Fé e Ciência: uma tensão actual

Por Ricardo Silvestre • 13 Set, 2008 • Categoria: Direito de Resposta

Apresentamos aos nossos visitantes o anúncio da realização da “Jornada Fé e Ciência” que terá lugar na Faculdade de Filosofia de Braga no dia 18 de Outubro, subordinada ao tema “O avanço da ciência e o recuo de Deus: fronteiras da racionalidade”.

São convidados dois crentes, cientistas espanhóis, e dois ateus, um cientista, Ludwig Kriphal, e o não menos conhecido filósofo Desidério.

Os recentes avanços e êxitos da ciência, bem como a sua omnipresença no dia-a-dia das sociedades contemporâneas – onde as novas tecnologias vão introduzindo novos hábitos e estilos de vida, novas formas de comunicação, de pensamento e de aquisição de conhecimentos, novas concepções da economia, da arte, da ética, etc. –, parecem desafiar as concepções religiosas estabelecidas no passado e, nomeadamente, a concepção cristã de Deus.

Perante este quadro cultural, no qual a ciência invade cada vez mais os diversos âmbitos da experiência e do pensamento humanos, especialmente em áreas que no passado eram reservadas à filosofia e à teologia, a Deus não parece restar outra alternativa senão a da perda do direito de cidadania e a consequente retirada para o baú das velharias, porque sobra e está a mais.

O conhecimento científico permitirá, finalmente, desterrar a “ilusão de Deus”, bem como as sombras da magia e do mistério que, no passado, envolveram o conhecimento do mundo e de nós mesmos, aumentaram o ópio do povo e impediram o desenvolvimento da sociedade?

Há um tempo para sessões paralelas. Qualquer pessoa poderá enviar uma proposta-resumo de cerca de 300 palavras para uma intervenção livre de 20 minutos, seguidos de 10 minutos de discussão.

São aceites todas as propostas, de crentes ou de ateus, desde que tenham um mínimo de qualidade. As propostas deverão ser enviadas até 30 de Setembro para: alfredodinis.facfil@gmail.com.

Para mais detalhes, visitar

http://companhiadosfilosofos.blogspot.com

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16 Respostas »

  1. Todas as ideologias podem transformar-se em “ópio do povo,desde que para esse efeito sejam instrumentalizadas.As ideologias são os que o seus fautores quiserem que elas sejam.Sobre o que é Religião há conceitos diferentes.Eu não considero que as Cruzadas,a Inquisição,a Pena de Morte consagrada no catecismo da Igreja Católica Apostólica Romana.sejam expressões de religiosidade,mas de anti-religiosidade e de anti-cristianismo.É preciso sempre separar muito bem o trigo do joio.O Budismo é uma Filosofia Ateísta.Mas será ou não uma Religião? Do meu ponto de vista é,porque,apesar de não referenciado a nenhuma entidade divina,que,peremptoriamente nega,visa “re-ligare” (voltar a ligar) o Homem com o sentido da existência,traduzido na escalada para o estado de Buda.Um dia perguntaram ao Dalai Lama qual era a sua Religião.E a resposta dele foi:”A minha Religião é a da Bondade”.Não creio que o progresso científico determine o recuo de Deus.Bem ao contrário.Se o conceito de Deus tiver que ser aprimorado no sentido da valorização da tríade da Omnipotência,Omnisciência e sobretudo da Bondade,o avanço científico,mormente no campo da Física Quântica e da Cosmologia,irá produzir um número crescente de teístas.As imagens do site da Nasa,sobre a dimensão maravilhosa do Universo,são muito mais produtoras de sentimento religioso do que se possa imaginar.Deus ecoa no coração de muitos pelo Sentimento que a visão do Macro Cosmos suscita.E aí a religiosidade ,que brota da clarividência da alma, é e será imparável…

