Um Papa laboral

No fim de semana em que Jerónimo de Sousa se queixou do mesmo na sua homilia na Festa do Avante, o nosso estimado Papa Ratzinger veio falar da “praga do desemprego e da precariedade laboral entre os jovens“.

Segundo o semanário Sol, o sumo pontífice apontou esses factores como destabilizadores dos “projectos de vida dos jovens, levando-os à emigração e ao abandono da terra onde nasceram”.

A melhor maneira de se atrair a atenção de um “eleitorado” é concentrar-se no que os preocupa. É certo que a presente geração de jovens não irá poder ambicionar muito na vida, com a magreza dos salários e a instabilidade dos empregos. Mas entre uma crítica (a qual não deixo de concordar) à sociedade de consumo, aparece, sem surpresa, a puxar a brasa à sua sardinha.

Apenas acho estranho não ter apelado a uma maior adesão de jovens à vida eclesiástica, actividade profissional estável, que envolve não muito esforço e/ou trabalho e onde a taxa de desemprego é baixa. Pelo menos não se vêem pelos centros de emprego…

«O pão material não basta, não é suficiente para viver de maneira plena, é necessário outro alimento, para nutrir o crescimento pessoal, da família e da sociedade (…) este alimento é a fé «sincera e profunda»

Não sei até que ponto a fé alimenta, mas creio que só há registo de um caso desses.

«Bento XVI pediu ainda aos jovens para defenderem os valores da família tradicional, lamentando que esta tenha deixado de ser protegida e acarinhada pela sociedade

Vamos colocar as coisas da seguinte maneira. O que é a “família tradicional”? O homem manda e trabalha, a mulher nem sempre, estando encarregue das tarefas domésticas e a cuidar dos filhos? Acha que a juventude, nomeadamente as mulheres, defenderão isso? E mesmo os que enveredam por esse caminho não verão outras formas de família como legítimas e socialmente aceitáveis?

«É uma mentalidade diferente a que hoje domina. Admitem-se outras formas de convivência e às vezes utiliza-se o termo família para designar uniões que na realidade não são famílias»

As indirectas do costume. Tudo o que não coincide com o formato da sua “família” não é considerado uma “família”. Desde os que “viviam em pecado” no pré-25 de Abril às uniões onde os cônjuges não estão unidos pelo sagrado matrimónio, passando pelas uniões onde ambos são do mesmo sexo.

Mas ao menos não falou dos habituais culpados pela degradação da “família” (e/ou baixa natalidade) como o divórcio, o aborto e as “formas de convivência”. Falou de temas realmente importantes para a sociedade nos dias de hoje e que têm dado problemas aos jovens, o desemprego e a precaridade laboral.

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