Para desagrado do meu amigo Ricardo Silvestre, vou neste artigo de opinião tentar explicar as razões pelas quais a etiqueta do “novo ateísmo” não me parece merecedora de grande credibilidade, chegando, inclusivamente, a ser constrangedor o facto de muitos ateus se terem deixado “enrolar” num termo que, na maioria dos casos, apenas serve os interesses dos críticos do ateísmo em geral.
Antes de mais, temos que nos perguntar se faz algum sentido criar uma denominação específica para este ressurgimento de mediatização do ateísmo graças às obras de autores como Dawkins, Hitchens, Harris ou Dennett. Terão estes autores algo de novo a acrescentar aos “clássicos” ateus como Teodoro de Cirene, Diderot, Hume ou Russel? Será mera especulação, é certo, mas não me espantaria que apenas o trabalho de Dennett fosse recordado daqui a 50 anos! (esta especulação refere-se apenas à questão do ateísmo, uma vez que considero a obra de Dawkins dedicada à evolução natural – The Sellfish Gene, em particular – como obra de referência futura).
Existem diversas razões para este ressurgimento nos últimos anos de uma maior exposição pública do pensamento ateísta, mas penso que a essencial terá sido o 11 de Setembro e as reacções de diversas ordens que aconteceram posteriormente que encharcaram o nosso dia a dia com motivos de sobra para nos preocuparmos com os excessos de “religiosidade” de alguns.
Haverá quem defenda que este “novo-ateísmo” traz a ciência como uma nova variável, quiçá a mais importante, para a discussão da existência ou não de Deus. Parece-me ingénua essa presunção. Basta-nos olhar para a História das religiões e facilmente nos apercebemos que Deus estará sempre para lá do alcance da ciência. Não por incompetência desta, mas antes por agilidade daqueles que definem Deus e os seus atributos. Quanto mais a ciência nos dá a conhecer, mais esquivos se tornam os domínios de Deus. É, pois, minha opinião que até ao dia em que a ciência provar a existência ou a inexistência de Deus, este jamais será do seu domínio.
Note-se – é importante que se note – que nada do que escrevi no último parágrafo contraria a minha convicção que o método cientifico é o único válido para o entendimento do mundo que nos rodeia. São questões diferentes, com soluções diferentes. Contudo, a existência de Deus trata-se de uma questão filosófica, não de uma questão científica.
Este “novo-ateísmo” ganha maior destaque pelo facto de substituir a argumentação ateísta por uma confrontação ao teísmo (até nisso é pouco original). Não que haja algum mal em apontar as fragilidades dos diversos sistemas de crenças ou em desmascarar a hipocrisia das religiões organizadas; o problema é quando essa se transforma na principal mensagem. É como se dedicássemos a vida a dizer mal do vizinho sem produzir absolutamente nada! Daí a um vazio de princípios é um simples passo. Se eu fosse católico, por mero exemplo, tremeria muito mais ao som do nome de Nietzsche do que de Harris. E, sejamos pragmáticos, salvas algumas excepções de óbvio corporativismo, as religiões organizadas já se contradizem o suficiente entre si para serem lavadas a sério.
Há quem defenda que este “novo-ateísmo” se distingue também pelo facto de ele próprio conseguir transmitir uma certa noção corporativista, de unidade e confiança – algo que faltava aos ateus em geral -, processo que estaria a seguir um pouco os passos dados pelas comunidades negras, das mulheres e dos gays em épocas diferentes do passado recente. Penso que é muito cedo para se fazerem esse tipo de comparações. Só a história dirá se assim é. Tenho bastantes dúvidas que o “novo-ateísmo” traga a solução que alguns ateus procuram para se sentirem menos hostilizados em sociedade. Não sou negro, não sou mulher, não sou gay e, sinceramente, nunca me senti hostilizado pelo facto de ser ateu, portanto, tenho alguma dificuldade em estabelecer esse paralelismo.
Finalmente, a questão do humanismo. Para demonstrar o vazio filosófico do “novo-ateísmo” nada melhor do que constatar que esta suposta nova corrente venera a Declaração Universal do Direitos do Homem como se de uma verdade divina se tratasse; declaração essa velha de sessenta anos e impregnada de valores cristãos, e que no seu Artigo 18º é omissa quanto ao direito a não ter religião, entre muitas outras hipocrisias.
Por tudo isto é que eu sou apenas ateu.
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Helder, da próxima vez que te apanhar, esgano-te!
Enfim, podia aqui escrever “perdoa-o, senhor, ele não sabe do que está a falar”… Mas nós, no Novo Ateísmo (e que desfeita essa de colocares novo ateísmo com letras pequenas) não temos “senhores”.
Também podia utilizar o termo muçulmano de “jahalia” e justificar essa tua falta de “direcção divina”… mas nós no Novo Ateísmo não acreditamos em direcções divinas.
Enfim, dou-te um abraço ateu, e já vais cheio de sorte ; )
ehehehehe
São ateus de fim-de-semana que tentam estabelecer um passo-a-passo para se tornar ateu. Já vi manuais sobre como se tornar ateísta. No que se deve acreditar e no que não se deve acreditar. Esses idiotas transformaram o ateísmo em uma religiãozinha nqualquer de bitolados extremistas.
Por isso mesmo não levanto bandeiras a favor do ateísmo.
