“Cardeal propõe encíclica sobre interpretação da Bíblia”

Por Ricardo Silvestre • 8 Out, 2008 • Categoria: Internacionais, Notícias

“O relator geral do Sínodo dos Bispos, Cardeal Mark Ouellet, apresentou ao Papa um pedido logo no início dos trabalhos da assembleia, solicitando uma encíclica sobre a interpretação da Escritura, dado que em muitas ocasiões as faculdades teológicas e biblistas divergem da visão que o Magistério do Papa e dos bispos oferecem sobre a Bíblia.

“A relação interna da exegese com a fé já não é unânime e as tensões aumentam entre os exegetas, pastores e teólogos”, alertou.

Este responsável deixou mesmo uma pergunta: “Depois de muitas décadas de concentração nas mediações humanas da Escritura, não seria necessário reencontrar a profundidade divina do texto inspirado, sem perder as valiosas aquisições das novas metodologias?”

A proposta do Cardeal foi a de não ver a interpretação da Bíblia como algo meramente académico, pois a Palavra de Deus penetra em todas as dimensões da pessoa. Ao mesmo tempo, segundo explicou aos jornalistas na sala de imprensa da Santa Sé, é necessário criar uma relação entre exegetas e teólogos com os bispos que supere as tensões, para chegar à comunhão, respeitando as atribuições de cada um. “Seria oportuno que o Sínodo se interrogasse sobre a conveniência de uma eventual encíclica sobre a interpretação das Escrituras na Igreja”, afirmou.”

Ver aqui.

Gostaria muito, mas muito mesmo, de saber que “tensões” são estas que aumentam por causa das interpretações da bíblia

A frase “depois de muitas décadas de concentração nas mediações humanas da Escritura, não seria necessário reencontrar a profundidade divina do texto inspirado?” é algo difícil de perscrutar para um leigo como eu (de certeza que os nossos visitantes crentes me vão “educar” nesse sentido), mas parece-me algo a raiar o fundamentalismo.

Mas é a proposta de “não ver a interpretação da Bíblia como algo meramente académico, pois a Palavra de Deus penetra em todas as dimensões da pessoa” é que me deixa francamente preocupado, e precisa de ser mais bem explicada. A não interpretação académica, implica uma interpretação “prática”. De que livros? De que “ensinamentos”? Vão estas interpretações promover ainda mais o dogmatismo da “palavras de deus”? Está o relator geral a solicitar que os esforços desses crentes que fazem “interpretações académicas” seja reavaliado?

Esta questão precisa de um acompanhamento atencioso da parte dos ateístas – ou pelo menos os que se preocupam com estas coisas.

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9 Respostas »

  1. Ricardo,

    Vejo que está sempre, como é seu costume, a par de todas as novidades da Santa Sé!
    Digo, sem sombra de ironia, que está mais informado que muitos católicos!!

    Como imagina, não vou sugerir que “tensões” estariam na cabeça do proponente da ideia, mas posso tentar dar alguns palpites para as tensões interpretativas que eu próprio constato.

    Até há 150-200 anos atrás, a Bíblia era encarada como imune de erro. Era respeitada no seu conteúdo. Já aqui escrevi bastante sobre o que é isto de um texto ser “imune de erro”. É que um texto nunca é útil sem interpretação. Sem contexto. E não basta conhecer a sintaxe, ser fluente nas línguas mortas originais, é preciso dominar a semântica.

    No final do século XIX, a corrente teológica denominada de “modernista” foi rejeitada de forma expressiva pelos Papas Pio IX, Leão XIII e Pio X. Note-se que isto não significou, nunca, a rejeição da cultura moderna “em bloco”, mas sim, a rejeição de uma forma errada de fazer teologia.

    Na sequência das descobertas revolucionárias no campo da história e da arqueologia, o final do século XIX foi pródigo em nova informação acerca da história dos próprios livros da Bíblia e dos seus autores. Necessariamente, esta nova informação veio revirar todo o panorama de debate sobre as Sagradas Escrituras. E é sempre bom revirar as coisas, quando surge informação nova. Mas, acabada a euforia, é necessário voltar a arrumar a casa.

