Tem toda (!) a importância
Por Ricardo Silvestre • 13 Set, 2008 • Categoria: Discriminação Religiosa, Internacionais, Notícias, Psicologia & Sociologia“O Papa iniciou hoje o primeiro de quatro dias da sua visita a França. (…) Bento XVI apelou a uma nova reflexão sobre a laicidade e à gantia [o erro ortográfico aqui não é meu, é como está no artigo original] da liberdade religiosa .
“Neste momento histórico onde as culturas se encontram, é necessária uma nova reflexão sobre o verdadeiro sentido e importância da laicidade”, afirmou o Papa, considerando “fundamental” que se insista “sobre a distinção entre o político e o religioso”, no sentido de “garantir não só a liberdade religiosa dos cidadãos mas também a responsabilidade do Estado para com eles”.
Bento XVI sublinhou ainda a “função insubstituível da religião para a formação das consciências e da contribuição que esta possa ter, em conjunto com outras instâncias, para a criação de um consenso ético fundamental na sociedade”.
Estas declarações são uma resposta do Sumo Pontífice às teses defendidas por Nicolas Sarkozy, após a sua visita ao Vaticano, em Dezembro de 2007, na qual falou de laicidade positiva.
“Assumimos as nossas raízes cristãs”, reiterou hoje o chefe de Estado francês, perante Bento XVI. “Seria uma loucura privarmo-nos das religiões. Seria simplesmente uma falta contra a cultura e contra o pensamento. É por isso que apelo a uma laicidade positiva”, acrescentou Sarkozy.”
Ver aqui.
Ratzinger pede uma “nova reflexão sobre o verdadeiro sentido e importância da laicidade”.
Bonito.
Primeiro, só o facto de se estar a pedir uma “reflexão sobre a importância da laicidade” é ofensivo só por si. Qual a importância, Sr. Ratzinger? TODA!! Final da reflexão!
E em relação a “verdadeiros sentidos”… curioso como cada vez que um crente pergunta qual o “verdadeiro sentido” da religião organizada normalmente é criticado ferozmente como sendo anti-religião. Será que posso dizer que alguém que se interroga sobre o “verdadeiro sentido da laicidade” será anti-laicidade?
Cada um responda como quiser (ou puder).
E claro que Sarkozy teria de dizer os “disparates de protocolo”. Todos dizem. Não há nenhuma coragem para dizer que a cultura e o pensamento podem passar muito bem sem a religião organizada e a influência das igrejas.
Continua a ter todo o peso o “amigo invisivel no ceu”
Bento XVI não me é personalidade ideologicamente simpática,mas acusá-lo de ser ofensivo por apelar a uma reflexão sobre a importância da laicidade não faz o menor semtido.Neste caso,Ratzinger seria sempre preso por ter cão e por não ter.Se não falasse sobre o assunto,aqui d´el-rei.Se falasse,aqui d´el-rei…Este artigo foi decididamente um tiro lado…
Satanás,o Maldito, anda para aí a pôr muitas gralhas nos textos…;) Claro que,no comentário antecedente, queria dizer: “não faz o menor sentido…” e “tiro ao lado”, em vez das arreliadoras intromissões do Maligno…;)
P.S. Camões faz muito bem em não lhe perdoar…;)
Sarkozy é um político e agradaria tanto ao Papa quanto ao Dalai Lama ou a um clérigo islâmico. Políticos fazem acordos. A Igreja fez acordos com os nazistas (e deu certo).
Quanto ao fato de a França (e a Europa, em geral) ter raízes cristãs, isso é óbvio, é histórico. O que não significa que as religiões podem participar do poder como faziam antes.
Estranho dizer que só a religião pode ensinar ética e formação humana. Não há nenhuma constatação disso, dessa exclusividade. Toda escola pode ensinar isso, de qualquer povo, de qualquer cultura, de qualquer religião, inclusive. Toda tribo de índios tem seu conjunto de valores humanos, éticos e seu senso de justiça. Ninguém precisa de deuses e superstições para isso.
O mundo mudou, o pensamento humano mudou, a sociedade mudou. A Igreja não pode ficar sonhando em voltar à Idade Média, só se for com força bruta, com uma guerra ou… (Mas vejam, até eu já estou delirando também.)
Dalai Lama emana Bondade e por acaso é ateu…prova de que a grandeza humana e a elevação ética não são monopólio de ninguém…
Deus como problema ou a complexa simplicidade da evidência
Ao ler na revista Visão o artigo de José Saramago, Deus como problema, fui repescar um texto meu, escrito há alguns anos, baseado na resposta que dei à carta de um amigo e cujo tema era o problema de Deus. Com algumas considerações desse meu amigo e com o texto de Saramago tentarei uma reflexão que possa constituir uma espécie de calibração para todos aqueles a quem a lastimável situação do mundo em que vive não é de todo indiferente.
A genuína pureza da poesia vive e anda por aí em tudo o que é vida, mas não é fácil captar a sua complexa simplicidade. Como não é fácil - ou não se quer - entender a complexa simplicidade da evidência que também anda por aí, em quase tudo. O medo da evidência apavora as mentes que, de uma forma ou de outra, perderam a liberdade ou rejeitam a liberdade, sobretudo a liberdade de pensar. Interiorizam mecanismos fortemente redutores que são aceites acriticamente, porque não existe ou foi tacticamente anulada a capacidade crítica, ou são impostos por uma espécie de fé ou crença consuetudinária, impiedosamente dogmática, que cristaliza toda a forma de pensar, mesmo de pessoas habituadas e traquejadas numa moderna cultura científica da evidência. Estas as pessoas, ainda assim, de boa fé. Porque as há, e não são poucas, que fazem da má fé o antídoto da evidência que não conseguem negar. Por isso o texto de José Saramago me impressionou, ao mostrar que o mundo é muito claro, pelo menos até onde nos permite que o seja.
Deus continua a ser um grande problema, ou melhor, o homem continua a ser incapaz de resolver o problema de Deus, a equação cujo resultado estabeleceu como certo sem conhecer os dados que a compõem.
Há muito tempo que deixei de discutir fé e religião com gente crente. Dogmas e argumentos condicionados não são permeáveis à razão, e as conclusões são sempre frustrantes. Sou ateu, rigorosamente ateu, mas já fui crente. Esta parte negativa da minha vida teve um lado positivo. Permite-me, hoje, a comparação entre a falsa liberdade da aleatória felicidade de um certo obscurantismo e a aliciante liberdade da possível felicidade de uma razão não mais miscível com qualquer grande ou pequena crendice. A paz nascida da libertação de todas as angústias metafísicas, em favor do valor da vida e da força projectora da curiosidade humana, a paz e a serenidade de uma total descrença mística constituem a grande oferta que a vida me fez.
