um programa mil vezes melhor que o Gato Fedorento. O primeiro tem um humor acutilante; o segundo tem um humor chato, brejeiro, repetitivo, embora aquele sketch da oração do magalhães tenha sido excelente.
Caros Z e Luis Nascimento,
quando defendi a liberdade de expressão nos meus comentários, não me referia apenas à liberdade de se passarem programas mas sim de uma forma geral. Incluindo, como é óbvio, a dos 121 fazerem as queixas que bem entendem. Apenas, e isso sim, exprimi a minha opinião acerca do motivo que originou a queixa (coisa que me posso dar ao luxo de fazer aos olhos dessa mesma liberdade de expressão), que continuo a achar ridículo. Aquele programa é feito de sátiras, sarcasmos e ironias. Estavam à espera de quê?
Quando me referi às possíveis intenções dessas queixas, basta ver o que se passou, já em pleno estado democrático do país, com outros programas referidos no artigo, para se perceber o tipo de pressões que alguns sectores da sociedade exercem sobre a comunicação social. Não vou dizer, mas era capaz de apostar que se o programa estivesse destinado televisão do estado, talvez (e só estou a dizer, talvez) não tivesse passado. Mas não vou dizer isso.
Gostava também de dizer que é com alegria que constato que o país está a mudar. Não por comentários que tenha lido aqui mas porque apenas 121 portugueses se queixaram, o que de acordo com as estatísticas do Lucas Samuel, é simplesmente insignificante. Uma de duas conclusões se podem tirar, ou os católicos estão com uma mentalidade mais aberta o que não é mau de todo. Ou as estatísticas quanto ao número de católicos está errada, o que é óptimo.
Marco, antes de mais reparo que para si o importante é que não existam católicos. Mais uma vez se confirma a tendência deste site de ser, antes de mais, anti-religião (basta ver que os últimos quinze artigos dizem todos mal da religião).
Quanto a nao passar na televisao do Estado é um disparate. Basta lembrar a rábula que o Herman fez há uns anos à última ceia.
Por fim, não percebo porque é que os senhores podem fazer pressão para que a televisão pública não transmita missas ou cerimónias religiosas e os católicos não podem fazer o mesmo para que não passem coisas que ofensiva para a nossa fé.
A liberdade de expressão é essencial, mas cada um deve ter o cuidado de respeitar os outros ao usar a sua liberdade de expressão.
Caro Z,
Respondendo primeiro à questão da censura, a rábula do Herman foi mesmo censurada. A que passou na televisão não era a que originalmente foi feita, a da rainha santa Isabel nem chegou a passar. Por isso, pressões da igreja na comunicação social pública, sempre houve. Todos sabemos que não são os únicos a fazê-la, mas como não estamos aqui a discutir política falo da igreja.
Quanto aos Ateus fazerem pressão para não serem passados programas religiosos na estação pública, era sobrepôr o que diz a constituição acerca do estado laico. Cabe às entidades legisladoras e reguladoras fazer com que se cumpram as determinações da constituição (ex: o caso das cruzes nas escolas). Se alguém entender que o deve fazer, força. Só estará a pedir que se cumpra a lei (bastante diferente dos motivos do “bando 121″). Eu não o faço, simplesmente mudo de canal.
Quanto à sua primeira afirmação. É por demais óbvio, que o meu ideal não era uma sociedade sem católicos. Era sim, uma siciedade sem qualquer tipo de religiões, deuses, divindades, seres messiânicos, sem monstros do esparguete, bules, lobisomens, fadas dentinho e pai-natal, ou duendes e elfos, ou coisas que o valham. Todos esses deveriam estar integrados numa secção própria das livrarias, como por exemplo: – História Antiga da Humanidade; – Antes da Razão; – Civilizações Passadas; – Do Tempo dos Nossos Avós; – Como se Via o Mundo Antigamente. Depois faziam-se documentários para o canal História, a falar de como era a sociedade mundial antes da grande Iluminação Geral que marcou o fim das utopias religiosas.
Isso sim, é o meu desejo para a sociedade. Não simplesmente o fim dos católicos.
Ou seja, vc n se limita a n acreditar em Deus, quer que todos os outros n acreditem.
Quanto à questão das cruzes nas escolas (entres outras) n é linear que decorra da lei. Vários juristas, nem todos cristãos, discoradam dessa interpretação.
