Rússia e o cristianismo diabólico

Segundo o The Sun de 16 de Setembro, um grupo de pessoas efectuou um massacre hediondo a quatro adolescentes, Andrei Sorokin, Olga Pukhova, Varya Kuzmina e Anya Gorokhova, sob o título de “Esfaqueados 666 vezes cada um e depois comidos“, a primeira alusão poderia ser a uma overdose de filmes de terror foleiros de Hollywood por parte dos criminosos, em parte sim, mas o factor essencial colocou-se noutros termos.

Subtítulo apocalíptico em seguida, “Quatro adolescentes foram horrivelmente chacinados por Satanistas“, e aqui as coisas deixam de fazer sentido… pior ainda quando se lê o começo da notícia, “O gangue de adoradores do diabo chacinou as suas vítimas e assou-as numa fogueira antes de devorar a sua carne.“.

Não é preciso colocar em jogo o “1984″ de George Orwell para se descobrir uma tentativa de colocar igualdade nos opostos, liberdade é escravidão, satanismo é adoração do diabo, a tentativa de difamação e mediatismo cristão incorre em “pecado” por ser excessivamente gulosa! Sem grandes dissertações sobre a concretude das coisas, para isso basta consultar wikipédias, ou a curiosidade levar até às literaturas (preferível), defina-se as coisas no minimalismo necessário, o satanismo é ateu, a adoração do diabo é, neste caso, cristã.

Satanás sempre teve a significância de oposição, de acusação, no contexto de lides religiosas, ou seja, um arquétipo interessante para o Ser Humano racional e inimigo das fábulas teológicas, irracionalidades e crenças em seres mitológicos, um bom uso do termo por uma pessoa de racionalismo pleno poderá produzir coisas como os “Satanic Versicles” de Salman Rushdie, ou chegar ao espectro religioso ateísta, bastando para isso criar datas importantes, definir pontos-chave e deixar o resto ao encargo das filosofias de vida e simbologias, contexto elaborado por Anton LaVey na “Satanic Bible” e outros escritos. E o que é que tudo isto tem que ver com o caso? Nada.

Os séculos de fascismo cristão deixam mazelas, e estas acções são a perfeita manifestação das mesmas, por muito que se lave cérebros a mentes adolescentes e que se tente encontrar bodes expiatórios, as realidades não deixam de o ser, e esta notícia, a juntar-se a imensas outras em contextos semelhantes não podem passar pela racionalidade Humana sem um “Stop”, atribuir a psicose e os rótulos dos bodes expiatórios preferidos não é ético, não é interessante, é apenas obscurantismo e difamação vesga.

Antes de perscrutar as razões de tais acções por parte dos “satanistas”, convém saber quais as convicções que os levaram a ter tais acções, “Satanás ajudar-me-á a evitar a responsabilidade. Eu faço imensos sacrifícios a ele.“, ou seja, as acções tiveram como convicções as crenças num ser superior, num ente sobrenatural, um deus de nome Satanás, mas as coisas ficam menos enubladas com a seguinte afirmação de um dos criminosos, “Eu estava farto de Deus por não me fazer rico, mas as coisas melhoraram quando comecei a rezar ao Diabo.“. Esta convicção é sobejamente conhecida, ou este conjunto de convicções,… chamam-se fé cristã. Estes pobres seres acreditam no deus e no diabo cristãos, na estrutura dualista de bem e mal que começou a brotar com mais força nos inícios do século XII, com os primeiros processos inquisitoriais.

Este dualismo cristão nasceu de uma necessidade primária da Igreja Católica, o totalitarismo e a destruição de toda e qualquer filosofia de vida e religião externa, acções levadas a cabo pelo medo, pela violência e pelas superstições impingidas a pessoas ignorantes e miseráveis. Os julgamentos decorriam apenas com advogados de acusação, que enumeravam os crimes cometidos e esperavam pela confissão “espontânea” com torturas hediondas. A figura do Diabo ganha popularidade, as condenações também, como alvos essencialmente mulheres acusadas de bruxaria e feitiçaria, os primórdios destes termos traduzem pessoas com afinidades com a magia: produção de perfumes, de chás, de misturas de substâncias com fins medicinais ou espirituais, entre muitos outros contextos. A Farmacologia evoluiu destas lides, a exemplo. As histórias inventadas pelos inquisidores não poderiam ser mais aberrantes, e imaginadas por pessoas de religiosidade doentia, a católica neste caso, desde mulheres a voar de vassoura, metamorfoses de velhas idosas em gatos pretos, beijos nas nádegas do Diabo em cultos com canibalismos, arrancamento de órgãos genitais, sexo entre as bruxas e bodes meio Humanos, e, basicamente, tudo aquilo que viesse à mente dos inquisidores, depois de proferidas as acusações bastariam roldanas, arrancamentos de mamilos às bruxas, outros contextos hediondos e a suprema verdade surgia!

