Babylon A.D.
Por Ricardo Silvestre • 2 Set, 2008 • Categoria: OpiniãoHoje deixo aqui a minha opinião sobre um filme recente que tive a (feliz) ideia de ir ver.
Este é um filme declaradamente anti-religioso. E não comecem já os “suspeitos do costume” a protestar. O filme está feito de maneira a que nenhuma religião contemporânea seja “implicada” na mensagem do filme.
Sem estragar o filme a quem ainda não foi ver, a história passa-se num futuro próximo, onde o caos social impera em algumas das sociedades menos afortunadas, enquanto em outros lugares a ordem e progresso assumem contornos fascistas e doutrinários.
O nosso “herói” (e aqui dentro de muitas aspas), é um mercenário a soldo que faz um pouco de tudo, desde que lhe permita sobreviver numa Europa Central devastada pela guerra e pela anarquia.
O motif do filme é o transporte por parte do “herói” (Vin Diesel, num papel algo complicado) de uma jovem que detêm um “poder” que se vai mostrando progressivamente durante a viagem da Europa para os Estados Unidos, onde essa jovem é esperada (em NY City para ser mais preciso).
Não posso adiantar mais nada, sobre risco de começar a contar qual a razão de me ter agradado o filme. Mas deixo aqui a minha satisfação por Mathieu Kassovitz ter levado à tela com fidelidade a ideia de Maurice G. Dantec, muito bem adaptada para a grande tela por Eric Besnard. A influencia perniciosa da religião como “líder espiritual” e como “salvação da sociedade” esta demonstrada neste filme de uma forma incontornável e insuperável. Como espectadores, não podemos deixar de ficar incomodados com o cenário futurista que nos é apresentado, e como ateu, não podemos deixar de ficar horrorizados com a (real) possibilidade de ser este um dos caminhos que a sociedade pode seguir.
All and all, dinheiro bem gasto para um filme “série B” com muita acção e muita fantasia (o que começa a ser raro).


A um dado momento do filme é explicitado que “o Homem foi feito à imagem de Deus” e por isso, “o que o Homem cria é a Vontade de Deus”. Não podia estar mais de acordo. A tecnologia que o ser humano desenvolve é um dom de Deus, é o que nos faz criados co-criadores. A questão principal do filme é mais “ética na tecnologia” do que anti-religiosa. Porém, a nuances religiosas são de ídole Cristã, logo, o filme tem mais a ver com o Cristianismo do que com qualquer outra religião. Dentro da questão ética, o que o filme vem chamar a atenção é “o que nos tornamos com a tecnologia que desenvolvemos” em vez de “o que fazemos com a tecnologia que desenvolvemos”. Quando colocamos a tónica no “fazer” e não do “ser”, o resultado é ultrapassar os limites da ética e o resultado é a perda da identidade humana, bem como, a perda da relação do ser humano com Deus. A religião neste filme é apenas uma máscara às verdadeiras intenções que são individualistas e de poder, o que nada têm a ver com o Cristianismo, mas com o secularismo. Não é esse o caminho que o Cristianismo está a levar, mas sim que seria levado se fosse profundamente influenciado pelo secularismo. A resposta não pode, obviamente, ser combater o secularismo, mas de acolhimento dessa realidade, compreensão, e transformá-la a partir do seu interior.