Cada um que descubra por si próprio o quanto é ridículo ser adulto e ainda ter amigos imaginários.
Abraços
Aqui está um texto muitissimo bem escrito e de alto nivel…Mas você,Helder,a meu ver,contradiz-se num ponto essencial.Por um lado,diz que “até ao dia em que a Ciência provar a existência ou inexistência de Deus,este jamais será do seu domínio”,Por outro,logo a seguir,postula que ” contudo,a existência de Deus trata-se de uma questão filosófica,não científica”.Em que ficamos ? Deus,em sua opinião, pode vir a ser provado ou negado cientificamente ou não ?…
“Por isso mesmo não levanto bandeiras a favor do ateísmo.”
Pois, é esta uma das diferenças entre ateístas e “novos ateístas”. O primeiro é que é o verdadeiro “ateísmo de fim-de-semana”: “eu sou ateísta, como tal não vou à igreja ao domingo”.
O “novo ateísmo” é uma filosofia de vida de permanente vigília, de permanente luta pelos valores da racionalidade, secularismo, humanismo, ciência e conhecimento, e por um despertar de consciências para o fenómeno religioso.
Caro Helder, subscrevo a 100%. A radicalização do ateísmo não levará a nada, só nos encaminhará pelas vias do fundamentalismo. Não precisamos de provar nada a ninguém
Caro Helder,
Obrigado pelo teu texto. Deu-me oportunidade de voltar ao portalateu. Estou muito de acordo com as observações seguintes:
“Se eu fosse católico, por mero exemplo, tremeria muito mais ao som do nome de Nietzsche do que de Harris.”
“o método cientifico é o único válido para o entendimento do mundo que nos rodeia. São questões diferentes, com soluções diferentes. Contudo, a existência de Deus trata-se de uma questão filosófica, não de uma questão científica.”
“É, pois, minha opinião que até ao dia em que a ciência provar a existência ou a inexistência de Deus, este jamais será do seu domínio.”
Continuo a lamentar que se veja apenas irracionalidade e hipocrisia na religião. Mas é verdade que tanto Dawkins como Harris afirmam que mais perigosos que os fundamentaistas são os crentes moderados. Ando há algum tempo a ver se consigo entender esta afirmação. Fui informado por estes autores de que eu, que me considero um ‘moderado’ ,sou perigosíssimo, não sei se para a Humanidade, a Cultura ou a Civilização.
Já agora, gostaria que me dissesses o que responderias a Deus, se ele existisse, depois da tua morte, quando te encontrasses diante dele e ele te perguntasse: “Porque não acreditaste em mim?” Bertrand Russell e John Searle disseram o que responderiam. Russell já teria a esta hora tido oportunidade de dar essa resposta, se Deus existisse. Searle ainda não, uma vez que ainda não morreu. Tu, que dirias?
Não sei se me será permitido deixar aqui o link para o anúncio de uma Jornada Fé e Ciência que terá lugar na Faculdade de Filosofia de Braga no dia 18 de Outubro, subordinada ao tema ‘IO avanço da ciência e o recuo de Deus: fronteiras da racionalidade”. São convidados dois crentes, cientistas espanhóis, e dois ateus, um cientista, o conhecido Ludwig, e o não menos conhecido filósofo Desidério. Há um tempo para sessões paralelas. Qualquer pessoa poderá enviar uma proposta-resumo de cerca de 300 palavras para uma intervenção livre de 20 minutos, seguidos de 10 minutos de discussão. São aceites todas as propostas, de crentes ou de ateus, desde que tenham um mínimo de qualidade. As propostas deverão ser enviadas até 30 de Setembro para mim: alfredodinis.facfil@gmail.com.
Deixo então o link: http://companhiadosfilosofos.blogspot.com
Se esta informação não for adequada para este portal peço que a retires.
Obrigado.
Um abraço,
Alfredo Dinis
ó Alfredo, desculpe lá me meter na conversa, mas não posso resistir
Se o meu amigo ainda não entendeu o argumento de Dawkins e Harris sobre a questão dos moderados, é porque não tem estado atento: essa opinião desses dois ateus está repetida até à exaustão no que escrevem e no que dizem.
A argumentação é esta: os moderados, devido a uma posição primeira e dogmática que a “fé” não deve ser criticada, que a “crença em deus” está para além do debate racional e científico e que a religião é um elemento de pleno direito da sociedade, não permitem que haja uma crítica concertada e eficiente ao fundamentalismo.
Para o ateísmo (e o novo ateísmo, já que estamos na caixa de comentários de um artigo que fala nisso) poder empurrar o fanatismo e o obscurantismo religioso para a extinção, não pode andar a negociar os seus termos, as suas iniciativas, as suas batalhas “à volta” dos moderados. Para nós, a irracionalidade da crença é a mesma, a justificação dos actos é similar, e os resultados muitas vezes iguais.
Um exemplo, usando um pouco a argumentação de Sam Harris, quando os fundamentalistas islâmicos matam em nome de alá, qual é a argumentação que usam? Estão a fazer aquilo que o seu deus decreta. Quando Ratzinger diz que os preservativos são pecado qual a argumentação que usa? Que está a fazer aquilo que o seu deus decreta.
