“Seres humanos completos”

Não tenho tantas oportunidades de desenvolver um argumento sobre estas questões do ateísmo em formato de “artigo de opinião” como gostaria de ter. Mas de vez em quando, e quando o tema vale a pena, não me importa nada estar agarrado ao computador mais um pouco (e é tempo a mais, acreditem).

Qual é, na minha opinião, a gravidade de se dizer que um ovo fertilizado é um “ser humano”, seja ele completo, em formação, em potencial, em brinde de pacote Cerelac?

Porque é uma ideia eminentemente religiosa! Para além dessa justificação, não existem muitos outros argumentos que sejam lançados para debate do lado do “ser humano completo” no momento da fertilização. E muito menos, não conheço argumentos que não sejam religiosos sobre “direitos como ser humano” do zigoto.

E qual é o problema em se querer dar esses direitos a um conjunto de células?

Vejamos alguns exemplos práticos.

Se um ovo fertilizado é uma “pessoa”, e que por causa disso tem de ser defendido, o que podemos nos concluir de uma situação onde uma mulher que engravidou na noite anterior (e claro, não tem maneira de o saber), vai beber umas cervejas, ou fumar, ou o que quer que seja.

Essas actividades podem causar dano no embrião. Pode a mulher ser então acusada de “comportamento danoso para o ser humano que existe dentro dela”? Ou se uma mulher grávida que tem de tomar medicamentos para o seu normal funcionamento, mas que afecta a sobrevivência do feto? Estamos a falar em homicídio involuntário?

Ou pensem nesta situação hipotética (mas que ajuda a demonstrar o absurdo da argumentação do lado oposto). Estamos a passar à porta de um laboratório que está em chamas. Entramos dentro do edifício para tentar salvar uma criança que grita de desespero. Quando entramos numa sala, de um lado está uma criança, no outro um reservatório com 10 ovos fertilizados. Se fizer aquilo que tem lógica, salvar a criança, está a deixar morrer 10 outros “seres humanos”.

Um zigoto é um conjunto de células. Não existe nada de “ser humano” nelas. Existe o ADN, e a capacidade totipotente, mas isso não faz dessas células uma “entidade com direitos”. Tanto o ovo como o espermatozóide tem, em si próprios, a capacidade de serem “seres humanos”. Não há nada de extraordinariamente especial neste caso por ter havido uma fertilização. Qualquer célula, com o seu ADN manipulado, pode ser utilizada para replicar um ser humano.

E mesmo quando se afirma que “um ovo fertilizado é o primeiro passo para o ser humano em que se irá transformar”, isso só por si não é factor determinante: existem um milhão de outros passos que tem de correr todos bem para que se desenvolva esse ovo num feto, e num bebe. Se um desses passos falhar, não existirá nada, a não ser um conjunto de células que são absorvidas pelo organismo para outras funções.O que acontece então ao “ser humano”?

Na minha opinião, um ser humano, é possível que possa ser chamado assim, quando se começa a ter actividade cerebral. Assim como o fim da vida é quando o cérebro para de funcionar, o princípio da vida é quando esse mesmo cérebro começa a funcionar.

É o que eu acho.

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