“Individualismo exasperado”
Por Ricardo Silvestre • 30 Set, 2008 • Categoria: Internacionais, Notícias“A importância da meditação sobre a Palavra de Deus e a missão da autentica [a falta de acentuação aqui não é minha, mas do texto original] testemunha de Cristo foram os temas que estiverem no centro do discurso proferido na passada Sexta-feira por Bento XVI durante o encontro em Castel Gandolfo com os bispos do Uruguai.
Uma mensagem particular foi dirigida pelo Papa às pessoas consagradas e aos leigos empenhados na missão da Igreja, chamados a dar testemunho alegre sobre a plenitude da vida que vem da fé.
“Não deveis desencorajar – exortou Bento XVI – perante a indiferença religiosa e o individualismo exasperado que muitas vezes domina a sociedade; continuai a ser portadores de esperança e do amor de Cristo em particular pelos pobres através de obras concretas de caridade e justiça”.
Ver aqui.
Porque será que existe esta obsessão por parte do Vaticano (e por inerência á ICAR) sobre o “individualismo”?
Esse tema é sempre incluído nas ameaças para a sociedade, para o cristianismo, e para o “bacalhau com todos” por parte dos “líderes espirituais”. De alguma forma, à medida que uma pessoa assume cada vez mais a sua natureza e determina por ela própria qual o caminho que quer seguir, mais os religiosos se queixam que o mundo está perdido. A mentalidade do “rebanho” continua a vigorar em força.
E já agora, o que é um “individualismo exasperado”? É uma pessoa que não gosta de estar nas filas das finanças? Que não gosta de ir ao shopping? Que não vai ao Estádio da Luz ver a bola?
Serei eu um “individualista exasperado”?
Perguntas, perguntas.
Só um detalhe: Ao invés de escrever “[a falta de acentuação aqui não é minha, mas do texto original]“, por que não escreveu “[sic]“? Não quer dizer a mesma coisa?
“Sic” na Wikipédia.
Caro Alexandre
Porque não sei se a maioria das pessoas conhece a expressão.
E porque reforça a mensagem que queria passar.
Obrigado pela sugestão.
De facto,que “coisa tão estranha” o Papa Bento XVI preocupar-se contra o “individualismo exasperado que muitas vezes domina a sociedade” e incentivar “o amor de Cristo em particular pelos pobres”…Já não se pode detestar,em paz e sossego, as filas das finanças,as idas aos centros comerciais e ao estádio do SLB …
Presumo que o despenteado seja o ateu Bruno Miguel Resende.
Não creio que o ateu Bruno Miguel Resende seja um individualista exasperado pois se fosse individualista não nos brindava com os seus pontos de vista e todo o material que aqui publica constantemente, iria reservá-los para si.
Presumo que o crente António Parente seja um dos alinhadinhos que segue à risca todas as linhas orientativas ditadas pelo sr Ratzinger ou por outros ditadores da mesma laia.
Presumo que o ateu Rodrigues seja daqueles brights que não sabem interpretar o que estão a ler. Falei em “despenteado”, não falei em “exasperado”. Referências capilares não devem ser motivo para inferir estados mentais. Despenteado não significa exasperado. Se assim fosse então os carecas estavam lixados.
Analisando a imagem e interpretando o contexto, o ser despenteado da imagem será o único diferente, logo, segundo o tema em debate, será o tal “individualista exasperado” no meio dos “comunitaristas orientados”, pelo que também nunca afirmei qualquer nexo de causa-efeito entre desregulamento capilar e estados mentais. Por favor corra uma segunda análise do conteúdo implícito antes de apelidar alguém de “bright” ou “blurred”.
Eu não li o artigo nem vou ler. Limitei-me a comentar a figurinha. Nem sei o que significa “individualista exasperado” no contexto do texto. Antes de opinar, deveria ter-me perguntado se a minha menção ao “despenteado” estaria correlacionada com o “exasperado”. Eu teria respondido que não e acada um tinha ido à sua vida. Assim, perco eu um tempo precioso que poderia ter dedicado à oração e o senhor à meditação.
Portanto o sr. António Parente é alguém que nem sequer lê o texto mas decide mandar uma posta (praticamente despropositada) sobre o penteado de outra pessoa. Mais uma magnifica colaboração.
Realmente “individualismo exasperado” é uma expressão caricata. Muito provavelmente, é a nova expressão usada pela ICAR para substituir quem não crê em deus e para quem não acata todas as decisões arbitrárias.
Exasperante, isso sim, é a mania que eles têm de emitir julgamentos morais por tudo e por nada, e por tentarem impor as suas opiniões a toda a Humanidade!
PS: Belo comentário, caro Ricardo.
Despropositada no seu ponto de vista, sr. Luís. No seu ponto de vista.
Individualismo exasperado é preocupar-se apenas consigo, viver só para si próprio, e não estar minimamente preocupado com os outros. Só estranho como os ateus que se auto-proclamam tão racionais, não conseguem perceber uma coisa tão simples. Achar que o individualismo exasperado é bom para a sociedade é prova de irracionalidade. Criticar quem critica o individualismo é outra, e achar que o contrário de individualismo é ir ao shopping ou estar nas filas de finanças é completamente irracional (para não lhe chamar outra coisa). Mais uma vez, razão e ateísmo mostram-se incompatíveis.
Ricardo,
Não vejo razão de queixa.
“Individualismo” é uma coisa.
“Individualidade” é outra.
Se a doutrina católica defende que cada ser humano é único, indiividual, irrepetível, como é que o Ricardo explica essa noção de “manada” que está a querer passar como caricatura?
O cristianismo, ao contrário de outras doutrinas como o marxismo-leninismo, valoriza o indivíduo em detrimento do grupo. O cristianismo não “endeusa” o grupo como faz o marxismo-leninismo, e a consciência individual da pessoa humana é inviolável.
