“Seres humanos completos”
Não tenho tantas oportunidades de desenvolver um argumento sobre estas questões do ateísmo em formato de “artigo de opinião” como gostaria de ter. Mas de vez em quando, e quando o tema vale a pena, não me importa nada estar agarrado ao computador mais um pouco (e é tempo a mais, acreditem).
Qual é, na minha opinião, a gravidade de se dizer que um ovo fertilizado é um “ser humano”, seja ele completo, em formação, em potencial, em brinde de pacote Cerelac?
Porque é uma ideia eminentemente religiosa! Para além dessa justificação, não existem muitos outros argumentos que sejam lançados para debate do lado do “ser humano completo” no momento da fertilização. E muito menos, não conheço argumentos que não sejam religiosos sobre “direitos como ser humano” do zigoto.
E qual é o problema em se querer dar esses direitos a um conjunto de células?
Vejamos alguns exemplos práticos.
Se um ovo fertilizado é uma “pessoa”, e que por causa disso tem de ser defendido, o que podemos nos concluir de uma situação onde uma mulher que engravidou na noite anterior (e claro, não tem maneira de o saber), vai beber umas cervejas, ou fumar, ou o que quer que seja.
Essas actividades podem causar dano no embrião. Pode a mulher ser então acusada de “comportamento danoso para o ser humano que existe dentro dela”? Ou se uma mulher grávida que tem de tomar medicamentos para o seu normal funcionamento, mas que afecta a sobrevivência do feto? Estamos a falar em homicídio involuntário?
Ou pensem nesta situação hipotética (mas que ajuda a demonstrar o absurdo da argumentação do lado oposto). Estamos a passar à porta de um laboratório que está em chamas. Entramos dentro do edifício para tentar salvar uma criança que grita de desespero. Quando entramos numa sala, de um lado está uma criança, no outro um reservatório com 10 ovos fertilizados. Se fizer aquilo que tem lógica, salvar a criança, está a deixar morrer 10 outros “seres humanos”.
Um zigoto é um conjunto de células. Não existe nada de “ser humano” nelas. Existe o ADN, e a capacidade totipotente, mas isso não faz dessas células uma “entidade com direitos”. Tanto o ovo como o espermatozóide tem, em si próprios, a capacidade de serem “seres humanos”. Não há nada de extraordinariamente especial neste caso por ter havido uma fertilização. Qualquer célula, com o seu ADN manipulado, pode ser utilizada para replicar um ser humano.
E mesmo quando se afirma que “um ovo fertilizado é o primeiro passo para o ser humano em que se irá transformar”, isso só por si não é factor determinante: existem um milhão de outros passos que tem de correr todos bem para que se desenvolva esse ovo num feto, e num bebe. Se um desses passos falhar, não existirá nada, a não ser um conjunto de células que são absorvidas pelo organismo para outras funções.O que acontece então ao “ser humano”?
Na minha opinião, um ser humano, é possível que possa ser chamado assim, quando se começa a ter actividade cerebral. Assim como o fim da vida é quando o cérebro para de funcionar, o princípio da vida é quando esse mesmo cérebro começa a funcionar.
É o que eu acho.
Artigos relacionados
19 Comentários
Feed RSS de comentários a este artigo »Deixe um Comentário
Você deve estar logado para enviar um comentário.










Ricardo,
Não vejo porque gastas o teu latim a pregar um tema que é, seguramente, o mais emblemático estandarte da ortodoxia católica. Eles precisam disto. Não se trata de separar entre “vida” ou “morte” – e já agora, nem de separar vida ou morte de seres humanos (pois se assim fosse, a veemência com que a Igreja se lança em campanhas “pró-vida”, seria igualmente direccionada para outras cruzadas à escala mundial).
Não. A questão aqui não é entre vida ou morte; a questão aqui é: dominação sobreviência do dogma. Dominação dos corpos, dominação dos espíritos através da infiltração do sentimento de culpa, de despoletar “má-consciência” no ser humano, de manter viva a chama quase extinta do sentimento de “pecado”. Essa treta do aborto e da “vida” é, obviamente, um pretexto; um subterfúgio filosófico para manter acesa a chama de uma militância religiosa que, cada vez mais, vai perdendo os seus estandartes.
Saudações… em ti.
Lol
Sendo esta uma matéria pela qual nutro especial interesse, lembrei-me de uma situação que ocorreu com uma amiga minha. Durante muito tempo tentou engravidar, sempre sem sucesso. Usava inclusivamente métodos que permitiam saber com relativa segurança em que altura ocorria a ovlação. O que se passou com ela foi que havia de facto fecundação mas a ovolação ocorria numa altura em que o útero não estava apto a receber o zigoto, logo não havia nidação. O mais engraçado de tudo é que ela até era (é) católica e nem assim “Deus” lhe fez a vontade de a fazer mãe, aliás, “Deus” estava a fazer abortos consecutivos uma vez que não deu lá uma mãozinha para que um finalmente vingasse. Quem conseguiu ajudar foi a ciência, com medicação foi possível corrigir o problema e ela engravidou ao fim de pouco tempo. Estaria “Deus” a precisar das alminhas daqueles seres “completos embora não desenvolvidos”? Ou até Deus não considera que um blastocisto seja mais que um conjunto de células? Ou, mais provável, simplesmente não existe Deus?
É verdade, já não sou ateu, também me converti à religião RicardoSilvestriana. Acho que devemos pensar em construir um templo para desenvolver a nossa religião, uma coisa pequena, assim do género que fizeram ali em Fátima, acho que custou uns míseros 70.000.000€, meros trocados…
<> Lucas, a chama do “sentimento” de pecado até se pode apagar de vez! O pecado não é um sentimento, é uma realidade. Com chama acesa ou apagada, o pecado continua a existir e neste aspecto, como em tantos outros, facilitado por esta ditadura que hoje teima em se instalar nas nossas sociedades: a ditadura do relativismo.
Chega-se ao ponto de relativizar a vida humana. Como num toque de magia, esse “amontoado de células” chega às X (10? 12? 9?) semanas e wow! há sinaisde actividade neurológica, logo o “amontoado” se transforma num ser humano…quase chega a parecer ficção científica!
A vida humana tem início na concepção e termina legitimamente aquando da morte natural. Logo, uma mórula, um embrião, um feto, um bebé, uma criança, um adolescente e um velhinho em fase terminal encontram-se em fases diferentes da vida mas esta vida em si mesma tem um valor absoluto: é uma vida.
