Não! Não! Não!

Por Ricardo Silvestre • 1 Out, 2008 • Categoria: Nacionais, Notícias

Este vai ser um artigo num formato diferente do habitual, mas é que cada parágrafo tem de ser analisado só por si. Um comentário à totalidade desta notícia no sítio da Agência Ecclesia (que pode ser visitado aqui – mas o texto está na integra aqui), não faria justiça à quantidade de visões erradas por parte de quem promulga estas enormidades

Entre aspas o texto original

“Responder ao desejo de Bento XVI acerca do rejuvenescimento da Igreja a partir da redescoberta da Palavra de Deus, como uma “nova primavera” portadora de um redobrado dinamismo para a missão de evangelização e promoção humana” foi o objectivo da Comissão Episcopal da Educação Cristã (CECC) ao escrever a Nota Pastoral para a Semana da Educação Cristã onde alertam “todos os envolvidos na educação” a uma “redescoberta da Palavra de Deus” enquanto informadora e formadora de “valores fundamentais”.“

Os religiosos, e neste caso os católicos, têm de deixar de usar esta expressão de que é a “Palavra de Deus” que atribui “valores fundamentais”. Não só a “palavra de deus” uma falácia óbvia (não há qualquer “palavra de deus” – há palavras de homens que se arrogam a porta vozes do grande amigo imaginário no céu) como a “palavra de deus” consegue ser intolerante e corrosiva a par das “palavras de amor” que os crentes vêem. E os valores fundamentais não vêm de “palavras de deus”, vem da formação que as pessoas ganham por experimentar o tecido social em que estão embutidas.

Mas vamos mais longe. Vou invocar o desafio de Cristopher Hitchens para desmontar esta arrogância cristã: os cristãos têm de dar um exemplo de um “valor fundamental” vindo da “palavra de deus” que um cristão tenha, e que um ateísta não possa ter sem “palavras de deus”. Fica o desafio em Português.

“Na semana Nacional da Educação Cristã, que se celebra de 5 a 12 de Outubro, os Bispos Portugueses, através da CEEC mostram-se conscientes das “transformações do mundo actual que “comportam profundas mudanças culturais” e enaltecem “o enorme avanço das descobertas científicas, o incomparável desenvolvimento técnico dela decorrente, inimaginável há poucas décadas atrás, e a crescente consciência da necessidade de assumir valores universais como a liberdade, a justiça, a solidariedade e a paz, valores tão significativos que o Santo Padre João Paulo II considerou alicerces da “civilização do amor”.”

Como agente de ciência que sou, agradeço o reconhecimento de que “enaltecem o avanço das descobertas científicas”. Vem tarde, e vem depois de muita resistência clerical a essa realidade, mas fico contente que a CECC vá mudando pouco a pouco o discurso histérico sobre o desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia, ao contrário do vosso pastor-mor que ainda há pouco tempo (na sua visita a França) dizia que a procura do conhecimento “desvia o homem do seu verdadeiro destino”.

“Do mesmo modo, pode ler-se na Nota Pastoral, os bispos mostram-se preocupados pelo surgimento de muitas incertezas e divergências de opiniões sobre temas fundamentais, acentuadas por uma crescente tendência de individualismo e de subjectivismo ético” alertando para o facto de estar a ser posto em causa “o conceito de pessoa humana, o significado da verdade, o sentido da vida, do sofrimento e da morte, a distinção entre o bem e o mal, e a harmonia entre liberdade e responsabilidade”.”

Mais uma vez, os “papões do costume”: o individualismo, o relativismo, o subjectivismo, tudo ameaças ao regime ditatorial que tem de ser uma das premissas de um culto religioso. Todos aqueles que não estejam alinhados com as linhas programáticas da teologia de fundo, afectam o “significado, o sentido, as distinções, a harmonia”. Isto é de uma cobardia argumentativa, e de uma simplicidade paroquial que é estupidificante. Não é o individualismo, nem o subjectivismo ético, que destoam dos “ensinamentos religiosos”, que põem em causa “o conceito de pessoa humana, o significado da verdade, o sentido da vida, do sofrimento e da morte, a distinção entre o bem e o mal, e a harmonia entre liberdade e responsabilidade”. Isto é propaganda rasteira e ofensiva. Se essas coisas são postas em causa, é por fenómenos sociais complexos, comportamentos marginais a normas e regras, que tanto podem ser feitos por um crente, um agnóstico, ou um ateu. Estes senhores precisam de ler uns quantos livros de psicologia e sociologia antes de se arrogarem a detentores de verdades.