  2. Caro António,
    O seu comentário contém algumas afirmações controversas. A definição de religião, por exemplo, é vista de perspectivas diversas. Alguns consideram o Budismo uma religião, outros não. Naturalmente que o dizer ‘sim’ ou o dizer ‘não’ depende das razões que se apresentam, e provavelmente ambas as posições têm fundamentos razoáveis. No que diz respeito a ‘o avanço da ciência e o recuo de Deus’, esta expressão é naturalmente muito discutível, mas a impressão que se tem é que pelo menos o ‘Deus tradicional’ das Igrejas igualmente tradicionais, parece ser hoje menos popular que há um século. É evidente que têm surgido novos grupos religiosos, e que se pode discutir se o facto de as pessoas deixarem de frequentar as Igrejas significa que deixaram de acreditar em Deus. Quanto ao progresso científico, sou dos que dormem sossegados porque acreditam, como o António, que esse progresso científico só pode ser benéfico para a religião, pelo menos para o cristianismo.

    Um abraço,

    Alfredo Dinis

  3. Alfredo Dinis,

    Agradeço as suas palavras e enalteço a forma elevada como tem comentado neste Portal Ateu.Creio sinceramente que é um exemplo para todos nós de moderação e forma amistosa de transmitir as suas ideias.É controversa,sim,a definição do Budismo como Religião,termo que,habitualmente,é assciado aos credos teístas e o Budismo é intrinsecamente ateísta,pois refuta a existência de alma e de Deus.Contudo,quando leio o Dalai-Lama referir que “a minha religião é a da Bondade”,ele que,obviamente,é ateu,mais reafirmo a minha convicção de que a Generosidade dos Sentimentos e o Altruismo são valores axiológicos comuns às mais diversas correntes doutrinárias,teístas,ateístas ou agnósticas,que valerá a pena evocar e incentivar,pois todos pertencemos à grande família da Humanidade.
    Enquanto cristão,só acredito no Deus da Bondade,que Cristo veio revelar.Não acredito no Deus de Abraão,que,em nome do princípio da obediência,lhe teria supostamente ordenado que sacrificasse o seu filho Isac.Mais uma vez,apurar conceitos teológicos e separar o trigo do joio,parece-me fundamental…Abraço.

  4. Caros António e Alfredo Dinis,

    É sempre um prazer ler-vos.

    E segundo percebi, ambos acreditam que o esclarecimento científico contribui para o reforço de crenças no sobrenatural. Quer pelo deslumbramenmto natural causado pelas imagens da NASA, quer pelos mistérios e leis da Natureza - belas na sua complexidade e elegantes na sua simplicidade - com que tropeçamos na Natureza.

    Lamento discordar.
    Basta olhar para a história e verificar a quantidade de “quintas” que têm sido progressivamente subtraídas aos domínios – cada vez menos - insondáveis da divindade.

    A Terra!
    Esse planeta soberbo!…
    Tão soberbo, que até nos escritos sagrados tudo o que existe se divide entre os Céus e a aTerra. Ou seja, a Terra tem pelo menos 50% da importãncia de tudo o que existe, para além de, como não poderia deixar de ser, ser o centro do Universo!…
    Sabemos hoje que a importância deste calhau periférico de uma galáxia média numa zona relativamente despovoada do universo é… digamos, tão somente o que a nossa generosidade considerar razoável…

    O Homem!..
    Essa criação suprema!…
    Segundo dizem, deus criou o universo nos seus ínfimos detalhes e depois ficou a aguardar pacientemente 13,73 mil milhões de anos até que nós aparecessemos para ele finalmente nos orientar no deserto, ou qualquer coisa do estilo…
    Afinal, não passamos de uma acumulado de remendos colocados à pressa e que se revelaram úteis num determinado momento. Nem sequer somos a melhor solução, mas sim apenas aquela que se arranjou na altura…

    O Universo!…
    Essa coisa espantosa e imensa!…
    Pensava-se desde Aristóteles que não se mexia, e os seus mistérios seriam insondáveis tais como os da divindade.
    Afinal sabemos hoje que é irrequiéto à brava e que todos os dogmas sobre a origem e fim do universo de todas as religiões, estão infantilmente todos errados.

    Apenas faço referência a estas três “quintinhas” que a Ciência – sem querer – roubou ao domínio “insondável” da teologia, porque penso que envolvem alguns dos dogmas mais importantes para os fundamentos de qualquer religião.