    Como sucede quase sempre, o entusiasmo sobrepô-se, em muitos casos, ao rigor e exactidão, e à tradição de interpretação bíblica que, na altura, estava já madura de milénio e meio de aprendizagem. O caso Galileu foi muito pedagógico, e ajudou a afinar ainda mais a tradição interpretativa dos textos sacros. Muita gente aprendeu com os erros do processo contra Galileu, mesmo que essa aprendizagem tenha sido lenta (como é típico nestes temas delicados).

    No entanto, no auge do dito “modernismo” teológico, muitos pensaram que caberia ao exegeta, ao estudioso da paleografia e da arqueologia, a última palavra em matéria de semântica bíblica. Quando os Papas rejeitaram o “modernismo” teológico, rejeitaram, entre outras ideias, esta ideia errada, a de que a Tradição representada pelo Papa se deveria vergar às opiniões dos “especialistas”.

    O que se passa é que, no seio do catolicismo, a Tradição tem tanto peso como as Sagradas Escrituras. Muita da doutrina católica foi preservada por tradição oral, por ensinamento individual de mestre para discípulo. Não só dar a Bíblia a ler ao discípulo, mas também ensiná-lo a interpretar. Ora, neste contexto, faz todo o sentido que não se transforme o delicado (e exigente) mundo da interpretação bíblica numa discussão de arqueólogos e exegetas, na qual o Papa tenha um papel secundário, pois o Papa representa uma Tradição que tem informação não escrita, valiosa e verdadeira, para aplicar ao tema em questão.

    Sem menosprezar de forma alguma o saber académico, e note-se o termo “meramente” que surge na notícia, fica claro que o que se quer é, aproveitando as descobertas científicas verdadeiras, encontrar uma interpretação bíblica mais real, mais adequada, mais exigente e mais verdadeira, que tenha em conta não só as descobertas científicas nesta área, mas também o contínuo de tradição oral da Igreja, contínuo esse que é incarnado na figura do Papa.

    Claro está que, nesta como em outras áreas, nenhum facto histórico ou científico será escamoteado, pois a verdade científica não pode contradizer a verdade teológica.

    Sobre as “tensões”, acho ainda importante rematar com isto… A interpretação bíblica, no contexto cristão, tem sido palco de acesas disputas entre duas facções (por vezes, as nuances são importantes, como é o caso, e cada facção pode ser subdividida), que eu considero como erradas, ambas:

    a) uma que chamaria de “literalismo”, nascida com Lutero, e ainda em vigor na maioria das igrejas protestantes: este literalismo dispensa, na prática, uma boa parte da tradição oral do Magistério da Igreja: é como tentar ler um manual complexo, tendo perdido a chave de decifração

    b) outra que chamaria de “ultra-simbolismo”, nascida com o erro modernista no século XIX, e que procura transformar quase todo o conteúdo bíblico em “metáforas”, em “alegorias”, em “simbolismos”; estes estão certamente no texto, a questão é se essas leituras simbólicas não podem coexistir com leituras literais.

    Eu acho que vários níveis coexistem nos textos, desde o literal, passando pelo simbólico, pelo alegórico, e acabando no meta-sentido teológico, ou seja, no ensinamento teológico que o texto traz consigo.

    Uma última palavra sobre “sentido literal”: eu acredito na literalidade do relato da Criação no Génesis, no sentido em que esse livro descreve eventos que se passaram na realidade com pessoas reais. No entanto, não faço tal leitura do modo que fazem muitos protestantes: por exemplo, não considero “dia” como “intervalo de 24 horas”. Não considero “maçã” como um fruto real. Entre outras coisas. E porquê? Porque sempre foi a marca do catolicismo procurar a melhor interpretação dos textos sacros:

    a) que não “deite fora o bébé com a água do banho”, ou seja, que não deite fora a factualidade que está a ser relatada

    b) por outro lado, que seja compatível com a cada vez crescente cultura científica da qual podemos beneficiar

    Assim, um literalista mal-informado dirá que os dias da Criação duraram 24 horas, e que Eva e Adão comeram mesmo uma maçã. Por outro lado, e no extremo oposto, o “simbolista” dirá que Adão e Eva não existiram e que a história é apenas (note-se, o “apenas”) simbólica.