O Ricardo está, parece-me, a tresler as palavras do Papa. O que o Papa faz é criticar uma sociedade que se compraz no “individualismo”, que não tem nada a ver com a individualidade e independência do ser humano, mas sim com uma ideologia de egoísmo e egocentrismo. Uma ideologia do “cada um por si”.
Se trocar “individualismo” pela expressão “cada um por si”, já verá que o texto do Papa é perfeitamente razoável. É importante entrar no contexto para se avaliar o que é dito.
Um abraço
Caro Bernardo! Que bom lê-lo.
Então e como vão esses preparativos?
A doutrina pode defender isso, não nego essa mensagem, mas também defende que os crentes são como um “rebanho”, com existem “pastores”. Eu não utilizei o termo “manada” porque sabia que iria causar celeuma, mas quando o Bernardo a usa, parece-me que também o meu amigo pressente que há essa imagem instalada.
Que comparação essa entre cristianismo e o marxismo-leninismo… fico sem saber o que posso comentar dessa sua analogia.
Eu não aceito essa vossa argumentação que o “individualismo” é um perigo para a sociedade. Se eu me preocupar só comigo, mas não fazer mal a ninguém, qual é o problema? Está o individualismo a par com a psicopatia ou a sociopatia? Não ser atencioso para com os outros faz de mim uma má pessoa? Estou a quebrar alguma regra de funcionamento da comunidade?
Claro que o Bernardo me vai responder (e com toda a razão) que o mundo será melhor se todos se preocuparem um pouco com a pessoa ao lado. Acedo. Mas isso não é uma condição necessária para a manutenção de um sistema social. E muito menos é uma condição que venha de “bases religiosas”: somos altruístas e cooperantes porque faz parte de sermos primatas gregários que cresceram em grupos.
E o pior é que o “cada um por si, é cada vez mais a realidade que nos (e nos vai rodear). Só não façam disso um “cavalo de Tróia” para evangelização.
Não consigo perceber é como podem afirmar tão convictamente que o “individualismo exasperado” deriva directamente da falta de fé no cristianismo. Pessoalmente, penso que saber que não podemos contar com um deus omnipotente só nos torna mais solidários, pois sabemos que , sendo o Homem um animal social, apenas conseguimos viver acompanhados de outros.
Sendo ateu e naturalista , e tendo umas luzes da evolução humana, sei que só chegámos onde chegámos devido à cooperação, à solidariedade e apoio mútuo . São atitudes necessárias para a sobrevivência. E, sinceramente, penso que não tira nenhum mérito o facto de essa solidariedade não ser desinteressada, no sentido que também nos beneficia.
No entanto, algum individualismo também é necessário, algum distanciamento, de forma a podermos aplicar o nosso espírito crítico e decidirmos, por nós próprios, se as atitudes tomadas ou as opiniões expressadas (pelas várias figuras que nos afectam o quotidiano, incluindo nós próprios) estão de acordo com os nossos interesses ou ideias.
Lamento se isto está um pouco confuso, mas foi escrito à pressa, pois tenho que ir para a faculdade
Caro João Félix, como se não houvesse igualmente “individualismo exasperado” naqueles que são cristãos.
E concordo com o seu segundo parágrafo (alias como já tinha argumentado para o Bernardo que somos altruístas e cooperantes porque faz parte de sermos primatas gregários que cresceram em grupos). Mas, e convencer certos crentes disso? Não é fácil. Parece que uma explicação naturalista como essa é vista como “imoral” por essas pessoas.
Porque? Não sei. Nem elas conseguem explicar.
” A primeira lei que a Natureza me impõe é gozar à custa seja de quem for” (Marquês de Sade)
Exasperante este “individualismo exasperado”…
Caro António Parente, se não lê textos porque não ir comentar com as comadres da missa as imagens da Maria (a revista e não a frustrada sexual)? Seria muito mais profícuo para sí, para as comadres, e para a Humanidade em geral. Também tem a opção de comentar os cortes de cabelo dos morangos com açucar com adolescentes niilistas, devem divergir na idade, não no niilismo.
Cumprimentos.
Caro Rodrigues, aproveitando o seu comentário, embora feito ao novo cabeleireiro do Portal Ateu, questão pouco pertinente, aproveito para salientar o uso do antagónico como se fosse a mesma coisa, egoísmo e individualismo são muitas vezes opostos e não similares, portanto aludir a um individualismo exasperado é apenas propaganda barata baseada na ignorância popular de confusão entre opostos. O individualismo vida combater, em termos sociais, o egoísmo. E o contrário também é verdade. A Humanidade encontra-se permanentemente sacrificada em favor de fantasmas, de ideais abstractos, impostos e mantidos por um pequeno grupo de indivíduos egoístas que beneficiam das massas não-individualistas, sacrificio da felicidade do indíviduo em favor dos fantasmas que beneficiam os seus criadores. E a abordagem social do individualista é normalmente a mutualista, ou seja, a perseguição de objectivos pessoais juntamente com outros individualistas que partilhem dos mesmos, concluindo, a livre e espontânea associação de indivíduos com a finalidade de concretização de desejos pessoais. Na base da organização social está a solidariedade, ou seja, os instintos de auto-preservação individual e da espécie, algo presente no indíviduo racional, entrando nos campos da moralidade, pode-se entender a vivência Humana como uma perseguição do prazer e fuga ao sofrimento, se no plano individual a construção é simples, no social as coisas obscurecem com as deturpações, é simples conceber o prazer de um indivíduo a ajudar outro a superar o sofrimento, é inacto aos instintos de preservação da espécie. E esta é a construcção individual e social que resulta, não esperar por fantasmas que nos forneçam o prazer e nos retirem o sofrimento, assumir o individualismo e lutar por isso, não esperar que fantasmas forneçam prazer ao nosso vizinho ou lhe retirem o sofrimento, assume-se a acção de o fazer sem delegar as responsabilidades de existência em Estados, Religiões ou outros fantasmas. A solidariedade, para além de inacta, até ser destruída e transformada em rebanhices, é algo que muitas vezes produz gratificação pessoal, um aumento do ego individualista pela capacidade de acção.
