Nogueiras e nozes

Por Ricardo Silvestre • 7 Set, 2008 • Categoria: Opinião

Estas foram algumas palavras deixadas por Maria José Nogueira Pinto (sim, a mesma do Partido Popular) durante uma recente visita ao Congresso Missionário Nacional.

“O paradigma de sucesso “impôs-se ao paradigma da felicidade”. O dinheiro, o êxito profissional, ser conhecido, ser jovem, ser saudável são “paradigmas que fizeram com que os valores deixassem de importar e se tornassem numa barreira”. Nos países desenvolvidos acresce ainda o mito da ciência e da tecnologia, onde as pessoas afastaram a ideia de sofrimento, onde não se morre. “A ideia de morte é cada vez mais afastada”. O sofrimento deixou de ser visto como “um factor de crescimento”, aponta Nogueira Pinto. “O relativismo moral sobrepôs-se à hierarquia de valores”.

A ex deputada indicou factores relevantes para a crise de valores – “uma paganização”, referiu. Vive-se numa sociedade com novas ditaduras, “subtis, mas existem”. A cultura dominante é uma ditadura. Domina um discurso bonito, “espalham-se interpretações manipuladas e no dia-a-dia, as pessoas não mastigam o que as rodeia”. As primeiras interpretações geram a falsidade dos factos.

“Percebemos uma sociedade inquieta, desorientada, aumenta a violência familiar, a violência em velhos e crianças, os indicadores de álcool aumentam, assim como aumentam os pedidos de ajuda para apoio psicológico”, mostram que “não vivemos numa sociedade feliz”.”

Seria de rir se não transudasse a hipocrisia e vacuidade.

A Nogueira Pinto… a falar que o “dinheiro, o êxito profissional” fizeram com que os “valores” deixassem de importar e que sejam uma barreira? A Maria José Nogueira Pinto? A dizer estas coisas?

São raras as vezes que a expressão “faz aquilo que digo, não faças aquilo que faço” se aplica com tanta ironia como neste caso. Ou então, a “Zézé” é um “modelo de equilíbrio”: enquanto vive uma vida de luxo, consegue manter a sua “humildade cristã”. Patético.

Quanto a novas “ditaduras culturais”, onde “domina um discurso bonito”, não me faça rir, senhora ex-deputada. Estamos a falar de uma mulher que enquanto “figura pública politica” era uma demagoga, oportunista e intriguista (basta ver o que ela fez dentro do seu próprio partido), e agora aproveita para passar mensagens moralistas e de preocupação das “massas” que “não mastigam o que as rodeia”. Ou então é a “paganização” que está a fazer cair os dentes das pessoas.

E quanto ao “quadro negro” que a senhora pinta sobre a sociedade portuguesa… não vivemos nós numa sociedade maioritariamente cristã? Não é uma das fontes de aconselhamento e de consolo a igreja católica? Não defende o partido a que a senhora é filiada uma “democracia-cristã”? Não é você mesmo que diz que “não se pode separar a condição de cidadão e cristão”? Ora então explica lá melhor quais é que são então as razões de tanta infelicidade?

Ficamos à espera.

Antes que alguém possa escrever uma linha que seja sobre questões políticas, fica aqui a declaração que sou uma pessoa com convicções de uma “direita liberal” (se é que isso possa existir em Portugal).

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12 Respostas »

  1. Alguém quer ser a Sarah Palin portuguesa…

  2. Enquanto tipos como eu continuarem a reproduzir-se e a educar a prole tal como eu faço…estamos mal…

    E se a minha e outras proles encontrarem individuos como o caro João C. a leccionar bioquímica… estamos francamente e seguramente pior!…

    Mas tudo isto que está mal, não é afinal fruto da nossa querida educação cristâ?

  3. Abrasivus, não se monespreze.

    Mas concordo com a segunda frase.

  4. Como é que sabe que a senhora tem uma “vida de luxo”?
    De qualquer modo, visto que não percebeu ou não quis perceber, o que se critica são os meios que os indivíduos utilizam para atingir o “dinheiro, o êxito profissional”. Os meios podem ser correctos ou incorrectos, podendo prejudicar outras pessoas. Ter sucesso profissional é bom, e não implica que a pessoa deixe de ser humilde.

    “demagoga, oportunista e intriguista”
    Porque é que insulta as pessoas sem explicar? M. J. Nogueira Pinto sempre foi uma pessoa de acção, que trabalhou na Santa Casa da Misericórdia, na Câmara Municipal de Lisboa e sempre apresentou propostas. O que é que ela fez no seu ex-partido?

