Conversas cruzadas

Em menos de 72 horas estive em dois momentos de debate com crentes. O primeiro organizado por nós aqui no Portal Ateu, como sabem, e este Sábado em Braga na Faculdade de Filosofia para a Jornada de Fé e Ciência.

Eu não presto qualquer atenção às acusações de fundamentalismo que me são feitas um pouco por todo o lado das caixas de comentários dos (múltiplos, é verdade) artigos que publico aqui no Portal. A minha “máxima” nestas coisas de trocas de argumentos é “eu não falo com fanáticos” e isso vai se manter até alguma prova em contrário me faça mudar de opinião.

Mas tirando essas “ovelhas negras” (sem qualquer duplo sentido esta expressão), a verdade é que os meus encontros com a comunidade cristã são normalmente frutuosos. Não só para ver o que nos separa, mas também, e curiosamente, o que nos aproxima.

Nomeadamente uma certa sofisticação com que me tenho deparado, e que me faz ser mais optimista sobre o futuro da religião (em Portugal, pelo menos) e o os futuros “líder espirituais” que irão substituir uma geração inteira de bispos e padres que, e isto é uma opinião pessoal claro, na sua maioria, não tem feito um bom serviço à comunidade e até mesmo à sua própria causa.

Claro que continuará a haver “velhos do Restelo” que resfolgam, bufam, e esbracejam, preocupados com a progressiva secularização, a relativização de valores, o afastar da “palavra de deus”. Mas eu acho que essa é uma batalha que os “novos religiosos” (irónico como as coisas são, o termo “novo ateísmo” é violentamente criticado, e no entanto encontro-me a estender esse “novismo” agora também aos religiosos) devem travar e espero que possam “ganhar”.

A concepção de deus, como defendido pelas maiores religiões do mundo, está fundamentalmente errada, como repetidas vezes apresentei aqui. Um deus que intervêm no mundo natural, um deus violento e belicoso, uma doutrina baseada em milagres altamente duvidosos, e um insistência em dogmas que acabam por afastar o religioso moderado da imagem da igreja como ela é defendida pelos lideres das mesmas.

A não ser que estejamos a falar de pessoas que não conseguem ver mais nada para além das palas que são colocadas à volta dos seus olhos, e falo em particular na redução de seres humanos a meros escravos de sistemas de crença totalitários e castradores (Islão, cristianismo evangélico made in USA, seitas cristãs em Portugal, judaísmo messiânico). Saber que existem alguns centros de reflexão dentro da igreja católica, nomeadamente de qual a relação de deus com o Homem, da internalidade de deus, da sua definição como um agente sobrenatural que não se manifesta no mundo natural, faz-me sentir mais esperançado.

O “deus do telefone”, que pode ligar a Ratzinger e dizer-lhe quais são as “estratégias do jogo” continuará a existir. É impossível escapar a essa realidade. A “empresa” é demasiado poderosa e demasiado vital para aqueles que fazem parte dela para deixarem essa mesma “empresa” tornar-se paulatinamente numa instituição de filosofia e teologia. Não sou tão ingénuo assim. Haverá sempre quem queira usar o “nome de deus” para dizer qual deve ser o rumo que devemos tomar em questões políticas, sociais, científicas, técnicas, etc. Mas algumas correntes de pensamento religioso podem inverter (nem que seja um pouco) essa tendência.

Eu espero que sim.

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