Como acontece a Saramago, também a mim me acusarão de impiedade, sacrilégio, blasfémia, profanação, desacato. De tudo isto é capaz quem não tem o mínimo pejo em aceitar e colaborar nos tais espectáculos estilo cecil b. de mille, como foi o revoltante show do funeral daquele que deveria ser o representante da humildade e da pobreza, sobretudo quando comparado com o funeral do rei da Arábia Saudita, um dos homens mais ricos do mundo, esse sim, um deus terreno cuja riqueza mundana e fraqueza humana lhe permitiriam, sem escândalo, um sepulcro de ouro em vez da campa rasa.
Algumas das melhores e mais lúcidas pessoas que conheço cresceram sem que lhes fosse imposta qualquer ideologia ou religião. Quando muito foram-lhes ensinados alguns dos princípios consagrados na sociedade, elementos indispensáveis para o equilíbrio individual e colectivo: a lealdade, a integridade, a honestidade, o sentido de justiça, a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros. Dispensam Deus, seja Ele qual for, mas não abdicam destes princípios que integraram a sua formação, feita essencialmente de lúcido querer e liberdade responsável.
Dizia-me o meu amigo que não escolhendo a vida nem a morte lhe foi dado viver, e se foi apenas para aproveitar a vida ao máximo porque ela é breve, então os pretos que vão para o inferno, dos fracos não reza a história, os pobres que trabalhem, não importa o abate de crianças para lhes roubar os órgãos, a escravatura, o prazer a qualquer preço, a exploração dos menos hábeis… para quê pruridos morais? Assim sendo, respondi eu, a fé parece não passar de uma atitude oportunista, de uma estratégia egoísta, de um cartão de crédito, uma espécie de Banco da fé onde se vai depositando o que se convencionou ser as nossas obras morais, a fim de garantir a entrada no céu, no país das maravilhas onde só cabem os eleitos, os que melhor rechearam os cofres de uma questionável moralidade, à boa maneira capitalista-aforradora. Sem Deus e sem fé como pode conceber-se a ausência de espírito racista, elitista, classista de muitas das mais nobres pessoas que conheço? Como é possível que tantos homens na História, sem qualquer tipo de crença religiosa nem esperança de se sentarem à mesa de Deus, tenham praticado em elevado grau a solidariedade, a fraternidade e o amor pelos outros? Com Deus e com fé, como é possível ter-se cometido e continuar a cometer-se tantos crimes repugnantes? Ainda bem que, como diz Saramago, os rios de lágrimas chorados pelas vítimas do catolicismo Vaticano empaparam as lenhas dos seus arsenais inquisitórios. Mas aqui se engana - ou talvez queira parecer que se engana - Saramago. A morte aos infiéis é muito mais evidente do lado do cristianismo, na medida em que as imundas baratas são esmagadas diariamente às centenas pelos chinelos de todos aqueles que têm o sagrado direito e o sacrossanto dever de as esmagar nos momentos e nas alturas próprias. Simplesmente, os infiéis não são apenas os que não rezam, nem são propriamente definidos como os que não têm fé, mas são todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem e criam obstáculos à fé, que o mesmo é dizer, a todos os interesses que se servem da fé e a quem a fé serve e sempre serviu. Por outro lado a fé já não é bem o que era, nem são os mesmos os servidores da fé. Hoje, a fé talvez não passe do anestesiante rótulo de uma gigantesca garrafa planetária cujo conteúdo é diariamente destilado na base de ingredientes como exploração, dinheiro, poder e domínio.
A moderna versão fundamentalista e violenta do islamismo, a palavra de ordem por excelência, todos os dias insanamente proclamada, no dizer de Saramago, não me parece comparável ao cristianismo nos tempos do seu apogeu imperial, nem à moderna versão fundamentalista e violenta dos inquisidores deste lado. Até porque os chinelos que matam as imundas baratas de um lado são completamente diferentes dos chinelos que matam as imundas baratas do outro lado. Hoje, de um dos lados, chamam-se aos chinelos bombas e mísseis, que esmagam sem dó nem piedade centenas de milhares de infiéis enquanto o diabo esfrega um olho, em nome de Deus, a quem chamam God. Do outro lado são as próprias entranhas cheias de explosivos que em nome de Deus, mas também da raiva, do ódio, da revolta e do desespero tentam fazer rebentar a sua própria impotência. E sempre Deus como problema! De um lado os bons em nome de Deus, do outro lado os maus em nome de Deus e vice-versa. No meio uma palavra que não se sabe a quem pertence ou a quem assenta melhor: terrorismo. Os modernos inquisidores, em estreita colaboração e comunicação com todas as hierarquias laicas e não laicas que se dizem emissárias de Deus, têm nomes laicos e vulgares, mas detêm todo o poder necessário para enfiar, de uma rajada, vinte mil mísseis sobre uma cidade de infiéis, em obediência às decisões de um moderno Santo Ofício sem rosto, não necessitando do aval de nada nem de ninguém que, legalmente e por internacional acordo, detém os poderes de decisão. O Direito Internacional e a soberania dos povos valem o que valem, podendo escalonar-se desde o sagrado ao material descartável, conforme as circunstâncias e as ocasiões. De nada vale lembrar que há um conjunto de valores que são absolutos, e portanto não podem ser relativizados, ou que há um núcleo ético que, a não ser preservado, faz descer o Homem à escala do monstro. Por que razão, ainda há dias, o Papa apelou aos muçulmanos para que recusem rancores, intolerância e violência como via para suster a propagação do terrorismo e frenar a vaga de fanatismo cruel que põe em causa o progresso e a paz, e não apelou aos cristãos do lado de cá que parem as agressões, os assassínios, os assaltos e as invasões? A evidência é demasiado evidente para ser contornada e camuflada.
Quando Saramago fala nos motivos de natureza política, económica, social, psicológica, estratégica e até moral em que se presume terem ganho raízes os movimentos islamistas agressivos, motivos que levaram à colocação de bombas transportadas às costas em mochilas, e que foram suficientes para que os alicerces da nossa tão luminosa civilização estremecessem e abrissem fendas, criando o mais extremo terror, só mostra que os pés desta civilização não só são, realmente, de barro, como perderam a mais sólida base de apoio, a mais segura das seguranças, o sentido do Direito, da Moral e da Justiça. Por isso eu não concordo muito com José Saramago quando dá a entender que o problema do Deus de lá e o problema do Deus de cá, o deles e o ocidental são idênticos. Penso que o não são, sobretudo nos tempos que correm. Aquilo que o Deus de cá permite é muito mais terrível, cruel, injusto e sanguinário. Já não falo em Hiroshima e nos muitos Vietnames, ou nas 650000 mil vítimas civis do Iraque, mas lembro apenas o que recentemente se passou no tenebroso massacre de Faluja.