“Num Mundo em constante mutação a CEEC alerta para a necessidade de haver uma “Educação, baseada em certezas e valores fundamentais, indispensáveis para que as novas gerações possam construir personalidades sólidas e descobrir um sentido profundo para a vida” uma vez que só assim “será possível corresponder aos anseios crescentes que as famílias, os professores, os jovens e a própria sociedade manifestam por uma educação formativa que não se limite a uma informação actualizada e a uma ampla transmissão de conhecimentos”.”

Eu vou passar novamente a última frase deste parágrafo: “Uma educação formativa que não se limite a uma informação actualizada e a uma ampla transmissão de conhecimentos”. “Claro que não!”, pensam estes senhores. Faz parte de uma “educação formativa” histórias fantásticas que passam por relatos históricos e exemplos de moral. Histórias de deuses invisíveis, de concepções imaculadas, de milagres e de promessas bíblicas. Tudo isto tem de fazer parte da formação de novas gerações. Com certeza, digo eu, e vamos também apostar forte no ensino de alquimia, de astrologia, do tarot, da magia negra e tantos outros exemplos de sobrenaturalismo que servem para embrutecer o ser humano.

“Perante a realidade, a Comissão Episcopal da Educação Cristã propõe aos “cristãos empenhados no vasto campo da Educação” que dêem, em toda a sua actividade de educadores, “primazia à Palavra de Deus, verdade que dá sentido à vida”. Os bispos alertam para o facto de “a Palavra de Deus” não ser “um depósito inerte” mas “uma palavra viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes”.”

Muito obrigado pela metáfora bélica. Mostra bem qual a mensagem estratégica que querem passar. Encantador.

“Por entre as recomendações dos bispos a Bíblia surge como fundamental. Os bispos recomendam “aos catequistas e professores que dêem a maior atenção à Bíblia, sobretudo às Cartas de São Paulo, na preparação e na realização das sessões, recorrendo a metodologias e materiais pedagógicos adequados e atraentes, para que as crianças, os adolescente e os jovens que lhes estão confiados se sintam estimulados pela leitura, se familiarizem com a Bíblia e possam chegar a dialogar com Deus a partir dela. Mas, acima de tudo, é necessário que os educadores acreditem naquilo que ensinam e vivam de acordo com o que recomendam aos seus educandos”.

As mesmas cartas onde podemos ler “O marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja. Do mesmo modo que a igreja é submissa a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo aos maridos. - Efésios 5:22-24”? Essas cartas?

E que tal ter as crianças, adolescentes e jovens a se familiarizarem com “pérolas” como os livros de Deuteronômio ou Levítico para “dialogarem com deus”: se uma mulher se não for virgem no dia do seu casamento, e se os pais da jovem não conseguirem provar a sua virgindade, a jovem deve ser apedrejada até à morte à porta da casa do seu pai (Deuteronômio 22:13-15, 20:21), ou se um homem violar uma jovem, ele deve pagar ao pai da mesma 50 peças de ouro, e ela se tornará a sua esposa e nunca se poderá divorciar dele enquanto viver (Deuteronômio 22: 28-29), ou perseguir e eliminar todos aqueles que rejeitam o veredicto de um juiz ou de um padre que represente deus (Deuteronômio 17:12), ou matar os homens que se deitem com outros homens, porque estes “renegaram a sua vida” (Levítico 20:13), ou que ofensas aos pais é punível com morte, pois essa é uma “ofensa capital” (Levítico 20:9) ou que crianças não podem ofender profetas carecas porque podem ser mortos por ursos por capricho de deus (II Reis 2:23-24), ou que um homem pode vender a sua filha em escravidão (Êxodo 21:7), ou que descendentes com “defeito não se chegará para oferecer o pão do seu Deus.” (Levítico 21:17)ou que “aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente será morto; toda a congregação certamente o apedrejará. Tanto o estrangeiro como o natural, que blasfemar o nome do Senhor, será morto.” (Levítico 24:16) ou que “Aquele que poupa a vara aborrece a seu filho; mas quem o ama, a seu tempo o castiga.” (Provérbios 13:24).

Tudo excelentes exemplos para uma “educação formativa, baseada em valores fundamentais estimulados pela leitura da bíblia”.

Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso, e com o mínimo de inteligência deve protestar, e revoltar-se contra esta “cultura instalada” de barbaridade impunes e socialmente aceites como “normais” por parte de “líderes espirituais” religiosos.