Criado um bode expiatório na sua própria religião, tudo o que fosse contrário às leis da Igreja Católica seria sinal da possessão do Diabo, chegando durante muito tempo o Diabo a ter muito mais projecção social que o deus cristão. Poucas vozes tentaram criticar estas estruturas, mesmo as mais poderosas seriam acusadas de ateísmo e perseguidas, o crime era quase o mesmo, sendo a negação do deus cristão a fonte dos males da Humanidade.

Colocado o deus e o diabo cristãos nas populações tornou-se mais simples o imperialismo, todas as pessoas eram cristãs à força, se não aceitassem à força o deus teriam de aceitar o diabo, e as torturas sempre forneciam o medo necessário às populações para se manterem submissas. Entre as práticas da Humanidade mais usuais fora do contexto social do deus de Abraão encontravam-se as danças, culto ao Diabo! O consumo de substâncias alteradoras de consciência, culto ao Diabo! A sexualidade com prazer, culto ao Diabo! A liberdade, culto ao Diabo! O festejo de eventos astronómicos, culto ao Diabo! Futilidade e barbárie, culto ao deus! Séculos de paranóias afins, fascismos perante o miserabilismo e ignorância, e as coisas demoram a melhorar, séculos passados depois do apregoado fim das inquisições e continuam mentes ignorantes em contextos cristãos a seguir os estereótipos feitos no século XII! E que diz a imprensa sobre o tema? A culpa é das filosofias de vida seculares! Satanismo e goticismo! Cómico se a maioria das pessoas perceberem os contextos.

Não alongando muito a notícia publicada no The Sun, apenas abordarei uma afirmação incrivelmente idiota e mentirosa, “Os adoradores do Diabo acreditam em si primeiramente e nos seus valores nucleares, incluindo orgulho, indulgência, ambição e concretização dos desejos sexuais.“, ora como é possível que se tenha uma filosofia de vida de individualismo e de auto-deificação adorando um ente superior externo sobrenatural? Contradição! O individualismo só é possível sem deidades externas, sejam elas o deus cristão, o diabo cristão, o Clube de Futebol das Alheiras, Allah, Jeová, o repolho alado, o Estado, os Beatles, o Elvis, ou outra coisa qualquer, os valores enumerados correspondem a uma filosofia de vida centrada no «Eu», ou, a mais fácil iluminação do contexto, a diferença completa, a antítese aliás, entre um “seja feita a vossa vontade” para um “seja feita a minha vontade”. Simbologias nestas lides são perigosas, pessoas de fé podem ter caóticas atitudes, uma cruz invertida pode simbolizar tudo ou nada, pode simbolizar a Igreja Católica, edificada depois da crucificação invertida de um tal de Pedro, pode simbolizar o anticristianismo de Nietzsche, pode significar uma cruz celta direita vista por uma pessoa a fazer o pino, e afins… 666? Com menos facadas também morriam, e menos trabalho nas medicinas legais.

Filosofias à parte, seja feita a conclusão final, existem muitas pessoas ignorantes e cheias de fé em deuses prontas para a barbárie, então com filmes de Hollywood baseados no obscurantismo cristão da Idade Média com chacinas entre significados de numerologia, 666, anticristos, demónios, exorcismos, e afins, algumas pessoas pensarão que os filmes serão antes documentários! Não bastava muitos clérigos católicos adorarem o filme do “Exorcista” de William Peter Blatty, por corresponder ao que fazem na realidade oculta das sociedades evangelizadas, também existem personagens para participar nos papéis que o cristianismo lhes reservou. A prevenção para que massacres deste género não ocorram é a informação, e a destruição dos dogmas religiosos, que se faça a guerra das ideias para que não existam sequer feridos!

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