    Sabe perfeitamente que a sociedade já não é tão cristã como era. Até já se criou uma associação ateísta. E também sabe que uma coisa é o que as pessoas dizem, outra o que pensam, e outra o que fazem. Dizer que se é católico não chega. É preciso actuar e reflectir os seus actos.
    Assim, e tendo em conta tudo o que se vê nos jornais, compreende-se a preocupação de Nogueira Pinto.
    Contudo, na minha opinião o cenário não é assim tão negro, e eu acredito que vamos evoluir para melhor, cedo ou tarde.

    É lamentável que neste portal personalidades nacionais sejam achincalhadas apenas por serem católicas.

  5. Caro Ricardo Sá, a existência de catolicismo nesta personagem é o problema fulcral da estrutura demagógica e autoritarista do seu discurso decadente e estúpido. O discurso é feito em público, logo, tem de ser explícita no que diz, e não o é, usa falácias circulares com nomenclaturas católicas, ou seja, alusões sociais não aceites por todos os indivíduos, a exemplo:

    “os valores deixassem de importar e se tornassem numa barreira”.

    Esta estrutura de diálogo é oca, nula, fútil, por não definir o que é um “valor”, e por automaticamente querer impor definições católicas para as estruturas de diálogo que utiliza, e a definição de termos abstractos filosoficamente é relativa consoante o indivíduo e a envolvência social, a definição varia de acordo com as convicções de cada um, supondo claro a liberdade de ter convicções, a estrutura de diálogo político católico assume a inexistência dessas convicções, ou a existir a liberdade pessoal é vista como marginal aquilo que tentam definir como legislações invioláveis, a atitude discriminatória é inequívoca portanto.

    A estrutura de totalitarismo pelo medo também é vista no discurso:

    “A ideia de morte é cada vez mais afastada. O sofrimento deixou de ser visto como um factor de crescimento.”

    Ora a perspectiva é a seguinte, inexistindo a fobia da morte e o sofrimento Humano desnecessário, a religião vai morrendo. Averiguando a construção social católica quase perfeita da Casa dos Mortos de Teresa de Calcutá se deduz a estrutura social necessária a um saudável parasitismo católico, é necessário existir pobreza para criar apoios de caridade sob a égide do populismo barato e das migalhas atiradas para o miserabilismo Humano, enquanto os dinheiros aumentam nos cofres, muitas personagens a abarrotar notas querem uns 15 minutos de fama ao lado de figuras religiosas populistas. Segue-se a doença, e a necessidade de que ela não se erradique, que fique e perdure, no maior número de vítimas, na maior pobreza possível, nas televisões fica bem a dádiva de migalhas e de um colchão a pessoas transformadas em dejectos, choros e gritos de dor, e a solidariedade católica coloca-se em terreno, ajudando as vítimas com igrejas e bíblias, a cura de todos os males existentes e a obrigação de tentar a sobrevivência máxima das vítimas. Sem pobreza, sem morte desnecessária, sem sofrimento, a caridade católica morria, e o império das igrejas começaria a esfumar-se, note-se a luta brutal da Igreja Romana contra as prevenções da SIDA, contra a cura de doenças através de células estaminais, contra as tentativas de distribuição menos desigual dos bens. Com o sofrimento, a morte, as doenças, a Igreja Romana consegue fazer, por exemplo, cerca de 20 quilos de ouro por ano em Fátima, em objectos variados, muitos deles heranças familiares que para uma pessoa mais lúcida teria um valor sentimental exacerbado, valor a guardar e não a dar para impérios de riquezas e de gastos em dejectos alucinantes.

    Mais ridícula é a seguinte alusão:

    “aumenta a violência familiar”

    Com a dificuldade de divórcio e as lavagens cerebrais católicas da união impossível de quebrar, é fácil concluir a fonte dos males, a própria ideologia que partilha. A secularização da sociedade não faz aumentar o número de violências familiares, faz aumentar a coragem e as resoluções, que se traduzem numa maior participação dessas violências às autoridades. Enquanto subsistirem ideologias que tentam forçar pessoas a fazer o que não querem a violência será “normal”, aliás, o próprio líder da colónia vaticanista de nome Fátima afirmou que um soco de vez em quando não é razão para a desintegração dessa harmonia familiar. As regras católicas podem muito bem ser aproveitadas para quem as quiser, agora atirar com os problemas causados por essas regras para bodes expiatórios é que não. É demagogia barata e reles.