E como eu e você, um zigoto, um embrião, um feto, um bebé e um velhinho têm o mesmo direito que é a base de todos, porque sem este não pode haver mais nenhum: o direito à vida.
Rodrigues, pela graça de mim, concedo-lhe desde já o título de “Alto Sacerdote Rodriguesiano da igreja do Silvestrianismo” (ASRIS), e no caso de termos os 70.000.000.00 Euros, dou-lhe um milhão para as coisitas pequenas que o nosso ASRIS ache que precise para melhor poder manter a sua fé: e isto inclui BMW’s, casas em Belém (a Belém de Portugal, há que acrescentar), trapitos da Hugo Boss, Vaio’s da Sony, LCD da LG, a Valeria Mazza, e outras coisas que tal.
LCD da LG??? Ainda se fosse da Bang & Olufsen! Valeria Mazza???Ainda se fosse a Victoria Silvstedt! cá para mim esta religião não vai longe: é muito forreta e não escolhe material de primeira…acho que temos de contratar uns consultores de imagem para melhorar este aspecto; algum perito na ditadura do relativismo. Espera lá… acho que há no Vaticano um tipo muito bom nessas coisas: parece que só veste pantufas da Prada e vive rodeado em ouro e obras de arte. Alguém tem o contacto do rapaz?
Saudações em Silvestre.
Pela graça de Silvestre, eu vos saúdo.
Mau!
Lá por seres o “papa maximus do Silvestrianismo, Lucas Samuel o 1º, aka Passa para cá uma bijeca” não quer dizer que possas falar mal da Valeria Mazza! Não a achas “material de primeira”??? Blasfémia, blasfémia!!!!
Quanto ao LCD, pronto, pronto. Eu acedo. É que, no céu cibernauta onde eu vivo, LG é a minha marca preferida (que o confirme o meu portátil).
Saudações… em mim
PS: Não sabia que o “papa maximus do Silvestrianismo” cobiçava as pantufas Prada do “outro” papa (aquele que é o papa dos hereges!!! hereges!!!)
Que a Glória de Silvestre esteja convosco,
Eu Lucas Samuel I, ordenado por Nosso e Vosso Senhor Silvestre, decreto ex cathedra o seguinte:
Para resolver o cisma criado entre os Silvestedianos e os Mazzistas, afirmo pelos poderes do Espírito Sonso que os Silvestrianos passarão a adoptar como seu fetiche sexual a Júlia Pinheiro – a primeira Santa Padroeira do ateísmo televisivo em Portugal.
Para resolver o cisma criado entre os LGistas e os Bang & Olufsianos, decreto que o último grito em material informático dará pelo nome de “Magalhães”.
Exorcizo as pantufas Prada bem como toda a lingerie papal desse herege Bento VI. A partir de agora, todo esse material está purificado e livre de pecado para poder ser usado por mim e pelas minhas assessoras espirituais em Silvestre.
Decreto ainda que se convoquem escribas (de preferência, estagiários ou recibos verdes) para que se comece a escrever a Bíblia Silvestriana – ditada obviamente por mim, a autoridade máxima, o único ser iluminado e inspirado pela voz de Silvestre.
Que seja assim para todo o sempre, sem adendas e alterações de vírgulas.
Que a farra de Silvestre esteja convosco,
Saudações em Silvestre.
Ámen!!!
All hail LS1! PMS!
PS: R…O…T…F…L!!!!!!!
E um texto assim vindo de quem condena a lapidação de mulheres e jovens por adultério (coisa que eu condeno fortemente), ao mesmo tempo defende o infanticídio de milhões de vidas em todo o mundo… e o incoerente são os crentes?…
Olá Ricardo,
Se é mesmo para debater isto a sério, cá estou.
«Porque é uma ideia eminentemente religiosa! Para além dessa justificação, não existem muitos outros argumentos que sejam lançados para debate do lado do “ser humano completo” no momento da fertilização. E muito menos, não conheço argumentos que não sejam religiosos sobre “direitos como ser humano” do zigoto.»
http://psoares.dyndns.org:8080/aborto.completo.pdf
Não gosto de me auto-citar: mas é só porque no meu trabalho reuni muitos argumentos filosóficos, pró e contra o aborto por opção, argumentos esses que, salvo raras excepções, nem sequer são meus. E não usei argumentos religiosos. Logo, o Ricardo tem então fácil acesso a argumentos não religiosos acerca dos direitos humanos do zigoto.
«Se um ovo fertilizado é uma “pessoa”, e que por causa disso tem de ser defendido, o que podemos nos concluir de uma situação onde uma mulher que engravidou na noite anterior (e claro, não tem maneira de o saber), vai beber umas cervejas, ou fumar, ou o que quer que seja.
Essas actividades podem causar dano no embrião. Pode a mulher ser então acusada de “comportamento danoso para o ser humano que existe dentro dela”?»
O complicado é provar a relação causa-efeito. Sucede algo análogo no caso das mães fumadoras ou pais fumadores. O seu vício causa, em muitos casos, problemas de saúde aos filhos. Devem tais casos ser levados a Tribunal? Não sei. Parece-me que o mais importante é, obviamente, jogar pelo seguro: a mulher que não sabe que está grávida não pode ser culpabilizada; a que sabe que está grávida, deve adoptar um estilo de vida saudável.
«Ou se uma mulher grávida que tem de tomar medicamentos para o seu normal funcionamento, mas que afecta a sobrevivência do feto? Estamos a falar em homicídio involuntário?»
Isto é algo totalmente diferente. Por favor, veja o tratamento que dei ao Princípio do Duplo Efeito, no meu texto acima indicado. O caso típico: a gravidez ectópica. Se for levada adiante, a mulher sofrerá necessariamente de hemorragias, e se não for tratada, morre. O embrião de gravidez ectópica é, também ele, inviável. Nesse caso, aplicando um médico, com todo o rigor, o Princípio do Duplo Efeito, consegue intervir para salvar a mulher sem matar directa e voluntariamente, o embrião.
Em resumo:
a) pode-se matar o embrião como meio para o fim de salvar a mãe? não
b) pode-se salvar a mãe, sabendo que o embrião não tem viabilidade, agindo sem matar o embrião como um meio para o fim desejado? sim
Mas sugiro ler o que eu escrevi: esta situação moralmente complexa deve ser analisada com minúcia, como tentei fazer no meu texto.