Ainda não consegui que alguém que não acredita no prolongamento da vida para além da morte me desse um argumento válido para ser bom para o meu semelhante. Isto diz o tal meu amigo, que insiste no prémio, no prémio à dimensão da imaginação humana, porque não pode ser outra, um prémio que consiste na ausência de dor, de sofrimento, de fome, de frio, eventualmente com música celestial, um novo género de música infalivelmente feita de notas iguais às de cá, porque não concebemos outras, por enquanto, possivelmente com asas para dar umas voltas pelos céus do céu, e para os mais cultos que exigem um toque transcendental, a felicidade eterna de estar, finalmente, na magnífica presença de Deus, sorridente e afável, nunca mais temido nem ameaçador, porque, entrados no céu é trigo limpo, nunca mais de lá saímos. O prémio que é indispensável receber além da morte para que seja paga e justificada a procura do equilíbrio da justiça e da verdade da vida! Apesar das diferenças entre o Deus de cá e o Deus de lá, e dos diferentes prémios celestiais post-mortem, parece que nem dum lado nem doutro o facto de se acreditar no céu consegue argumentos válidos para se ser bom para o seu semelhante. A vida e a história mostram-no frontalmente. Julgo que nesta civilização do petróleo a que Saramago alude, com poços cheios para uns, e para outros apenas a gotícula para o isqueiro, o amigo a que atrás me refiro já está desfasado. O prolongamento da vida para além da morte, em que acreditam ou fingem que acreditam os únicos que, a seu ver, lhe podem dar um argumento para se ser bom para o semelhante, pouco os incomoda. É certo que a maior parte dos que acreditam não têm poços de petróleo. Mas os que têm poços de petróleo não deixam de louvar e agradecer a Deus e de fingir que acreditam no prémio celestial. Os que não acreditam, os que, a seu ver, não têm argumentos para se ser bom e solidário, são os que mais proclamam que a lastimável situação deste mundo não engana a mais singela das evidências e sempre lutaram e deram a vida para que se saiba que essa mesma situação decorre, exactamente, não da bondade mas da crueldade dos que, em nome de Deus, fazem a guerra e sempre mataram em nome da paz.
Saramago não contou, mas pela mais comum das evidências científicas reconhece que no Universo há mais de 400 mil milhões de galáxias e que cada uma delas contém mais de 400 mil milhões de estrelas. O Universo está, com efeito, infinitamente pejado de misteriosas estruturações materiais das quais conhecemos um minúsculo infinitésimo. São provavelmente aos biliões, por exemplo, as estruturas materiais irradiantes cuja essência e complexidade ultrapassam todos os limites da imaginação humana. Ao descobrirmos os raios X, os raios Gama, os raios Laser, tão reais como os meus dedos, não desvendamos mais do que uma ínfima molécula deste Universo espalhado por milhões de anos-luz. As estrelas são, provavelmente, aos triliões, e cada uma delas constitui, certamente, o centro de um sistema solar imensamente maior do que o nosso, o qual, sendo dos mais pequenos, faz da terra uma pedrinha nas mãos duma criança. A terra é muito menos do que um pequeníssimo grão de poeira no seio do Universo, e o Homem, essa infinitesimal partícula considera-se, numa ridícula e paranóica postura, o ser mais perfeito, a obra-prima, a criação por excelência, como se tal fosse racionalmente compreensível e aceitável.
Postos aqui sem saber porquê nem para quê, diz Saramago, tivemos de inventar tudo. Também inventámos Deus, mas esse não saiu das nossas cabeças, permaneceu lá dentro, como factor de vida algumas vezes, como instrumento de morte quase sempre. A esse Deus não podemos arrancá-lo dentro das nossas cabeças, não o podem fazer nem mesmo os próprios ateus, mas ao menos discutámo-lo. É isso que sempre tenho procurado fazer, e faço-o neste momento, dizendo a Saramago que Ele entrou na minha cabeça à força da destruição da razão e do entendimento, perpetrada por mentes ignorantes e retrógradas que assaltaram a minha infância e adolescência, mas nesta altura, à custa de muita luta e sofrimento, já não existe dentro da minha cabeça.
Negando os limites da sua própria natureza e da sua imaginação, o Homem assume-se como centro do Universo e inventa um Deus, seu Pai, cuja ontológica preocupação máxima, permanente e eterna, é a salvação da alma deste ridículo micróbio, desprezando todos os outros seres cuja diferença está, apenas, num número inferior de neurónios! Admitindo absurdamente a pré-existência de tal Deus, a sua revelação exclusiva ao animal-homem, repito, apenas porque os neurónios deste são mais numerosos do que os do cão ou do macaco, faz rir. Consideram os cientistas, após as últimas fotografias das sondas que foram até Marte, que este planeta deve ter contido muita água e provavelmente vida, há milhares de milhões de anos. Se assim for…que vida? Animais com mais ou menos neurónios do que o Homem? Sem neurónios mas com outro substrato da razão que não imaginamos? Outros seres, estruturas materiais desconhecidas, mas, eventualmente, muito mais complexas do que o Homem? Sendo Deus sempre o mesmo - Deus é Uno e Universal - onde estará a alma dos marcianos? No céu? No inferno? Não a tinham? Coube-lhes a pouca sorte de lá não terem chegado os missionários e todos os bons pregadores da fé e do império a tempo de os salvar? Quando a terra ficar assim deserta como Marte - do que não duvido, a avaliar pelo grau de destruição presente nos nossos dias - e ao fim de milhões de anos chegarem aqui os habitantes de outra galáxia, adivinharão a existência de um punhado de almas bem-aventuradas chilreando eternamente na imensidão do paraíso, e de outro punhado gemendo nas profundezas do inferno? Nascido, revelado ou realizado em tão microscópico cérebro, tal Deus universalmente omnipotente, omnividente e omnisciente nunca poderia existir, pois ao primeiro sopro de vida geraria, de imediato, a sua auto-destruição, através de uma incompatível e absurda auto-subestimação divina decorrente de tão inglória e mesquinha concepção.
Agora não é Saramago mas o meu amigo quem diz que a segurança dos que não acreditam é invejável e que a intolerância se verifica mais em relação àqueles que crêem. Plenamente de acordo. Tal facto deve-se a que a segurança dos que não crêem não existe, e antes constitui um exercício permanente de aprendizagem, interrogação, reflexão e descoberta ao longo do difícil caminho da razão.
Se me tivessem provado que com a morte tudo termina, creio que já teria partido voluntariamente, confessa o meu amigo. Penso que o Homem não tem, gratuitamente, provas de nada, e pode rejeitar todos os argumentos falaciosos ou extra-humanos que de nada lhe servem. Bastam-lhe as provas que nascem do desenrolar da sua razão. Por que motivo o meu amigo rejeita a força das hipóteses lógicas, racionais, a luz da ciência - pobre ciência humana, é certo - mas que o meu amigo aceita e utiliza numa elevadíssima percentagem dos actos da sua vida, e adere à fragilidade de teses fantasistas, ilógicas e mesmo irracionais, carecendo de todo e qualquer substrato que não seja a fé, fé essa - não pode negar - directamente proporcional à ignorância, à incultura e a toda a espécie de fundamentalismos mais ou menos acéfalos. Isto não significa que não haja pessoas crentes muito inteligentes e muito cultas - que é o caso do meu amigo -. Simplesmente, em meu entender, não foi a cultura mas outra razão qualquer que gerou e enraizou a crença. A verdadeira cultura é, habitualmente, um obstáculo e remete muito mais para o antagonismo do que para o agonismo da fé.