Claro que as duas coisas não têm nada a ver uma com a outra (apesar de o produto final poder ser o mesmo), mas a argumentação é a mesma. Se eu não posso criticar o católico por ele achar que é o seu deus que lhe disse aquilo que é para ele a “verdade divina”, como posso eu então criticar o cristão (neste caso os protestantes) ou o judeu, ou o islâmico, que teimam em fazer deste mundo um mundo à luz da sua interpretação fundamentalista porque essas são as suas “verdades divinas”?
Caro Ricardo,
Obrigado pela sua explicação que, devo dizer, me deixou em grande crise de identidade. É que não me reconheço de modo nenhum na imagem que desenhou dos moderados e não creio que seja um fundamentalista. O que serei então? Sou dos que não só aceita as críticas ao cristianismo, venham de onde vierem, mas as deseja e pensa que elas, quando são informadas, objectivas e inteligentes, só podem ser benéficas para a religião. Silvestre, critique à vontade, que eu dou-lhe toda a atenção. Tenho porém alguma dificuldade em aceitar posições como as que surgiram em alguns textos deste portal, segundo as quais a diferenças entre um crente e um ateu é que o ateu pensa e o crente não pensa; o ateu é racional e o crente é irracional; o ateu é honesto e coerente e o crente é um hipócrita; etc., etc. Teremos mesmo que ver o mundo a preto e branco?
Por conseguinte, tenho dificuldade em entender a tua afirmação:
“A argumentação é esta: os moderados, devido a uma posição primeira e dogmática que a “fé” não deve ser criticada, que a “crença em deus” está para além do debate racional e científico e que a religião é um elemento de pleno direito da sociedade, não permitem que haja uma crítica concertada e eficiente ao fundamentalismo”
Recomendo ao Ricardo que peça emprestado um livro de teologia e verá que está cheio de interrogações. Se comparar um livro de teologia de há meio século com um de hoje, verá facilmente que os cristãos não se limitam simplesmente a afirmar repetitiva e acriticamente os dogmas da sua fé. Os anos que antecederam o Concílio Vaticano II, em Roma, emmeados do século passado, foram de intensos debates entre os teólogos católicos sobre diversas questões como, por exemplo, a auto-compreensão da Igreja Católica, por exemplo, quanto à autoridade da hierarquia e do lugar dos leigos, o luigar da Igreja Católica na sociedade, a interpretação da Bíblia, a liberdade religiosa, a atitude dos cristãos para com as demais religiões, etc. As posições teológicas expressas nos documentos do Concílio não eram nem são ainda hoje consensuais e muitos católicos em geral e teólogos em particular nunca aceitaram as posições conciliares.
Hoje, no que se refere a questões éticas, os cristãos não atingiram um consenso em todas elas. Há posições divergentes em quase todas essas questões. E há um debate constante, posso assegurar-lhe. Talvez neste domínio os ateus tenham mais certezas e verdades definitivas do que os católicos.
O que diz o Harris sobre a desgraça dos moderados é, entre outras coisas, que eles aprovam os actos violentos dos fundamentalistas. Mais uma vez me sinto em crise. Eu aprovo os bombistas, sejam eles de que religião forem? Confesso que não sabia!
Já me alonguei mais do que devia.
Obrigado pela paciência.
Alfredo Dinis
Mau. O Alfredo não se alongou mais do que devia, mas fez que não entendeu alguns dos pontos que apresentei.
Bem sei que há muito debate dentro da igreja católica, e até entre denominações semelhantes. E que vocês passam o tempo todo a estudar o fenómeno religioso nesses exemplos todos que enumerou: lugar da Igreja Católica na sociedade, a interpretação da Bíblia, a liberdade religiosa, a atitude dos cristãos para com as demais religiões, etc.
Mas isso não invalida o que escrevi. Porque o “motor” da crença e da fé, esse não é sujeito a essa mesma análise critica. Ou seja, a certeza que existe um deus, que vocês têm maneiras de interpretar a sua vontade, e que é através dos seus ensinamentos que se pode alcançar a salvação. Isso, não admitem, não concordam, não permitem que seja colocado em causa.
Ou é comum o debate no Vaticano entre aqueles que acreditam que existe deus e que é possível saber o que ele quer para a sua criação, e aqueles que não acreditam? Por definição, aqueles que não acreditam não são religiosos, como tal, não fazem parte do “clube”.
Cada vez que um ateu coloca em questão esse “motor”, não falta (e até mesmo aqui no Portal isso acontece) quem grite que “criticar a minha fé (ou a da avó, ou a da tia, ou a do periquito) é ofensivo”.
O que os “moderados” causam é que fica mais difícil criticar o fundamentalismo, apesar destes apenas irem mais longe nas suas interpretações do que o seu deus quer para eles e para os outros, do que a interpretação que o “moderado” faz do que o seu deus quer para si e para os outros.
Quanto ao que o Alfredo escreveu sobre Harris, é demagogia da sua parte. Sam não diz que os moderados aprovam os actos violentos dos fundamentalistas. Come on, now!
Quanto ao Alfredo aceitar criticas, é um mérito que lhe assiste, e que me dá satisfação, pois assim o debate pode continuar. Mas qual a percentagem de pessoas como o Alfredo dentro dos crentes? 5%? 10%? Veja aqui no Portal, a quantidade de comentadores crentes que me acusam de tudo e mais alguma coisa apenas porque não concordam com os meus pontos de vista? Acha que essas pessoas estão prontas para serem criticadas?
