Oitenta e oito por cento? Só podem estar a gozar comigo!
Por Rui Janeiro • 11 Set, 2008 • Categoria: Opinião, Psicologia & SociologiaCom base num artigo da Agência Ecclesia gostaria de apresentar algumas estatísticas muito interessantes…
Entre 2000 e 2006, o número de sacerdotes diocesanos baixou de 3159 para 2894, cerca de 8%.
Em seis anos registou-se uma queda de quase 20 %. Segundo o mesmo artigo, para o período apontado, “por cada dois padres que morrem, apenas um é ordenado”, sendo que o “número de seminaristas (diocesanos e religiosos), (…) está abaixo dos 500“.
Os números mostram algo que já se tem falado nos últimos anos. O progressivo afastamento dos portugueses da vida religiosa e muita missa reduzida a meia dúzia de beatas, para não falar na raridade das “vocações”.
Em Portugal, no final do ano de 2006, comportava a notável quantia de “49 Bispos, 2894 padres diocesanos, 1052 padres de Institutos Religiosos, 198 diáconos permanentes, 327 religiosos professos e 5717 religiosas professas”, nas quais, desde o ano de 2003, houve uma quebra de “quase 8%“.
Quanto ao assunto que mais me interessa, o número de baptismos passou de 92 mil em 2000 para 77 mil em 2003, uma queda para cerca de 84% (apesar da diminuição há que ter em conta que o número de nascimentos tem decrescido, ao que corresponderá uma percentagem superior). Acrescentem-se os 5 mil baptismos de crianças com 7 anos ou mais.
Mas o que mais me intriga é a indicação de que a “percentagem de católicos no nosso país situa-se, segundo os dados da CEP, nos 88,10%“.
Qual é a definição de “católico”. E os “não praticantes”? Segundo os últimos censos cerca de três em cada quatro católicos era “não praticante”. Tal como um sócio do Benfica que não paga quotas.
E mais. Baptizar um ser cuja auto-determinação e vontade ainda não estão operacionais vai dando um pequeno empurrão às estatísticas. Há muitos seres baptizados e que fizeram a primeira e segunda comunhão ou mesmo o crisma (a categoria a que pertencem dependerá de alguns factores, como a idade em que se “emancipam” e as pressões sociais ou familiares) mas cuja interacção com a igreja é nula. Na sua geração ainda têm a pressão dos pais ou avós, mas na seguinte tudo se deve modificar. Alguns ainda casam pela igreja, tanto para fazer a vontade aos pais (onde se podem incluir “motivos financeiros”) como por questões estéticas, sendo normalmente obrigados a um pequeno estágio pré-matrimonial com missas e outras actividades incluídas para compensar a sua falta de comparência ao longo dos anos.
Estou desejoso de ver os resultados dos próximos censos. Se só se contabilizassem os indivíduos que levassem a sua vida religiosa a sério (praticantes), teríamos um país com cerca 22% de católicos. Quer dizer, seríamos uma nação católica não praticante, a religião maioritária, estimada em cerca de 66% da população.
E mesmo dentro destes “não praticantes” conheço muita gente que não se importaria de ter o seu baptismo anulado, mas não o fazem porque se estão nas tintas e porque não lhes faz diferença. Alguns tentaram-no mas tal não foi possível no momento. Mas entram para as estatísticas. Agora imaginem se decidissem fazê-lo…
Ainda há outro motivo: quando eu lá ia, lembro-me de haver muitos “mânfios” na 1ª fila, a baterem no peito “Ai Jesus”, só para galar as meninas da catequese. Pelo que me contaram, a “devoção” perdura
Como Católico, o tema interessa-me pois a questão da prática e da não-prática; da pressão social e da livre escolha; das vocações e da coerência cristã está para nós na ordem do dia entre os cristãos do ocidente.
Noto é que com muita frequência quem assoma estas questões, não sendo membro nem perito, envolve-se em análises pouco profundas e com uma superficialidade espantosa - concerteza não será por mal .
Apelidar os praticantes de uma religião depreciativamente (’meia dúzia de beatas´) é inaceitável . se fosse acerca de um outro qualquer grupo de certeza que não se falaria assim.
Pelo desenvolvimento do artigo percebe-se que o autor está bastante longe da nomenclatura católica (não existe ’segunda comunhão´) e a futurologia que pretende fazer parece coisa nada científica… Já na I República afirmavam os anti-clericais que ´Dentro de 40 anos não teremos um só católico nesta nação’ - mas não aconteceu, pois não !!!