Meramente uma questão de socialização forçada ou espontânea, de felicidade dos egoístas ou de felicidade de todos, de liberdade ou fascismo, de deificação pessoal ou morte do «Eu» em favor de fantasmas, de maturidade racional e acção nas responsabilidades existenciais ou delegação de responsabilidades nas irresponsabilidades dos egoístas e infantilismo, se a sociedade é a interacção de indivíduos em finalidades de felicidades e prazeres ou apenas uma máquina de prazer e felicidade para uns poucos egoístas.
Pessoalmente considero-me completamente individualista, seja feita a minha vontade, a dos outros também caso sejam idênticas à minha, às dos fantasmas nunca.
Cumprimentos.
Caro Bruno
Discordo do que escreveu. O portal ateu proporciona-me bons momentos de lazer. Sou um fan.
Não, não, se alguém aqui é frustrado e um falhado social é o menino Bruno. Coitado, nao fez o curso na católica por séctarismo, o esforço é só para os outros não?
p.s. e já o menino Bruno de quase 30 anos já acabou o curso noutra universidade por acaso?
ps. 2 . lindo, pensando que talvez por mensalidade na católica se pague 250 euros, multiplicado por 36 (correspondente a 3 anos)… bem, entregaste uma maquia á igreja fenomenal. mas também, não és tu que o ganhas portanto…
Diego de Léon, corta os pulsos que isso passa-te.
Cumprimentos.
Pois é miúdo, és motivo de escárnio, já te deste conta? E o que escrevi será mentira? fecha os olhos e suspira para que assim o fosse…
Motivo de escárnio? Muito pelo contrário meu caro. Estou demasiadamente alto para algo como tu.
Bruno, pq razão esta tão alto? Que raio já fez na vida para estar tão alto? (E n me diga escrever um livro, que hj qq atrasado mental o faz)
Caro Z, o miúdo nao faz pouco, se contabilizarmos a inutilidade e chulice entao chegaremos a valores absurdos.
Z, para escrever um livro é necessário começar por saber escrever, se qualquer atrasado mental sabe escrever então você ainda nem chegou ao patamar de atrasado mental. Um “n” é um “n” e não um “não”. “Hj” e “qq”? Novo acordo ortográfico para cristãos que ainda não chegaram ao patamar de atrasado mental?
Andas a render pouco Diego.
Bruno, hj nem isso é preciso para escrever um livro. Basta ver a Carolina Salgado (n o querendo ofende, mas com o rímel cm o Bruno aparece nas fotos a comparação nem é assim tão louca)…
Também andas a render muito pouco Z… Quem é a Carolina Salgado? Desconheço.
Olá Ricardo!
«Caro Bernardo! Que bom lê-lo.
Então e como vão esses preparativos?»
Estão a andar bem, obrigado.
Continuamos um pouco stressados, sem saber ainda a data definitiva. Parece que a miúda não quer ir para lado nenhum, que está bem onde está… Estamos tramados… Estou com expectativas, porque o médico prometeu que na próxima quarta se fixava a data definitva!
«A doutrina pode defender isso, não nego essa mensagem, mas também defende que os crentes são como um “rebanho”, com existem “pastores”. Eu não utilizei o termo “manada” porque sabia que iria causar celeuma, mas quando o Bernardo a usa, parece-me que também o meu amigo pressente que há essa imagem instalada.»
Sim, é espinhoso.
Vamos lá ver se me desembaraço desta…
De facto, quando se fala em “rebanho” e “manada”, na cultura popular, invoca-se precisamente a mesma imagem de massa acéfala e acrítica, que vai atrás do líder.
No entanto, quando se falha em rebanho e em pastor no contexto do cristianismo, a coisa muda de figura. Nesse contexto, o pastor é visto como aquele que, se necessário, dá a vida pelas suas ovelhas. Além disso, a cultura citadina em que vivemos tem-nos desligado da pastorícia, e por isso, já não entendemos o que se diz no cristianismo quando se fala no pastor como aquele que conhece de cor todas as suas ovelhas, e que não as confunde.
A pastorícia é uma analogia potente usada no Antigo e Novo Testamento. Veicula a ideia de que Deus Criador conhece cada um de nós de modo particular e individual. Nesse sentido, para o cristão, o indivíduo é valorizado em si mesmo por Deus. Há pessoas que nós, no nosso egoísmo e vistas curtas, podemos desprezar. Por exemplo, porque mendigam nas ruas. Para o cristianismo, Deus vê sem a capa do preconceito social. Deus vê cada qual como ele é. À semelhança do pastor.
Neste contexto, como vê, estamos a léguas da ideia de “massa acrítica e acéfala” que normalmente associamos a manadas ou a rebanhos…
«Que comparação essa entre cristianismo e o marxismo-leninismo… fico sem saber o que posso comentar dessa sua analogia.»
Porquê?
São os dois extremos: a doutrina que mais valoriza a pessoa individual (o cristianismo) e a que menos o valoriza.
«Eu não aceito essa vossa argumentação que o “individualismo” é um perigo para a sociedade. Se eu me preocupar só comigo, mas não fazer mal a ninguém, qual é o problema?»