    A maçã pode ser um símbolo, e no entanto, representar uma opção bem real de Adão e Eva!! Se calhar, a palavra “maçã” ajuda a passar a ideia de uma opção livre de Adão e Eva, por tentarem fazer sozinhos o que era do âmbito divino, ou seja, o juízo independente do Bem e do Mal.

    Eu procuro, como é meu hábito, a “via do meio”, que permita beneficiar de um património espiritual verdadeiro, contido nas Sagradas Escrituras, sem ter que arrancar a cabeça no processo, e deixar de pensar.
    Nem a posição literalista, típica de muitos protestantes, me agrada, nem a posição “modernista” ou “simbolista”, que acaba por deitar fora o conteúdo precioso dos textos, na ânsia de fazer uma leitura “moderna”, de tão “moderna” que desvirtua e destrói o valor dos textos.

    Por isso, espero com alguma curiosidade para ver como se vai desenrolar este tema.

    Um abraço,

    Bernardo

  2. Ainda bem que existem tensões entre os exegetas da Bíblia.Isso só vem demonstrar que não há uniformidade nem pensamento único quanto à interpretação dos livros que a compõem e que é através da reflexão humana que os conceitos teológicos se aprimoram.Acho positivo que a Igreja Católica venha definir claramente a sua posição oficial através da elaboração de uma encíclica sobre esse aprofundamento teologal.O Cristianismo não se esgota na ICAR,pese embora a pretensão de esta se arvorar na lídima representante da Doutrina de Cristo.Homens como Teilhard de Chardin,o excomungado Agostinho da Silva e Leonardo Boff já deram o seu valioso contributo para que a força da Tradição não imperasse de forma inane…

  3. No fundo, tudo isto é muito simples:

    Percebendo a Santa Sé que tem de acompanhar as ideologias mais avançadas na área religiosa, e percebendo igualmente que se não o fizer, perderá o comboio da sua actividade pastorícia, Bento OLHOU para Mohamed Al-Habdan (sim…o caramelo que gosta de ver as míudas por um canudo) e pensou para as sandálias Prada:

    “É isso mesmo… também temos de começar a produzir umas fatwas para a carneirada; arranjar umas passagenzecas dos Evangelhos para lixar a mariconagem, as abortadoras e os gajos chatos como o Ricardo Silvestre. Chega de padralhagem liberal! Se o Socrates anda com sucesso a lixar os portugas com os novos sistemas de avaliação na função pública, também podemos implementar o mesmo sistema com os nossos meninos mais travessos”.

    Finalmente vão ser postos os pontos nos ii e perceber afinal o que é tanto andaram para aí a dizer durante dois milénios quatro cromos evangelistas e um vendedor ambulante.

  4. Tudo começa no fato de se crer que a Bíblia é um livro sagrado, mas trata-se apenas de um livro, com o mesmo status de qualquer antigo texto hindu ou as lendas indígenas coletadas e redigidas.
    Todo texto pode ser interpretado, o que nào altera nada: Deus é um ser imaginário, tanto quanto as sereias ou os deuses dos nativos americanos, e não passará a ser uma entidade real porque este ou aquele texto, escrito por homens antigos deste ou daquele povo, seja assim ou assim interpretado.
    Abraços.

  5. Lucas

    Convido-o a conhecer este sítio, Ateus do Brasil.

    http://ateusdobrasil.com.br/

    Abraços.

  6. Obrigado Perce.

    Queres que eu apareça por lá também para fazer o mesmo estrago que faço por aqui?
    Lol! :)

  7. lol, Lucas!!! Só tu para me fazeres rir com coisas sérias.

    Quanto às fatwas, com o último exemplo que dás, estamos nós bem.

    ; )

  8. Curiosa demais essa proposta do cardeal.
    É que a igreja dele tem DUAS bíblias:
    uma escrita há dois mil anos, e a outra escrita daí para cá,
    com encíclicas & bulas, “Pais da Igreja”, “Tradições”
    e MUITA superstição à mistura!
    Qual das bíblias estava o sujeito a referir?
    Júlio.
    Joanesburgo.

  9. Lucas Samuel

    Queres que eu apareça por lá também para fazer o mesmo estrago que faço por aqui?

    Que estragos, meu amigo? Seja bem-vindo.

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