E o que dizer dos “lideres espirituais” que estão no Vaticano ou na CEP? Estão eles também prontos para lidar com as criticas? Ou, e como é costume, qualquer critica à igreja católica tem de esperar décadas (quando não mais tempo) para finalmente serem consideradas? E a ICAR até nem é o pior exemplo quando comparado com o islão.
Olá a todos,
Antes de mais, as minhas desculpas pela demora em responder aos vossos comentários. Como já existem alguns pontos que considero merecerem a minha atenção e o meu tempo ser escasso, vou tentar responder por partes.
Ricardo Silvestre,
Dizes que “O “novo ateísmo” é uma filosofia de vida de permanente vigília, de permanente luta pelos valores da racionalidade, secularismo, humanismo, ciência e conhecimento, e por um despertar de consciências para o fenómeno religioso.” Pergunto-te, então, de que podes acusar alguém que afirme o seguinte: “Ser católico é uma filosofia de vida de permanente vigília, de permanente luta pelos valores da fé, doutrina, humanismo, Procura de Deus e conhecimento, e por um despertar de consciências para o fenómeno religioso”. Repara, apenas as convicções mudam; o empenho é o mesmo. Por outro lado, uma vez que é mais ou menos consensual que para se ser religioso não é preciso ir à missa, que para se ser cristão não é preciso ir diariamente ao beija-mão, porque é que para se ser ateu é necessário fazer disso uma filosofia de vida? Por mim, não estou nada preocupado com isso. O facto de ter um blog ateu, ter criado o Portal e fazer parte da direcção da AAP não faz de mim mais ateu do que era há 4 anos atrás. A militância implícita que referes não é necessariamente favorável a um maior esclarecimento das ideias sobre o fenómeno religioso. Como em muitas outras coisas, prefiro a qualidade da mensagem à quantidade de mensagens.
António,
Pode parecer contradição mas não é. Repare, actualmente, à luz das capacidades da ciência Deus, – em qualquer das suas versões – não é mensurável nem explicitamente, nem implicitamente. Logo, a ciência não pode apregoar ter a capacidade de confirmar a sua existência ou a sua inexistência. Daí considerar que esta questão é de base filosófica e não científica.
Contudo, no futuro as capacidades da ciência poderão ser diferentes e a própria definição de Deus poderá sofrer mutações. Então, e só então, se poderá afirmar que Deus pertence ao domínio científico.
Alfredo,
Desconheço as respostas de Russel e Searle. Contudo, penso que o mais razoável seria responder com algo do género:
“Porque deveria? Por acaso posso ser acusado por todas as coisas em que não acreditava por manifesta falta de evidência? Se, porventura, és o Criador, não me deste a inteligência e a capacidade de discernimento para eu fazer uso delas? Consegues-me apontar uma razão dentro dos limites da lógica segundo a qual eu devesse acreditar em ti? Para mim, mais importante do que eu acreditar em ti é que tu tenhas acreditado em mim. Esse foi o meu maior prazer enquanto pai das minhas filhas.”
Provavelmente não será uma resposta à altura de Russel ou Searle, mas penso ser uma resposta válida para este exercício de fantasia que me propuseste.
Um abraço a todos.
Helder…por mim não fiquei convencido com a sua explicação…mas louvo o seu esforço…;)
Viva.
Aproveitando a exposição crítica do Helder ao Novo Ateísmo, aproveito para deixar a minha opinião sobre o mesmo. Em primeiro lugar considero o termo um tiro no pé a todos os níveis, por consciente, ou inconscientemente traçar uma fronteira no ateísmo, como se os trabalhos recentes fossem uma aparição mais importante do que aquilo que realmente é, não existem grandes evoluções dos trabalhos anteriores, a não ser alguns melhores conhecimentos de podridões religiosas e uma natural evolução da ciência. Não existe nada de realmente novo, a não ser uma maior vontade de racionalização, a isso os devidos louros, mas um movimento organizado não se pode considerar novo apenas por se transformar em movimento, as bases são as mesmas, e em alguns casos existiram retrocessos.
Mesmo falando nos 4 nomes mais sonantes do tema convém relembrar que o movimento não é homogéneo, não é um corpo com 4 cabeças, basta lembrar que Sam Harris nunca se considerou ateu, muito menos um novo ateu, com razões muito mais válidas para o não ser que as razões apresentadas aqui e ali por novos ateus que o são. Lembro inclusive que Harris nem tem o termo “ateísmo” no seu livro, ou seja, a abordagem é completamente diferente, na minha perspectiva, a melhor dos 4, se bem que a abordagem mais nietzschiana de Onfray seja mais revolucionária e filosoficamente mais poderosa. Parece uma certa contaminação do estilo Americano ao ateísmo, dando-lhe rótulos e padrões para que seja mais facilmente aceite socialmente.