Simples. O Ricardo tem um acidente na auto-estrada (Deus o livre!). Está a esvair-se em sangue. Um tipo passa por ci, vê-o na berma, mas segue adiante porque é individualista e tem uma reunião importante.
Outro exemplo, o Ricardo sofre um revés financeiro na sua vida (Deus o livre!) e vê-se forçado a dormir ao relento. Uma noite de Inverno traz temperaturas abaixo de zero. Os serviços sociais tornam-se todos individualistas (não fazem mal a ninguém), e nem a Câmara Municipal, nem grupos de voluntários, lhe dão uma sopinha ou um cobertor.
Chega para ilustrar o meu ponto de vista?
O egoísmo e o individualismo, nessa óptica, são um veneno detestável. Um ácido que corrói tudo o que temos conquistado em matéria de vivência em sociedade e em termos de solidariedade.
«Está o individualismo a par com a psicopatia ou a sociopatia?»
Não, caramba!
Qualquer “patia” é sempre pior do que o abundante defeito do egoísmo. Se o egoísmo fosse doença, eramos todos doentes.
«Não ser atencioso para com os outros faz de mim uma má pessoa?»
Não. Mas não faz de si uma pessoa boa. Quem quer ser “morno”?
Eu, sinceramente, só vejo dois caminhos para uma pessoa viver a vida com intensidade. Ou intensidade na asneira (e Inferno, cá vai disto!), ou intensidade na justeza. E então as portas do Céu abrem-se. Eu gosto mais deste último caminho, mesmo que a porta seja estreita!
«Estou a quebrar alguma regra de funcionamento da comunidade?»
Sim, pode estar. Depende do seu modelo social. O meu modelo de vida em comunidade é, forçosamente, solidário. A esmola não se deve negar a quem dela precisa. As coisas em excesso não devem ir para o lixo, devem ser doadas a quem precisa. Concordo em taxas de impostos diferenciadas consoante os rendimentos das pessoas (algo que um individualista deveria repudiar em coerência). Concordo com o apoio social a quem precisa dele. E assim por diante.
«Claro que o Bernardo me vai responder (e com toda a razão) que o mundo será melhor se todos se preocuparem um pouco com a pessoa ao lado. Acedo. Mas isso não é uma condição necessária para a manutenção de um sistema social.»
Tenho medo do sistema social que não defendesse essa preocupação para com o próximo.
Seria um estado “liberal radical”. Há quem o defenda, defendendo uma intervenção social zero por parte do Estado. Não é o meu modelo. O meu modelo social é o cristão. Dar a quem precisa.
«E muito menos é uma condição que venha de “bases religiosas”: somos altruístas e cooperantes porque faz parte de sermos primatas gregários que cresceram em grupos.»
Essa é a tese do darwinismo estrito. Eu estou LONGE de negar que o darwinismo tenha influenciado a nossa vida em sociedade, pois se Darwin estava certo (e eu acho que sim em muitas coisas), herdámos dos primatas um património genético que influencia quem somos (mas não determina quem somos).
Como concebo que o intelecto humano não é material, e que esse intelecto imaterial nos separa radicalmente de qualquer outro animal irracional (primatas incluídos), recuso-me a reduzir o comportamento humano, seja em sociedade seja individual, ao reino dos animais.
Um abraço!
Bruno, é mais uma das varidas coisas q o Bruno desconhece. Mas devia gostar, o seu nível é parecido com o da senhora em questão…
Tédio Z…
É verdade Bruno. Estava a ver se lhe arrancava uma respotazinha daquelas que o Bruno dá que me fazem rir, mas pelos visto amuou. Olhe, agora só cá volto Domingo…
Boa viagem e até nunca.
Amuou…
?
Já voltei Bruno Miguel, n se preocupe. Pode continuar a escrever disparates, que eu continuo aqui para o irritar…
Caro Bernardo.
Primeiro que tudo, espero que tudo lhe esteja a correr bem ;).
Queria comentar nalgumas passagens suas:
“Porquê?
São os dois extremos: a doutrina que mais valoriza a pessoa individual (o cristianismo) e a que menos o valoriza.
(…)
Chega para ilustrar o meu ponto de vista?
O egoísmo e o individualismo, nessa óptica, são um veneno detestável. Um ácido que corrói tudo o que temos conquistado em matéria de vivência em sociedade e em termos de solidariedade.”
Penso que o Bernardo se precipita demais, considerando o individualismo vs Solidariedade uma questão dual: ou se tem um ou se tem outro.
Eu sou, como o Bernardo, a favor da Solidariedade e do Apoio Mútuo, repudiando o individualismo absoluto, como estou certo que o Ricardo também repudia (perdoe-me esta precipitada assumpção).
Mas sem um bocadinho de individualismo e de egoísmo entraríamos num verdadeiro extremismo marxista-leninista, onde se poria a entidade “Povo” acima dos elementos que o constituem (nós).
A Solidariedade tem o mesmo valor intrínseco, seja desinteressada ou não. E tem de concordar que ser solidário apenas para agradar a um “Deus” , mesmo que misericordioso, e para fazer o “Bem cristão” (que é um objectivo recompensado), não é um comportamento desinteressado. Recai ,em última análise, num benefício próprio,logo, até a Solidariedade (e a caridade, que é uma coisa bastante diferente e com um vínculo de interesse religioso ainda mais marcado ) é interessada.
Atenção, pode não o ser conscientemente. Quando eu abro a porta à minha vizinha ou vizinho, ajudo alguém a apanhar os objectos que caíram ao chão, cedo o meu lugar no autocarro, não o estou a fazer porque penso imediatamente que aquilo me vai beneficiar. Faço-o porque, na minha moral pessoal, é a coisa correcta a fazer.