Para quem espera o céu, a gente sabe que a razão da vida não pode ser o natural percurso desta pequeníssima dimensão humana no seio infinito da natureza e do Universo, em permanente mutação e movimento, mas uma espécie de celestial e eterna pensão de reforma que a imaginação deste limitado ser, mesmo dando-lhe o fluido nome de alma, não consegue despir das materiais aspirações, prerrogativas e necessidades do corpo que por cá ficou. Com a vida tudo e nada começa e com a morte nada termina. A parte é diluída no todo. Em cada instante o Universo é outro. O início da minha decomposição é, precisamente, o início da minha contribuição para a formação ou transformação de milhares ou milhões de outros seres.
Já não adianta nada dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino, diz Saramago. Para os que matam em nome de Deus, continua, Deus não é só o juiz que os absolve, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e coloca a bomba. Não sei se esta bomba a que se refere Saramago é a do Pai poderoso de cá se a do Pai poderoso de lá. Ou se é de ambos. Permito-me, de qualquer forma, alguns comentários, cujas ilações pertencerão a cada um que as queira tirar. Vejamos.
Vamos descer das planuras estrelíferas, vamos aproximando, aproximando a lupa, e vamos pousar nesta mão-cheia de terra habitada por uns bichinhos chamados homens. Vamos pensar à sua escala no Deus que eles criaram. Como pode esse Deus do amor e da justiça ter algum crédito quando permitiu que se cometessem, em seu nome, crimes e barbaridades como os da Inquisição, requintada de sanguinário espírito, a partir de altas decisões eclesiásticas como a Inconsutilem Tunicam, a bula Ad Extirpanda e mais tarde, o Santo Ofício, tudo, repito, em nome de Deus e para o serviço de Deus? Como pode aceitar-se um Deus que deixa os seus máximos representantes na terra fazerem alianças e concordatas com o nazismo e o fascismo, transformando-se em seus colaboradores e cúmplices, e elevando Hitler, Mussolini e Salazar, à categoria de confrades e profetas? Não é fácil aceitar-se um Deus justo quando não tem a coragem de aconselhar os seus ministros e servidores a pedir perdão pelo mal que fizeram aos povos do mundo inteiro, ao colocarem-se, nos momentos decisivos para a história da humanidade, ao lado dos ricos, dos poderosos e dos opressores. Permitirá um Deus omnividente que a sua imagem esteja a ser conspurcada e substituída, sempre com a cinzenta aceitação da Igreja, pela imagem do deus dinheiro, do deus da riqueza e da exploração implacável, com religião e liturgia próprias, simbolizando o progresso, a virtude e o bem, mas tornando impossível qualquer ponte entre o povo e os mercados financeiros, entre a justiça social e o sucesso do capital? Que raio de Deus autoriza, à cabeça da sua representação, Papas que perverteram o conteúdo humanista do cristianismo e ajudaram a matar a esperança dos povos numa sociedade sem exploradores nem explorados? O que leva Deus, Senhor Infinito dos Céus e da Terra a permitir aos seus pontífices tanta militância para impor o poder dos grandes aos pobres do mundo inteiro? O que leva o Deus da suprema liberdade a deixar que os seus ministros promovam cardeais que tentam transformar a Igreja numa espécie de Pide ou Gestapo dos E.U. e das ditaduras latino-americanas? O que leva Deus a autorizar que os mensageiros da paz nomeiem bispos fervorosos adeptos do emprego da bomba atómica? Por que razão nos leva Deus a aceitar e a fazer a sua Igreja aceitar, como iniciativas humanitárias, as cruéis decisões dos senhores do mundo, que não passam de monstruosas agressões contra a vida e a soberania dos povos, e deixa matar - há quem diga que até dá uma mãozinha - alguns dos maiores amigos e mártires da humanidade espezinhada? Não terá Deus vergonha da servidão argentária e do culto reverencial do dinheiro em que a sua Igreja caiu, e dos altos e intransponíveis muros que ergueu à roda do Vaticano, bem mais altos do que os do Kremlin? Que espécie de Deus é este que manteve na linha da frente dos seus ministros sórdidas figuras mafiosas como Paul Marcinkus, a quem os mandados de captura nem as vestes tocaram? Por que não permite Deus que o mundo saiba dos milhões gastos pelo Vaticano no encobrimento de tanta coisa suja, nomeadamente crimes sexuais abomináveis praticados pelo clero do mundo inteiro, especialmente da América? Porque permite Deus a extrema vergonha de que a sua Igreja seja, provavelmente, a instituição mais pedófila do mundo? Que tipo de santidade se pretende resguardar e camuflar? Não poderia Deus ter facilitado um rebate de consciência naquela falsa gente do Vaticano e ter autorizado a autópsia de João Paulo I, que o mundo inteiro tanto reclamou? Foi Deus capaz de deixar assassinar o bispo Oscar Romero em plena missa, seu dedicado discípulo, pelas forças militares fascistas de que fazia parte a Igreja retrógrada? Quem pode chamar Pai, Pai poderoso, a um Deus que permite a entrada de milhões de pessoas, seus filhos, nas câmaras de gás, e não desliga a máquina? Deus estava lá…porque Deus está em toda a parte! Deus dissera: deixem vir a mim os pequeninos. Que graça! Só se forem os meninos ricos, porque os pobres, os perseguidos, os marginais, os das barracas, os famintos, os esfarrapados não têm lugar no amplexo divino. Morreram e morrem milhões de crianças às mãos da fome e da violência, e Deus atafulha as mesas dos que não têm fome e carrega as armas dos que vivem atrás das muralhas e nada têm a recear, a não ser a força da justiça! Não poderia o tal Deus ter dado uma mãozinha aos milhões dos sem-terra do Brasil e aos famintos índios de Chiapas, em vez da opressão, ameaças, sequestros e assassínios perpetrados pela burguesia inatingível? Que pensará esse Deus, gostava eu de saber, ao ver milhões de africanos, afegãos, iraquianos e outros escorraçados da vida nas terras crucificadas, morrer ao peso das bombas e nos braços da fome, ouvindo arrotar de indigestão os abutres que os sugam até ao tutano? Sem forças para erguer os olhos, querem lá eles saber do prolongamento da vida para além da morte, querem lá eles saber do céu e do prémio que os espera?! As guerras multiplicam-se como moscas e fazem correr rios de sangue…sempre…sempre ao sabor dos que mais rezam a Deus! Milhares de mortos, despedaçados, estropiados, violentados, enquanto o mandante bate no peito e reza a Deus, e a Igreja o borrifa de água benta. Terá sido Deus a dar a inteligência, a força e a cultura às grandes potências para terem o desplante de classificar o mundo em primeiro, segundo e terceiro, a fim de melhor escalonarem e planificarem a sua voracidade e rapina? Provavelmente foi, porque as grandes potências abarrotam de igrejas. Os que comem tudo e não deixam nada, os que movem os cordéis de todas as marionetas deste mundo, os que fazem a fome para que não lhes falte a fartura têm casas de ouro, férias para descansarem de não fazer nada, hospitais de luxo, o céu garantido aqui na terra e lá em cima, nas primeiras filas que o Vaticano sempre lhes reservou durante séculos. No meio deste cenário parece nascer, por vezes, um raio de luz… encarnando o arrependimento divino em pessoas como Leonardo Boff e tantos outros, mas logo surgem da sombra vigilantes cardeais, uma espécie de Rumsfelds do clero, como Ratzinger, de mãos dadas com as catedrais do dinheiro, a representar uma Igreja retrógrada e absolutista, fortemente entrosada com os poderes opressores, na cruzada contra toda e qualquer Teologia da Libertação, contra toda e qualquer filosofia política de amor, fraternidade e solidariedade para com os condenados da terra.
