Um cristão “coerente”
Por Ricardo Silvestre • 4 Out, 2008 • Categoria: Internacionais, Notícias“A polícia está a investigar se um candidato a um lugar público em Ontário, Canada, cometeu a ofensa de “discurso de ódio” ao dizer a uma plateia de estudantes de uma escola secundária que os homossexuais deviam ser executados.
David Popescu foi convidado para uma discussão na Escola Secundária de Sudbury. Antes de começar a sua parte no debate, Popescu fez uma pequena oração e continuou para culpar danos ambientais assim como instabilidade económica na maldade da sociedade.
No final de duas horas de debate, os alunos foram encorajados a colocar questões. Uma das questões a Popescu foi sobre o potencial da técnica de células estaminais, a que este respondeu que “Deus irá magoar quem fizer um aborto”.
A plateia vaiou a resposta e alguns dos alunos levantaram-se e expressaram o seu desacordo e descontentamento. A seguir foi-lhe colocada a questão de que Popescu pensava sobre casamentos entre homossexuais. A resposta foi clara “eu penso que os homossexuais devem ser executados. A minha razão para estar a concorrer a este lugar público é a Bíblia, e a Bíblia não podia ser mais clara nesse ponto”.”
Ver aqui.
Este senhor, apesar de ser um monstro e um atrasado mental, tem de lhe ser dada uma certa razão: a bíblia diz isso realmente. Está escrito. É inegável.
Dai os meus recorrentes pedidos: cristãos, católicos, organizem-se, e peçam aos vossos “líderes espirituais” para renegarem de uma forma declarada e inequívoca que certas passagens da bíblia vão ser retiradas desse livro. Nada de macro e micro narrativas, nada de interpretações e alegorias, simplesmente erradicação.
Digam que foi o vosso deus que vos disse para fazer isso pelo telefone celestial. Qualquer coisa. Nos não iremos fazer mais perguntas.
Realmente este senhor tem razão, só disse o que leu…
Algo que me baralha um pouco é que a bíblia manda matar os homossexuais, manda matar quem trabalha ao sábado, manda matar o filho que é desobediente…
…e depois diz “não matarás”
Se é assim… então também deveríamos eliminar todas as atrocidades dos mitos (gregos, romanos, etc)… eliminando assim toda uma cultura literária que permite compreender os antigos. Não seria isto eliminar fontes de estudo antropológico das culturas antigas???
Se não lemos os mitos à letra, a biblia também não pode ser lida à letra. Agora a sua eliminação (tanto da bíblia como dos mitos) seria sem dúvida um aniquilamento cultura e literário. Não achas Silvestre?
O Cristianismo nasceu com o Novo Testamento…A incoerência está em quem sistematicamente cita textos do Antigo Testamento para tentar relacioná-los com o Cristianismo…Quem faz isso não consegue entender que Cristo,comos Seus ensinamentos e a Sua prática de Vida,veio refutar o falso deus do Antigo Testamento…
Eu tenho uma solução bem mais simples: erradicar qualquer forma de religião. O mundo só tinha a ganhar.
António,
Presumo que essa interpretação seja só sua. Que eu saiba, a cristandade, na sua maioria, não qualifica o deus do AT como um “falso deus”.
cumprs.
Ernesto Martins,
Eu não conheço,pessoalmente, nenhum cristão que reconheça,como Deus, o falso deus despótico e cruel do AT e acho muito preocupante o surgimento de algumas abencerragens dessa lamentável visão,como a do David Popescu.Para um cristão consequente,a Doutrina de Cristo é totalmente incompatível com a visão inclemente do falso deus do AT…
Cumprimentos
Nao existe deus ,e pronto.Nao tem o que discutir.Somente os ignorantes acreditam.Devemos apenas ajuda-los a tornarem inteligentes.
Os crentes participam do Portal Ateu,porque sabem que nao existe divindadeas.So entram para ter certeza…
Marilu, tu é que parece que vens aqui porque estás a precisar de te sentir seguro quanto ao teu ateísmo.
Caro Ricardo,
Acho importante frisar uma distinção elementar entre a Bíblia e o Corão (só para dar um exemplo).