Vamos despertar consciências.

PS: para aqueles que queiram me endereçar os seus comentários, fiquem a saber o seguinte: educação e cordialidade são essenciais para qualquer debate, ao contrário dos insultos reles e básicos. Comentadores que se dirijam a mim nesses termos podem vomitar as suas idiotices para outro lado, que eu não estou interessado.

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5 Respostas »

  1. Ricardo Silvestre

    Os seus comentários são muito interessantes mas o espaço da caixa de comentários é pequeno para tudo o que eu gostava de escrever. Há uns tempos que ando para retomar o projecto de um blogue de diálogo com o ateísmo militante. Vou ver se tenho tempo para começar. Depois aviso-o.

  2. Viva Ricardo,

    O Desafio proposto na esteira de Hitchens (que amiúde os ateus parecem tratar como seu papa! ) parte de um pressuposto demasiado fechado que os ateus procuram aplicar à mundividência dos crentes, mas que não é por eles entendido de um modo assim exclusivo:

    O crentes não encaram os dons de Deus como sendo depositados exclusivamente numa espécie de clube fechado e elitista. A perspectiva, comum às grandes religiões, é de que Deus se manifesta de múltiplas formas, onde quer, a quem quer e como quer.

    Negar que um ateu possa evidenciar valores que para os crentes são fundamentais, seria negar a absolutidade e absoluta liberdade de Deus.

    Isto é tão verdade para os dons, como para os valores, como para as doenças, as desgraças, os acidentes…

    O que me foi sempre ensinado pelos crentes, é que não estamos livres de todas as leis ou acasos a que estão sujeitos os outros humanos… O que os crentes possuem, e os ateus decerto não têm, é a Fé e a Esperança que os faz confiar que existe um sentido na Transcedência que é benévola, e que tudo concorre para o Bem - ainda que não o entendam já, aqui e agora.

    Pois… para o decrente esta será talvez a parte mais difícil de conceber, que até lhe chamam irracional e coisas bem menos simpáticas.

    No entanto, é precisamente aqui que radica a diferença - que não é negada aos não-crentes, mas que os crentes assumem de modo consciente e volitivo.

    É na Fé que radica a diferença e a força da crença, designadamente da Fé Cristã. É daqui que parte a força que não foi quebrada pelo Tempo e por Impérios e Forças criminosamente anti-cristãs, ao longo da História.

    A par da Esperança, também a Caridade (Agapé) / Amor que para os discípulos de Jesus de Nazaré não é um mero sentimento, ou a expressão de uma certa fraternidade - que seria sempre pontual, exclusivista e particularista - mas do Amor que não se pode conter em fronteiras, mas se estende até ao ‘Amor aos Inimigos’.

    Este parece-me ser um valor Bíblico que dificilmente um ateísta consiga manter e não sei de nenhum que o defenda.

    Claro que entra em jogo a questão da coerência dos crentes (infelizmente quer individualmente, quer comunitariamente nem sempre somo fiéis aos nossos próprios valores), mas essa questão é não só para os crentes, mas para todos os humanos, embora os ateus fujam bastante dela, como se em relação a eles a questão da coerência com os seus valores não se colocasse!

    Entendo que um ateísta conteste este modo de entender as coisas - senão seria crente!!!

    Custa mais a entender é quando as tomadas de posição tendem a vir embrulhadas em intolerância, arrogância, presunção - noto desde há muito tempo estas tendências nos amigos ateístas… E é pena.

    Apresentar textos bíblicos fora do seu contexto geral, sem o enquadramento do modo como a comunidade dos discípulos que os utiliza os interpreta é um péssimo serviço ao pensamento. Porque não se expôem também os outros textos que são a raíz da cultura ocidental ligados ao Amor, ao Perdão, à solidariedade …?

    Qualquer causa que se apoie nestes sentimentos fragiliza-se.

    ‘Cobardia argumentativa’; ’simplicidade paroquial estupidificante’; ‘propaganda rasteira e ofensiva’; ou a afirmação que o crente está destituído do ‘mínimo de bom senso e de inteligência’… São afirmações muito intolerantes, senão preconceituosas e arrogantes.

    Conheço a ateus bastantes ignorantes. E conheço inteligentes. Não me parece que a religião seja a causa da ignorância, senão todos os ateus estavam livres dela - e isso não é verdade, pois não?!!