Mas, se pensar cuidadosamente, verá que os meus gestos irão ajudar a perpetuar esses gestos, e que as recompensas que recebo(os agradecimentos) me irão encorajar a repeti-los. E, perpetuando estes gestos (quase como memes) , não só aumento a probabilidade de os receber , quando for mais velho, mas reforço os vínculos que nos ligam a todos.
Isto é talvez o melhor, pois um Homem vale pouco sozinho, sendo a criação da Sociedade que nos elevou à complexidade e dominância que vimos agora.
Neste caso, até as pessoas que exercem actos de “bondade” apenas para agradar a um “Deus” (o que eu estou convencido que o Bernardo não faz), ajudam (indeliberadamente) na evolução do Ser Humano como Ser Social.
Lamento a longevidade do comentário, mas ainda tenho de comentar mais uma afirmação:
“Como concebo que o intelecto humano não é material, e que esse intelecto imaterial nos separa radicalmente de qualquer outro animal irracional (primatas incluídos), recuso-me a reduzir o comportamento humano, seja em sociedade seja individual, ao reino dos animais.”
Mas ,se o Bernardo vir bem, e estudar as observações do Etólogos, várias outras espécies adoptam comportamentos solidários intra e inter espécies.
Isso é particularmente visível em vários jardins zoológicos (por razões óbvias).
Não só os primatas, como chimpanzés e bonobos demonstram provas de gratidão e de solidariedade, ofertando comida, ajudando-se uns aos outros, cuidando das crias de outros casais, etc, como animais,(normalmente em cativeiro) adoptam crias e fazem amizade com membros de outras espécies.
Lembro-me agora do exemplo de uma ninhada de tigres abandonada pela mãe que foi amamentada por uma porca que tinha dado à luz recentemente. Segundo os media, a porca não mostrou objecções ou rejeitou as crias.
Aqui fica o link: http://news.aol.co.uk/pig-nursing-abandoned-tiger-cubs/article/20080923235750237289003
Portanto, creio que não haja diferenças entre o Homem e os outros animais que não possam ser explicadas pela Evolução e de forma natural, sendo que não há necessidade de inserir um elemento estranho e não verificável nesta explicação.
Um abraço, e espero que tudo lhe corra pelo melhor!
Queria só acrescentar um acerto a esta frase:
Onde está:
“Eu sou, como o Bernardo, a favor da Solidariedade e do Apoio Mútuo, repudiando o individualismo absoluto, como estou certo que o Ricardo também repudia (perdoe-me esta precipitada assumpção).”
Deveria ler-se:
“Eu sou, como o Bernardo, a favor da Solidariedade e do Apoio Mútuo, repudiando o individualismo absoluto, como estou certo que o Ricardo também repudia (perdoe-me esta precipitada assumpção, mas, pelo que tenho lido e dialogado, penso que tenho bases fundamentadas para a fazer).”
Sei que pode parecer um pouco mesquinho, mas gosto de ser rigoroso, de forma a não ser mal interpretado.
Um abraço!
Caro João Félix,
«Primeiro que tudo, espero que tudo lhe esteja a correr bem ;).»
Tudo óptimo, obrigado!
«Penso que o Bernardo se precipita demais, considerando o individualismo vs Solidariedade uma questão dual: ou se tem um ou se tem outro.»
Não advogo nada que se pareça como uma antítese. Não considero o exemplo do marxismo-leninismo como um exemplo de solidariedade. Repudio claramente o extremo do individualismo puro (cada um por si), bem como repudio o extremo do colectivismo estatal (todos pelo Estado). O que faz sentido é um equilíbrio, patente no cristianismo. Pois o cristianismo é, simultaneamente, um caminho de aperfeiçoamento pessoal e um caminho de amor ao próximo. A espantosa beleza do cristianismo está em conseguir demonstrar que um só vem com o outro. Que ninguém se aperfeiçoa verdadeiramente sem amar o próximo como a si mesmo. Logo, a perfeição cristã é uma tensão entre duas tendências: amor próprio e amor ao próximo. Algo como: “quero o melhor para mim, e o melhor para mim é dar o melhor de mim aos outros”. Daqui se vê que, se eu não procurar melhorar a minha pessoa, pouco ou nada terei para dar!
É esta a beleza da coisa…
«Mas sem um bocadinho de individualismo e de egoísmo entraríamos num verdadeiro extremismo marxista-leninista, onde se poria a entidade “Povo” acima dos elementos que o constituem (nós).»
Eu não chamaria “individualismo” ou “egoísmo”, mas sim “amor próprio”. Em boa verdade, esse amor próprio, essa autonomia individual, que os extremismos totalitários quiseram sufocar, só se desenvolve plenamente através do altruísmo cristão. Parece paradoxal, mas é o ensinamento principal que Cristo-Deus traz ao Homem.
«A Solidariedade tem o mesmo valor intrínseco, seja desinteressada ou não. E tem de concordar que ser solidário apenas para agradar a um “Deus” , mesmo que misericordioso, e para fazer o “Bem cristão” (que é um objectivo recompensado), não é um comportamento desinteressado.»
Eu diria que esse não seria um comportamento cristão. Portarmo-nos bem para agradarmos a Deus, numa de ganhar vantagens pessoais aos olhos de Deus não funciona. Duplamente. Não só não nos tornamos melhores pessoas (porque não fazemos o bem gratuitamente), como Deus não se deixa enganar, obviamente.
«Atenção, pode não o ser conscientemente. Quando eu abro a porta à minha vizinha ou vizinho, ajudo alguém a apanhar os objectos que caíram ao chão, cedo o meu lugar no autocarro, não o estou a fazer porque penso imediatamente que aquilo me vai beneficiar. Faço-o porque, na minha moral pessoal, é a coisa correcta a fazer.»
E faz muito bem!