Não, José Saramago, venha o diabo e escolha. Mas o Deus de cá e o Deus de lá têm-se mostrado bastante diferentes.
Meu caro Saramago, a quem muito considero, corroídos o discurso crítico e o cérebro, quase só nos resta, como diz e muito bem, ficarmos todos loucos ou então…acreditar em Deus.
Adão Cruz
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#5 2008-08-18 23:26:19
acruz75
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Correio Electrónico Re: A DINASTIA DE JESUSFATIMA
Tive a sorte de assistir na RTP1 ao debate sobre Fátima, em que intervieram o Padre Mário de Oliveira e um Monsenhor da Igreja católica. A despeito da já conhecida pobreza mental da entrevistadora, o resultado foi magnífico. Com efeito, conseguiu pôr em destaque a abissal diferença entre a mentalidade obsoleta que vigora dentro desta instituição religiosa e a sanidade mental de um padre que luta, à sua maneira e dentro da sua crença, contra as trevas do obscurantismo.
Em nada me interessa a Igreja católica em si mesma. Porém, como cidadão, não posso ficar ao lado dos fenómenos que afectam, positiva ou negativamente, a sociedade e a humanidade. Desde há muitos anos que me arrepia o paganismo que se fabricou em Fátima, a monumental impostura que se ergueu no nosso país. Sou médico há quase quarenta anos, tive na minha frente toda a espécie de pessoas, desde a mais ignorante à mais sábia. Respeito tanto os ignorantes como os sábios, os cultos e os incultos, mas não tenho o mínimo respeito nem contemplação pela ignorância e pela incultura. Tenho amigos e doentes que são padres e freiras, a quem respeito e que me respeitam também. Mas não sinto respeito pelo trabalho de quem quer que seja que se dedique, de uma maneira ou de outra, a cultivar a ignorância, a escamotear a verdade e a anular a razão. O maior crime que se pode cometer contra o Homem não é matá-lo mas tapar-lhe os olhos. Ao matar o Homem não se mata a ideia. Ao tapar-lhe os olhos mata-se o Homem e a ideia.
Há pessoas crentes, inteligentes e cultas. Simplesmente, em meu entender, não foi a cultura, mas outra razão qualquer, que gerou e enraizou a crença. A verdadeira cultura é, habitualmente, um obstáculo e remete muito mais para o antagonismo do que para o agonismo da fé. A Igreja tem homens inteligentes, não podemos negá-lo, embora minados de contradições que, na minha opinião, resultam de uma estrutura anquilosada e de uma hierarquia fundamentalista que impõe, pela inércia das ideias paralíticas e pela força do poder temporal a que sempre esteve ligada, uma mensagem que nada tem a ver com a do verdadeiro Cristo nem com a libertação do Homem. Antes pelo contrário, explora e expande todos aqueles conceitos arcaicos que sempre contribuíram fortemente para a exploração e a repressão, liderando sofismaticamente a luta pelos fracos, no terreno fértil de uma humanidade sofredora, aterrorizada e inculta, vítima maior desse mesmo poder que sustenta e sempre sustentou a Igreja.
Entre a mentalidade e a esclerosada verdade de monsenhores como este, rotulados de catedráticos (?!), entre as habilidades retóricas, os rendilhados e emaranhados raciocínios de homens inteligentes como Frei Bento, entre as palavras de homens bons como o ex-bispo de Setúbal, palavras, no entanto, não alheias a uma incapacidade de definição e de posicionamento quanto à etiopatogenia dos males da humanidade e à crítica da Igreja, entre tudo isto, repito, e a reflexão, a coragem, a lucidez, a clareza e a serenidade do Padre Mário de Oliveira vai um abismo.
Penso que muitos milhares, se não milhões de pessoas, ouviram com ansiedade e agrado esta esclarecedora e corajosa denúncia contra uma das maiores fraudes do século, co-responsável - a par de tantos outros mecanismos de anestesia mental que o poder detém ou inventa - pelo atraso do nosso povo e da nossa sociedade.
A Igreja católica, essa portentosa catedral multinacional, historicamente enrodilhada num mar de escândalos e de obscuras e complexas ligações, adquiriu tal poder que já nem se importa que o produto que fabrica seja o antídoto de tudo aquilo que pretende proclamar. Com efeito, a Igreja deve ser hoje a maior fábrica de ateus.