Os argumentos absolutistas de Hitchens são notáveis, mas apenas quando fala das religiões abraâmicas, quando tenta falar do fenómeno religioso com farinhas do mesmo saco comete erros crassos e dogmatiza a sua posição, e quando assim é, dentro de um movimento, acaba por se contaminar à organização toda. Excelente personagem para debates televisivos com os seus argumentos curtos, mas para o resto não me apraz. Dawkins é um biólogo, e é muito desolador ver a necessidade de recuar no tempo e ter a ciência a competir directamente com a religião, quando deveria estar protegida da irracionalidade com lutas externas a preocupar-se com temas importantes, neste caso, parece que o espaço de manobra encolheu e volta-se aos tempos de Darwin e Huxley, na luta pelo racionalismo dentro da ciência, infelizmente é necessário, e é muito interessante o trabalho de Dawkins, embora o campo filosófico fique para outras paragens, também não seriam coisas do seu domínio.
No geral, apenas reconheço em Harris uma abordagem radicalmente inovador, mais sociológica e mais aberta à filosofia de vida, nos outros trabalhos vejo excelentes julgamentos, mas nada que possa trazer algo para uma filosofia de vida, inclusive muitas vezes parece ser abordado um materialismo absurdista baseado na falta de explicações científicas. Parece-me que Hitchens e Dawkins olham para o cérebro Humano como se de um disco rígido se tratasse, existem factores onde abundam os pontos de interrogação, especialmente na consciência Humana, no Universo da consciência Humana, e apenas Harris me parece importado com isso, ou pelo menos não dogmatiza coisas que não estão explicadas científicamente mas que o podem ser, bastando um pouco de boa vontade e o uso da ciência com coisas importantes, e não como em muitos casos, usada para fins fúteis e inconsequentes.
Em resumo, não vejo ponta por onde pegar no Novo Ateísmo para o fazer uma filosofia de vida, antes vejo uma panóplia de importantíssimas contra-indicações para o uso de fé. Não vejo como uma pessoa se pode rotular de ateu de um ponto de vista pessoal, eu, pelo menos não o sou, apenas me defino como ateu por necessidade social, para me desvincular de rebanhos e assumir uma barreira de filtragem à irracionalidade.
De qualquer das formas não estou a menosprezar estas importantes obras e personalidades, apenas não reconheço tanta importância como algumas pessoas. Obras como “Deus e o Estado” de Bakunin, “Moral Anarquista” de Kropotkine, as filosofias de Nietzsche, e tantas outras continuam a ser vistas por mim como incrivelmente contemporâneas e muitas vezes mais avassaladoras que as recentes, às quais juntaria o “Fim do Fé” de Harris e o “Tratado de Ateologia” de Onfray nas publicações recentes.
Do ponto de vista de filosofias de vida, existem nos trabalhos de Hedonismo de Onfray por exemplo, mas para os tempos que correm tais filosofias apenas conseguem ser aplicadas com sucesso em contra-culturas, não vejo ponta de filosofia de vida no Novo Ateísmo. Aliás, não vejo como uma negação às envolvências sociais pode ser considerado uma filosofia de vida, ou seja, não considero o ateísmo uma filosofia de vida, considero-o antes um filtro e uma barreira aos lixos deitados socialmente. Tentando encontrar uma construção do género, ateísmo como base para construção de uma filosofia de vida temos o exemplo do satanismo, com ideologias e não com anti-ideologias, com materialismo e hedonismo, com filosofias niezschianas e uso de simbologias específicas. Mas de qualquer forma, é uma construção que à partida terá o problema de assumir uma pequena percentagem de uma pequena percentagem de população, ou seja, sujeitando-se ao desvio imposto pelas sociedades impregnadas de religiosidade e originando a contra-cultura. Problema maior quando mesmo pessoas com mentalidade secular olham para as coisas com a inconsciência da etnocêntria religiosa envolvente.
Claro que falar de coisas como misticismo racional adivinha-se impróprio para as lides, pelo menos as até agora evidenciadas com a excepção de Harris. Neste campo retrocedeu-se imenso… Desolador…
Cumprimentos!
Caro Bruno,
Concordo contigo no que dizes acerca d do ‘novo ateismo’. Mas deixa que te diga que o livro Harris é francamente dos piores que tenho lido. Quase só retórica da pior epécie, falaciosa, e metodologicamente falando… nem se fala. Imagina que eu publicava um texto em que afirmava, cito: “Bruno Resende afirmou que os crentes são todos uns criminosos, corruptos e deveriam ser imediatamente condenados à pena de morte”. A não ser que o Bruno pense mesmo assim, suponho que iria exigir que eu lhe mostrasse a fonte de onde tirei a citação, e fosse publicamente reposta a verdade. Ora a obra de Harris está cheia, lietralmente cheia, de imprecisões e falsidades metodológicas e de conteúdo, Já me rerei a isto com algum pormenor no último comentário que deixei a propósito do facelift do portal.
Saudações,
Alfredo Dinis
mau! Ó Helder pensei que tínhamos combinado estar em sintonia nestas coisas de comentários no Portal -risos!!
Não tens o meu número de telefone para me perguntares se concordo ou não com os teus dilates??? eheheheh.
Nada disso, caros visitantes, as a matter of fact, o Helder e eu estamos mais vezes em contradição do que em concordância: eu bem o tento converter ao associativismo religioso e ao novo ateísmo, mas ele nada (pelo menos já conseguimos fazer com que se interessasse pela AAP).