A Bíblia não foi ditada por Deus. Para os muçulmanos, o Corão foi ditado por Deus ao Profeta.
Esta distinção não é pequena.
Os cristãos aceitam sem problemas que TODAS as palavrinhas da Bíblia foram escritas por escribas humanos. O que se passa é que judeus e cristãos aceitam que as Sagradas Escrituras contêm ensinamentos e verdades sobrenaturais. E não se deve, de forma alguma, ler a Bíblia supondo que tudo o que lá está é um ditado de Deus ou corresponde à vontade divina. Para os cristãos, a comparação do Novo Testamento com o Antigo Testamento é o momoento crucial para ter em consideração que os judeus eram “um povo em busca de Deus”, e que a sua doutrina estava ainda por maturar. O próprio Cristo, a propósito de algumas duras leis mosaicas, diz que elas foram permitidas por causa “dos duros corações dos homens” (desculpe-me mas agora não tenho à mão a citação correcta, é algo parecido). A lei de Cristo suplanta e aperfeiçoa a lei mosaica.
Nada é mais claro a este respeito do que a preferência de Jesus pelos proscritos segundo a lei mosaica. Os “intocáveis” eram aqueles que Jesus procurava. O poder de Jesus para fazer esta interpretação definitiva da Justiça advém, necessariamente, da sua condição divina.
Este “cristão” de quem o Ricardo fala, e com quem justamente se indigna, não é nada coerente. Isto é o que acontece quando se é “literal” e não se tem uma tradição apostólica para ensinar a ler os textos como deve ser.
Abraço,
Bernardo
Que ideia mais rídicula e retrógrada alterar um livro que já está feito porque não se concorda com o que está lá escrito. São milhares os livros históricos que contêm ideias desaquadas ao nosso tempo. Imagine-se alterar todos os livros que têm ideias mirabolantes e ensinamentos desactualizados…
Felizmente a maioria dos cristãos não segue á letra as palavras da Biblia. Senão este mundo estava num caos.
Mas também penso que quem não a segue á letra não é um verdadeiro cristão, acreditar é acreditar em tudo. Não vejo razão para se ser só meio cristão.
Também eu não vejo razões para se ser só meio-cristão.E ser-se cristão em plenitude é renegar o falso deus,inclemente,do Antigo Testamento.Acreditar não é acreditar em tudo.É usar de raciocínio lógico para se aferir o mais adequado conceito de Deus.Cristo veio pôr em causa esse falso deus…
Lamento a demora nas respostas, mas esteve demasiado bom tempo para andar agarrado ao computador.
Começando pelo “Agnus Dei”.
“Se é assim… então também deveríamos eliminar todas as atrocidades dos mitos (gregos, romanos, etc)… eliminando assim toda uma cultura literária que permite compreender os antigos.”
Esse argumento é fácil de desmontar: a diferença é que a Ilíada não é considerado “a palavra de deus”, um manual de sociedade, um guia de morais, e a prova necessária para se aceitar a doutrina cristã.
“Se não lemos os mitos à letra, a biblia também não pode ser lida à letra. Agora a sua eliminação (tanto da bíblia como dos mitos) seria sem dúvida um aniquilamento cultura e literário.”
Se a bíblia é para ser um documento cultural e literário (o que a mim não me incomoda nada, faz parte da história da humanidade) então não pode ser o livro em cada púlpito de cada igreja a servir de documento orientador daquilo que os crentes devem pensar ou fazer,
Caro Bernardo
Diz que os cristãos aceitam sem problemas que todas as palavras da bíblia foram escritas pelo homem: já o padre Carreiro das Neves me disse isso em forma de resposta. Mas, apesar disso, e na minha opinião, incompreensivelmente apesar disso, continua a ser apresentada pelos vossos “líderes espirituais” como a “palavra de deus”.
Mais à frente o meu amigo escreve: “E não se deve, de forma alguma, ler a Bíblia supondo que tudo o que lá está é um ditado de Deus ou corresponde à vontade divina.”
Então o que corresponde e o que não corresponde? E quem decide? Não só a bíblia foi escrita por homens, como é interpretada por homens. Não vê o problema disto, Bernardo? Onde está o vosso deus afinal? Não ditou, não corrige, não se pronuncia?