    Tal como já referi por aí, não tarda nada, e para desespero dos deístas, a divindade está mesmo no desemprego apenas a definir quandos os universos surgem e sem hipótese para mais nada.

    Não consigo em boa verdade discortinar porque afirmam - com sonos descansados - que o esclarecimento científico pode contribuir de alguma forma para o reforço de crenças no sobrenatural.

    Podemos sempre remeter para o domínio do divino aquilo que não entendemos.
    É fácil, e convenhamos que não demonstra grande empenho na procura da verdade.
    Eu apenas os remeto para a pasta “do que ainda não entendemos”.

    Cumprimentos

    Abraão Sivus

  5. Abraão Sivus:

    O Sentimento Religioso não é uma vivência transmissível mas todos entendemos o Sentimento Universal de Fraternidade,independentemente das crenças ou ausências delas,de cada um.E,se não houver Sentimento Religioso, que a todos possa tocar e unir,poderemos todos um dia realizar a Utopia da Fraternidade Humana.Grato pela suas gentis palavras.Retribuo com sinceridade.

  6. Caro Abrasão,

    Obrigado pelas tuas reflexões.
    Quando deixo aqui alguns comentários, eles são fruto tanto da minha reflexão teórica como da minha experiência de vida. As minhas crenças religiosas não colidem com os dados científicos.

    Tudo o que a ciência possa dizer-me é muito interessante. Sempre me interessei por ciência, fiz a minha tese de mestrado sobre Galileu, o doutoramento sobre a cosmologia do século XVII e a minha área de ensino é a filosofia da ciência. Interesso-me e leio bastante sobre astrofísica, biologia, ciências cognitivas e física teórica. Nada do que leio me leva a pensar que Deus não pode existir. A questão sobre o sentido da minha existência não me é dado pela ciência. Sei que isso não acontece com muitas pessoas, certamente com o Abrasão, para as quais o sentido da existência é satisfatoriamente dado pela ciência, e respeito essa posição.

    A questão do recuo de Deus e da religião tem a ver com a compreensão que se vai tendo da relação de Deus com o universo e do próprio universo. Esta compreensão não pode deixar de ser expressa em termos do conhecimento que cada geração tem da realidade. O conteúdo das crenças religosas não cai do céu, é fruto da reflexão das pessoas, e essa reflexão é sempre feita com as categorias científicas e filosóficas de cada época. Não pode ser de outra maneira. Por conseguinte, quando há mudanças profundas nas concepções filosóficas e científicas da Humanidade, tem que haver mudanças nas concepções religiosas. Não pode ser de outra maneira.

    A ciência contribui para a clarificação da religião no sentido de fazer compreender aos crentes o que é específico da religião e o que não é. Essa compreensão tem progredido, e é por isso que, em meu entender, a cência só faz bem à religião. Quando um crente afirma que Deus criou o universo, não se compromete com nenhuma teoria, seja ela filosófica ou científica. O mesmo quando afirma que Deus é a explicação última da vida. Até Galileu pensava-se que o universo era o sistema solar mais a ‘esfera das estrelas fixas’. Hoje, o universo é imenso, o nosso planeta é um minúsculo grão de areia. Muito provavelmente há milhões de planetas habitados, e, porque não, infinitos universos semeados de vida e de inteligência. Para o Abrasão tudo isto põe em crise a fé religiosa. Para mim, tudo isto abre novas perspectivas sobre a nossa compreensão da Humanidade e, inevitavelmente, de Deus.

    Os termos ’sobrenatural’, ‘o outro mundo’, ‘a transcendência’, etc., são bastante equívocos. Pense-se em expressões como ‘almas de outro mundo’, ‘ir para o céu’, etc., as quais têm habitualmente significados que podem ser absurdos e incompreensíveis. Mas esses significados, muito ligados à tradição e ao sentido comum, devem ser revistos periodicamente. O mesmo acontece com a linguagem científica. Pense-se na representação e na liguagem com que se tem descrito o átomo.

    Obrigado pela paciência de ler estas reflexões.