    Conto não te ter ofendido. Aliás quero agradecer pelos teus textos que vou lendo e me ajudam a pôr-me em causa, a repensar os meus valores, a expandir o meu pensamento. É fácil esquecermo-nos que quem escreve assim textos, se expõe muitíssimo e é mais fácil comentar e criticar, muitas vezes na sombra de do anonimato

  3. Carlos Reis - “Apresentar textos bíblicos fora do seu contexto geral, sem o enquadramento do modo como a comunidade dos discípulos que os utiliza os interpreta é um péssimo serviço ao pensamento. Porque não se expôem também os outros textos que são a raíz da cultura ocidental ligados ao Amor, ao Perdão, à solidariedade …?”

    Gostava de ouvir a sua opinião acerca de algumas coisas. Já que cada pessoa tem uma perspectiva diferente dos textos (quando têm alguma), qual é a sua interpretação dos textos aqui transcritos? Qual é a diferença do seu significado quando não são lidos num enquadramento com o texto restante?

    Também não acho que um religioso seja, por definição, ignorante, mas sim que um ignorante muito provavelmente possa ser religioso.

    Cumprimentos

  4. Caro Carlos Reis,

    Vou aqui confessar uma “heresia” (na sua óptica) que consiste em não ter lido “quase nada” de Hitchens…
    Mas fique descansado, pois do que sei da opinião dele, tenho a certeza que concordaria comigo em quase tudo ;)

    Você disse:
    «a Caridade (Agapé) / Amor que para os discípulos de Jesus de Nazaré não é um mero sentimento, ou a expressão de uma certa fraternidade [...], mas do Amor que não se pode conter em fronteiras, mas se estende até ao ‘Amor aos Inimigos’»

    Interessante…
    Mas vai concordar comigo que “amor aos inimigos” é do mais contra-natura que podemos encontrar por aí, certo?
    E é tão contra-natura, que até costuma ser eleito como um exemplo da especificidade e da elevação estapafúrdia do amor divino.
    Se assim não fosse, nem você referiria isso.

    Como disse o outro: Paz, é eu ter um pau maior do que o do vizinho.
    E se olharmos para “qualquer História”, mesmo de relance, não há dúvida que pensamos permanentemente em como eliminar preventivamente as ameaças que nos rodeiam .
    Este pensamento de aniquilação preventiva, incluí na sua base, mosquitos, pulgas, piolhos, todos machos que invejam o nosso território e as nossas fêmeas, e mais qualquer coisita… de que agora nem me estou a lembrar… Just in case,…aniquila-se e pronto!

    Somos mesmo assim, e – de acordo consigo – “alguém” desenhou sabiamente assim os nossos genes.
    Que fazer agora?

    Vamos acreditar no que um imaginário, ignorante e analfabeto aprendiz de carpinteiro, nos vem ensinar sobre contrariarmos os nossos genes?
    Esses mesmos genes que garantiram a nossa sobrevivência à extinção que nos estava reservada à semelhança do HSN – e que aparentemente apenas pecou por estupidez ou excesso de altruísmo?
    A “razão” e o “amor” a colocar “em sentido” a programação genética?

    O suicídio, é um bom exemplo de quando se renega conscientemente o instinto de sobrevivência alegadamente programado pelo seu ser imaginário….
    Assim como um acto bombista kamikaze executado por amor à divindade e para desmoralizar infiéis (e já agora, para garantir um lugar na 2º fila do céu).
    Será esta uma resposta legítima ao desafio lançado por Hitchens?

    Considera verdadeiramente que este e qualquer outro tipo de negação da nossa programação genética é algo a enaltecer?

    É mesmo da opinião que contrariar o o desenho original genético divino, está correcto?
    Ou esse desenho apenas deu jeito durante largas centenas de milhares de anos, e agora de repente, já não interessa nada?

    Cuide-se, pois a colocar em causa dessa maneira a benevolência do desenho original divino, ainda vai acabar a arder no seu inferno favorito, e na classe turística!…

    Cumprimentos

  5. Abrasivus

    Também eu “entendo que um ateísta conteste este modo de entender as coisas”

    Sendo assim também o tal instinto de sobrevivência dispensa todos os tipos de regulamentação de regras sociais…”salve-se quem puder” principalmente o senhor “abrasivus” quando for a vítima e não for efectivamente o MAIS FORTE… Lol
    ops! não é um desejo que lhe dirijo mas simplesmente espero que entenda que um crente conteste o outro modo de entender as coisas.

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