Como católico debato-me com muitas das questões enunciadas, mas com outras perspectivas, claro.
Já convenci muita gente a não baptizarem os seus filhos, e no entanto eu e a minha esposa baptizámos os nossos. A diferença é que nós somos praticantes, para nós isso é algo que faz parte da identidade da nossa família, e não esperámos para lhes perguntar como não lhes perguntámos se queriam nascer, se queriam ser portugueses e ocidentais, nem lhes perguntámos que nome queriam ter ou se querem ou não ir à escola.
Claro que a isto se junta ainda a questão da coerência dos ditos praticantes, mas essa questão é muito pessoal e diz respeito a toda a gente a tensão entre a prática coerente e os valores que para si escolheu. também conheço ateus e anti-clericais que por comodidade colocam os seus filhos em instituições de inspiração católica ou que não desdenham estudar na universidade católica - e durante esse tempo suspendem as conversas que tinham acerca da coerência dos católicos.
Embora se possa afirmar que existe uma certa ‘qualidade na quantidade’, não é essa a questão central para os cristãos. Passados 2000 anos andamos por aqui, já se desfizeram impérios e ideologias, muitas forças ferozmente anti-cristãs já desapareceram. A nossa força não está nos números… e não entender isso é menosprezar uma realidade que nos favorece quando, com os números nos pretendem combater.
Carlos Reis,
A referência à “meia dúzia de beatas” é uma realidade em muitas igrejas neste país. Não é representativa de todas, mas espelha um decréscimo da afluência aos lugares de culto.
Em relação à “futurologia”, prevejo que o número de crentes baixe nos próximos anos. E apresentando 88 % de católicos só fará com que essa queda seja mais acentuada.
“também conheço ateus e anti-clericais que por comodidade colocam os seus filhos em instituições de inspiração católica ou que não desdenham estudar na universidade católica” - Considere que tudo vale para meter os filhos na universidade ou para lhes proporcionar a melhor educação possível. E creio que se essas instituições não quisessem não aceitariam esses alunos, mas o dinheiro manda.
Viva Rui,
A questão não está no número das beatas, mas em chamar assim os crentes tentando desse modo dsacreditá-los enquanto pessoas.
A coerência que aqui muitas vezes querem dos católicos deve também ser exigida dos ateus: como é possível que gente fortemente anti-católica confraternize com organizações que na sua óptica são essencialmente perniciosas ???!!!!
Essas instituições acolhem os outros indeopendentemente das suas crenças ou descrenças - e assim são coerentes com os seus princípios.
Quanto aos números decerto se refere a uma baixa no ocidente e do hemisfério norte, certo?!
De qualquer modo, como referi, a importância não está no número… Os Judeus são uma minoria mesmo muito pequena e no entanto o seu contributo é imenso.
É evidente que o número de católicos referido, 88,10% é um número irreal, porque lá por terem sido baptizados e terem feito a comunhão, a maior parte das pessoas não é católica. Creio que em Portugal a maioria da população já é agnóstica, embora haja ainda muitos católicos.
“Católico não praticante” é uma designação absurda…O que é ser “católico praticante” ? Ser ritualista relativamente a todos os rituais sacramentais da Igreja Católica ? Obedecer a todos os dogmas ? Ir a todas as missas dominicais ? Ou é observar,na prática social quotidiana,os ensinamentos de Cristo ?…
“3159 para 2894, cerca de 82%.” ???
Creio que falta uma virgula (ou ponto) entre o 8 e o 2. São cerca de 8%, não 82%
José Simões
José Simões,
Engano meu, já corrigido. Obrigado pela indicação.
António,
Creio que a definição enquadra quem participe regularmente nas actividades da igreja. Quanto à conduta social, varia muito de pessoa para pessoa, não distinguindo entre crente e não crente…
Carlos Reis,
Não pretendi desacreditar ninguém. Apenas me servi de um exemplo algo estereotipado.
“A coerência que aqui muitas vezes querem dos católicos deve também ser exigida dos ateus: como é possível que gente fortemente anti-católica confraternize com organizações que na sua óptica são essencialmente perniciosas ???!!!!”
Depende de vários factores. Desde a qualidade do ensino, segurança, regimes de internato ou semi-internato, condições geográficas (no interior há zonas onde pode ser a única escola num raio de alguns quilómetros).