«Ou pensem nesta situação hipotética (mas que ajuda a demonstrar o absurdo da argumentação do lado oposto). Estamos a passar à porta de um laboratório que está em chamas. Entramos dentro do edifício para tentar salvar uma criança que grita de desespero. Quando entramos numa sala, de um lado está uma criança, no outro um reservatório com 10 ovos fertilizados. Se fizer aquilo que tem lógica, salvar a criança, está a deixar morrer 10 outros “seres humanos”.»
O que se deve tentar é salvar o máximo possível de vidas, sem acepção de idade, raça ou sexo dessas vidas humanas.
«Um zigoto é um conjunto de células. Não existe nada de “ser humano” nelas. Existe o ADN, e a capacidade totipotente, mas isso não faz dessas células uma “entidade com direitos”.»
Então: não existe nada, ou existe tudo? O ADN é o código que nos distingue como Homo Sapiens dos restantes animais. O Ricardo entra em contradição: não existe, mas existe?
A questão dos direitos é outra, bem mais complexa.
Não há dúvidas de que o zigoto é um ser humano. Nem um abortista e defensor do infanticídio como Peter Singer o nega. É uma verdade biológica. Já leu o livro “Ética Prática” do filósofo Peter Singer? Ele afirma, com todas as letras, e está acompanhado dos maiores filósofos pró-escolha, que o zigoto é um ser humano. A discussão, de quase todos os defensores filosóficos do aborto, está em torno dos direitos.
Procure, no meu texto, o nome “Peter Singer”, e veja as citações que eu transcrevo deste filósofo.
«Tanto o ovo como o espermatozóide tem, em si próprios, a capacidade de serem “seres humanos”. Não há nada de extraordinariamente especial neste caso por ter havido uma fertilização. Qualquer célula, com o seu ADN manipulado, pode ser utilizada para replicar um ser humano.»
Falso. Nem o espermatozóide nem o óvulo, em si próprios têm a capacidade para serem seres humanos. Cada um tem exactamente metade dos genes que compõem um ser humano. As manipulações de que fala são formas artificiais para precisamente compor os genes necessários ao ser humano.
«E mesmo quando se afirma que “um ovo fertilizado é o primeiro passo para o ser humano em que se irá transformar”»
Ricardo: o ovo fertiliazado é um ser humano.
Repito que os maiores filósofos pró-escolha, Boonin, Singer, Tooley, são claros nesta matéria: o ovo fertilizado é um ser humano. Nem é preciso grandes convoluções, porque é Biologia. NENHUM material genético é acrescentado depois da fertilização do óvulo pelo espermatozóide. Ora, o genoma (nem falo de almas, ou espíritos) é o que nos marca como seres humanos. Há, até, um mecanismo biológico muito preciso para marcar o início da vida, que é o bloqueio rápido da polispermia, que “fecha” (electrostaticamente) as paredes do óvulo para evitar a entrada de outros espermatozóides, a partir do momento em que um só deles entrou.
«isso só por si não é factor determinante: existem um milhão de outros passos que tem de correr todos bem para que se desenvolva esse ovo num feto, e num bebe.»
Isso são contingências: doenças, acidentes, etc… Não é a idade a que se morre, nem o nosso número de dias ou horas de vida, que nos faz sermos humanos ou não.
«Se um desses passos falhar, não existirá nada, a não ser um conjunto de células que são absorvidas pelo organismo para outras funções.O que acontece então ao “ser humano”?»
Morre. Desagrega-se. Um aborto espontâneo é a morte, obviamente involuntária, de um ser humano.
Parece-me, aqui também, que há muitas vezes uma ignorância sobre princípios básicos de Ética: a Ética abarca as decisões e actos humanos. Um aborto espontâneo sai da esfera da ética: não é o acto de nenhum ser humano.
«Na minha opinião, um ser humano, é possível que possa ser chamado assim, quando se começa a ter actividade cerebral. Assim como o fim da vida é quando o cérebro para de funcionar, o princípio da vida é quando esse mesmo cérebro começa a funcionar.»
Mas a vida não é, antes de mais nada, a respiração celular? O estabelecimento dos mecanismos metabólicos que permitem o desenvolvimento totipotente e integrado de um ser vivo?
Que o zigoto está vivo, é perfeitamente claro: basta analisar que, após o bloqueio rápido da polispermia, a respiração celular, com todos os seus processos e cadeias metabólicas, entra em acção.
A Biologia ajuda, Ricardo…
Ora, se o zigoto está vivo, e se um ser humano com morte cerebral também está vivo, a questão então cai nisto: um ser vivo com genoma humano é um ser humano. Eu sei que, na nova “pseudo-Ética” moderna, dá jeito dar a volta aos termos, e procurar despachar aqueles doentes em coma profundo ou morte cerebral, para libertar mais espaço nos hospitais, e libertar os familiares da chatice de os terem que ir visitar. Eu também sei o jeito que dá abortar para ter a vida mais descontraída, sem os compromissos de ter que tomar conta de uma criança.
Mas as coisas são como são. Chamemos os bois pelos nomes.
Podemos entrar na discussão dos direitos: se um filho tem o direito a desligar a ficha ao pai, se uma mãe tem o direito a destruir quimicamente o seu filho através da ingestão do RU-485. Podemos discutir direitos. Não vamos, em favor da sanidade mental, discutir se o ovo fertilizado é ou não humano, ou se o avôzinho em morte cerebral deixou de ser humano… Tenhamos pena dos nossos cérebros, e não insultemos a nossa razão.
Um abraço
Parabéns pelo post!
Na minha opinião, a “humanidade” de um conjunto de células, não começa num determinado momento no tempo. A “humanidade” tem duas dimensões: os afectos das pessoas próximas e da sociedade em geral, e a consciência do próprio ser. Por isso a morte de um ser humano implica respectivamente: sofrimento pela perda de um elemento da sociedade (e que é mais forte quanto maiores forem os laços afectivos) e o sofrimento do próprio ser consciente.
Para mim, o processo de “humanização” começa com o desenvolvimento das afectividades dos respectivos pais, família e também da sociedade… são, por exemplo, as expectativas que se criam para o futuro ser. O começo da “consciência” é mais complicado, mas concordo que só pode ocorrer depois de haver actividade neurológica, como diz o Ricardo Silvestre.
É sempre doloroso, para os pais, família e sociedade perder um feto. Mas não se compara com a perda de um recém-nascido, como esta não se compara à perda de um adolescente, por exemplo. Isto porque a quantidade de laços afectivos, e a sua própria consciência são cada vez maiores.