    Alfredo Dinis

  7. Caro Abraão,
    Peço desculpa por lhe ter mudado o nome. Os meus neurónios baralharam Abrasivos com Abraão e eu só agora me dei conta.
    Saudações,

    Alfredo Dinis

  8. Caros,

    Já agora, e antes de continuar o debate, gostaria de partilhar convosco uma pequena correcção sobre o que disse acima, e que descobri quando fiz os meus oito anos.
    E lembro-me que foi nesse mesmo dia porque foi quando me ofereceram um livro que falava na velocidade da luz…
    Fiz umas “contas”, e com algum desalento, concluí que afinal a Terra é mesmo o centro do Universo ao contrário de tudo o que tinha ouvido até ai (a tal historia do calhau insignificante…)…

    Estou a falar a sério!…
    E digo mais (segurem-se!..)
    Para além da Terra estar no centro do Universo…
    O centro do Universo, sou EU!

    Mais uma vez, não estou a brincar, nem tão pouco me encontro sob um ataque de egocentrismo histérico.
    Para me compreenderem, basta pensar que o centro do universo é – por definição - qualquer consciência capaz de pensar nele.

    Vou explicar melhor:
    A luz demora algum tempo a viajar.
    Logo, por exemplo, quando olhamos para o céu, estamos a olhar para diversos passados.
    Quanto mais longínquo estiver o objecto que observamos, tanto mais no passado ele está.
    Quando estou a falar com alguém, na realidade estou a falar com uma pessoa que se encontra algumas fracções de segundo no passado, pois a luz reflectida na sua cara demora algum tempo a chegar aos meus olhos.
    Para onde quer que olhemos, tudo, absolutamente Tudo se encontra no passado.
    Até as nossas mãos… este teclado… e o monitor… está no passado!
    Logo, o sítio mais actualizado do Universo e por conseguinte o seu centro absoluto, é a minha, e – já agora - qualquer outra consciência capaz de reflectir no assunto.

    (As coisas estapafúrdias que um tipo pensa quando lhe oferecem uns livros cientificos que falam da velocidade da luz…)

    Peço pois desculpa pela incorrecção acima, mas…
    A Terra está mesmo no centro do Universo no sentido em que é a zona mais actualizada!…pelo menos para alguns biliões de consciências…e só assim…

    Cumprimentos, e até logo

  9. E quanto tempo demora o pensamento a produzir-se ?…;)

  10. Caro António,

    «poderemos todos um dia realizar a Utopia da Fraternidade Humana»

    Gostei destas palavras.

    Não pretendo portanto de forma alguma minimizá-las com o comentário que vou esvrever a seguir, mas apenas complementá-las:

    Poderá um urso ser fraterno? Não está na sua natureza, diremos.
    Poderá um leão ser fraterno? Bom…Existem alguns casos…
    Poderá um elefante ser fraterno? Sim. Entre fêmeas principalmente. Está na sua natureza, diremos.
    Poderão os primatas ser fraternos? Sim. Depende da espécie e do tipo de equilíbrios nas hierarquias estabelecidas. Está na sua natureza, diremos também.

    Parece que estas espécies até conseguiram algum sucesso com o tipo de relacionamento social pelo qual optaram:
    Muito, suficiente, pouco ou nada fraterno. Tudo afinal, em função do ambiente.
    E até agora, não se extinguiram.

    E nós?
    Tem sido útil ao “gene egoísta” a fraternidade na nossa espécie?
    Parece-me razoável considerar que sim.

    Talvez por isso sejamos assim… seres que partilham conhecimentos e momentos… e quase de borla.

    Cumprimentos

  11. Abrasivus:Francamente,tenho sérias dúvidas de que o “gene egoísta” se possa tranformar em “gene cooperante”.As forças que gravitam em redor do egoísta são muitissimo poderosas…

  12. Caro António,

    Tal como bem sabemos, só existe o gene.
    Afinal sabendo-se que um gene é uma molécula, só pode ser tão consciente de si próprio e querer tudo para ele, quanto uma pedra da calçada.
    O antropomorfismo de egoísta atribuido por Dawkins a estas moléculas, é uma metáfora adequada ao percurso evolutivo indiferente à qualidade de vida do suporte responsável por passá-lo à geração seguinte.
    Desde que esse suporte consiga sobreviver até se reproduzir, o gene teve sucesso, e por isso mesmo vai perdurar nas gerações seguintes.
    A qualidade de vida do suporte após atingir a idade de reprodução é completamente irrelevante para o gene, e é por isso que assistimos a situações francamente injustas na nossa espécie como a menopausa e andropausa.