Adão Cruz
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#6 2008-08-18 23:49:45
acruz75
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Correio Electrónico Re: A DINASTIA DE JESUSQuando nasceu, trazia entranhados em si dois grandes pecados, o pecado original e o pecado de ter sido gerado em mãe solteira. Para além disso, fora parido quase moribundo. Imagine-se o terror de sua mãe que já o via a arder no fogo do inferno. O pai, mais racional, não tinha assim tão maus pressentimentos, para ele, Deus não seria capaz de condenar, e logo com penas eternas, um ser indefeso, pelo simples facto de a pia baptismal distar três quilómetros do local de nascimento. Pegaram na mulher mais à mão e no homem mais ao pé, embrulharam num coeiro aquele escarro de gente e correram a sete fôlegos em direcção à Igreja, ambos conheciam a gravidade do pecado original, “ as almas dos que morrem em pecado mortal ou apenas de pecado original descem ao inferno”, anunciava o concílio de Florença em 1439, todos sabiam que o baptismo era a única terapêutica que salvava e apagava o pecado original, se chegasse à pia com vida, não seria este pecado, marca da infâmia do seus longínquos e primitivos antepassados, que o levaria à condenação eterna. Quanto ao outro, o pecado de amor, o pecado de sua mãe, nada constava na tradição que o considerasse passaporte directo para as profundas, embora fosse exactamente igual ao primeiro mas muito mais recente, no mínimo, em cima do outro, agravaria, certamente, a sentença divina. Portanto, as perspectivas não eram animadoras, na correria para a salvação, nada mais dominava o pensamento dos hipotéticos padrinhos, -assim o permitisse serem-no, efectivamente, a graça divina-, senão o terror. Já com alguma idade, esse esperançoso par lembrava-se de ter ouvido da boca de um padre velhinho de quem se dizia ser pai de onze filhos, que um papa chamado Bento XIV e outros seus sucedâneos aprovaram o baptismo de fetos e abortos, bem como dos fetos das mulheres grávidas mortas, aos quais faziam chegar a água benta através de um sifão especial ou de uma cesariana. O medo era tão grande que chegaram a arranjar fórmulas especiais para baptizar abortos ainda sem forma humana ou mesmo aberrações e monstruosidades resultantes de distracções ou falhas nos cálculos divinos. Já a meio do caminho da Igreja os corações dos dois estafetas salvadores quase pararam ao sentirem que nada pulsava naquele montinho de carne. apertaram-no contra o peito e deram-lhe algumas palmadinhas suaves, não fossem acabar com o sopro de vida em que ainda acreditavam. Aquele minúsculo projecto, à falta de melhor resposta, reagiu com o intestinal ruído que precede ou acompanha uma pequena dejecção de ferrado, o que aliviou um tanto os padrinhos, embora soubessem que esse facto não constituía, propriamente, uma manifestação de vida. No último minuto, provavelmente já na fronteira do entroncamento onde divergem os caminhos para o céu e para o inferno, o nascituro usou pela primeira vez as cordas vocais, soltando um pequeno gemido que logo se fez choro convulso ao sentir a água benta e fria na cabeça, crê-se, hoje, que não fora a água fria mas o nome que pretenderam dar-lhe, a razão do seu choro, era como que voltar à estaca zero, uma espécie de restitutio ad integrum do pecado original, tornando inútil toda aquela corrida para a pia da salvação, os seus gritos devem ter ecoado como ribombante trovão para lá dos séculos, no ex-paraíso, hoje deserto, no lugar onde os pais da humanidade condenada, não sabendo para o que servia aquilo que tinham entre as pernas, pagaram com a felicidade eterna o terem-no descoberto. Para que ele parasse de chorar, não tiveram outro remédio senão esquecer o nome, a força do sacramento venceu, o diabo recuou, enfiou o rabo entre as pernas, e assim ficou sem nome o homem que não tinha nome. Na verdade, o agora filho de Deus sobreviveu, revigorado com o sopro divino, chegou ao seio da mãe onde algumas gotas de leite lhe seguraram a vida e sadicamente o impediram de seguir logo, directamente, sem necessidade de vir a sofrer as provações de todo um futuro incerto e traiçoeiro, para a garantida felicidade eterna. Passaram os anos, acordou com a voz dos melros e rouxinóis e saltitou com os pardais, vestiu-se de sol e despiu-se de luar, estreou o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios, seus olhos dormidos casaram a noite e o dia no mesmo silêncio de sonho-menino, a vida viveu nele crescendo todos os tamanhos e medindo todos os céus. Mas os homens comeram as crianças, os homens comeram-se crianças e nele foram matando a criança que crescia. Um dia meteram-lhe uma coisa na boca e disseram-lhe que era Deus, como se Deus coubesse na sua boca, como se Deus coubesse na sua boca! O mar, infinitamente mais pequeno do que Deus, não cabe em todas as bocas juntas. Também lhe disseram que ele era filho de Deus, ou gozaram com ele ou pretenderam fazê-lo acreditar em paranóias, como se Deus andasse para aí a fazer filhos como ele, seria preciso que fosse um Deus muito fraco e muito irresponsável, revelaram-lhe, ainda, que sua mãe era uma virgem, o que ele não era capaz de entender, Deus, pelos vistos, seu pai, ao gritar ao mundo que crescesse e se multiplicasse, ou se enganara ou se arrependera ou fora vítima da contradição, disseram cada coisa, que ele, o homem sem nome, chegou a pensar que mandava nos pássaros, que era capaz de pôr as cobras de joelhos e que o céu era trigo limpo, sendo ele filho de quem era! Apesar de tudo, sempre foram para ele um tanto estranhas as atitudes de seu divino pai, ouvira falar de comboios com milhões de pessoas a entrar nas câmaras de gás, Deus estava lá, Deus está em toda a parte, morreram e morrem milhões de crianças às mãos da fome, e Deus, seu pai, atafulha as mesas dos que não têm fome, as guerras crescem como as moscas, correm rios de sangue ao sabor dos interesses dos que mais rezam a Deus, e seu pai, com poderes para desligar a máquina, não o faz, milhões de mortos esventrados, despedaçados, violentados, e eles até são seus irmãos, o mundo abarrota de doentes, crianças doentes, e logo crianças! Ainda noutro dia o seu celestial pai dissera alto e bom som “deixem vir a mim os pequeninos”, pensava ele que o pai se referia aos meninos ricos, porque os pobres são sempre os mesmos e ele nunca os vira em casa de seu pai, os das barracas, os famintos, os esfarrapados. Perante isto, as más línguas até proclamam que ele é filho ilegítimo, argumentam dizendo que um pai que tanto faz sofrer os seus filhos não pode existir, e ele começa a ter vergonha, começa a ter vergonha porque nenhum filho gosta que o pai o atraiçoe, pensava, pensava, os que comem tudo e não deixam nada, os que geram a fome para que não lhes falte a fartura, têm casas de ouro, férias para descansarem de não fazer nada, luxo em cima de luxo, o céu garantido aqui na terra e lá em cima, nas primeiras filas que o Vaticano sempre lhes reservara, enquanto os outros vão para a vala comum, agora que o inferno faliu. O inferno lá de baixo, o das almas penadas, perante o grito de sofrimento dos povos, imbuídos da fé que tanta e tanta felicidade lhes trouxe nestes místicos séculos, até parece que não era tão mau como o de cá, talvez o diabo não seja como o pintam os fervorosos comungadores, não tanto da sagrada hóstia como do ouro. Acham que os espoliados ainda têm pele, eventualmente rentável e utilizável para fazer tambores, e a vida continua, na sua tradicional canção de