A decisão numa situação de dúvida, como no exemplo do laboratório em chamas, deve ser baseada no principio do menor sofrimento. O que causará menor sofrimento? Na impossibilidade de salvar todos, é claro que será o salvamento do bebé e a perda dos ovos fertilizados… O uso deste exemplo não defende que se façam abortos por “dá cá aquela palha”. Ao contrário do exemplo, as situações da vida não são tão simples, e a decisão (sempre difícil) deve ser tomada depois de muita ponderação e tendo tido acesso a toda a informação disponível. É no entanto completamente errado comparar a perda de um feto à perda de um ser num estado muito mais desenvolvido, como um bebé, ou uma criança. Em muitos casos, a perda de um feto é totalmente aceitável, face às alternativas.
Esta ideia de pôr um feto e um adulto no mesmo patamar de vida humana só sobrevive porque faz parte de um dogma evidentemente religioso.
Cumprimentos!
“Esta ideia de pôr um feto e um adulto no mesmo patamar de vida humana só sobrevive porque faz parte de um dogma evidentemente religioso.” Eu chamo-lhe lógica, racionalidade e Biologia….
Caro João M.,
Escreveu belas palavras, que admito transmitirem uma ideia de solidez e coerência de raciocínio.
Por isso mesmo, permita-me estragar tudo, e mergulhar a minha miserável mosquinha no belo e lúcido frasco de compota do seu comentário…
Recentemente, na Comunicação Social, talvez na revista Pública (mas não tenho a certeza), li a história comovente de um casal que teve quadrigémeos. Na Maternidade onde os tiveram, cujo nome vou omitir, porque a situação é embaraçosa para a dita Maternidade, uma das assistentes médicas sugeriu aos pais que, perante os dados ecográficos, abortassem um ou dois dos gémeos menos desenvolvidos, para aumentar as hipóteses de sobrevivência dos restantes e minorar o risco de vida da mãe.
Os pais, felizmente dotados de humanidade e bom senso, daquela saúde mental que hoje em dia é tão rara, e abundantes em amor pelos seus filhos, rejeitaram a maldita sugestão da facínora da assistente médica, e disseram de forma clara que não iriam matar nem um dos seus filhos para salvar os outros. Que amavam todos do mesmo modo.
E note-se, nesta história comovente de heroísmo, que os pais ainda não tinham o tal “historial de afectos” assim muito construído, à parte de alguns movimentos que seriam talvez visíveis pelo pai, e sentidos pela mãe.
Moral da história: os quatro nasceram nados-vivos, estiveram uns tempos na incubadora, a mãe saiu-se bem do parto, e a reportagem na tal revista mostrava uns pais exaustos (porque ter quadrigémeos deve ser uma canseira inimaginável), rodeados de 4 bebés com um ar incrivelmente saudável…!
Por isso, para o raio que parta com a maldita da assitente médica que recomendou a estes pais “um mal menor”, quando o que ela recomendou foi um crime ético, que felizmente, os sensatos pais em boa hora repudiaram.
O seu comentário transpira esta falsa ética, esta moral distorcida, tão típica da moderna “pseudo-ética” utilitarista, que é a de que a justeza dos actos depende apenas das consequências dos intervenientes.
Para que o o João M. se arrepie um pouco com a frieza das suas próprias ideias, tenha em conta que alguém não menos que o reputado filósofo Peter Singer, com base no pressuposto de que os recém-nascidos não são auto-conscientes (pressuposto nada científico nem provado), sugeria que o infanticídio, nos casos de crianças indesejadas, era perfeitamente lícito.
Desculpe-me a dureza das palavras, mas penso que estes temas têm visto por demais comentários de belas palavras, e de rebuscados sofismas, nas quais se propõem as ideias mais abominantes disfarçadas de pensamento “moderno” e “fresco”.
Tudo isto que eu aqui afirmo e defendo nada tem de religioso, mas sim de racionalidade, direitos humanos, bom senso, e alguma compaixão pelos seres humanos e pela vida humana.
Como é evidente, a Igreja Católica tem tudo isso, racionalidade, amor aos direitos humanos, bom senso, e compaixão a rodos, mas isso não faz da racionalidade, dos direitos humanos, do bom senso e da compaixão património exclusivo da Igreja Católica, pois são ideias que seriam defendidas por qualquer pessoa sensata, católica ou não.
Cumprimentos,
Bernardo Motta
Ainda estou um bocado zonzo com o que li atrás…
«Esta ideia de pôr um feto e um adulto no mesmo patamar de vida humana só sobrevive porque faz parte de um dogma evidentemente religioso.»
Então, e se colocarmos, lado a lado, uma criança com 1 semana de vida, e um jovem adulto, com 21 anos, e a licenciatura terminada. Quem vale mais?
Pela lógica, valerá o jovem adulto, porque já tem uma licenciatura, mais experiência de vida, mais amigos?
Que raio de lógica, sinceramente.
Eu pensava que, depois do Holocausto, tínhamos aprendido um pouco acerca do valor do ser humano, acerca da igualdade absoluta dos homens e mulheres, independentemente da idade, da raça, do credo, ou de qualquer outra característica particular.
Em nome da sanidade mental, e dos mais elementares direitos humanos, em nome de tudo o que é valioso para a Humanidade, eu afirmo sem sombra de dúvidas que valho tanto, como ser humano, como um recém-nascido sub-nutrido na Etiópia, ou um feto na barriga da mãe, ou um ovo humano congelado algures. Valho rigorosamente o mesmo. Nem mais, nem menos.
Não se troca a vida de um ser humano pela vida de um ser humano.
Quem diz o contrário deveria ter vergonha na cara…
Aliás, numa situação de salvamento, a ética universal, de sempre, dita que se salvem primeiro os mais frágeis (mulheres, crianças), não porque valham mais do que os outros (porque valem o mesmo, rigorosamente o memso), mas porque têm menos capacidade de se salvarem sozinhos.
Na ponderação das prioridades de salvamento, entram muitos factores: facilidade/rapidez de salvamento, probabilidades de maximizar o número de pessoas salvas, etc. Nunca, mas NUNCA deve entrar na ponderação qualquer valoração de quem é que vale mais ou quem é que vale menos como pessoa.
Supor uma valoração dessas é algo que, sinceramente, me mete nojo, asco, repulsa.
