Filosofia, bom senso e actos de fé

Sempre tive uma certa predisposição para criticar alguns aspectos que considero falíveis em algumas argumentações utilizadas por alguns ateus. Às vezes – salva a presunção – pareço uma espécie de provedor do Portal Ateu! Contudo, não é essa a minha intenção. Pretendo, apenas, exercitar um aspecto que considero essencial na análise do fenómeno religioso (e em todos os outros): a honestidade intelectual.

Ontem, durante o 1º encontro da Rede Social do Portal Ateu, ao longo dos diversos temas que foram debatidos, pareceu-me que alguns dos participantes confundiram algumas coisas, nomeadamente, a existência de Deus com o conceito de Deus, Deus com religião, laicidade com anti-clericalismo e crença com consequências da crença. Parece-me indispensável que quando se critica, aponta o dedo ou deconstrói seja o que for não se confundam causas e efeitos.

Gostaria, pois, de sentir um maior rigor da parte dos meus parceiros de ateísmo na atenção que devem de ter com alguns pormenores importantes e o cuidado indispensável para não meter tudo no mesmo saco. Ao fazê-lo correm o risco de – passo a expressão – estar a disparar rajadas em todas as direcções, acertando, indiscriminadamente, no que devem e no que não devem.

Não irei aqui apontar exaustivamente – por uma questão de cortesia – os diversos exemplos das “confusões” que referi acima. Mas há uma questão que para mim é central na forma como encaro o ateísmo e que tem a ver com a diferença entre uma posição filosófica e uma opção de vida. Eu defendo que filosóficamente não se pode ser ateu uma vez que considero improvável que alguma vez venha a existir uma resposta determinantemente negativa à questão “Deus existe?”. Contudo, uma vez que todas as evidências apontam nesse sentido – do negativo – não faz sentido vivermos como se todas as evidências apontassem no sentido positivo. Resumidamente, diria que vivo como ateu mas penso como agnóstico e, dadas as probabilidades para cada resposta à pergunta acima formulada, não conseguiria viver de outra forma.

Em suma, afirmar sem dúvidas “Deus não existe” ou “Deus existe” são ambas posições baseadas na fé. A dose em que esta está presente em cada um dos casos e face às evidências é que é, em minha opinião, inversamente proporcional. Por outro lado, a honestidade intelectual de uma posição filosófica não pode justificar que se elimine o bom senso de agir em conformidade com as probabilidades de uma hipótese. Afinal, é isso que todos nós fazemos no dia-a-dia em todas as outras matérias: vivemos de acordo com as probabilidades.

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