    A este gene egoísta – aparentemente cheio de vontades, mas burro que nem uma porta – preferia chamar-lhe somente gene, ou no máximo, gene indiferente, para evitar excessos antropomórficos como se ele possuisse alguma vontade de ser o que quer que seja.

    Todavia compreendo e aceito a sua analogia do gene cooperante em oposição ao gene egoísta, assim como as forças que gravitam em redor de ambos, como uma boa extensão desta metáfora e vou utilizá-la.

    Se virmos bem, o gene cooperante não passa afinal do gene egoista mas em versão mais refinada.
    Uma formiga soldado que morre a defender a rainha ou uma obreira que morre de fome e solidifica a sua queratina para melhor segurar o ninho de larvas suspenso, sofrem do problema do gene indiferente, do gene cooperante, ou do gene egoísta?
    Alguma formiga lucra com este tipo de comportamentos?
    Mesmo que a rainha se salve e mais umas quantas larvas, não vão acabar por morrer mais tarde ou mais cedo à mesma?
    Quem ganhou?
    Absolutamente ninguém, excepto apenas o malandreco do gene egoísta transvertido de gene cooperante, pois continua por aí a replicar-se.

    Em boa verdade, um bom gene egoísta de sucesso numa espécie com um nível de sociabilidade como a nossa, só pode mesmo ser – e tal como todos estamos fartos de saber - um gene aparentemente cooperante e do mais sofisticado refinamento.

    Somos assim apenas porque tem sido útil sermos assim.
    Quando sentimos que nos é útil matarmo-nos uns aos outros – exactamente como as comunidades de ratos sob pressão demográfica – a história diz-nos que não costumamos hesitar muito.

    Vendo bem, essa história de nos matarmos uns aos outros ser má, é muito relativa.
    Verdadeiramente mau para o gene indiferente, seria matarmo-nos Todos uns outros e o último, fechar a luz e a porta antes de se suicidar. Assim como uma espécie de vírus hiper-mortal que é tão rápida a matar o hospedeiro que não consegue propagar-se para mais nenhum e acaba por se extinguir.

    Agora, se nos matarmos só um “bocadinho” uns aos outros….até ajuda a refinar a espécie. E talvez seja por isso que sejamos por vezes os lobos transvertidos de ovelhas que parecemos.
    Ok. Antes de me acusarem de darwinista social fundamentalista ou até de nazi latente, deixem-me apenas explicar que as coisas são mesmo assim e não fui eu que as escolhi.
    Apenas constato o que me rodeia.

    Não existe nem bem nem mal na Natureza.
    Que mal ou bem existe quando uma família de crias de chacais se alimenta de um gnu despedaçando-lhe o corpo à dentada durante horas e matando-o por hemorragias generalizadas e repletas de dor?
    Apenas na nossa concepção de utilidade balizada pelo gene cooperante é que este cenário é bom – as coitadinhas da crias se não comessem esta refeição morreriam de fome – ou é mau – o coitadinho do gnu está a sofrer uma morte horrível e dolorosa.
    De resto, quer queiramos ou não e apesar do nosso “ladrar” sobre o bem e o mal, a caravana da Natureza passa à mesma, movida a genes cooperantes, egoístas ou indiferentes.
    É só escolher.

    Concluindo:

    O altruísmo, ou melhor, o pseudo-altruísmo não passa exactamente disso mesmo, e não se trata de nenhuma experiência divina para ver como reagimos e se merecemos uma recompensa no final da existência.
    É apenas algo que se revela útil, ou não.

    Cumprimentos

  13. Caro Alfredo Dinis,

    Compreendo, e no geral, concordo.