Eu não “acuso” (no sentido negativo da palavra) ninguém de querer defender a sua crença, procurar provas da existência do seu deus, estudar as gramáticas religiosas e cumprir as indicações doutrinárias que têm. Cada um faz aquilo que quiser, como humanista que sou, nunca me passaria pela cabeça proibir as pessoas de fazerem aquilo que bem quiserem (desde que não quebrem as leis).
A minha “acusação” (e que se reflecte um pouco na corrente do “novo ateísmo”) é que essas pessoas não conseguem ficar satisfeitas por fazerem essas coisas na esfera pessoal, e tem inevitavelmente de extarvazar para os outros que não procuram as mesmas recompensas. O empenho é o mesmo, verdade, mas os resultados é que são bem diferentes. Enquanto no ateísmo conseguimos um grão de atenção por parte da sociedade, as “reflexões” dos “líderes espirituais” estão escarrapachadas na imprensa diária, na “máquina” propagandista religiosa, na cultura dominante.
Um dos méritos do “novo ateísmo” é exactamente ter feito com que esta “filosofia de vida” pudesse sair de alguma “obscuridade marginal” para a arena pública do debate e do “despertar de consciências”.
(acho que fiquei com a minha tecla das “” encravada)
Caro Alfredo,
Uma vez que já respondi ao seu desafio não quer ter a gentiliza de me elucidar quais foram as respostas de Russel e Searle à mesma pergunta?
Caro Ricardo,
Não sei se reparaste, mas os teus dois últimos comentários neste artigo começam ambos com “Mau!”.
Estamos de acordo no excesso de protagonismo dado pela comunicação social aos elementos do clero, especialmente quando se manifestam sobre matérias que não lhes dizem respeito. Mas aí tem que se tirar o chapéu à capacidade que as religiões têm de mobilizar os media; quem tem que ser criticado são os media, em última análise.
Por outras palavras, ficarias aborrecido se todos os dias saísse uma referência ao Portal Ateu no DN? Vou ainda mais longe e pergunto-te directamente: achas que o proselitismo religioso deve ser combatido com proselitismo ateu? Eu acho que não, especialmente quando esse proselitismo se baseia na critica fácil às contradições e hipocrisias das religiões.
Por outro lado, ser racional, humanista, secularista e por aí fora não é condição nem indispensável nem suficiente para se ser ateu. Nem vice-versa. Ou seja, posso ser isso tudo e não ser ateu assim como posso ser ateu e não ser nada disso.
Um abraço.
Caro Helder,
Caro Helder, gostei muito da resposta que tem preparada e que apresentaria a Deus se ele existisse. De facto vai na mesma linha de Russell e Searle, os quais disseram que diriam: “Tu não nos deste suficiente evidência”. Eu sempre perguntei a mim mesmo o que seria ‘suficiente evidência’. O que lhe parece? Numa troca de mails com o grande neurocientista Cristopher Koch ele deu-me a ler um texto que estava a preparar e no qual afirmava também que Deus deveria dar à Humanidade uma prova inequívoca da sua existência. Eu perguntei-lhe: ‘Por exemplo?’, mas ele não respondeu.
Eu digo-te o que lhe disse a ele: ‘Se eu fosse Deus não me incomodaria a dar à Humanidade uma prova inequívoca da minha existência, porque não tenho qualquer chance de ser tomado a sério. Porque das duas uma: ou a minha divina manifestação era objecto de uma observação empírica e de uma explicação científica, e nesse caso não seria uma manifestação divina, mas apenas um fenómeno natural; ou a minha manifestação não seria empiricamente observável, e então não contaria como manifestação da minha existência, mas apenas como uma ilusão metafísica. Em qualquer dos casos, não teria nenhuma chance de me manifestar inequivocamente como existente’.
Gostei bastante da tua afirmação “Para mim, mais importante do que eu acreditar em ti é que tu tenhas acreditado em mim”. De facto, se Deus existisse a sério e nos tomasse a sério, teria que acreditar e confiar em nós porque teria sido ele o autor da nossa inteligência e liberdade. E nesse caso se explicaria muito do mal e da injustiça que vai por esse mundo fora: Deus, se existisse, teria acreditado em nós – talvez demsiada e insensatamente!
Já agora aproveito para exprimir a minha perplexidade pela afirmação de que as posições ateias têm muito menos relevo na comunicação social do que as posções religiosas. Acha mesmo que a referência e defesa de questões como a eutanásia, o aborto, as uniões de facto, o casamento entre homossexuais, a adopção de crianças por casais homossexuais, a experimentação com embriões humanos, á utilização de células estaminais embrionárias, a eliminação dos crucifixos das escolas, o fim dos capelães nas prisões e nos hospitais, o fim da presença das autoridades eclesiásticas nas cerimónias oficiais, etc., etc., acha mesmo que estas questões apresentadas de uma forma que contraria as posições da Igreja Católica e são defendidas pelos ateus raramente aparecem na comunicação social?
Um abraço,
Alfredo
mau!
Ricardo,
OK, já percebi!
Ficaria muito mais preocupado se dissesses “Mao” em vez de “mau”.
Alfredo,
As questões que refere (aborto, eutanásia, etc..) não são nem de índole religiosa nem de índole ateísta. São, simplesmente, questões de ética. Não aceito que sejam considerados, nem por uns, nem por outros, como “propriedade” própria. Por isso, mesmo é que me parece intolerável que altos representantes de diversas confissões religiosas se manifestem publicamente como se fossem sua propriedade, como se fossem decisões do seu domínio. Por isso mesmo é que votei “Não” no referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez e voltaria a fazê-lo uma vez que mantenho intactas as dúvidas que tinha na altura do referendo.