Como pode imaginar, para um ateísta “convicto”, tudo isto é comprometedoramente fraco na base e mal sustentado a montante.
Finalmente, o Bernardo sai em defesa do Novo Testamento, e que “O poder de Jesus para fazer esta interpretação definitiva da Justiça advém, necessariamente, da sua condição divina.”, mas isso também foi escrito por homens! Com que justificação o Bernardo me diz que essa parte é mesmo verdade, mas outras não são?
Espero que, se puder, nos faça companhia no Debate no dia 15. Gostava de o ver na plateia.
Caro Ricardo,
Se poderemos tirar uma mensagem dos mitos para as nossas vidas, porque é que não poderemos tirar uma mensagem da bíblia para as nossas vidas? Imaginemos o mito de Sicifo… com este mito poderemos tirar a mensagem que a vida é demasiado “pesada” ou rotineira, e por isso mesmo devemos prestar atenção na nossa vida para vivermos uma vida com sentido. É claro que não posso ler à letra o mito e encaixar à pedrada o mito na vida. Exige reflexão, crítica, etc… Do mesmo modo pode acontecer com a bíblia.
E como afirma o Bernardo “não se deve, de forma alguma, ler a Bíblia supondo que tudo o que lá está é um ditado de Deus ou corresponde à vontade divina.” E objectas tu: “Então o que corresponde e o que não corresponde? E quem decide?”…
É aqui que a bíblia tem que ser interpretada racionalmente e criticamente. Se Deus é absolutamente bom e amor, então a sua vontade não pode ser algo contra a bondade e amor. Por exemplo, segundo este postulado então causar dano ou conflito ao outro é algo que contradiz um Deus Amor que quer que todos sejam relação, paz, amor.
Penso que “vontade divina” só pode estar relacionado com a essencia de Deus. Se Deus é totalmente amor, então é totalmente absurdo exigir ao ser humano que crie conflito entre a humanidade. Um deus que seja o orientador de vingança, guerra, ódio, matança, etc… é totalmente diferente do Deus de Jesus Cristo, que é AMOR, relação… Penso que em Jo 17 poderemos constatar realmente qual é a vontade de um Deus AMOR.
É obvio que em toda a bíblia são apresentadas imensas imagens de Deus… Isto porque a procura de Deus não se fez de um dia para o outro… mas exigiu um caminho arduo à procura de quem é Deus. Mas, mais tarde é nos revelado um Deus mais coerente com a racionalidade, pois um ser absoluto tem que ser perfeição, logo é mais perfeito o amor (unidade) do que o mal (desunião). Logo, o Deus amor é um Deus que quer que sejamos todos uma verdadeira humanidade, “para que todos sejam um” em paz e amor…
Olá Ricardo,
Acho que isto já está uma grande embrulhada. E não é para menos. Vou tentar ser mais claro, separando as questões por pontos:
1) Ao contrário do Corão, por exemplo, toda a Bíblia foi escrita (fisicamente, concretamente) por escribas humanos; na Bíblia, há um “tradutor” que é o escriba, que passa para escrito o que viveu, o que viu, o que ouviu
2) A Bíblia contém material heterogéneo: relatos históricos, epopeias, poemas, canções, alegorias, muita coisa; quando, num trecho histórico, o escriba relata uma dada batalha, essa batalha corresponde à vontade de Deus ou a um Deus a falar? evidentemente, nestes casos, o escriba está a relatar acontecimentos históricos: Deus não está a ditar nada nem a manifestar a Sua vontade;
3) Noutras alturas, um profeta pode dizer algo do género: “E o Senhor dirigiu-se a mim nestes termos…”, e então aqui teremos em segunda mão a palavra de Deus a ser transcrita; mas nem toda a Bíblia consiste em oráculos transcritos!