«Mas, se pensar cuidadosamente, verá que os meus gestos irão ajudar a perpetuar esses gestos, e que as recompensas que recebo(os agradecimentos) me irão encorajar a repeti-los. E, perpetuando estes gestos (quase como memes) , não só aumento a probabilidade de os receber , quando for mais velho, mas reforço os vínculos que nos ligam a todos.»
E isso é uma coisa má?
«Isto é talvez o melhor, pois um Homem vale pouco sozinho, sendo a criação da Sociedade que nos elevou à complexidade e dominância que vimos agora.»
Eu diria que o Homem não vale nada sozinho. Começa logo por isto: o Homem não surge sozinho, mas sim como fruto do amor de um casal.
«Neste caso, até as pessoas que exercem actos de “bondade” apenas para agradar a um “Deus” (o que eu estou convencido que o Bernardo não faz), ajudam (indeliberadamente) na evolução do Ser Humano como Ser Social.»
Eu não gosto muito de usar uma linguagem evolucionista quando se fala de ser humano em sociedade. Acho que o reino animal e a genética é uma coisa, e que sociologia é outra. Sinceramente, não sou adepto do darwinismo social, apesar de não ter nada contra o respeitável darwinismo científico. Faz-me um pouco de confusão que, hoje em dia, tanta gente embarque na fantasia, que parece causar estímulo intelectual (não sei como), de tentar rebaixar o homem à sua condição animal, como se o Homem fosse um animal como os outros. É, sem dúvida, um animal, mas nada como os outros… Eu sei que, porventura, não é essa a sua visão, João, mas é relativamente fácil saltar da sua visão para esta que eu estou aqui a criticar.
Acho que o exemplo que dá, da perpetuação dos gestos generosos como “cola” social que revela vantagens “evolutivas” é algo de muito frágil, se me permite. Primeiro, não estou convencido de que os comportamentos sociais do ser humano sejam transmissíveis geneticamente (parece-me um “lamarkismo social”, e se o lamarkismo biológico não funciona, porque funcionaria o social?). Por outro lado, tal atitude está nos antípodas do pensar cristão. A ética cristã não é utilitarista. Não funciona para que todos tiremos “vantagens” dela. A ética cristã é uma ética de amor. De caridade. Da “ágape” que representa a dádiva plena, pura e genuína. Gratuita. Desinteressada.
Nada disto existe no reino animal. Não há ágape no reino animal. Está reservada aos seres livres. E, no reino animal, apenas o homem, devido ao seu intelecto, é livre para tomar decisões conscientes. Como ceder o lugar no autocarro.
«Mas ,se o Bernardo vir bem, e estudar as observações do Etólogos, várias outras espécies adoptam comportamentos solidários intra e inter espécies.
Isso é particularmente visível em vários jardins zoológicos (por razões óbvias).»
Repito: tais fenómenos, inegáveis em outros seres vivos, não deve servir de modelo ao ser humano, pois os animais irracionais adoptam tais sinergias numa mecânica de grupo que, certamente, terá uma base darwinista. Ora as sociedades humanas, a meu ver, nada devem imitar ao darwinismo. A mecânica da vida em sociedade humana é algo de totalmente diferente, pois é moldada pelos intelectos livres dos seres humanos. E o intelecto, quer se queira, quer não, causa um abismo de separação entre os fenómenos sociais humanos e outros fenómenos de grupo observados noutros animais irracionais.
«Não só os primatas, como chimpanzés e bonobos demonstram provas de gratidão e de solidariedade, ofertando comida, ajudando-se uns aos outros, cuidando das crias de outros casais, etc, como animais,(normalmente em cativeiro) adoptam crias e fazem amizade com membros de outras espécies.
Lembro-me agora do exemplo de uma ninhada de tigres abandonada pela mãe que foi amamentada por uma porca que tinha dado à luz recentemente. Segundo os media, a porca não mostrou objecções ou rejeitou as crias.»
Não questiono. Tais actos dos animais não são “ágape”, não sãp dom livre de amor. São gestos reflexivos, irracionais, aperfeiçoados quase de certeza pela evolução e pela necessidade de sobrevivência pela adaptação ao meio.
«Portanto, creio que não haja diferenças entre o Homem e os outros animais que não possam ser explicadas pela Evolução e de forma natural, sendo que não há necessidade de inserir um elemento estranho e não verificável nesta explicação.»
Discordo totalmente. É como comparar água e azeite. Não nego que o Homem tenha uma base animal, no que diz respeito à origem biológica do seu corpo. Mas o intelecto humano é algo de totalmente diferente, e cuja origem não é animal. Nenhum animal toma decisões livres como o Homem toma. Isto muda radicalmente a análise social que se faz aos grupos humanos.
E nunca é demais dizer: se é possível compatibilizar, quase certamente, o darwinismo científico com a doutrina cristã (pois a verdade de Cristo nada tem de contraditório com a Ciência), eu tenho grandes dúvidas de que o cristianismo seja compatível com as ideologias do “darwinismo materialista” (que não é Ciência, mas sim má filosofia, e que nega o intelecto imaterial do Homem) ou do “darwinismo social” (que também não é Ciência, mas sim má sociologia, e procura reduzir a vida humana a vida animal).
«Um abraço, e espero que tudo lhe corra pelo melhor!»
Um abraço, obrigado pelo comentário, pelo debate, e pela sua preocupação!
Bernardo
Caro Bernardo.
Muito Obrigado pela resposta.
Primeiro que tudo, espero que tudo lhe esteja a correr bem.