E n são só os politicos ou os religiosos que fazem pressão, todos fazem. É natural e democrático que assim seja. Se a pressão for dentros dos limites da lei todos o podem fazer. A televisão depois decide se cede ou n.
Por todos os motivos que já referi em comentários anteriores e outros que ainda não tive oportunidade de o fazer, é óbvio que eu, e estou convicto que todos os outros Ateus também, desejamos viver num mundo onde não existam crenças em divindades sobrenaturais. Repare que digo desejamos, e não desejávamos, porque estou convicto de que um dia a ciência conseguirá esclarecer tanta coisa, que as religiões não terão onde se agarrar para conseguir convencer ninguém de que existem esses seres sobrenaturais e sobrehumanos. Eu sei que este pensamento consegue roçar a utopia. Mas enquanto os crentes têm esperança de ir para um paraíso depois da morte eu tenho esperança de o ter cá na terra em vida.
Você depois de ler o que acabei de dizer, vai-me perguntar: Então mas acha realmente, que se acabarem as religiões e todo o tipo de crenças, acabarão as guerras? Respondo-lhe já que não. Não sou “naif” a esse ponto. Mas garanto-lhe desde já, que a grande força mobilizadora para a maior parte delas, levaria um rude golpe porque, não tenha dúvidas que a religião sempre foi a maior força mobilizadora das guerras. Até aquelas que se faziam e fazem com fins económicos têm como grande angariação de homens, a religião. Quem diz fins económicos, diz fins territoriais ou outros tipos de fins. A religião está implicita, não direi em todas porque não seria verdade, mas em quase todas as guerras.
Marco, acho engraçado o seu dogmatismo. Fala em dogmatisto da parte dos crentes, mas a sua negação de Deus é tão veemente como qualquer dogma. O Marco, tão agarrado à ciência, tem uma fé que a ciência há de provar que Deus não existe. Mera questão de fé claramente.
Quanto as guerras, a sua argumentação é falsa. Basta ver as grande guerras e mortandades do século passado e ver quantas tiveram motivos religiosos. (Se retirarmos as perseguições aos cristão no México e pela Republica de Espanha, onde os ateus perseguiram os cristãos, verá que bem poucas…)
Chegámos à parte da discordância meu caro Z.
A ciência não quer aprovar que Deus não existe, nem conseguiria. Compete-lhe a si, que faz afirmações que nos escapam a todos, fazê-lo.
Quanto à matriz religiosa das grandes guerras não pode certamente acreditar nisso. Se por um lado não podemos relacionar o movimento nacional socialista alemão directamente com o catolicismo, conseguirá certamente identificar tonalidades religiosas milenares na perseguição dos judeus e na noção da eugenia nazi. Penso que também não negará a aliança entre o fascismo italiano e a igreja católica, no mínimo uma vergonhosa conivência. Os japoneses iam mais longe já que pensavam que o seu imperador era um Deus, o que tornaria a sua capitulação uma improbabilidade tendo sido um factor importante na utilização de armas nucleares.
E óbvio que a matriz nacionalista de todos estes conflitos não pode ser ignorada. O que é certo é que noções religiosas alimentaram o nacionalismo exacerbado.
Caro Z,
O Sr Luis Nascimento já disse quase metado do que eu tinha para dizer, o que desde já corroboro e agradeço.
Pegando agora na questão de eu ser dogmático, até podia num devaneio mental da minha parte, dizer que era verdade. Mas não o vou fazer por um simples motivo: Eu não ponho sequer a hipótese, deus. Como disse um dia Sebastièn Faure:
“Foste vós que, primeiramente, afirmastes a existência de Deus; deveis, pois, ser os primeiros a pôr de parte vossas afirmações. Sonharia eu, alguma vez, com negar a existência de Deus, se vós não tivésseis começado a afirmá-la? E se, quando eu era criança, não me tivessem imposto a necessidade de acreditar nele? E se, quando adulto, não tivesse ouvido afirmações nesse sentido? E se, quando homem, os meus olhos não tivessem constantemente contemplado os templos elevados a esse Deus? Foram as vossas afirmações que provocaram as minhas negações. Cessai de afirmar que eu cessarei de negar.”
“Eu não ponho sequer a hipótese, deus”
Se nem sequer põe a hipótese Deus, é de uma estupidez e irracionalidade total estar a discutir Deus.