Bernardo
Bernardo
Em relação ao caso da Pública, fico satisfeito por ter tido um final feliz. Mas imagine que noutro caso igual, morriam todos… Se a médica disse que as probabilidades de sobrevivência eram menores se quisessem continuar a gravidez com os 4 fetos, então esses pais foram bafejados pela sorte. Provavelmente terá outros casos em que a sorte foi madrasta e morreram os quatro. As probabilidades são assim… frias, e não se importam com o heroísmo (ou irresponsabilidade e estupidez, se a sorte for outra) dos papás.
Chamar facínora à médica assistente, que aconselhou (não obrigou, apenas terá indicado qual a opção que daria melhores hipóteses de sobrevivência a 2 dos fetos), isso é que já acho de um nível muito baixo… De certeza que ela ficou muito contente de ver que os quatro bebés sobreviveram.
Quanto ao juízo de valor humano, como o Bernardo quer pôr a questão, parece-me algo diferente do que eu disse. O que fiz foi um raciocínio baseado em sofrimento, de que o sofrimento causado à sociedade por uma perda de um adolescente é maior do que o provocado pela perda de um recém-nascido, por exemplo… e na noção básica de que todo o sofrimento é mau e deve ser evitado. Acho que o que disse não serve para justificar andar aí a matar bebés. Apenas defendi que a vida humana não se cria no momento da concepção, mas que a humanização é um processo contínuo. E um feto é diferente de um adulto… mantenho a minha opinião. Parece que isso faz de mim um assassino sanguinário, que desrespeita por completo a vida humana.
Ui… até fiquei com medo de mim próprio…
Cumprimentos
Caro João M,
Dizes que “a vida humana não se cria no momento da concepção”… Mas, vida humana é tudo o que diga respeito ao ser humano… por exemplo: um aglomerado de células do ser humano é vida humana; um feto é vida humana; até Dennett diz que o feto é vida humana. No entanto, uma coisa bem diferente diz Dennett é ser pessoa. E a questão é esta: um feto, que é vida humana, é pessoa ou não é pessoa? Quais são as condições de possibilidade de se ser pessoa? Ou quais os “requisitos mínimos” para se ser pessoa?
A nível pessoal penso que é preciso compreender bem os conceitos de:”Já não” e “Ainda não”.
Mesmo numa abordagem mais materialista o feto não pode ser encarado como um “já não” é pessoa, mas num “ainda não” é pessoa. Se fosse “já não” estão o feto seria sempre fixista; mas como o ser humano está sempre em evolução contínua, então, só tem lógica afirmar que “ainda não”… Ora, se “ainda não”, então é uma questão de tempo para se explicitar tudo aquilo que já existe desde o inicio no feto… Até que ponto é legitmo interromper esta explicitação contínua e emergente da pessoa humana??? Em regra geral penso não ser legitmo abortar esta explicitação… mas a vida concreta é muito mais complicada do que regras gerais…
João M.,
“Apenas defendi que a vida humana não se cria no momento da concepção”. Então quando se cria? Num passe de magia, em menos de um milésimo de segundo? Quando há actividade neurológica? Então até lá o que somos?… E que dizer dos bebés anencéfalos? deverão ser logo assassinados na barriga da mãe para poupar os sofrimentos da sua perda ‘cá fora’?…
“um feto é diferente de um adulto”. Claro que é diferente… Um bebé é diferente de uma criança, um adolescente é diferente de um velhinho de 90 anos, tanto fisica como psicológicamente… No entanto, um zigoto, um embrião, um bebé, um adolescente e um velhinho de 90 anos às portas da morte têm exactamente o mesmo direito de viver. Porque sem esse direito não há mais nenhum (acho óbvio q quem está morto não precisa de direitos). A vida humana tem exactamente o mesmo valor, em estágios diferentes de desenvolvimento.
“Parece que isso faz de mim um assassino sanguinário, que desrespeita por completo a vida humana.” Um assassino sanguinário não diria, mas alguém que relativiza de um modo impressionante o que temos de mais primordial: a vida.
Caro Bernardo
Houve duas razões para ainda não ter respondido ao seu desafio neste tema:
1) porque tenho andando muito ocupado,
2) porque ainda estou em total descrédito e desalento por causa de algumas coisas que escreveu.
Assim, e com todo o respeito que me merece (sem ironia) vou ter de discordar veementemente de si. E vai me perdoar a minha exasperação.
a) Na questão da mulher grávida que não sabe que tem “ um ser humano completo dentro dela” que acontece ter dias após a fertilização.
O Bernardo diz:
“Parece-me que o mais importante é, obviamente, jogar pelo seguro: a mulher que não sabe que está grávida não pode ser culpabilizada”.
A sério? Então quem é? Se calhar deus, que, sendo ele o responsável por este mecanismo de termos um ser humano no momento da fertilização, devia ter um sistema de aviso para uma mulher saber que carrega dentro dela um “ser humano completo”. Estou a ser sarcástico, mas entende o meu espanto por este tipo de argumentação vinda de um crente sofisticado.
b) Quanto a questão de se uma mulher grávida que tem de tomar medicamentos para o seu normal funcionamento, mas que afecta a sobrevivência do feto?
O Bernardo traz a questão da a gravidez ectópica. Eu não estou nem sequer a falar desse ponto. Estou a falar num qualquer medicamento que esteja a tomar (para um desordem qualquer endócrina por exemplo) que não causa o ambiente químico para o feto se desenvolver. Esqueça a questão da mulher grávida estar em perigo. Apenas a viver o seu dia-a-dia. E agora? De quem é a culpa de um zigoto com dois dias se ter desagregado?
c) Quanto à questão do laboratório e de ter de escolher entre a vida de uma criança ou de um zigoto
O Bernardo responde:
“O que se deve tentar é salvar o máximo possível de vidas, sem acepção de idade, raça ou sexo dessas vidas humanas.”