“Não advogo nada que se pareça como uma antítese. Não considero o exemplo do marxismo-leninismo como um exemplo de solidariedade. Repudio claramente o extremo do individualismo puro (cada um por si), bem como repudio o extremo do colectivismo estatal (todos pelo Estado). O que faz sentido é um equilíbrio, patente no cristianismo. Pois o cristianismo é, simultaneamente, um caminho de aperfeiçoamento pessoal e um caminho de amor ao próximo. A espantosa beleza do cristianismo está em conseguir demonstrar que um só vem com o outro. Que ninguém se aperfeiçoa verdadeiramente sem amar o próximo como a si mesmo. Logo, a perfeição cristã é uma tensão entre duas tendências: amor próprio e amor ao próximo. Algo como: “quero o melhor para mim, e o melhor para mim é dar o melhor de mim aos outros”. Daqui se vê que, se eu não procurar melhorar a minha pessoa, pouco ou nada terei para dar!
É esta a beleza da coisa…”
Creio, que na génese do marxismo, pelo menos, está uma base de solidariedade, mas que é completamente distorcida pela criação de uma entidade abstracta ,mesmo que com base concreta ( e admirável, quanto a mim), isto é, o Proletariado. O marxismo, partindo de bases socialistas, que tiveram e têm como motor valores considerados , por quem subscreve uma ideologia ou linha de pensamento socialista, benéficos para a Humanidade.
O Bernardo defende um tipo de cristianismo, que, em questão de acções, é louvável. No entanto, existem outros tipos de cristianismo (como as várias seitas fundamentalistas) que o Bernardo, com certeza desaprova, e condena como falsas.
Isto também acontece entre os vários tipos de marxismo e de socialismo. Correntes como as trotskistas ou as maoístas, reclamam umas com as outras, assim como linhas de pensamento como o comunismo e o anarquismo contestam-se mutuamente.
A diferença é que, ao contrário do Bernardo, que utiliza muito certamente a sua interpretação dos ensinamentos de Cristo descritos no novo testamento como a verdadeira, considerando que a sua interpretação era a que Cristo pretendia oferecer; Talvez entre algumas linhas de marxismo dura se faça o mesmo, tomando Marx como profeta, mas considero que a maior parte dos marxistas e socialistas argumentam a favor da sua visão do mundo como sendo a que trará melhores benefícios à Humanidade e à Terra em geral.
Atenção, não quero insinuar que o Bernardo julga que é por Cristo ter dito que a sua visão está correcta. Penso exactamente o contrário: O Bernardo, considera que é por a sua visão estar correcta (por trazer mais benefícios a humanidade) que foi assim que Cristo a enunciou. Ou seja, parte dos seus ideais e pensamentos, possui um preconceito a priori (preconceito no sentido filosófico) que condiciona a sua interpretação das escrituras.
Pessoalmente, penso que Cristo, se existiu, era “apenas” um Homem , não tendo uma sabedoria infalível e intemporal. Embora pudesse saber mais do que muitas pessoas do seu tempo, não era sobre-humano.
E mesmo que fosse sobre-humano e filho de “Deus”, se “Deus” existisse, não haveria nenhuma razão válida para seguirmos os seus ensinamentos sem antes os analisarmos.
Com isto tudo, esqueci-me de uma mensagem importante, que é não generalizar os adeptos das correntes filosóficas, como fez na parte em que considerou que o objectivo do marxismo-leninismo não solidário. Embora hajam marxistas leninistas que só actuam para satisfazer o ideal do Proletariado(como só há cristãos que só fazem o bem para agradar a “Deus”), também há muitos marxistas-leninistas que seguem essa corrente,porque pensam que é, honestamente, a corrente que melhor beneficiará a Humanidade.
“Eu diria que esse não seria um comportamento cristão. Portarmo-nos bem para agradarmos a Deus, numa de ganhar vantagens pessoais aos olhos de Deus não funciona. Duplamente. Não só não nos tornamos melhores pessoas (porque não fazemos o bem gratuitamente), como Deus não se deixa enganar, obviamente.”
Penso que o Bernardo aqui , acabou de me dar razão! Quando diz “Não só não nos tornamos melhores pessoas “, está a identificar um objectivo, uma recompensa própria para o facto de fazer o bem. Isto , por si, faz com que fazer o bem não seja uma tarefa desinteressada.
E não, não acho isso mau, muito pelo contrário, é bastante bom. Peço desculpa se o que escrevi foi mal interpretado.
Mas tem de concordar que a maior parte das pessoas tira valor a uma acção de solidariedade ou cortesia, quando pensa que essa acção foi em parte, para beneficio próprio, mesmo que emocional(por isto significo o bem estar que experienciamos quando fazemos qualquer acção considerada boa). Isso para mim, é um disparate, porque a intenção não tira nem adiciona valor à acção em si.
“Eu não gosto muito de usar uma linguagem evolucionista quando se fala de ser humano em sociedade. Acho que o reino animal e a genética é uma coisa, e que sociologia é outra. Sinceramente, não sou adepto do darwinismo social, apesar de não ter nada contra o respeitável darwinismo científico. Faz-me um pouco de confusão que, hoje em dia, tanta gente embarque na fantasia, que parece causar estímulo intelectual (não sei como), de tentar rebaixar o homem à sua condição animal, como se o Homem fosse um animal como os outros. É, sem dúvida, um animal, mas nada como os outros… Eu sei que, porventura, não é essa a sua visão, João, mas é relativamente fácil saltar da sua visão para esta que eu estou aqui a criticar.”
“Acho que o exemplo que dá, da perpetuação dos gestos generosos como “cola” social que revela vantagens “evolutivas” é algo de muito frágil, se me permite. Primeiro, não estou convencido de que os comportamentos sociais do ser humano sejam transmissíveis geneticamente (parece-me um “lamarkismo social”, e se o lamarckismo biológico não funciona, porque funcionaria o social?). Por outro lado, tal atitude está nos antípodas do pensar cristão. A ética cristã não é utilitarista. Não funciona para que todos tiremos “vantagens” dela. A ética cristã é uma ética de amor. De caridade. Da “ágape” que representa a dádiva plena, pura e genuína. Gratuita. Desinteressada.”