Eu pessoalmente não colocaria num colégio destes nenhum dos meus (eventuais futuros) rebentos. Mas se, por força das circunstâncias tal acontecesse queria que me garantissem a dispensa deles das actividades religiosas (em alguns colégios são mesmo facultativas). Em muitos destes colégios e mesmo na universidade católica aceitam todo o tipo de gente, desde que paguem.
“Quanto aos números decerto se refere a uma baixa no ocidente e do hemisfério norte, certo?!”
Falava mais do nosso país. A religiosidade está em recessão em grande parte do mundo ocidental (cristão), sendo na Ásia, particulamente na China, que tem crescido mais o número de cristãos (não necessariamente católicos, mas também de outras sub-confissões).
Independentemente de haver uma percentagem alta ou baixa de não crentes, acabamos por ser um país muito influenciado pela cultura judaico-cristã…
Por entre o espectro de católicos praticantes, não-praticantes, moderados, não-moderados, etc, que compôem o tal número misterioso de 88,1% de portugueses, enumero alguns exemplos da diversidade católica que consegui tipificar por ordem decrescente de fervor, dedicação e empenho:
Homo Católicus Fanáticus
– Considera pecado de gula abastecer-se de uma garrafa de água e de duas sandes para se aguentar durante três dias na reserva de um lugar em frente ao palco, para uma actuação do santo líder ao vivo.
Homo Católicus Pseudoesclarecidus
– Conhece e domina como ninguém a Verdade-Absoluta-Do-Porque-Sim e decidiu partilhá-la connosco até nos vergarmos por exaustão! Portanto não blasfemem e aprendam a ser tolerantes… Seus infiéis miseráveis!
Homo Católicus Obrigadus
- O facto de ter nascido em Portugal não explica por si só o facto de ser católico, sendo mesmo rejeitada como uma hipótese desonesta, relativista e falaciosa de mentes distorcidas de ateus. Conhecer e acreditar na verdade absoluta proclamada pela ICAR não é uma questão geográfica mas sim teológica!…Mesmo que tivesse nascido no Japão com pais xintoístas, seria católico à mesma,… e agora, estaria certamente a frequentar um seminário católico… também à mesma… lá no Japão… onde há muitos….
Homo Católicus Maisoumenus
– Mais ou menos ritualista dos sacramentos, mais ou menos obediente aos dogmas, mais ou menos frequentador de todas as missas dominicais, mais ou menos observador dos ensinamentos de Cristo, na prática mais ou menos social e mais ou menos quotidiana.
Homo Católicus Bacanus
- Apesar de ser seminarista, conta anedotas fixes de padres, freiras e de cristo, para além de frequentar blogs ateístas.
Homo Católicus Nadaconvictus
- Ou Maria-vai-com-todas: Acha tudo uma palermice pegada mas alinha à mesma devido às óbvias razões de estratégia de inserção social e sobrevivência. Se pensar emigrar e montar um supermercado na Arábia Saudita, converte-se convenientemente no dia seguinte ao da chegada… mas nunca antes… (apenas para minimizar a possibilidade lhe fazerem perder mais tempo no aeroporto…)
Homo Católicus Surpresus
- Ah sim? Sou mesmo? Desde puto? Com água? A sério? E serve para quê?
Homo Católicus Desesperadus
- Perdão,…Como disse?… Preciso mesmo de escrever uma carta assinada ao Bispo a explicar porque já não quero ser católico?… E não fazem a mínima ideia de quando me vão responder?… E também não posso reclamar? Ah posso? Ah Óptimo!…. Perdão,…Como disse?… Preciso mesmo de escrever uma carta assinada ao Bispo a reclamar por não me responderem à minha pretensão de deixar de ser católico?… E também não fazem a mínima ideia de quando me vão responder?
Obviamente sem ofensa
Abraços a todos
Eu critico o que considero errado na Igreja Católica,do ponto de vista cristão e teísta,em que me reconheço.O momento decisivo do meu afastamento ideológico do Catolicismo Romano,mas não do Cristianismo,ocorreu quando me dei conta da enormidade anticristã que decorria da aceitação,pela Igreja Católica Apostólica Romana,da pena de morte.O mais curioso é que,no seu Catecismo,tanto se refere que a Vida Humana é sagrada,como logo a seguir se admite essa pena,como passo a transcrever:
466. Porque respeitar a vida humana?
2258-2262
2318-2320
Porque é sagrada. Desde o seu início ela supõe a acção criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. A ninguém é lícito destruir directamente um ser humano inocente, pois é um acto gravemente contrário à dignidade da pessoa e à santidade do Criador. «Não causarás a morte do inocente e do justo» (Ex 23, 7).