Não respondeu ao meu desafio.
d) Quanto à questão do ADN. O ADN de um macaco tem meio cromossoma de diferença do nosso. Portanto, não é nada de realmente único e que nos faz ser uma espécie favorecida por termos ADN. As plantas têm ADN. Realmente ADN são os blocos base da vida (e consequentemente da vida humana). E depois? Não são mais que aminoácidos, que não pensam, que não raciocinam, que não desejam, que não odeiam. São conjuntos de átomos, ligados entre si por pontes eléctricas e químicas. Não fazem de nós um “ser humano”. Se não acha o mesmo, não sei como lhe fazer ver esta convicção “ateísta”.
e) E aflige-me essa certeza que tem de “Não há dúvidas de que o zigoto é um ser humano.” Nenhumas? Está completamente confiante nessa sua certeza? Tem a convicção teológica e religiosa para isso? E a científica?
f) E não me venha com “filósofos” pró-escolha. Está a falar a sério? Devo eu dar tanto valor a uma pessoa que nunca esteve num laboratório, como àqueles que passaram anos a estudar biologia e fisiologia reprodutiva? Devo eu confiar numa pessoa que reflecte muito sobre estes temas, mas que nunca teve nas mãos uma pipeta, ou um prato de Petri? Eu vi, numa das tarefas que tinha para fazer no Laboratório onde tirei o meu doutoramento uma cadeia de ADN suspensa numa solução química. Era sempre deslumbrante, quando tirávamos os tubos da centrifugadora, e juntávamos um dos reagentes, ver o quase parecia fios de algodão a tentarem se enrolar em si mesmos, tal a força eléctrica e química que as bases produzem entre si, e que causam a maravilhosa hélice que conhecemos das imagens dos livros. Falar em filosofia fica muito aquém de ter uma experiência como esta. E para todos os filósofos que apresenta, tenho eu um “exército” de cientistas que defendem que não existe um “ser humano completo” num zigoto.
g) Escrevi eu: “Qualquer célula, com o seu ADN manipulado, pode ser utilizada para replicar um ser humano.”
Respondeu o Bernardo: “Falso. Nem o espermatozóide nem o óvulo, em si próprios têm a capacidade para serem seres humanos. Cada um tem exactamente metade dos genes que compõem um ser humano. As manipulações de que fala são formas artificiais para precisamente compor os genes necessários ao ser humano.”
O Bernardo neste particular está claramente a passar ao lado da discussão. Qualquer célula que tenha o ADN intacto, pode servir para, através de um processo de clonagem, fazer um novo ser humano. Nesta parte não me alongo mais. O Bernardo, se tiver dúvidas, leia a literatura científica e depois falamos.
h) Diz o Berardo: “Ora, o genoma (nem falo de almas, ou espíritos) é o que nos marca como seres humanos. Há, até, um mecanismo biológico muito preciso para marcar o início da vida, que é o bloqueio rápido da polispermia, que “fecha” (electrostaticamente) as paredes do óvulo para evitar a entrada de outros espermatozóides, a partir do momento em que um só deles entrou.”
E? E isso faz um “ser humano”? Não. Faz um conjunto de células que podem vir a ser um ser humano. Também aqui já percebi que chegamos ao “fim do caminho”, e não vamos conseguir avançar mais.
i) Disse eu : “isso só por si não é factor determinante: existem um milhão de outros passos que tem de correr todos bem para que se desenvolva esse ovo num feto, e num bebe.»
Diz o Bernardo: Isso são contingências: doenças, acidentes, etc…”
Coloco as mãos na cabeça em descrédito. A sério? Contingências? Que deus bondoso esse que deixa um ovo ser fertilizado para o deixar depois ao sabor de “contingências”. Quantos biliões e biliões de “seres humanos” se perderem com essas “contingências”? Quantas vezes teve deus de explicar ao “ser humano” que não teve mais do que dias de vida, mas não há problema que a vida eterna é para sempre. A distância que nos separa, Bernardo, é realmente abissal.
j) Diz o Bernardo: “Parece-me, aqui também, que há muitas vezes uma ignorância sobre princípios básicos de Ética: a Ética abarca as decisões e actos humanos. Um aborto espontâneo sai da esfera da ética: não é o acto de nenhum ser humano.”
Pois… é um acto de deus. E se não é um acto dele, é um acto por negligência dele. Mais um “ser humano completo” que nunca viu a luz do dia, pois essa foi a “contingência” que lhe calhou.
k) Disse eu: “Na minha opinião, um ser humano, é possível que possa ser chamado assim, quando se começa a ter actividade cerebral.”
Argumenta o Bernardo: “Mas a vida não é, antes de mais nada, a respiração celular? O estabelecimento dos mecanismos metabólicos que permitem o desenvolvimento totipotente e integrado de um ser vivo?”
Não pode estar a falar a sério. Como é possível fazer um argumento destes? “Uma célula tem respiração celular, respiração celular é vida, vida é sinónimo de um “ser humano””.
Eu não sei o que pensar. Muito honestamente. Eu tenho o Bernardo em elevada estima. Tem sido um oponente valoroso, educado, e inteligente. Mas não é possível quem um debate entre os dois possa avançar, quando o Bernardo demonstra um tal fundamentalismo ideológico.
Não vou estar aqui a cansar-me (e a cansar todo os que nos lêem) a descrever ao Bernardo o que é respiração celular, mecanismos metabólicos, desenvolvimentos celulares, etc. Se o Bernardo acha que um conjunto de células que está viva, é o mesmo que um ser humano que está vivo, vamos ter de terminar por aqui este assunto.
I) Defendo o direito que tem de ter a opinião que tem. Peço-lhe que não tente fazer da sua opinião dogmática uma regra de vida para aqueles que não concordam consigo, e, quem sabe, pode ser que um dia se reactive este debate.
Caro Ricardo,
«E vai me perdoar a minha exasperação.»
Não há razão para tal!
É, sem dúvida, efeito de usarmos um mau meio de comunicação.
«“Parece-me que o mais importante é, obviamente, jogar pelo seguro: a mulher que não sabe que está grávida não pode ser culpabilizada”.
A sério? Então quem é?»
Ricardo: em Ética, estuda-se o certo e o errado do comportamento humano consciente. Faz sentido discutir a ética de um acidente? Eu vou na auto-estrada, fura-se-me o pneu por causa de um prego, o carro descontrola-se, galgo o separador, e mato involuntariamente 3 pessoas. Faz sentido discutir a ética aqui?
Se uma mulher, pelo estilo de vida que leva, ou por medicamentação que tome, e SEM saber que está grávida, provoca um aborto espontâneo, faz sentido discutir culpas?
Eu achava que a culpa era apenas aplicável a actos conscientes e voluntários.
«Se calhar deus, que, sendo ele o responsável por este mecanismo de termos um ser humano no momento da fertilização, devia ter um sistema de aviso para uma mulher saber que carrega dentro dela um “ser humano completo”. Estou a ser sarcástico, mas entende o meu espanto por este tipo de argumentação vinda de um crente sofisticado.»
O espanto é meu, por ver que o Ricardo parece querer discutir culpas numa situação em que claramente elas não entram. Um zigoto é muito pequeno e frágil: os abortos espontâneos são frequentes. Por vezes, os factores que os provocam são variados e complexos. Faz sentido discutir culpas?