Bem, tem de admitir que além de ser uma hipótese lógica e com bases biológicas, vários estudos, e até várias áreas científicas têm corroborado esta visão. Embora no estudo do Ser Humano tenhamos de ser extra-cuidadosos, e extra-científicos(não podemos deixar que nenhuma filosofia ou doutrina se interponha e “infecte” o nosso estudo, como penso que aconteceu ao Bernardo.) Isto também se aplica ao facto de o Bernardo não considerar o darwinismo como aplicado à humanidade: Como já terá visto , o Neodarwinismo e as teorias do comportamento humano baseadas na Evolução têm, não só explicado de forma fundamentada e lógica comportamentos como o altruísmo, a vinculação e a generosidade, mas também predito correctamente alguns comportamentos humanos (principalmente no que se deve à influencia da genética e do meio no comportamento humano.)
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Quanto ao amor, há uma frase da minha autoria que gosto de citar:
“O Amor não deixa de ser menos Amor apenas por ser explicável. ”
E aqui gostava de fazer uma adenda :
“O Amor não deixa de ser menos Amor apenas por ser naturalmente explicável.”
Vou agora comentar a parte final, de que não vou retirar citações, em vista de manter o texto conciso e explicável.
De uma forma simplificada, o Bernardo distingue o Homem dos outros animais, rebaixando de uma certa maneira os outros animais, nomeando-os de “irracionais” e de privado de “àgape” (isto , se eu me lembro bem, é livre vontade, livre arbítrio).
Primeiro, concordo com o Bernardo que o Homem é único, e, . Todos os animais o são, assim como as plantas e os seres vivos. ( e num certo sentido, as rochas, mas o mundo mineral , vegetal, fúngico, monera e protista não vêm ao caso.).
Todos os animais são únicos, não só no sentido de terem fenótipos e genótipos diferentes, mas pelas estratégias de sobrevivência e sociais que engendram. Ao contrário do Bernardo, as observações científicas e os estudos etológicos dão-me suficiente certeza para dizer que não é uma alma imaterial, ou um conceito de livre arbítrio, que tornam o Homem diferente. (Longe de mim considerar o Homem, determinista, mas tenho uma visão (fundamentada, mas ainda não estruturada no papel(brevemente), da liberdade de escolha.).
Constato, isso sim, que foi a Evolução. Muitas pessoas pensam que não houve tempo para o Homem se tornar tão diferente, mas temos de pensar que a diferenciação Humana começou há mais de 2 milhões de anos. Isso, não parecendo, é imenso tempo, mais do que suficiente para se dar uma diferenciação destas , mesmo considerando a lentidão da evolução.
Acrescento aqui, que o Homem ter evoluído como os outros animais em nada rebaixa o Homem, muito pelo contrário, e que os seres humanos são para mim , mais importantes que as outras espécies, embora não tenham nada de divino que os distinga (esta é a minha visão). “Apenas” os acho mais importantes porque sou um deles (dito de uma forma que pode ser considerada “crua”). Mas essa é a única justificação que preciso para me preocupar mais com os Homens do que com os outros animais (embora, evidentemente, também me preocupe.
Quanto à tomada de decisões livres e à irracionalidade, possuo sérias dúvidas de que, pelo menos alguns animais com uma dinâmica mais complexa de grupo, e mesmo outros, não os possuam.
Primeiramente, a racionalidade: eu considero racional um ser que tome decisões baseado em cogitações lógicas, como a geometria. Ora um predador, para decidir a altura em que tenha de saltar para a presa, precisa de fazer (mesmo de forma involuntária) variados cálculos físicos, tendo em conta as velocidades, a distância e a potência de salto. Isso, para mim, é uma decisão racional, embora instintiva.
Quanto às decisões livres, penso que foi um grande acto de antropocentrismo julgarmos que nenhum animal se baseava na sua vontade (tenha ela a génese que tiver) para decidir vários actos. Várias espécies como os lobos, os golfinhos e as baleias, tomam actos que vão contra a sua necessidade de sobrevivência (lembro-me agora dos lobos que abandonam a alcateia, de livre vontade, ou os elefantes que visitam grupos dos quais já se separaram.)
“E nunca é demais dizer: se é possível compatibilizar, quase certamente, o darwinismo científico com a doutrina cristã (pois a verdade de Cristo nada tem de contraditório com a Ciência), eu tenho grandes dúvidas de que o cristianismo seja compatível com as ideologias do “darwinismo materialista” (que não é Ciência, mas sim má filosofia, e que nega o intelecto imaterial do Homem) ou do “darwinismo social” (que também não é Ciência, mas sim má sociologia, e procura reduzir a vida humana a vida animal).”
Também penso que o que chamaram darwinismo social falhou. Não porque o neodarwinismo seja inaplicável à ciência, mas porque essas filosofias foram baseadas num mau entendimento do que é a evolução, sendo até contraditórias com os factos explicados pela teoria neodarwinista (como o altruísmo, a generosidade ,etc.).
Foi uma filosofia que tentou puxar para si alguma legitimidade usando o nome de uma teoria mais que legítima .
Finalmente, penso que o facto de a doutrina cristão ser incompatível com uma filosofia falhada não acrescenta nem retira nada à sua plausibilidade é a sua hipótese de veracidade.
Espero ter exposto bem os meus pontos de vista, e oferecido matéria para pensar
Agradeço também o debate, que é, não só importante, como agradável.
Um abraço e desejo que tudo continue a correr pelo melhor!