Saramago e deus como problema

José Saramago publicou recentemente no seu caderno, caderno.josesaramago.org, a 16 de Outubro, um artigo de opinião extremamente interessante, dedicado exclusivamente, ou de variáveis directas, ao inexistente, deus na ideia de muitos, abordando a problemática inicial e sendo ela própria a contemporânea. Nas perspectivas abordadas de mais interesse nas lides ateístas se salientam novas formas de expor a mesma verdade universal, nova roda? “Podemos dizer “Aqui está o arado que inventámos”, não podemos dizer “Aqui está o Deus que inventou o homem que inventou o arado”.“.

A questão pertinente para a abordagem de tal tema, uma ideia em existência não existente no universo externo, será a falha de abordagem do tema, a covardia, a hipocrisia, o que de facto se situa na mente dos que analisam os fenómenos com filtragens de determinados factores, segundo o escritor “É como se uma espécie de temor reverencial ou a resignação ao “politicamente correcto e estabelecido” impedissem o analista de perceber algo que está presente nas malhas da rede e as converte num entramado labiríntico de que não tem havido maneira de sairmos, isto é, Deus.“.

Nada de inovador mas muito de provocador, existe um problema, nas lides a resolução envolve cabeças bem enterradas na areia, como solucionar o problema complexo, racionalizar o irracionável, que envolve tal problema? Convicção simples mas de difícil acção, “Para os que matam em nome de Deus, Deus não é só o juiz que os absolverá, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e ordena colocar a bomba. Discutamos essa invenção, resolvamos esse problema, reconheçamos ao menos que ele existe.“.

Outra questão mais pertinente ainda, a meu ver, é a irreligiosidade ou a anti-religiosidade, pois ateísmo é uma mera ausência de determinadas convicções irracionais, uma forma de olhar para a realidade e ver realidade, o que pode realmente trazer uma perspectiva naturalisticamente tão simples, interpretar o real e excluir o ilusório, para a esfera do criticismo? A necessidade imperiosa de travar banhos de sangue e colocar em debate o que a covardia de alguns, ignorância de outros, hipocrisia de vários, colocam em hibernação, luta afincada para que a hibernação não se interrompa! Segundo a perspectiva do autor, é necessário distinguir sistemas de crenças, em foco o imperialismo ou a sua inexistência, e a real necessidade de interpelar o que de perigoso para o Mundo inteiro se afigura, cristianismo e islamismo, “Como não há motivos para temer que chineses, japoneses e indianos, por exemplo, estejam a preparar planos de conquista do mundo, difundindo as suas diversas crenças (confucionismo, budismo, taoísmo, hinduísmo) por via pacífica ou violenta, é mais do que óbvio que quando se fala de aliança das civilizações se está a pensar, especialmente, em cristãos e muçulmanos, esses irmãos inimigos que vêm alternando, ao longo da história, ora um, ora outro, os seus trágicos e pelos vistos intermináveis papéis de verdugo e de vítima.“. Interpretação que partilho, à qual acrescento a diferenciação mais simples para separação de problemas à escala mundial dos outros, o conceito de monoteísmo, fundado no Antigo Egipto e abandonado pouco tempo depois, os problemas decorrentes de tal centralismo divino resolvidos com o regresso aos politeísmos. O totalitarismo é consequente de uma deificação única, o fascismo pleno, e oriundo de uma concepção de abrangência máxima, Universo, surge o imperialismo imparável, as laicidades colocam-no meramente em convicções sem acções, que sejam distinguidos das perspectivas de fé local, de deuses oriundos da mais empírica concepção da Natureza de carácter não-científico, muitas vezes meramente metáforas de uma Natureza existente emanada por almas sedentas de artes e culturas, analise-se a festivalidade religiosa das mais variadas religiões e filosofias de vida baseadas na Natureza e não na anti-Natureza, solstícios e equinócios, momentos astronómicos, eclipses, eventos que ocorrem à escala planetária sempre, visíveis por todos, cultos ao Sol, a estrutura de força, masculinidade, cultos à Lua, a estrutura de beleza, feminilidade, miscelâneas, diria que as religiões podem ser verdadeiras, nunca aquelas que cultivam o nada e a anti-Natureza, cristianismo e islamismo em jogo. O que poderá fazer o maior fundamentalismo jaina? Nada de especial, jainas a explodir em autocarros? Avaliem-se as convicções e as acções prováveis decorrentes do jainismo, certamente se chegará à conclusão que tais convicções não explodem, literalmente falando. Religiões imperialistas, esse é o maior problema, morte aos infiéis o mote para uma luta racional às ideias imperialistas.

Para finalizar as opiniões de Saramago às quais acrescentei algumas de foro pessoal, deixo aqui um ponto final que pode iniciar algumas reticências, “Para os que matam em nome de Deus, Deus não é só o juiz que os absolverá, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e ordena colocar a bomba. Discutamos essa invenção, resolvamos esse problema, reconheçamos ao menos que ele existe. Antes que nos tornemos todos loucos. E daí, quem sabe? Talvez fosse a maneira de não continuarmos a matar-nos uns aos outros.“.

Por mais opressão social religiosa que exista, por mais hipocrisias baratas associadas às necessidades de riquezas materiais, não percebo como se pode acreditar em deuses que não dançam, que não festejam a sexualidade, que não experimentam as apoteoses que a Natureza proporciona, que não riem… que morreram antes mesmo de nascer…

Outros artigos relacionados:

  1. A irrelevância de Deus
  2. Adeus Saramago
  3. Francis Collins como Director do NIH
  4. Um cristão sem Deus
  5. Leituras: Eu sou o vosso deus