«b) Quanto a questão de se uma mulher grávida que tem de tomar medicamentos para o seu normal funcionamento, mas que afecta a sobrevivência do feto?»
De novo: se tais medicamentos são tomados sem a mulher saber que está grávida, não há discussão ética nem há culpados.
«Estou a falar num qualquer medicamento que esteja a tomar (para um desordem qualquer endócrina por exemplo) que não causa o ambiente químico para o feto se desenvolver. Esqueça a questão da mulher grávida estar em perigo. Apenas a viver o seu dia-a-dia. E agora? De quem é a culpa de um zigoto com dois dias se ter desagregado?»
Bolas, mas tem que haver sempre um culpado?
Claramente, se a mulher não sabe que está grávida, ninguém tem culpa. Se alguém sabe que ela está grávida (a própria, ou outra pessoa), então já é discutível eticamente se se deve tomar a tal medicamentação.
Continuo sem perceber a sua exasperação, Ricardo.
Em ética, a análise de um acto depende totalmente de ser um acto consciente e voluntário.
«“O que se deve tentar é salvar o máximo possível de vidas, sem acepção de idade, raça ou sexo dessas vidas humanas.”
Não respondeu ao meu desafio.»
O seu desafio?
Pede-me para escolher entre uma vida humana e outra? Não posso, pelo menos assim em abstracto, sem saber mais detalhes sobre a situação em concreto.
Têm ambas o mesmo valor, como disse. Dependendo dos percursos de evacuação, procurava tomar a decisão de salvar o máximo possível de pessoas com os recursos ao meu dispor. A vontade teórica é sempre a de salvar o máximo de pessoas: na prática, procura-se salvar primeiro quem tem menos possibilidades de se salvar sozinho.
«d) Quanto à questão do ADN. O ADN de um macaco tem meio cromossoma de diferença do nosso. Portanto, não é nada de realmente único e que nos faz ser uma espécie favorecida por termos ADN.»
O ADN é importante. Como imagina, como cristão, eu dou imenso valor ao intelecto, que é imaterial. Logo, o intelecto não é redutível ao ADN. Se ficarmos pela visão materialista, teríamos que negar o livre arbítrio. Se o Ricardo é materialista, tem que afirmar que este seu último comentário foi ditado pelos seus genes. E, oh que diferença face ao macaco com apenas meio cromossoma de diferença: quantas palavras o Ricardo escreve a mais, comparado com o macaco.
Há dois erros fundamentais na visão distorcida que o ateu materialista tem do Homem:
a) julga que o ADN é tudo: o intelecto imaterial faz toda a diferença
b) julga que o ADN é contar espingardas: esse meio cromossoma faz toda a diferença
Eu sei que a alínea a) é usada por crentes, sobretudo.
No entanto, por causa de b) é que um ateu materialista pode, em coerência, ser totalmente contra o aborto, e totalmente a favor da protecção a 100% dos seres vivos dotados de ADN humano.
«Se não acha o mesmo, não sei como lhe fazer ver esta convicção “ateísta”»
O Ricardo confunde tijolos com casa.
É pena, porque a filosofia escolástica tinha esta questão bem resolvida: distinção entre MATÉRIA e FORMA.
O que vale, num ser humano, é a FORMA humana, e não a MATÉRIA. Em termos de matéria, somos feitos “do pó das estrelas”. Os nossos átomos são usados para compor a FORMA humana, mas obviamente, nós não somos os nossos átomos, nem sequer a soma deles, somos a FORMA com que eles estão arranjados.
Se o Ricardo vir com atenção, está a misturar FORMA com MATÉRIA. Se acha que somos a soma dos nossos “tijolos”, é porque despreza, talvez inconscientemente, o projecto, a estrura, o desenho, a arquitectura.
Todo o materialista tem uma visão redutora do Universo: para ele, a FORMA não existe, e tudo é MATÉRIA. Oh, quanta confusão filosófica nasce deste preconceito…
«e) E aflige-me essa certeza que tem de “Não há dúvidas de que o zigoto é um ser humano.” Nenhumas? Está completamente confiante nessa sua certeza? Tem a convicção teológica e religiosa para isso? E a científica? »
Qual teológica?
O zigoto tem o mesmo material genético que faz um ser humano completo. Está vivo. É geneticamente autónomo. O Ricardo insiste em não reconhecer que NENHUM material genético é acrescentado ao zigoto, até à morte desse ser humano.
«f) E não me venha com “filósofos” pró-escolha. Está a falar a sério?»
Estou, claro.
«Devo eu dar tanto valor a uma pessoa que nunca esteve num laboratório, como àqueles que passaram anos a estudar biologia e fisiologia reprodutiva?»
Quem lhe diz que os nomes que citei estão nessa situação?
«E para todos os filósofos que apresenta, tenho eu um “exército” de cientistas que defendem que não existe um “ser humano completo” num zigoto.»
Ricardo, são filósofos “pró-escolha”, pessoas que têm matutado toda a sua vida para permitir o “direito” ao aborto.
Não percebo porque se zanga tanto com eles. Tecem argumentos lógicos e filosóficos para que se possa abortar. Estão errados, mas estão, parece-me, do seu lado.
E, já agora, gostava de conhecer esses cientistas que defendem que não existe um ser humano completo num zigoto. Não digo “desenvolvido”, porque evidentemente que o zigoto não é um ser humano totalmente desenvolvido. Digo “completo”. Esses cientistas, de que tanto fala, apresentam algum “acrescento” que o zigoto sofra, algures a meio da sua vida, para ficar “completo”?
Se calhar, deveríamos regressar ao início: o que é para si, Ricardo, ser “completo”?
É que para mim não é sinónimo de ser totalmente desenvolvido.
Para mim, “completo” neste contexto é “totipotente”. Tem tudo o que precisa. Não lhe falta nem uma peça do projecto de vida. Sabe o que deve fazer para se desenvolver. Tem a informação toda.
«O Bernardo neste particular está claramente a passar ao lado da discussão. Qualquer célula que tenha o ADN intacto, pode servir para, através de um processo de clonagem, fazer um novo ser humano. Nesta parte não me alongo mais. O Bernardo, se tiver dúvidas, leia a literatura científica e depois falamos.»
Não me expliquei bem.
Podemos falar sobre este ponto com mais calma, cara a cara.