Mas, como já referi nos comentários a um outro artigo, quem deve ser criticada é a comunicação social por não filtrar convenientemente quem merece credibilidade ou não sobre determinada matéria. Afinal, o proselitismo é uma ferramenta chave para a sobrevivência de qualquer religião; apenas estão a cumprir o seu papel. Caberá à sociedade civil possuir a sensatez na análise das mensagens que recebe e atribuir a credibilidade merecida ao emissor (ou não) consoante os casos.
Diz-me, Alfredo, achas sinceramente que na decisão sobre a IVG, por exemplo, devem existir algumas razões religiosas? Ou sobre a eutanásia? No casamento civil entre homossexuais? Estou curioso.
Um abraço,
Helder Sanches
Caro Helder,
Obrigado pelas observações. As questões mais importantes no domínio da bioética são comuns a todos, mas as soluções que predominam na comunicação social não me parece que sejam as da Igreja Católica, seja isso da responsabilidade da comunicação social ou não. Isso parece-me que foi claro por ocasião do referendo sobre o aborto, mas é igualmente claro nas demais questões. As soluções que a Igreja Católica defende não são da sua exclusividade, como dizes, mas as que não defende são quase sempre apresentadas nesse sentido, isto é, como contrárias às da mesma Igreja. Sinceramente, não entendo muito bem por que razão a Igreja Católica não deverá ter uma posição oficial sobre questões éticas e outras, e propô-las à sociedade. Faz parte da sua identidade. No documento ‘Gaudium et spes’ do Concílio Vaticano II, a Igreja Católica afirma que pretende colaborar com as demais instituições sociais na procura de soluções para os problemas da Humanidade. A própria linguagem deste documento mudou radicalmente em relação à dos Concílios anteriores, quanto ao seu carácter propositivo e não impositivo. Acresce ainda que não creio que a Igreja Católica esteja hoje em condições de fazer pressão sobre seja quem for. O afastamento, tanto físico como mental, das pessoas em relação sobretudo às autoridades eclesiásticas parece-me ser um facto reconhecido. Falo sobretudo do caso português.
É curioso que tu, como ateu, sintas que a comunicação social dá mais espaço à religião que ao ateísmo, quando os cristãos pensam exactamente o contrário!
Para que este comentário não se alongue demasiado, a segunda parte da minha resposta vai a seguir.
Alfredo Dinis
Caro Helder,
No que se refere às posições da Igreja Católica acerca das questões que referes e de outras semelhantes, é opinião comum entre os não crentes que essas posições ‘caíram do céu’, literalmente, como decretos da divina omnipotência. Como se Deus tivesse acordado um dia mal disposto e decidisse decretar: “Preservativo, não! Ponto final!”. Tal decreto teria sido então comunicado pelo Espírito Santo à Igreja Católica cujos fiéis não teriam outra alternativa senão obedecer na fé, isto é, cegamente e sem entender nada das razões de tal decreto. Isto pode parecer-te uma inútil caricatura. Caricatura é, sem dúvida, mas não corresponderá ela à visão dos não cristãos?
Ora, os cristãos estão tão ‘obrigados’ a usar a sua razão e inteligência como os não cristãos, sejam eles crentes ou não. Mas os católicos – falo dos que conheço melhor – não discutem os problemas de forma isolada e meramente pragmática. Sempre considerei o pragmatismo uma preguiça da razão. Os católicos têm uma visão sobre o que é o ser humano e o que é o amor, e qual o significado da sexualidade nessa concepção global. Não basta dizer: ‘preservativo, sim’ ou ‘preservativo, não’. O mesmo se aplica a todas as demais questões. Há uma coerência que se quer manter, e é nesse contexto que se procuram soluções. Sabemos que há sempre uma tensão entre os princípios e a prática. Isto aplica-se tanto aos crentes como aos não crentes. As posições que apresentam soluções do tipo penso-rápido podem parecer que resolvem os problemas e que eliminam as tensões mas, de facto, podem muito bem propor soluções mais aparentes que reais, e que vão provocar novos problemas e novas tensões, mais tarde ou mais cedo. Por conseguinte, sempre pensei que os debates sobre questões éticas específicas deveriam ter lugar no contexto da discussão das concepções antropológicas que estão realmente em confronto quando se discutem questões que parecem simplesmente pontuais. Não afirmo que os não crentes não têm princípios. O que digo é que a discussão das diversas posições éticas ao nível dos contextos antropológicos que lhes subjazem raramente acontece, a meu ver. O que é pena, porque as posições da Igreja Católica aparecem aos não crentes como incompreensíveis manifestações da divina arbitrariedade, e as posições dos não crentes aparecem aos católicos como manifestações de pragmáticas arbitrariedades.
Em conclusão, as posições da Igreja Católica em questões de ética e outras, não caem do céu, são resultado da reflexão dos católicos no contexto de uma antropologia cuja racionalidade é acessível a todos, católicos ou não. Isso fica claro pelo facto de haver não católicos que na fundamentação das suas posições éticas coincidem com a Igreja Católica.