    Uma eventual concepção de “ordem superior” nunca poderá ser estática, mas sim dinâmica e ajustável no tempo em função dos conhecimentos entretanto adquiridos.
    Ou seja, se em tempos idos, deus era apenas o dono de uma terrenozito plano coberto por uma semi-esfera exótica e disfrutava de todo o tempo do mundo para se entreter a chatear os humanos que não o conhecessem ou não o adorassem, agora já é um tipo com enormes responsabilidades para conseguir gerir o universo espantoso e complexo que descobrimos, o que provavelmente explica porque já não possui tanto tempo para intervir à maluca por tudo e por nada como antes fazia por esses desertos fora…

    Com o Universo que nós sozinhos descobrimos - e que ele nunca nos revelou, por mais que tenham escrito que sim - tem mesmo de ser um deus daqueles grandalhões e a sério, não é assim?
    Já somos demasiados espertos e já não admitimos que seja um deusinho qualquer, como por exemplo, o do trovão, ou o do relâmpago ou uma coisa qualquer idiota desse estilo.

    É neste sentido que concordo que a importância e o mistério da “ordem superior” inche na mesma proporção do quantos mais conhecimentos adquirimos, pois a nossa exigência também é naturalmente crescente.

    Mas também compreendo e discordo do seguinte:

    « A ciência contribui para a clarificação da religião no sentido de fazer compreender aos crentes o que é específico da religião e o que não é.»

    A Ciência nunca poderá dizer o que é específico da religião, pois nunca o poderá tipificar ou medir. Se o conseguir, deixará de pertencer a esse domínio.

    A Ciência quanto muito pode dizer o que não é específico da religião, e apenas porque num determinado instante, consegue explicar algo que até aí se encontrava no limbo da pasta “do que não entendemos”.
    E é isso que na prática tem acontecido ao longo dos tempos, como sabe.

    « …tudo isto abre novas perspectivas sobre a nossa compreensão da Humanidade e, inevitavelmente, de Deus».

    Porquê inevitavelmente?
    As novas perspectivas que vejo a abrirem-se pela Ciência são apenas sobre a compreensão da Natureza onde se incluí a Humanidade e o Universo.
    O que tem deus a ver com isso?

    Cumprimentos

  14. Abrasivus:De facto não existe nem bem nem mal na Natureza,mas se você vir documentários sobre os esqueletos vivos que sobreviveram ao Holocausto Nazi talvez se indigne e tenha a noção do Bem e do Mal,enquanto valor ou desvalor ético,ou não ?…

  15. Caro Abraão,
    Obrigado pelo seu comentário. Quando afirmei que a ciência ajuda a compreender o que é específico da religião, era no sentido que refere, isto é, pela negativa, mostrando o que não é específico da religião e durante muito tempo se pensou que era.
    Para os cristãos, o Universo, a Humanidade e Deus estão de tal maneira interligados, que qualquer mudança na compreensão de um leva inevitavelmente a mudanças na compreensão dos outros.
    Saudações,

    Alfredo Dinis

  16. Que absurdo pensar que a ciência subtrai as necesidades de um “animal” tendencialmente religioso como é o ser humano
    A dimensão religiosa é transversal a toda a sociedade humana qualquer que seja a época ou lugar depois temos esta
    enormidade: “onde as novas tecnologias vão introduzindo novos hábitos e estilos de vida, novas formas de comunicação, de pensamento e de aquisição de conhecimentos, novas concepções da economia, da arte, da ética, etc.” A arte a ética?!?!? dependentes de quê?!? Da Ciência?!? fogo ia-me (…) LoLLL. Só faltou dizer que toda produção cultural do sec xx se deve à ciência… A ciência usa o método EXPERIMENTAL e produz teorias simples teorias essas mais ou menos válidas dependendo dos factos apurados e depois validados por vários ciêntistas agora desde o infimo conhecimento do universo aos acelaradores de particulas e projectos faraónicos que proucuram a resposta e que depois dão o berro… colocam a religião num plano para lá do conhecimento ciêntifico logo um cientista sério não se importa com a problemática de Deus pois é de momento algo insoluvel para ele portanto dedica-se a aquilo que sabe fazer e que possa testar já agora!
    Mais uma vez QUE ABSURDOOOO!

    (Comentário alterado pela Administração do Portal Ateu)

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