469. Que pena se pode aplicar?
2267
A pena infligida deve ser proporcionada à gravidade do delito. Hoje, na sequência das possibilidades do Estado para reprimir o crime tornando inofensivo o culpado, os casos de absoluta necessidade da pena de morte «são agora muito raros, se não mesmo praticamente inexistentes» (Evangelium vitae). Quando forem suficientes os meios incruentos, a autoridade deve limitar-se ao seu uso, porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum, são mais conformes à dignidade da pessoa humana e não retiram definitivamente ao culpado a possibilidade de se redimir.
Felizmente que Cristo nunca foi católico para não ter que se sujeitar a uma nova condenação por parte dos fautores desta lamentável dogmática…
A Sua condenação à pena de morte,por Cruficação,pelo Poder Sacerdotal,representado em Caifás,devia ter merecido aos conceptualizadores desse catecismo uma séria reflexão sobre a grave ofensa que a admissão dessa pena representa para a causa da Humanidade.
António, vamos lá esclarecer o assunto.
A Igreja diz, como voce cita, que em último caso se pode usar a pena de morte. Quando é que tal é possível? Quando o Estado n tenha outra opção para defender a vida do resto da sociedade.
Ora, como hoje em dia há métodos bastante eficazes para garantir a segurança, q n incluem a pena de morte, a Igreja (várias vez o Papa João Paulo II o fez) tem-se batido pelo fim da pena de morte.
Ou seja, concluíndo, a Igreja só diz que é possível a pena de morte quando esta for o único meio possível de defender a sociedade. Depois conclui, hoje em dia existem outros meios para tal, por isso são praticamente inexistentes (aqui o praticamente é cautela, pq o Papa declarou-se claramente contra a pena de morte).
Se estiver interessado na posição da Igreja sobre o assunto (e n aquela q vc acha que a Igreja tem) siga este links:
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/sick/documents/hf_jp-ii_mes_20030207_world-day-of-the-sick-2003_po.html
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/urbi/documents/hf_jp-ii_mes_25121998_urbi_po.html
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2004/april/documents/hf_jp-ii_spe_20040419_philippines-ambassador_po.html
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1999/march/documents/hf_jp-ii_spe_19990329_conseil-europe_po.html
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2003/july/documents/hf_jp-ii_spe_20030704_ambassador-korea_po.html
http://www.vatican.va/roman_curia/secretariat_state/documents/rc_seg-st_doc_20010621_death-penalty_en.html
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2008/january/documents/hf_ben-xvi_spe_20080107_diplomatic-corps_en.html
Em todos eles poderá ver que a Igreja é contra a pena de morte. Só a admite como últimissimo recurso.
O assunto está suficientemente esclarecido:O Catecismo da Igreja Católica Apostólica Romana aceita a pena de morte.Eu reafirmo que essa pena ofende a consciência de todos quantos,achando ou não que toda a vida humana é sagrada,a consideram eticamente censurável.
P.S. Para não me estar a repetir,dou como reproduzidas as considerações,claramente comprovadas,que deixei no meu mais recente comentário em “A face da loucura”.
Enforquem os católicos todos e com eles todos os religiosos. Livremo-nos dessa escumalha
Robespierre ressuscitou…
Robespierre,
Não posso deixar de sorrir ao ler comentários deste género….
Voltamos á revolução francesa!
Que bom, vamos lá ver se isto passa cedo para República
Como crente penso que o facto de cada vez mais pessoas não participarem na vida religiosa publicamente não significa que de um momento para o outro se tornaram ateias…. significa sim que a igreja não está a dar resposta aos problemas das pessoas no mundo e contexto actual e as pessoas procuram outras alternativas… vejam o negócio da auto-ajuda em forte expansão… muitos desses manuais encerram em si mesmo uma dimensão espiritual que colmata essa ausensia…
Portanto penso que esses numeros reflectem mais a inabilidade da igreja de se modernizar e adaptar aos novos tempos do que outra coisa qualquer.
Já para não dizer que nos dias de hoje não se tém tempo nem sequer para nós próprios quanto mais para a igreja…
Ser ou não ser católico ou cristão? Depende de sua experiência do amor de Deus. Quem é mal amado dificilmente enxergará no meio de cristianismo e religião. E sim, só porcaria!