louvor a Deus. No fim de contas, o homem sem nome pensa que seu pai enlouqueceu ou perdeu a vergonha, faz-se surpreendido com tudo o que vê, ele que é omnividente, omnisciente e omnipotente, e optimiza fasciosamente as condições de vida dos fortes para que não sofram, cria, descaradamente, todas as condições para que as catástrofes, as torres de Babel e os dilúvios se abatam sempre sobre as cabeças dos mais fracos. A estupidez invade a cidade como uma avalanche de merda, e seu pai permite que façam dela a bandeira com que a bolorenta metafísica apodrece a razão de todos os criados e reciclados à sua imagem e semelhança. O homem que não tinha nome, não sendo estúpido, foi crescendo no seio da estupidez. Uma noite, altas horas da madrugada, um novo pecado haveria de entrar na sua alma, ficara muito assustado, lembrara-se, de imediato, do pai de todos, o colega grandalhão da escola primária, quando, em segredo, lhe confessara a sua primeira sensação, uma estranha mijadela com muito, muito açúcar, tinha razão, coisa estranha, nunca sentida, não era, certamente, algo de bom, não tinha memória do pecado original do qual se livrara à rasquinha, contudo, pelo que lhe haviam contado, deveria estar, de novo, no caminho das profundas, só agora conseguia atingir o significado das palavras do padre prefeito quando este lhe perguntara o número de vezes que havia pecado com o corpo, maldito corpo, bendita luz. A luz. A luz do sol era azul, lembrava-se como se fosse hoje, a luz azul azulava os claustros, as caras e o sentir, imaterial, pálida e fria, as grandes janelas filtravam a luz azul que entrava dentro dele como chuva miudinha. Pela vida fora sentira sempre um arrepio ao recordar essa luz azul e fria, as batinas negras eram azuis e frias, frias e azuis como os olhos, a alma e a sombra. A alma não era, nessa altura, designação académica, por isso ela punha os braços de fora e estrangulava a sua frágil personalidade de adolescente, sem sexo nem liberdade. A saudade excitava-o, vivia-o de dia e adormecia-o de noite, saudade da sua fogueira quente e vermelha, do sol vermelho e quente, do seu campo, do seu rio, da sua noite de estrelas e luar. A imposição do azul desfaz as formas e os sons e remete para a cidade da morte, o medo do azul abre as portas do inferno e mostra, lá dentro, a razão e a coragem a arder, as horas inverteram-se e perderam o tempo, correm agora fora das veias à velocidade de uma luz azul e fria. Pela mão do pai passou a vida a correr tropeçando nas sombras, arrumou ao canto da luz mil horas vazias, sangradas a curricular futuros para ser gente na praça dos homens, pisou os passos pequeninos nos avessos da verdade e palmilhou léguas a tossir poeira. Vestido de ausências foi renascendo de amor. Bendito corpo, bendita mente, bendito respeito por nós próprios e pelos outros, bendita liberdade interior, bendita cultura do percurso, bendita luz da razão, maldita luz-escuridão divina.
Adão cruz
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#7 2008-08-26 16:57:17
acruz75
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Correio Electrónico Re: A DINASTIA DE JESUSO Dr. Magalhães dos Santos enviou-me o texto que vem no fim deste mail. Respondi desta forma:
Meu querido amigo Dr. Magalhães dos Santos
Um abraço e os meus agradecimentos por me endereçar tal texto.
E acerca desse mesmo texto eu gostaria de dizer que esse Senhor Manuel Abrantes faria melhor figura se estivesse calado, o que, por outras palavras, significa que nem resposta merece. Não é que as pessoas não mereçam ser ouvidas e conversadas. Mas quando partem de pressupostos que não podem ser discutidos, “Santo Deus!”. Nenhum diálogo é possível fora de argumentos racionais.
Começa logo por dizer, esse Senhor, que é uma questão de fé. Assunto arrumado. A fé é um direito de quem quer que seja, tal qual a “não fé”. Mas a mim, pessoalmente, não me interessa discutir nessa plataforma. Discutir social e filosoficamente sobre o fenómeno fé, é uma coisa. Discutir sobre o que quer que seja, aceitando a fé como argumento interveniente, não me interessa de forma alguma.
As palavras do pároco nada me dizem, por um lado, pelo que atrás foi dito, e por outro lado, porque a maior parte dos párocos que conheço, são pessoas de espírito tão cristalizado, que deles não posso esperar a maleabilidade mental que permita a abordagem racional dos fenómenos. Assunto arrumado.
No entanto, permito-me algumas considerações, procurando ver a essência da questão e alheando-me daquilo que é dito no texto e que não tem por onde se lhe pegue.
Em primeiro lugar, a palavra ateu nem devia existir, ou melhor, não há necessidade de que exista. Não existe, que eu saiba, uma palavra que defina aquele que não acredita na alma, não há uma palavra para definir aquele que não acredita no destino, não há uma palavra que defina aquele que não acredita no universo, não há uma palavra que defina aquele que não acredita no acaso, não há uma palavra que defina quem não acredita em bruxas, não há uma palavra que defina quem não acredita na evolução das espécies, não há uma palavra que defina quem não acredita na origem científica da vida, não há uma palavra que defina quem não acredita no pai natal. Porque diabo há-de existir uma palavra tão sonante para classificar quem não acredita em Deus? Não foram com certeza os ateus que a inventaram, nem disso tinham necessidade, mas sim a Igreja, a fim de definir bem, e estigmatizar ainda melhor, através dos séculos, aquele que ela considera o seu inimigo principal. Ao ponto de um alto responsável, ainda há bem pouco tempo, ter lançado pela boca fora, a bárbara e inquisitorial afirmação de que o ateísmo é o maior drama da humanidade!!!
Em segundo lugar, nenhum ateu, e é assim que eu penso, tem de se orgulhar ou não orgulhar de ser ateu. Não reside dentro ou fora do ateísmo o ser-se bom ou o ser-se mau. O bem e o mal não são propriedade exclusiva dos crentes e dos não crentes. Há muita gente crente que merece todo o meu respeito, assim como há muitas pessoas descrentes que são dos melhores seres humanos que conheço. Esse “orgulho” a que o pároco alude, não é mais do que uma visão distorcida e malévola da personalidade humana, e uma forma baixa de politizar o ateísmo e diabolizar a política. Aquilo de que o ateu se deve orgulhar, isso sim, é do seu contributo e da sua interveniência saudável, racional e liberta na construção livre do pensamento humano e na estruturação de uma sociedade tão próxima quanto possível da sanidade física e mental.
Assim, considero que o ateísmo deve ser defendido como mundividência ética e filosófica, socialmente válida e aceite. Deve defender os legítimos interesses dos ateus, agnósticos e outras pessoas sem religião, no exercício da cidadania democrática. Deve promover e defender a laicidade do Estado e a igualdade dos cidadãos, independentemente da sua crença e religião, ou ausência de religião e crença no sobrenatural. Deve lutar pela despreconceitualização do ateísmo na legislação, nas instituições e nos órgãos de comunicação social. Procurar responder com todo o direito e respeito às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista, honesta e humanista dos fenómenos em causa. Exigir que as leis sobre liberdade religiosa contemplem, não só as diferentes religiões, mas todos aqueles que não professam qualquer religião.
Amigo Dr. Magalhães dos Santos, basta por hoje.
Tentei uma achega ao cerne do problema. O resto do artigo não permite qualquer abordagem séria.