    Por fim, algo estúpido e ao mesmo tempo hilariante, o termo “paganização”. Ora o que tem que ver por exemplo o Antigo Egipto com a cultura Asteca? Nunca sequer interagiram. O paganismo existe na cabeça dos cristãos, e provavelmente em alguns não cristãos por más influências. E isto é uma dedução do discurso, a personagem não define o seu vocabulário dialéctico. Mais ainda, paganização não existe, para além de paganismo não existir, pois são estruturas filosóficas, culturais, espirituais e por vezes teológicas que não definem “os outros” por uma etnocêntrica, não existem infiéis, hereges, ou seja, as ideologias que perfilham não colidem com as restantes, são ideias defendidas por indivíduo em relação a si mesmo, ao contrário do cristianismo, ideologias que tentam englobar o mundo inteiro à força, e que não possuem qualquer sentido, nascidas do deserto e da barbárie. Pode-se falar em animismos por exemplo, deificações da Natureza, mas a Natureza existe, as deificações podem ser diferentes mas possuem uma mesma base, logo não colidem, até mesmo porque as ideologias são mais afirmativas, sobre o que um indivíduo pode fazer, e não como no cristianismo, o que a Humanidade não pode fazer, e consequências daí resultantes consoante o poder eclesiástico.

    Finalizando, este discurso é sectário, demagógico, iletrado e autoritarista, e eu, pelo menos, tenho grande aversão aos quatro adjectivos.

    Cumprimentos.

  6. Bravo Bruno (o do Portal Ateu).

    Só esse comentário era um artigo de opinião ; )

  7. Bruno: blah, blah, blah… Fala, fala, fala mas n diz nada.

    Autoritarismo? Os senhores passam a vida a dizer mal do islão porque há valores que sãi universais (concordo). Depois um católico diz o mesmo e aqui del-rei que é autoritária.

    Dificuldade do divórcio? Ñ há contrato mais fácil de extinguir do que o casamento. Agora, esta lei vetada pelo PR era uma aberração, que fazia com que alguém q desrespeitasse as obrigações do casamento (espancando a mulher por exemplo) possam a seguir acabar com o casamento e ainda não dar nada a agredida.

    O Bruno mais uma vez esconde a sua ausência de ideias com palavras ocas…

  8. Muito bem Bruno, para além de gostar da forma como escreves (clara, culta e sem falta de respeito), mostras que nós também nos podemos ofender tanto ou mais com as hipocrisias religiosas que a maioria dos crentes teima em não ver, como eles se sentem ofendidos pela nossa forma de pensar objectiva e realista (ou como eles dizem “falta de fé”).

  9. Assim sim Bruno. Isso já seria um artigo apresentável e justificado, que manifesta a sua opinião. O original só pretendia denegrir a imagem com insultos injustificados, claramente o ódiozinho aos católicos do Ricardo Silvestre.

    Não posso contudo ignorar o exagero dos adjectivos utilizados pelo Bruno, prevenindo-o que quando exagera excessivamente acaba por sair da realidade, e os adjectivos em excesso criam um discurso vazio.

    Quanto ao facto de a Igreja querer que o sofrimento, as doenças e coisas afins se mantenham para obterem assim dinheiro, demonstraria que os católicos são todos uns calculistas insensíveis, o que não é verdade.

  10. Vivemos numa sociedade democrática,embora tenhamos todos muito ainda que aprender sobre convivência cívica ,mas não me parece que se possa falar em “ditaduras culturais”.Cada um de nós tem o livre arbítrio de optar pela filiação cultural a que desejar aderir.Não simpartizo,pessoal e politicamente com Maria José de Nogueira Pinto e afigura-se-me inaceitável querer acantonar o Cristianismo na visão ideológica da “Democracia Cristã”.Os Essénios,em que alguns autores enquadram ideologicamente a figura de Cristo ,não tinham propriedade privada e o sentido de comunhão material e espiritual era pleno.Por isso,também no Cristianismo,não há posicionamento político monolítico e eu não me revejo numa ideologia política de direita…

  11. Obrigado Ricardo Silvestre, ia tentar ser breve mas saiu uma bula.

    Cumprimentos.

  12. Caro Rodrigues, obrigado pelo seu comentário. Parece-me imperioso denunciar as mentiras e as tentivas de criação de bodes expiatórios advindos da demência cristã.

    Cumprimentos.

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