3) Agora, vejamos mais de perto a História de Israel, com uma coisa notória: os hebreus falham, muitas vezes, aos mandamentos divinos; é espantosa a capacidade de auto-crítica deste povo, que coloca em escrito as suas próprias falhas, para ilustrar às gerações seguintes as consequências de falhar aos mandamentos divinos; ora, esta mesma decisão, de o povo hebreu passar a escrito todas as desgraças e infidelidades que ele mesmo cometeu contra Deus, é uma decisão divinamente inspirada, pois o povo age correctamente, demonstrando que aprendeu com a experiência; a lição torna-se mais importante do que nacionalismos bacocos, pois é sempre um vexame ter que se admitir que se errou
4) Ao longo do Antigo Testamento, vemos uma moral em formação, com leis duras e que hoje afirmamos serem injustas; e são injustas, muitas delas, como apedrejar uma adúltera; o povo hebreu, em alturas recuadas da sua História (porque hoje em dia, os judeus ortodoxos não apedrejam adúlteras), julgou que aplicava a justiça divina ao apedrejar adúlteras, entre outros juízos duros sobre o que seria uma Justiça humana segundo a Justiça divina; certamente que há coisas muito boas e válidas na moral do Antigo Testamento, e muitos dos preceitos emulam os preceitos cristãos; no entanto, muitas coisas foram reformadas pela única pessoa que o poderia fazer, Cristo
5) As Sagradas Escrituras são infalíveis, no sentido em que não contêm ensinamentos falsos; no entanto, como em qualquer texto, uma coisa é a letra outra é a hermenêutica, a in terpretação; a Bíblia, sem interpretação avalizada, torna-se perigosa, e o Ricardo tem dado amplos exemplos deste risco. O problema nasceu com Lutero, que se quis ficar pela letra: é conhecido o ódio de Lutero aos filósofos escolásticos e à teologia especulativa; o literalismo nasce da vontade (todos os erros nascem da vontade), inicialmente bem intencionada, de regressar a uma “pureza” do texto, mas isso é uma asneira. Ao tempo de Lutero, os textos sacros eram tão antigos que já não havia possibilidade de entrevistar os seus autores, e por isso, a tradição oral (de raiz apostólica) era a única forma de interpretar correctamente os textos.
Ainda hoje é assim. Quando se lê um trecho no qual está escrito que a pena a aplicar a um homossexual é a morte, a tradição apostólica diz que esse ensinamento moral não é infalível, que corresponde a um juízo feito pelo povo hebreu numa altura em que o conhecimento que eles tinham da moral divina ainda estava muito incompleto. Ao mesmo tempo, esse mesmo trecho da Bíblia contém um ensinamento infalível: que a justiça humana é sempre incompleta, e que a Justiça divina é que será sempre a referência.
Estas dúvidas resolvem-se, Ricardo, pelo baptismo e pela auscultação frequente das Sagradas Escrituras. Durante as homilias, um bom sacerdote fala abundantemente sobre estas questões. As perplexidades apontadas por muitos ateus justificam-se pela falta de contexto e de audição destas matérias.
Um exercício muito estimulante (e que sempre estimulou muitos cristãos) consiste na comparação de trechos do Antigo Testamento com trechos análogos no Novo Testamento. Jesus coloca uma série de questões veterotestamentárias numa nova luz, o que nos permite entender trechos que, sem essa ajuda de Cristo, nos pareceriam estranhos e impenetráveis. A luz que é Cristo dissipa as trevas da confusão e do erro.
A decisão, da igreja primitiva, em incluir o Antigo Testamento na Bíblia foi uma decisão inteligente: por um lado, o cristianismo nasce do judaísmo, e não fazia sentido começar do zero e perder todo o valor acumulado na Torá. Por outro lado, cedo os cristãos se deram conta de que a vida de Cristo só fazia sentido quando inserida como coroa no edifício do Antigo Testamento. Que tudo se completava, que o Antigo Testamento era importante para se compreender a vida de Cristo e os Seus ensinamentos.
Em relação ao debate, vamos lá ver! Esta quarta-feira, vou saber a data final. Se o parto for marcado para dia 15, está o caldo entornado…
Um abraço
Oração ou reza (ou lá o que era!) eliminada pela administração do Portal Ateu.
Helder Sanches
Paulo Manguela
Parece que se enganou, isto aqui é o Portal Ateu, não é a igreja lá da esquina, se quer participar faça-o com escrita útil e não fútil.
Este Manguela deveria ser banido por SPAM… Irra!!!