Um abraço do Adão Cruz
P.S. Há dias, uma professora do Ensino Secundário contou-me que um aluno lhe perguntara se ela era ateia, ao que ela respondeu que sim. E comentou comigo: não me admira nada que um dia destes eu seja chamada ao Conselho Directivo e me digam, então você anda a dizer aos alunos que é ateia?
—– Original Message —–
From: Magalhães Santos
To: ”Adão Cruz’
Sent: Monday, August 25, 2008 10:42 PM
Subject: FW: EU NÃO SOU ATEU !!!
Prezado Sr. Dr. Adão Cruz.
Saúde!
Talvez lhe interesse este texto.
O Abraço amigo do
Amigo Magalhães dos Santos
PORQUE NÃO SOU ATEU
Por uma questão de fé assisti hoje, Domingo, a mais uma Missa na Igreja da minha Paróquia (Pinhal Novo).
Não vou escrever, aqui, sobre as virtudes da Fé Católica. Vou escrever algo que o pároco sublinhou na sua homilia dominical.
O pároco interrogou os presentes – felizmente, somos cada vez mais – sobre o “orgulho” que alguns políticos ( e não só) se assumem nas televisões, jornais e comícios como sendo ateus.
Hoje, e nesta politica, ser ateu é sinónimo de orgulho.
Durante anos semearam o anti-cristianismo como forma de um “homem novo”. Um homem ( e mulher) que o seu único objectivo na vida é o materialismo.
A espiritualidade – essa – é algo de retrógrado que não se coaduna com a sociedade que impuseram nos últimos anos.
Tudo isto, porque a Fé Católica é baseada na tolerância, no respeito, no amor ao Supremo e – muito especialmente – na Família. Ora, é neste último ponto que se baseia qualquer sociedade. A Família é a união e o princípio do ser humano. È nela que se bebe e que se vai buscar a estrutura ideológica do indivíduo.
Sendo a Família o factor principal da união, foi aqui que os arautos do “homem novo” atacaram e destruíram.
Para eles, a sociedade tem de viver dispersa e individualizada. E, para isso, nada melhor do que a tornar materialista.
Um ser humano materialista é, por si só, um ser humano individualista. E, sendo individualista, é muito mais fácil controla-lo nos seus pensamento, palavras e obras.
E, tendo o controlo do pensamento, das palavras e das obras do individuo é fácil controlar a sociedade.
E, para que o “esquema” não ficasse incompleto, foi introduzido o espírito da internacionalização mundialista como forma de atacar e destruir qualquer espírito Nacionalista. Isto, já para não falar na raça (seja ela qual for), nas tradições e no passado histórico.
Reparem que os senhores donos do poder assumem-se como internacionalistas e defensores da globalização. Já não é, só, o homem (ou mulher) isolado numa região ou numa família que já não existe. È o próprio individuo isolado no mundo.
Aqui, não tenho pejo nenhum em aplicar que a filosofia dos “arautos do homem novo” é o “dividir para reinar”.
Foi esse, e é, o princípio aplicado.
Querem-nos impor (já impuseram) uma sociedade onde o dinheiro é senhor absoluto e o único caminho para a “felicidade” individual.
Não quero dizer que os bens materiais ( o dinheiro – por exemplo ) não sejam necessários. São necessários mas não são o único fim para a existência de cada um de nós.
A Fé – essa – não é o escape dos pobres ou um meio dos ricos se penitenciarem.
Não !!!
A Fé é a única liberdade que ninguém nos pode tirar.
È o valor mais alto do ser Humano.
Porque a Fé e a União é o caminho – o verdadeiro – para a realização pessoal do individuo.
O valor espiritual é eterno. O valor material é efémero.
È, por isso, que digo:
EU NÃO SOU ATEU !!!
Manuel Abrantes
Quase que me doia o pulso só para me dirigir até ao final da página! Enfim.
Mas a final expliquem-me lá o que é uma “laicidade negativa”? Falou-se só que existe uma positiva (isso já eu sabia) mas não sabia que existia uma negativa. Alguém me dá exemplos?
É assim mais ou menos como a laicidade positiva, só que ao contrário.
Acho que um exemplo de laicidade negativa é a proibição do véu islâmico pelas alunas nas escolas francesas. Também acho errado que seja proibido.
É por exemplo probir as orações em grupo fora das igrejas. É por exemplo proibir a construção de templos religosos sem autorização do Estado. É proibir o uso das veste talares. É por exemplo retirar todo o patrimónia à Igreja. É por exemplo só permitir Igreja aberta ao culto onde estas sejam governadas por mutuais onde não pode estar prior. É por exemplo a proibição de casamento religioso sem casamento civil prévio. É por exemplo expulsar ordens religiosas de um país. É por exemplo a lei da separação da Igreja do Estado de Anfonso Costa (para os mais desatentos, todos os exemplos anteriores constavam dessa lei, ou de outra leis de Afonso Costa)…
Citando Adão Cruz:
“A Fé é a única liberdade que ninguém nos pode tirar.”
Não é a única.
A liberdade de pensamento 0de ser ateu e de compreender melhor e plenamente a vida, a natureza, sem superstições nem mitos) também é uma liberdade que ninguém pode nos itrar. Mesmo que eu tenha que mentir sob tortura, dentro de mim penso como quiser. Sei perfeitamante que Deus não existe. Nem Odin. Nem Amon-Rá… (e não vou aborrecer ninguém com uma lista enorme.)
Quem é o salvador de nós?
O tempo nos salvou de ti
crucuficado por toda eternidade serás
não mais rei dos judeus.
apenas chacota de ateus.
Mas haverá um dia
onde já não será chacota
Rei de toda a criação,
por toda a eternidade
reinará o Crucificado
(tambem n rima, mas tem assim um ar erudito/popular como o comentário do Fábio)
Que Tristeza o comentário do Fábio Lino…que forma tão reles de se manifestar…
Na verdade, para mim, esta questão relativa ao que pensa este dito Papa já deveria se tida como algo excêntrico da parte dele, e só.
A verdade é que se jesus de nazaré, existiu, foi na verdade um louco ou como disse sabiamente Richard Dawkins:
“Ou estava enganado, ao pensar ser algo que não é.”. Assim, o que nos resta? Prostar-nos ante algo em que as evidências e o tempo mostraram-nos de várias fôrmas e ainda nos mostra dia-dia na TV onde vez ou outra chovem adoradores do crucificado tão hávidos por dinheiro e poder tal qual Nero. Loucos, estes sim. Ao tentarem vender-nos a idéia de que um ser tão estranho como este jesus tão distante da realidade de hoje de ontem e de sempre, e daqueles em que diz ser o criador. Penso ainda, que é tempo de a nossa atual sociedade acabar de vez com estas loucuras em nome da “fé” claro, se alguém quer mesmo acreditar no deuzinho, ok, vá em frente mas por um outro lado, que isto não seja usado pelos governos e por outras organizações para sacrificar mentes ou o pior: Submeter nossos filhos amigos a uma morte abjeta e totalmente sem sentido.