«E? E isso faz um “ser humano”? Não. Faz um conjunto de células que podem vir a ser um ser humano. Também aqui já percebi que chegamos ao “fim do caminho”, e não vamos conseguir avançar mais. »
Eu acho que se pode avançar mais, se o Ricardo entender que esse “conjunto” de células não é um conjujnto qualquer, é O CONJUNTO. Ou seja, é exactamente O CONJUNTO totipotente que tem tudo para o desenvolvimento humano até à morte. É o “livro da vida” completo. Não falta nada, nem uma linha.
«Coloco as mãos na cabeça em descrédito. A sério? Contingências? Que deus bondoso esse que deixa um ovo ser fertilizado para o deixar depois ao sabor de “contingências”.»
Ricardo, há aqui uma falha na visão que tem da filosofia cristã. Qual é a dúvida?
Toda a Criação é contingente. Ser contingente é precisamente o que distingue criatura de Criador.
O Deus Cristão não é um Deus ditador, a mandar na Natureza: há processos na Natureza que são “livres”, não no sentido de existirem (nisso dependem do Criador), mas no modo como se desenrolam.
A visão cristã do Universo não é a visão de que Deus controla até o percurso das moléculas de ar dentro de um pneu!
Ah, haveria tanto para falarmos acerca da visão cristã da Criação e do Universo.
O Ricardo veria que está na posse de uma ideia totalmente distorcida do que o cristianismo afirma.
O cristianismo diz que, se Deus quiser, pode infligir a morte a alguém. Mas também diz que alguém pode morrer sem que Deus tenha exercido a Sua vontade. Um exemplo claro: o suicida: Deus não quer certamente que alguém se mate. Logo, para haver liberdade, têm que acontecer coisas que Deus não queira. Senão, toda a Criação seria um tétrico teatro de marionetes, um joguete nas mãos de um Deus tirano. Como está longe, Ricardo, de entender ainda a visão cristã.
«Quantos biliões e biliões de “seres humanos” se perderem com essas “contingências”? Quantas vezes teve deus de explicar ao “ser humano” que não teve mais do que dias de vida, mas não há problema que a vida eterna é para sempre.»
Exacto. Agora disse bem. Divida qualquer número inteiro de dias, meses ou anos por infinito. Quanto dá?
Rigorosamente ZERO. Qualquer duração de uma vida humana, quando comparada com a Vida Eterna, é realmente irrelevante. Cada qual vem equipado com uma vida, vida essa limitada no espaço (se notar, todos os seres vivos deslocam-se num espaço tridimensional finito, ao longo de toda a sua vida) e limitada no tempo (se notar, todos os seres vivos têm a sua existência corpórea numa recta temporal finita).
As vidas não valem mais ou menos pelo seu número de dias. Essa é uma visão tão aberrante da existência humana, que me faz impressão. Pode haver mais sabedoria numa criança de 9 anos do que num adulto de 90.
«A distância que nos separa, Bernardo, é realmente abissal.»
Ah, é sem dúvida!
Claro que é!
Não quer dizer que seja intransponível.
Não é infinita, essa distância.
«Pois… é um acto de deus. E se não é um acto dele, é um acto por negligência dele.»
Se eu percebi, para o Ricardo, há dois “deuses”:
a) o Deus que “deixa fazer”, então esse é um Deus odioso, porque é “negligente”
b) o Deus que “faz”, então esse é um Deus odioso, porque é “ditador”
Ou seja, no mundo a preto e branco que o Ricardo está a pintar, Deus seria sempre odioso, ou porque não daria liberdade à Criação (ditador), ou porque lhe daria liberdade (negligente).
Deus, para os cristãos, é libérrimo: pode fazer o que entender.
E também dá liberdade à Criação para seguir o seu percurso.
Isto é assim tão bizarro?
Veja a analogia da paternidade. Um pai e uma mãe geram um filho: sem os pais, o filho não existia. Ou seja, o filho é contingente face aos pais, pois dependeu deles para nascer. Ao mesmo tempo, um pai ou uma mãe têm que estabelecer um equilíbrio entre comandar certos aspectos da vida dos filhos e dar-lhe liberdade noutros. Um equilíbrio parental entre “fazer” e “deixar fazer”. Note que o Deus Cristão é um Deus pessoal. A analogia de Deus como Pai é perfeita: é mesmo assim que Deus se comporta connosco, como um Pai.
Uma criança, nem sempre entende porque razão certas coisas acontecem. E por isso mesmo, é natural que confie num pai ou numa mãe, pois a criança sente que os pais têm mais conhecimento e um maior controlo da situação.
Quando vejo alguém morrer de morte trágica, não me escandalizo, virando-me para o Céu, aos gritos histéricos, a insultar Deus, Aliás, insultar Deus é sempre um sinal de esquizofrenia. Antes pelo contrário, viro-me para Deus, como quem se vira para um Pai, e tento compreender essa morte trágica. Se calhar, muitas vezes, não a compreendo. Isso não quer dizer que ela seja incompreensível em absoluto. Do nosso ponto de vista, pode ser incompreensível. Do de Deus, já não o será.
«Não pode estar a falar a sério. Como é possível fazer um argumento destes? “Uma célula tem respiração celular, respiração celular é vida, vida é sinónimo de um “ser humano””.»
Tresleu.
“Vida humana completa”, em sentido completo, implica duas coisas:
a) vida completa (totipotente, ver atrás); o zigoto tem estas duas coisas: está vivo e é biologicamente completo
b) humana: o ADN da nossa espécie, que está totalmente no zigoto
«Eu não sei o que pensar. Muito honestamente. Eu tenho o Bernardo em elevada estima. Tem sido um oponente valoroso, educado, e inteligente. Mas não é possível quem um debate entre os dois possa avançar, quando o Bernardo demonstra um tal fundamentalismo ideológico.»
Não me cole a etiqueta do fundamentalismo. É injusta.
Eu sei que ajuda a muitos leitores do Portal Ateu. Esses leitores, que ficam zonzos ao mínimo argumento racional ou filosófico, vão ficar todos contentes, porque já sabem, ao ler as suas palavras, que já podem ignorar as minhas. Porque afinal, eu seria “um fundamentalista”, essa coisa horrorosa e miserável.
«Se o Bernardo acha que um conjunto de células que está viva, é o mesmo que um ser humano que está vivo, vamos ter de terminar por aqui este assunto.»
Se eu escrevi isso, foi por engano certamente.
Eu diria que O CONJUNTO totipotente de células que é o zigoto, está certamente vivo, e o seu património genético é o ADN humano completo.
Um abraço!