Um abraço,
Alfredo Dinis
Caro Alfredo Dinis, discordo plenamente da sua abordagem ao “Fim da Fé” de Sam Harris, aliás, gostaria que me apresentasse um exemplo dessa “(…) retórica da pior espécie, falaciosa (…)”. Li o livro duas vezes e não encontrei esses absolutismos de que fala,“Bruno Resende afirmou que os crentes são todos uns criminosos, corruptos e deveriam ser imediatamente condenados à pena de morte”, muito pelo contrário. Aliás, a condenação que faço a Hitchens é essa, a presença de absolutismos onde não os há, e de críticas a emanações culturais como se de fé se tratasse, no caso de Harris é o oposto, muito relativista e sem os erros de definir absolutismos, que na maioria das vezes estão absolutamente errados. Para além disso a abordagem de que fala situa-se no plano das convicções e não das acções, a existência de determinadas convicções potencia determinadas acções, o que não supõe o absolutismo que erroneamente aborda.
Existem alguns temas abordados por Harris que não concordo nem discordo, são opiniões racionais e plenas de intenção baseadas em coisas sólidas, a diferença de opinião que não existe quando existe uma opinião e uma amálgama de alusões mitológicas mescladas com discursos de seriedade. Não tenho grande aquiescência com Harris na sua perspectiva de superioridades e inferioridades morais, por exemplo, e este é o exemplo daquilo que considero uma temática abordada por ele de maior complexidade e sujeita a variáveis inumeráveis, mas nem neste caso vejo os absolutismos de que fala.
Cumprimentos.
Caro Silvestre,
“Quanto ao que o Alfredo escreveu sobre Harris, é demagogia da sua parte. Sam não diz que os moderados aprovam os actos violentos dos fundamentalistas. Come on, now!”
Deixo-lhe aqui uma passagem do livro de Harris ‘O Fim da Fé’:
“um dos argumentos centrais deste livro é que os crentes moderados são eles próprios portadores de um dogma terrível: eles imaginam que o caminho para a paz só será desbravado quando cada um de nós tiver aprendido a respeitar as crenças injustificadas dos outros. Espero conseguir mostrar que o próprio ideal de tolerância religiosa – com origem na ideia de que todos os seres humanos devem ser livres de acreditar naquilo que quiserem sobre Deus – é uma das principais forças que nos arrasta para o abismo” (p, 17 da edição portuguesa).
Não sei onde é que Harris descobriu que para os crentes moderados ser tolerante siognifica tolerar tudo – também os bombistas suicidas, porque não?
Estou novamente à beira de uma crise de identidade e de um terrível sentimento de culpa.
Saudações,
Alfredo Dinis
Caro Bruno,
A afirmação de que “,“Bruno Resende afirmou que os crentes são todos uns criminosos….etc.” é evidentemente uma ficção, mas Harris faz estas afirmações em grande número, raramente se incomodando em as justificar. Não basta dizer que Santo Agostinho estava de acordo com a tortura dos hereges. Talvez isto seja verdade. Mas onde é que Agostinho afirmou isto? Harris não diz, e eu fico a desconfiar que foi uma invenção sua. E isto acontece particamente em todas as páginas do livro. Não pode ser! As afirmações têm que ser fundamentadas, algo com que Harris não se preocupa. É possível que tudo o que Harris diz seja para o Bruno tão evidente que não necessita de fundamentações. Mas para mim não!
Cordiais saudações,
Alfredo Dinis
Olá a todos.
Começo por dizer que gostei muito de seguir este debate.
Atrevo-me apenas a um breve comentário a estas palavras do Helder:
«Não sou negro, não sou mulher, não sou gay e, sinceramente, nunca me senti hostilizado pelo facto de ser ateu, portanto, tenho alguma dificuldade em estabelecer esse paralelismo.»
Precisamente!
Confesso que uma das coisas que sempre me provocou maior perplexidade era ler, da escrita de alguns ateus da blogosfera, textos que apelavam a uma suposta martirização dos ateus portugueses às mãos de uma opressora e despótica sociedade cristã. Nunca vi tal coisa!
Uma boa parte das pessoas que conheço não tem qualquer crença. Ou se a tem, não a manifesta.
Em jantares, festas ou outros momentos sociais, nada é mais frequente do que o típico “catholic bashing” com os chorrilhos do costume, a dizer mal da Igreja, dos padres, e da sua presumida mentalidade “retrógrada”. Eu até diria que está na moda parecer-se “jovem” e “radical”, e nada há de mais patético de que ver cinquentões tentarem dar um ar de mentalidade jovem apenas recorrendo aos típicos chavões anti-clericais do século XIX.
Sinceramente, em Portugal, neste Portugal que eu conheço, nunca vi um ateu ser desconsiderado ou ser colocado à parte por ser ateu. Nunca notei qualquer tipo de preconceito. Pessoas com notórias posições de influência social, quer na política, quer no ensino, quer nas profissões mais bem remuneradas, não escondem o seu ateísmo. Ou se quisermos ser mais rigorosos, a moda deste século XXI é ser agnóstico.
Por isso, louvo as palavras do Helder, que me mostram que a minha impressão de há uma excessiva vitimização ateísta está, pelos vistos, relativamente bem fundada.
Abraço a todos!
Bernardo