Uma questão de etiqueta

Para desagrado do meu amigo Ricardo Silvestre, vou neste artigo de opinião tentar explicar as razões pelas quais a etiqueta do “novo ateísmo” não me parece merecedora de grande credibilidade, chegando, inclusivamente, a ser constrangedor o facto de muitos ateus se terem deixado “enrolar” num termo que, na maioria dos casos, apenas serve os interesses dos críticos do ateísmo em geral.

Antes de mais, temos que nos perguntar se faz algum sentido criar uma denominação específica para este ressurgimento de mediatização do ateísmo graças às obras de autores como Dawkins, Hitchens, Harris ou Dennett. Terão estes autores algo de novo a acrescentar aos “clássicos” ateus como Teodoro de Cirene, Diderot, Hume ou Russel? Será mera especulação, é certo, mas não me espantaria que apenas o trabalho de Dennett fosse recordado daqui a 50 anos! (esta especulação refere-se apenas à questão do ateísmo, uma vez que considero a obra de Dawkins dedicada à evolução natural – The Sellfish Gene, em particular – como obra de referência futura).

Existem diversas razões para este ressurgimento nos últimos anos de uma maior exposição pública do pensamento ateísta, mas penso que a essencial terá sido o 11 de Setembro e as reacções de diversas ordens que aconteceram posteriormente que encharcaram o nosso dia a dia com motivos de sobra para nos preocuparmos com os excessos de “religiosidade” de alguns.

Haverá quem defenda que este “novo-ateísmo” traz a ciência como uma nova variável, quiçá a mais importante, para a discussão da existência ou não de Deus. Parece-me ingénua essa presunção. Basta-nos olhar para a História das religiões e facilmente nos apercebemos que Deus estará sempre para lá do alcance da ciência. Não por incompetência desta, mas antes por agilidade daqueles que definem Deus e os seus atributos. Quanto mais a ciência nos dá a conhecer, mais esquivos se tornam os domínios de Deus. É, pois, minha opinião que até ao dia em que a ciência provar a existência ou a inexistência de Deus, este jamais será do seu domínio.

Note-se – é importante que se note – que nada do que escrevi no último parágrafo contraria a minha convicção que o método cientifico é o único válido para o entendimento do mundo que nos rodeia. São questões diferentes, com soluções diferentes. Contudo, a existência de Deus trata-se de uma questão filosófica, não de uma questão científica.

Este “novo-ateísmo” ganha maior destaque pelo facto de substituir a argumentação ateísta por uma confrontação ao teísmo (até nisso é pouco original). Não que haja algum mal em apontar as fragilidades dos diversos sistemas de crenças ou em desmascarar a hipocrisia das religiões organizadas; o problema é quando essa se transforma na principal mensagem. É como se dedicássemos a vida a dizer mal do vizinho sem produzir absolutamente nada! Daí a um vazio de princípios é um simples passo. Se eu fosse católico, por mero exemplo, tremeria muito mais ao som do nome de Nietzsche do que de Harris. E, sejamos pragmáticos, salvas algumas excepções de óbvio corporativismo, as religiões organizadas já se contradizem o suficiente entre si para serem lavadas a sério.

Há quem defenda que este “novo-ateísmo” se distingue também pelo facto de ele próprio conseguir transmitir uma certa noção corporativista, de unidade e confiança – algo que faltava aos ateus em geral -, processo que estaria a seguir um pouco os passos dados pelas comunidades negras, das mulheres e dos gays em épocas diferentes do passado recente. Penso que é muito cedo para se fazerem esse tipo de comparações. Só a história dirá se assim é. Tenho bastantes dúvidas que o “novo-ateísmo” traga a solução que alguns ateus procuram para se sentirem menos hostilizados em sociedade. Não sou negro, não sou mulher, não sou gay e, sinceramente, nunca me senti hostilizado pelo facto de ser ateu, portanto, tenho alguma dificuldade em estabelecer esse paralelismo.

Finalmente, a questão do humanismo. Para demonstrar o vazio filosófico do “novo-ateísmo” nada melhor do que constatar que esta suposta nova corrente venera a Declaração Universal do Direitos do Homem como se de uma verdade divina se tratasse; declaração essa velha de sessenta anos e impregnada de valores cristãos, e que no seu Artigo 18º é omissa quanto ao direito a não ter religião, entre muitas outras hipocrisias.

Por tudo isto é que eu sou apenas ateu.

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